Cemal Süreya
O, o tarafa gitti Ben de Taksim ’e Tam Kadıköy dolmuşuna binecek
140 A comissão mal nascera e já encaminhara ao Rio de Janeiro, ao Presidente do Conselho, João Alfredo, uma
carta solicitando o seu apoio. Ao mesmo tempo em que o visconde de Cavalcanti (Diogo Velho de Cavalcanti e Albuquerque) parte para Cannes a fim de conseguir a anuência e proteção de Pedro II à comissão franco- brasileira (L’Empire du Brésil, 1889).
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Brasil na Exposição de 1889, bem como dos “exportadores” e todos os demais homens de negócios envolvidos com o comércio exterior. Amédée Prince defendia também seus próprios interesses como proprietário da Amédée Prince et Cie, empresa que agenciava produtores e proprietários de estabelecimentos comerciais franceses nos “dois mundos”, particularmente na “América do Sul, no Extremo Oriente, no Canadá e nas Colônias Europeias da África” (Amédée Prince et Cie. 1886)141.
No Brasil, a Amédée Prince et Cie estava presente em mais de 15 cidades, número inferior apenas ao do Chile, em termos de representações comerciais nesta economia- mundo142. Para esta empresa, a posição geográfica de um Estado era “um dos elementos principais de sua prosperidade e de seu desenvolvimento” (nessa perspectiva, o Brasil levava vantagem em relação ao Chile para o consumo do mercado Europeu). Através deste determinismo, distribuía aos seus clientes mapas continentais de suas áreas de atuação, com o intuito de apresentar novos mercados “où se poursuit la lutte commerciale dont les fabricants
français doivent sortir victorieux”. Para a realização deste imperialismo econômico de grupos franceses, a Amédée Prince et Cie, desde 1870, não cessava de “chercher dans ces contrées des débouchés nouveaux pour notre industrie, en portant nos efforts sur les capitales d’États, puis sur les ports de mer alimentant des provinces intérieures et enfin sur les villes reliées à ces ports par des voies ferrées ou fluviales”. Os comerciantes franceses, deste modo, mantinham-se informados sobre a situação geográfica do planeta, escolhendo localidades nas quais seus produtos pudessem prosperar143. Para além da determinação geográfica dos Estados, estava também a questão da comunicabilidade de seu território, possibilitando, por meios técnicos ou diplomáticos, a livre e eficaz circulação de mercadorias144.
Fazendeiros e demais produtores brasileiros, na outra ponta, dependiam dessas condições para chegarem aos mercados consumidores, especialmente, o europeu e estado- unidense. O capital externo aplicado às redes de circulação – ferrovias, hidrovias, portos, telégrafos, etc. – servia, portanto, aos dois extremos: o centro (produtor da tecnologia e
141 Com exceção da América do Sul e México grande parte das localidades em que a Amédée Prince mantinha
relações comerciais eram fruto do colonialismo francês. Revelando que a ideia de “aos latinos o mundo latino” prosperou para a França, como “o Latino dos latinos”.
142 A Amédée Prince et Cie além de contar com grande parte da imprensa nas cidades em que mantinha relações,
produzia para os seus clientes na França um órgão de publicidade de seus trabalhos e seus princípios: Comptoir
International de Publicité. Neste eram publicados mapas com as áreas de atuação da “casa de comércio” no mundo. Em 1886, ela estava presente em 16 localidades de Norte a Sul do Brasil, como Manaus, Pará, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Santa Catarina, Porto Alegre, Rio Grande, dentre outras (Amédée Prince et Cie, 1886). As demais citações, sem identificação, exceto quando indicadas, pertencem a esta publicação.
143 Para além da ideia do “mundo latino”, em 1883, o governo francês criou a Aliança francesa, a fim de estender
a influência da França no estrangeiro pela propagação da língua e da cultura francesa (Larousse, 2010).
