4 BAZI ÖDEME SİSTEMLERİNE GENEL BİR BAKIŞ :
4.8 CHAPS – İngiltere
3.1.1 – Renato Kehl e o Boletim de Eugenia
Renato Kehl, editor e proprietário do Boletim de Eugenia é um ator muito presente nos textos que se referem à eugenia e é citado em grande parte destes textos como um incentivador e empreendedor da propaganda em prol da eugenia, assim como uma propaganda chave nas tentativas de institucionalização da eugenia no Brasil. Conforme discussão no capítulo 2, Renato Kehl teve participação ativa na criação da Sociedade Eugênica de São Paulo, participou das atividades da Liga Brasileira de Higiene Mental e foi secretário-geral do I Congresso Brasileiro de Eugenia. Além da edição do Boletim de Eugenia, fundou a Comissão Central Brasileira de Eugenia além, de ter escrito livros, publicado artigos e ter sido membro de instituições eugênicas internacionais.
Renato Ferraz Kehl nasceu em Limeira (São Paulo) em 1889; formou-se aos vinte anos na Escola de Farmácia em São Paulo, doutorando-se médico, em 1915, pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Publicou "Blastomicose" e, em colaboração com o Dr. Eduardo Monteiro, publicou "Dicionário Popular de Medicina de Urgência". Em 1917, proferiu a primeira conferência sobre eugenia na Associação Cristã de Moços. Participou da Fundação da Sociedade Eugênica de São Paulo em 1918. Publicou, em 1919, os "Annaes de Eugenia" reunindo os discursos, conferências e trabalhos realizados na Sociedade Eugênica de São Paulo. Em 1923, publicou "Eugenia e medicina social" e "A cura da fealdade". Em 1924, publicou "Melhoremos e prolonguemos a vida – a valorização eugênica do homem" e "Como escolher um bom marido – conselhos às moças". Em 1925, publicou "Como escolher uma boa esposa – amor experimental" e "A Fada Hygia" – 1º livro de higiene para uso das escolas primárias". Em 1926, publicou "Bíblia da saúde – higiene para todos" e, em 1927, "Formulário da beleza". Em 1929, além de editar o Boletim de Eugenia, publicou "Lições de Eugenia". Em 1933, publicou "Aparas eugênicas: sexo e civilização". Já em 1942, publicou “Catecismo para adultos (ciência e moral eugênicas)”. Exerceu o cargo de Inspetor Sanitário Rural do Departamento Nacional de Saúde Pública onde organizou um serviço de educação sanitária (ligado a Inspetoria da lepra e das doenças venéreas) e criou também um Museu de higiene com a exposição de uma campanha educativa e
sanitária a ser instalada no país com exibição de objetos e fotos mostrando habitações típicas das áreas rurais com insetos transmissores de doenças. Foi funcionário da Bayer entre 1923 e 1944 como farmacêutico responsável e, depois, como diretor-médico, elaborando propagandas de medicamentos e dirigindo publicações de circulação entre médicos.
3.1.2 – Formato e temas
Publicado entre 1929 e 1933, o Boletim de Eugenia circulou mensalmente nos três primeiros anos e passou a ter circulação trimestral em 1932. Tornou-se um suplemento da revista médica intitulada "Medicamenta" na edição Junho/Julho de 1929 (nº 6-7) por convite de Theophilo de Almeida (amigo de faculdade de Renato Kehl e diretor da publicação médica). A tiragem do Boletim de Eugenia começou com 1000 exemplares distribuídos gratuitamente mediante solicitação enviada para a caixa postal anunciada no periódico em nome de Renato Kehl; ao se tornar suplemento da Medicamenta, sua tiragem aumentou porque o periódico também chegaria aos leitores da Medicamenta que circulava por todo o Brasil. Para Kehl, isto representou a dilatação dos horizontes da propaganda em prol da eugenia acreditando que aumentariam as contribuições sobre o assunto em função da clientela informada e seleta da Medicamenta. A notícia foi veiculada através de um editorial de Renato Kehl:
“Aceitando o oferecimento amável e generoso de Theophilo de Almeida, colega ilustre e dos mais distintos com o qual tenho a honra e o prazer de manter as melhores relações de amizade desde os tempos acadêmicos, não hesitei em incorporar o meu modesto “Boletim” como suplemento da “Medicamenta”, uma das mais acatadas e apreciadas revistas médicas brasileiras.