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consumidor de matéria-prima) e a periferia (dependente da tecnologia e produtor de matéria- prima), a velha lógica colonial, sob novas roupagens. O Estado periférico, nesta divisão, ficava com grande parte do encargo financeiro para o fornecimento da estrutura viária, fruto de empréstimos junto aos Estados centrais, interessados tanto na venda tecnológica, nos juros dos empréstimos, quanto na acessibilidade às matérias-primas.
Neste sentido, percebe-se que a participação brasileira na “Exposição do Centenário” surge, também, desses interesses – liberalizantes – combinados. A política nesta interpretação é tributária ao desenvolvimento econômico – a Economia Política145 – desses homens de negócios, infiltrados diretamente ou indiretamente nas decisões de Estado. A família Silva Prado, a mais importante e representativa do ciclo do café146, estava duplamente representada nesta reaparição do Brasil na Exposição de Paris. De um lado, Antonio Prado, um dos mais ricos cafeicultores do país, proprietário de ferrovias, senador, conselheiro e ministro do Império, responsável, dentre outras coisas, pela execução do decreto assinado pela princesa Isabel que autorizava o governo a despender até 300 contos de réis para ajudar o Comité
franco-brésilien pour l’Exposition universelle de Paris et les exposants brésiliens qui prendront part à la dite Expositionsn (L’Empire du Brésil, 1889). Do outro lado do Atlântico, em Paris, Eduardo Prado, o irmão caçula (vinte anos mais novo que o primogênito Antonio), diretor do referido Comité, que receberia as subvenções do Império.
Eduardo Prado, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo, como o irmão, nesta ocasião, não contava ainda com trinta anos de idade. Contudo, já havia percorrido grande parte do mundo, publicando parte de suas impressões de viagem, além de colaborar com o jornal Correio Paulistano, de propriedade de seu irmão, Antonio Prado. De posse deste capital cultural e financeiro, Eduardo Prado, que residia em Paris, convergia para sua residência diversas personalidades do final do século XIX, representantes de diferentes nacionalidades: franceses, portugueses e brasileiros prevaleciam em seus jantares suntuosos
145 Nesses termos conflui o programa de Émile Levasseur como professor do Conservatoire des Arts et Métiers
na cadeira de économie politique et legislation industrielle, em 1882, composto por 40 a 44 lições, com duração de cinco anos, consagrados “sucessivement à la production, à la répartition, à la circulation, à la consommation des richesses, à la législation industrielle et commerciale” (Levasseur, 1893:3). Paul Leroy-Beaulieu, antigo presidente da Sociedade de Estatística, detinha a cadeira de Economia Política, desde 1881, no Collège de
France. Levasseur (ibidem:8,9) diz que até o ano de 1893 Leroy-Beaulieu trabalhou com temas diversas, dos quais podemos destacar alguns anos: “1883: O papel do Estado no mundo econômico. Contradições econômicas de Proudhon”; “1886: Distribuição de riquezas. Pesquisas sobre a natureza e as causas da riqueza da nações, por A. Smith”. “1889: Do crédito, da moeda e dos bancos. Parte do curso completo de economia política de J.-B. Say [o criador da cadeira de Economia Política, em 1830, no Collège de France], relativo a distribuição e consumação de riquezas”.
146 Darrell Levi (1977:13) diz em seu estudo sobre a família Prado, que até o ano de 1889 os Prado possuíam
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na rue Rivoli147. Segundo relatos da época, era comum a presença de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Anthero de Quental, Elisée Reclus, Émile Levassuer, Alfredo de Carvalho, barão do Rio Branco, Oliveira Lima, Santa-Anna Nery, entre outros (Pitanga, 1901:390; Pereira, 1902:14).
Entre seus pares, Eduardo Prado, apesar de sua formação em Direito, era reconhecido como homem de letras, de alta erudição e conhecimento, um Príncipe na suposta descrição de Eça de Queiroz148. Abastado pelos negócios da família, Eduardo Prado construiu uma das mais importantes brasilianas de seu tempo149. Biblioteca que serviu de referência para muitos de seus contemporâneos, e posteriores, e que se ligou indelevelmente à construção/imagem de seu patrão: a de homem viajado, cultivado pelas experiências internacionais; pelos raros e atuais estudos pátrios e científicos150. Eduardo Prado, que também era católico praticante, frequentador de novenas, para espanto de alguns amigos151, àquela época, colaborava para o
Jornal do Comércio, pertencente ao conde (pela Santa-Sé) de Villeneuve e outros órgãos europeus. Contudo, comungava na mesma noção – mercantilista – de letrado de seu tempo e de seu círculo, conforme expressado por Santa-Anna Nery. Eduardo Prado representava na Europa os interesses de seu irmão Antonio Prado, para quem conseguiu a compra da Rio Claro Railway Company, Ltd. expandindo a Companhia Paulista para além de Campinas, rumo ao centro cafeeiro (a “terra roxa”), composto por diversas fazendas dos Prado. Eduardo Prado viera ainda a intermediar um empréstimo entre o governo da Província de São Paulo, influenciado por Antonio Prado, com o governo de Londres, em 1888152. Neste mesmo ano, portanto, se daria a formação do Comité Franco-Brésilien para a Exposição de Paris de 1889, composta em sua direção pelos “homens de letras” do Brasil: Eduardo Prado e Santa-Anna
147 Olavo Bilac faz uma longa descrição nesse sentido (cf. Berriel, 2000:32).
148 Diversos trabalhos apontam o personagem “Jacinto” da obra inacabada [finalizada por Ramalho Ortigão], A
cidade e as serras, de Eça de Queiroz como inspirado na figura de Eduardo Prado. Neste sentido, é bastante sugestiva a descrição da biblioteca de “Jacinto”: “Que majestoso armazém dos produtos do Raciocínio e da Imaginação! Ali jazem mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma cultura humana. Logo à entrada notei, em ouro numa lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos economistas. Avancei – e percorri, espantado, oito metros de economia política (Queirós, 1994:29).
149 No IEB há o catálogo da biblioteca de Eduardo Prado (1916), apresentado em francês, espanhol e português,
para venda integral, à época, por 50 contos de réis ou fracionado por exemplar em leilão. São elencados mais de 70 temas numa imensidão de títulos, sendo preponderantes aqueles ligados à “história (38%) seguidos por arte e literatura (19%), política (10%), ciências sociais (8%), trabalhos de referências (7%), economia (6,4%), religião (5,8) e ciências físicas (5,8%)” (Levi, 1977:226). O exemplar do IEB pertenceu originariamente ao Alfredo Taunay, que posteriormente, em 1931, ofertou ao amigo Yan de Almeida Prado. Após leitura à lapis de Yan, ele deixa ao final escrito que para uma biblioteca desta se formar, por sua experiência de brasilianista (o IEB se forma a partir da brasiliana de Yan de Almeida Prado), levariam pelo menos setenta anos. Eduardo Prado morreu com 41 anos de idade.
150 Cf. a apresentação do Catálogo da biblioteca de Eduardo Prado (1916). 151 Cf. Pereira, 1902.
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Nery; e pelos “homens de negócios” da França: E. Lourdelet (presidente de la Chambre
syndicale des Négociants-Commissionnaires de Paris) e E. Pector (presidente de la Chambre
syndicale du Commerce d'exportation)153. Amédée Prince, nesta estrutura, aparecia como o secretário geral do Comité, contando ainda com C. Pra (vice-président de la Chambre
syndicale des Négociants-Commissionnaires de Paris) como seu tesoureiro. A estrutura do
Comité era, portanto, majoritariamente, formada por negociantes franceses interessados no mercado brasileiro. Mas, também, por brasileiros interessados nos financiamentos e imigrantes europeus, além dos rendimentos pela intermediação. Eduardo Prado e Santa-Anna Nery, neste conjunto, serviram como os articuladores entre os membros da colônia brasileira em Paris e seus colegas de geração no Brasil. Coube ao visconde de Cavalcanti (Cavalcante de Albuquerque) – “delegado especial” do Comité – a intermediação entre os membros do governo imperial. Diogo Velho, como era chamado pelo amigo Pedro II, conseguira deste último a célebre carta ao M. Berger (diretor geral da Exposição), para reservar um bom lugar à Exposição brasileira154. De volta ao Brasil, o visconde fora fundamental na relação com os membros do partido Conservador, como o visconde de Figueiredo, entre outros, para o apoio efetivo dos membros do parlamento ao referido Comité e a preparação da Exposição preparatória no Rio de Janeiro.