Dilatam-se, assim, os horizontes visados pela nossa propaganda em prol da ciência de Galton porque além da tiragem independente e habitual de mil exemplares, o “Boletim” incorporado à “Medicamenta” irá alcançar todos
os leitores deste órgão de publicidade que se espalham de norte ao sul do país.
O “Boletim de Eugenia” continuará de propriedade e sob a responsabilidade do seu fundador, o qual agradece o nobre gesto de Théo de Almeida, antigo prosélito e agora um dos beneméritos da cruzada eugênica no Brasil”127
Em relação a formatação do periódico, suas edições iniciais (antes de se tornar suplemento), continham 4 páginas; após tornar-se um suplemento, passou a conter 8 páginas, duplicando seu espaço. Todos os espaços do periódico eram ocupados com editoriais, artigos, notas, traduções de textos estrangeiros e reprodução de reportagens publicadas em outros veículos de comunicação escrita. Em relação a natureza do que era publicado no Boletim de Eugenia, estabeleci algumas categorias na tentativa de elaborar um mapeamento do periódico. Ressalto que é um recorte entre tantos possíveis e, quiçá, o mais adequado às questões que eu pretendo discutir.
Para melhor compreensão destas categorias, além de citá-las, procurarei delimitar do que se tratavam. Havia artigos que discutiam temas como genética (estudos de caso, apresentação de discussões teóricas e defesa de sua importância para a compreensão dos mecanismos de hereditariedade), eugenia (apresentação dos propósitos, referências ao fundador da ciência, estudos de caso que corroborassem a importância de ações eugênicas, referências a decisões tomadas em outros países com base na eugenia e apresentação de suas principais características diferenciando-a de outras práticas e teorias que não atendiam aos propósitos definidos como eugênicos), eugenismo (costumeiramente usado por Renato Kehl e outros eugenistas para definir as práticas que promoviam a melhoria das condições de vida da população sem que com isso promovessem o aparecimento de caracteres a serem transmitidos de uma geração para outra), eventos internacionais (congressos, cursos, conferências e palestras) eram registrados sempre com antecedência e com a descrição da data, local, participantes e em algumas situações, resumos dos trabalhos a serem apresentados. Concursos realizados no exterior mereciam registro assim como seus ganhadores; no Brasil, havia
127 Kehl, Renato. “Boletim de Eugenia e “Medicamenta” In Boletim de Eugenia. Volume 1, nº 6-7,
uma descrição completa das regras, comissão julgadora, critérios analisados e destaque para os vencedores.
Outro assunto muito presente nas páginas do Boletim de Eugenia, era a discussão sobre a necessidade da criação de uma instituição eugênica no Brasil, semelhante às existentes no exterior (em especial os Institutos de Eugenia) com referências constantes ao Instituto de Eugenia de Berlim e ao seu presidente Dr. Muckermann. O papel deste instituto para a nacionalidade alemã era descrito por Renato Kehl como imprescindível por seu empenho e dedicação à nacionalidade alemã; algumas ações realizadas pelo instituto alemão com o objetivo de intervir sobre os fatores disgênicos, como por exemplo, esterilização dos incapazes e controle por meio do exame pré-nupcial, eram consideradas adequadas também para a realidade brasileira.
Como assuntos afins, notas e artigos sobre legislações identificadas como eugênicas ou em prol dos propósitos eugênicos eram publicados; procurava-se, em alguns destes artigos ou notas, a descrição das implicações da legislação para propósitos de melhoria da população e de sua prole. Outros artigos lembram a importância da existência de uma legislação eugênica que obrigasse a execução de procedimentos considerados fundamentais para o cumprimento das metas de aperfeiçoamento da população brasileira. Uma das reivindicações que mais aparece era a do estabelecimento de uma regulamentação do exame pré-nupcial. Alguns artigos descreviam exemplos de países que possuíam tal regulamentação e mostravam sua contribuição para o controle de casamentos inadequados; outros artigos descreviam ainda as vantagens da existência desta regulamentação tanto para o controle, quanto para o auxílio à orientação de jovens casais que pretendiam casar-se, mas não apresentavam a consciência necessária da importância de um casamento eugênico.
Os artigos em língua estrangeira (inglês, francês e alemão) eram, segundo o editor do periódico, uma indicação de que o Boletim de Eugenia avançava por fronteiras que demandavam a publicação de alguns artigos em língua estrangeira (não há nenhum número do Boletim de Eugenia inteiramente publicado em língua estrangeira); além de artigos que descreviam o histórico do movimento eugênico no Brasil, propósitos e realizações desenvolvidas, alguns artigos eram publicados na íntegra e no idioma original de publicação, sendo grande parte deles em inglês.
As obras enviadas ao editor do Boletim de Eugenia (tanto as obras nacionais quanto as estrangeiras) originavam-se de países da América Latina, da Europa e da América do Norte. Algumas obras eram citadas com o registro do título e do autor; outras publicações eram apresentadas com os dados referidos anteriormente e com um pequeno resumo. Algumas publicações foram apresentadas por meio de uma resenha. Estas categorias foram definidas por mim com o intuito de mostrar a diversidade de assuntos discutidos no Boletim de Eugenia de uma forma mais ampla para posteriormente aprofundar-me em alguns conteúdos que, em meu entendimento, são importantes para caracterizar o veículo que escolhi como fonte principal de minha análise. Embora intitulado Boletim de Eugenia e trazendo de forma clara o principal conteúdo a ser veiculado pelo periódico, destaco o crescente número de artigos que traziam, como destaque, assuntos referentes à genética e seus propósitos em prol da eugenia assim como um grande número de artigos que enfatizava a discussão sobre as práticas definidas como próprias do eugenismo128.
Eugenia e eugenismo foram os conceitos discutidos em grande parte dos artigos publicados no Boletim de Eugenia. A tônica destes artigos era definir conceitos, esclarecer propósitos, ilustrar possíveis ações, variando de acordo com o objetivo: eugênico, com medidas que negavam a transmissão dos caracteres adquiridos. No eugenismo, a promoção de atividades preventivas prevalecia. É preciso destacar, contudo, que o número de artigos que tratavam da genética cresceram ano a ano, mostrando que o assunto era considerado cada vez mais importante. É claro que um boletim intitulado eugênico deveria privilegiar este tema; contudo, destaco o crescente número de artigos que trazem assuntos sobre genética e o grande número de artigos cujas práticas de eugenismo sobressaem.
Ostextos que discutem a eugenia destacam-se numericamente como já era esperado em relação a um veículo que se propunha a propagar estes princípios; apesar disto, artigos que defendiam os propósitos e objetivos das práticas de eugenismo também aparecem
128 O eugenismo era usado em grande parte dos artigos como definição de qualquer ação que
proporcionasse melhoria das condições de vida das pessoas, mas que não necessariamente interfeririam nas características a serem transmitidas para gerações futuras pelo mecanismo da hereditariedade. Também era possível observar que o termo era usado por outros autores como práticas eugênicas.
(mesmo que em quantidade inferior) mostrando uma possibilidade de diálogo ou discussão sobre as práticas elaboradas em prol da promoção da saúde e do desenvolvimento progressivo das condições físicas e mentais dos indivíduos. Não se pode deixar de registrar que poucos artigos tratavam da genética, mas se considerarmos que a ciência mendeliana era uma novidade dominada por poucos estudiosos, o fato de artigos sobre esta ciência estarem presentes no Boletim indica que a discussão sobre eugenia e eugenismo ganhava subsídios com as teorias sobre hereditariedade e variabilidade trazidas pela genética. Um gráfico129 ilustra, ano a ano, a publicação dos números de artigos identificados e classificados por mim em categorias que considerei dominantes entre as outras já apresentadas para referir-me ao conteúdo do Boletim de Eugenia: 4 3 5 9 4 4 2 1 2 5 38 27 30 13 19 11 0 5 10 15 20 25 30 35 40 1929 1930 1931 1932
Eugenia Genética Eugenia e Eugenismo Eugenismo
Este debate é o mesmo que já foi referido por Nancy Stepan anteriormente neste trabalho e que mostra que o movimento eugênico no Brasil não apresentava unanimidade quando o assunto era eugenia e práticas eugênicas. Destaco, contudo, que em 1929, ano do Congresso Brasileiro de Eugenia, e em 1930 os artigos em que há a defesa ou apresentação de propósitos da eugenia e do eugenismo sugere um diálogo entre grupos com opiniões diferentes sobre os caminhos que as práticas eugênicas
129 Os dados referentes a publicação do Boletim de Eugenia no ano de 1932 (ano em que o Boletim
tornou-se trimestral) referem-se apenas ao ano IV, número 39 (Julho-setembro) e número 40 (Outubro- Dezembro). Não foi possível achar os volumes referentes ao ano de 1933.