Desta forma, podemos dizer que o impulso econômico para que o Brasil se fizesse representar na Exposição Universal de Paris de 1889 é fruto da colaboração conjunta de duas gerações: parte dos chamados membros da geração de 1870 e a presença de figuras de relevo do Partido Conservador, como Antonio Prado (que viera a recusar o título de visconde de São Paulo)155, João Alfredo e o visconde de Cavalcanti. O responsável pela proposta de subvenção do Comité na Câmara dos deputados foi Affonso Celso Junior, apoiado ainda por Matta Machado, Carneiro da Cunha, Joaquim Nabuco e Penna; já no senado, onde foi aprovada, contou com a ajuda do visconde de Ouro Preto (pai de Affonso Celso Junior) e por Antonio Prado, que viera a ser o executor do decreto assinado pela princesa Isabel.
Com a aprovação dos recursos do governo imperial, a comissão franco-brasileira poderia iniciar oficialmente seus trabalhos junto à comissão preparatória da Exposição universal. Entretanto, a fim de obter os recursos destinados à exposição do Brasil, a comissão
153 As informações sobre a construção e a estrutura do Comité podem ser encontradas em diversas publicações de
1889, sobretudo, àquelas ligadas diretamente ao Santa-Anna Nery (1889b; 1889c, Journal l’Amérique) ou indiretamente como o Catalogue Officiel (1889).
154 Barbuy (1996:213) diz que esta carta, assinada do próprio punho do Imperador do Brasil, envaideceu os
franceses, que atenderam ao pedido do Pedro II, garantindo ao Brasil um lugar de destaque, ao pé da torre Eiffel.
155 Lyra (1949:21). Sobre o significado político dos títulos entre o período joanino e o alvorecer do Segundo
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inicial teve que se transformar juridicamente em sindicato, surgindo, assim, o Syndicat du
Comité Franco-Brésilien. Curiosamente, os únicos membros que se mantiveram nesta nova forma jurídica foram o E. Lourdelet como presidente, Eduardo Prado como vice-presidente e Amédée Prince, ainda, como secretário geral. Santa-Anna Nery, assim como os outros membros franceses do Comité ficaram de fora no momento da administração dos 5/6 dos recursos destinados pelo Império do Brasil156. O liberal Souza Dantas aparecera nesta nova formação ao lado de Eduardo Prado, como vice-presidente e Carlos Ferreira d’Almeida como o tesoureiro157.
No interlúdio entre a reforma do Comité e do Syndicat franco-brésilien, o ministério – abolicionista – de João Alfredo realizou a maior revolução nas relações de trabalho no Brasil: a passagem do trabalho escravo para o trabalho servil; arduamente desejada, costurada e defendida pelo “bando de ideias novas” de 1870158. Para os brasileiros que estavam em Paris, organizando a Exposição do Brasil, a abolição da escravidão proporcionou um grande espetáculo de civilidade ao império de Pedro II. Pois, para este grupo, finalmente, o Brasil havia cumprido a profecia de Victor Hugo, a saber: “Avant la fin du siècle, l’esclavage aura disparu de la terre. La liberté est la loi humaine. Nous constatons d’un mot la situation du progrès. La barbarie recule, la civilisation avance” (Victor Hugo, 1884 apud Abolition de l'esclavage au Brésil, 1889:124)159.
156 Dos 300 contos de réis destinados ao comité ficou decidido que 1/6 seria destinado a comissão no Rio de
Janeiro, por meio de figura do visconde de Cavalcanti e o restante, 5/6, para a comissão em Paris (L’Amérique, 14 jun. 1889:2).
157 R. Benoist d’Etiveaud e Adolpho Klingelhoefer apareciam também como secretários do referido sindicato
(Santa-Anna Nery, 1889b).
158 Dentre os autores analisados por Angela Alonso (2002), poderíamos citar Joaquim Nabuco, André Rebouças,
Lauro Sodré, Rodolfo Dantas, Rui Barbosa e Sá Valle; apenas para ficar naqueles que mantiveram alguma relação com Santa-Anna Nery.
159 Esta carta de Victor Hugo, datada de 25 de março de 1884, é bastante significativa, pois foi escrita para
comemorar a abolição da escravidão da primeira província do Brasil: o Ceará. Victor Hugo havia sido convidado para um banquete, em Paris (no restaurante Brébant), neste mesmo dia, para festejar esta abolição, sob a presidência de Victor Schoelcher e organização de José do Patrocínio, auxiliado por Santa-Anna Nery. Como ele não pode comparecer, enviou a referida carta, agradecendo ao imperador do Brasil pelo ato. Neste banquete, Santa-Anna Nery realizou um dos discursos mais inflamados em prol da Amazônia, da “raça cobre” (os ameríndios) e da monarquia constitucional de Pedro II. Isso em função da grande presença de republicanos franceses e brasileiros, como Edmond Bazire, que colocavam a República como a forma de governo mais elevada. Vale a pena reproduzir aqui este discurso, tanto pela dificuldade em acessar esta fonte, quanto por expor pontos de vista do autor, até então ignorados por nós, no que se refere a defesa dos indígenas no Brasil por sua própria origem: “Eu pertenço pelas minha origens a raça dos mestres do sol, que os europeus transformaram em escravos e que um papa teve dúvidas em declará-los como homens, pois a Europa civilizada parecia os considerar como alguma coisa de intermediário entre a besta e o selvagem. Olhem para mim, e vejam se eu não tenho o aspecto de um homem. O senhor Schoelcher assinalou a pouco que o Brasil é uma exceção vergonhosa no concerto das nações civilizadas. Ele esqueceu talvez da Espanha. Ele também esqueceu de dizer que a escravidão não é uma instituição nossa, mas uma invenção europeia, que desembarcou nas nossas praias os negros da Africa, pois eles não conseguiram transformar em escravos os aborígenes do Brasil.” E continua: “No Brasil, a monarquia não é resultado de uma usurpação, mas um governo legítimo aclamado por quase a
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Rumo a esta senda do progresso e da civilização, o barão de Mamoré, Rodolfo Dantas, barão de Estrella, Eduardo Prado e Santa-Anna Nery, realizaram, ao lado dos franceses, o maior evento comemorativo da abolição da escravidão, fora do Brasil, “na meca [cristã] do mundo”, em 10 de julho de 1888160. Fora mais um banquete no Hotel Continental, mas agora no “grande salão de Festas”, com direito a cardápio abolicionista161 e exibições dos projetos arquitetônicos para a construção do pavilhão brasileiro na Exposição que se anunciava162. Victor Schoelcher, prestigiado político francês, abolicionista, responsável pela proposição à Assembleia que decretou o fim da escravidão nas colônias francesas (em 1848), foi convidado a presidir o “banquet commémoratif de l’abolition de l’esclavage au Brésil” 163. Em frente ao Schoelcher, na mesa central, contando com 120 pessoas, estava o preferido de Pedro II para sua sucessão, o príncipe Dom Pedro Augusto, duque de Saxe164. Ao lado dele se encontravam Le Royer, presidente do Senado francês e Jules Simon, antigo presidente do conselho francês. O barão de Arinos (que mais tarde transformara-se em visconde de Arinos) estava ao lado direito de Schoelcher, como “o enviado extraordinário e ministro plenipotenciário de S. M. o Imperador do Brasil”. Duas mesas paralelas à central, composta por 38 cadeiras cada, foram montadas para comportar a enorme procura em participações165.