deveriam tomar. Os artigos sobre genética, embora em proporção menor, representam, por outro lado, uma veiculação mais constante, no Boletim, da ciência de Mendel considerando que poucos estudiosos no Brasil dedicavam-se e dominavam este assunto. Nancy Stepan afirma que no Brasil a eugenia foi uma ciência que sempre apresentou confusão com o sanitarismo, ou seja, os termos eram usados, em muitas situações, como sinônimos. Por outro lado, o que podemos perceber ao analisar o gráfico apresentado acima é que os artigos publicados no Boletim de Eugenia consistiram em uma tentativa de diferenciar estes conceitos: a eugenia, sem conotações sanitaristas, era o assunto principal de grande parte dos artigos publicados no periódico. Por sua vez, os artigos que tratavam da “eugenia e eugenismo” procuravam exatamente distinguir os propósitos eugênicos do sanitarismo. Retomarei este ponto de discussão no capítulo 4, embora com uma análise mais qualitativa, quando estiver apresentando e discutindo o conteúdo dos artigos de Renato Kehl e Octávio Domingues.
Em relação aos colaboradores do periódico é importante explicar que alguns artigos eram publicados sem autoria, outros apresentavam apenas iniciais do autor, e os que possuíam identificação, costumavam vir não apenas com o nome, mas a identificação seja da formação ou de que instituição pertencia o autor. No anexo 1 é possível ver número a número, os artigos e seus autores (quando registrados). Outros artigos eram transcrições de publicações realizadas em outros veículos de comunicação (jornais, por exemplo) ou traduções de artigos publicados em revistas internacionais ou escritos especialmente para o Boletim de Eugenia.
Entre os colaboradores do Boletim de Eugenia, Renato Kehl apresentou o maior número de contribuições (46 artigos), discorrendo sobre assuntos relacionados aos propósitos da eugenia, conclamando a sociedade e formadores de opinião a propagarem a eugenia e defendendo as práticas eugênicas em detrimento de outras práticas, que embora visassem a melhoria das condições de vida, não eram capazes de agir sobre os caracteres transmissíveis de geração para geração. Octávio Domingues publicou 13 artigos em que descrevia a genética e procurava demonstrar o quanto era importante compreender a teoria de Mendel para planejar e empreender ações que, segundo o autor, promoveriam, efetivamente, a melhoria eugênica preconizada e desejada. Em alguns
artigos observa-se também críticas ao pouco esforço da sociedade e do Estado para que ações eugênicas de fato fossem realizadas.
João Ribeiro escreveu 3 artigos em que promovia discussões sobre a etimologia da palavra “eugenia”. Sylvia Serafim foi uma das poucas mulheres que contribuiu com artigos e/ou notas para o Boletim de Eugenia (2 artigos). Alguns destaques devem ser feitos em função dos autores que publicaram ou foram referidos no Boletim de Eugenia: Oliveira Vianna (2 artigos), J. Porto Carrero (2 artigos), Cunha Lopes (2 artigos), Murillo de Campos (1 artigo) e Rui Barbosa (1 artigo). Alguns colaboradores eram responsáveis pelas traduções de textos publicados originalmente em outros idiomas e transcritos no Boletim de Eugenia; curiosamente, costumavam assinar apenas com iniciais: W. F. K. (traduziu 4 artigos), C. C. (traduziu 11 artigos), M. S. (traduziu 2 artigos) e E. R. (traduziu 22 artigos).
A forma escolhida por mim para obter uma melhor compreensão da forma pela qual as idéias eugênicas foram expostas no Boletim de Eugenia, faz-se necessário analisar artigos publicados cujas temáticas possam oferecer informações sobre a natureza das informações propagadas nos artigos. O que pretendo é destacar as discussões que eu identificar como importantes e recorrentes assim como identificar os atores participantes dos referidos debates de idéias. Desta forma, será possível conhecer as formas pelas quais as idéias sobre o aprimoramento dos indivíduos poderiam ocorrer no Brasil e investigar os motivos pelos quais o consenso não foi alcançado no movimento eugênico brasileiro; como já foi discutido anteriormente, o consenso não foi comum em movimentos eugênicos de outros países importando mais para minha investigação as causas dos debates existentes no contexto brasileiro entre os interessados nas questões eugênicas.