totalidade dos cidadãos. Quando a gente tem a felicidade de possuir um chefe de estado tão liberal e esclarecido como Dom Pedro II, a gente o guarda. A república é uma forma de governo, e não uma panaceia”. O jornalista anônimo da RSA (01 abr. 1884) que registrou o evento, diz que “após algumas palavras de Patrocínio, foi finalizada a sessão e a grande cordialidade cessou de reinar entre os convivas de todas as opiniões”.
160 Os anos de 1888 e 1889 foram repletos de comissões mistas entre brasileiros e franceses. Por ocasião da
abolição da escravidão formou-se a “comissão franco-brasileira do banquete comemorativo da abolição da escravidão no Brasil” que teve como “Presidente: G. Gerville-Réache, député de la Guadalupe, avocat à la Cour d’Appel. (62, rue Claude-Bernard); Vice-presidente: Conselheiro barão de Mamoré, sénateur, ancien ministre, chambellan de S. M. l'Empereur du Brésil (4, rue Christophe-Colomb); Vice-presidente: Conselheiro R. de Souza-Dantas, ancien ministre (6, avenue de l'Alma); Boissy-D'anglas, députe de l’Ardèche, ancien ministre plénipotentiaire (222, rue de Rivoli); G. Hanotaux, député de l’Aisne, ministre plénipotentiaire (3, rue de la Planche); C.-J. Paillard-Ducléré, député de la Sarthe, ministre plénipotentiaire (96, boulevard Haussmann); Baron d'Estrella, chambellan de S. M, l'Impératrice du Brésil (14, place Vendôme); E. da Silva Prado, homme de lettres (226, rue de Rivoli); F.-J. de Santa-Anna Nery, Secrétaire, homme de lettres (21, rue Berlioz); Jules Auguste, Secrétaire, homme de lettres (40, rue de Saints-Pères)” (Abolition de l’esclavage au Brésil, 1889).
161 O “menu” do jantar começava por “Potages, consommé aux Perles du Brésil”, passando pelo “saumon
Nouveau sauce Rio-Branco” (referente à lei do ventre-livre), “Rots, Canetons Truffés sauce Rodrigo Silva”, “Entrements, Bombe João-Alfredo” e “Gâteau à la Prado”, os três parlamentares (Rodrigo Silva, João Alfredo e Antonio Prado) associados à lei áurea (L’Abolition de l’esclavage au Brésil, 1889:29).
162 Louis Dauvergne, arquiteto, presente no banquete, recebeu o primeiro lugar no concurso para a construção do
pavilhão brasileiro na Exposição (L’Abolition de l’esclavage au Brésil, 1889:15).
163 As ideias de Victor Schoelcher podem ser conferidas em suas obras: Histoire de l'esclavage, pendant les deux
dernières années (2 vol. Paris, 1847) e Des colonies françaises. Abolition immédiate de l'esclavage (Paris, 1842).
164 Pedro Augusto era filho da segunda filha de Pedro II, D. Leopoldina, que desde sua morte passara a viver
com os avós (Cf. Schwarzc, 1998:433 e Carvalho, 2007:201).
165 Ao todo, participaram oficialmente do banquete 196 pessoas, “homens ilustres” da sociedade europeia e
americana, entre políticos, homens de letras e de ciências, artistas, negociantes, banqueiros, etc. Nos últimos dias antes do banquete, a comissão responsável recebeu ainda mais de duzentas adesões que não puderam ser aceitas,
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Eduardo Prado e Santa-Anna Nery presidiam as mesas laterais em nome do Brasil166. Enquanto a velha geração ocupava o centro da mesa principal, na figura do barão de Arinos e