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5. BULGULAR

5.5. Bazı Tarımsal ve Endüstriyel Atıklar Üzerinde Kültürü Yapılan Pleurotus spp.’nin

Como vimos na seção anterior, a “Era de Ouro” fora caracterizada pelo Fordismo. Neste modelo, marcado pela cooperação internacional, o câmbio era fixo (Padrão Dólar-Ouro), as taxas de juros internacionais eram relativamente reduzidas e havia ainda elevada liquidez no mercado financeiro internacional (fácil acesso aos mercados de Eurodólares e Petrodólares, sobretudo).

Segundo Saes e Saes, neste período, também alguns países periféricos se mostravam bem sucedidos, outros, nem tanto.

Os países periféricos também se integraram à expansão comercial e financeira da economia mundial: alguns em posição muito favorável, como exportadores de petróleo; outros conseguiram ingressar no comércio internacional como exportadores de manufaturados, a exemplo dos chamados Tigres Asiáticos; grande parte permaneceu como exportadora de produtos tradicionais (agropecuários ou minerais). Os mais pobres (principalmente da África) ficaram à margem dessa expansão da economia mundial. Na esfera financeira internacional, a presença dos países periféricos foi peculiar: os exportadores de petróleo, com grandes superávits comerciais, alimentaram o sistema financeiro internacional com volumosos recursos; já os importadores de petróleo, vítimas dos dois ‘choques’ nos preços do petróleo (de 1973 a 1979), acumularam enormes dívidas para financiar seus déficits comerciais, dívidas que foram fator fundamental para a crise que se abateu sobre esses países nos anos 1980.183

Também para Amsden, o desenvolvimento da atividade industrial dos países incluídos no “resto” teria sido bastante acelerado durante a “Era de Ouro” e apresentou diversas características comuns, como a participação direta dos governos no processo de industrialização (seja via criação de empresas estatais, seja via criação de bancos de desenvolvimento) e a proteção seletiva a algumas atividades eleitas.

Amsden, porém, observa que o desenvolvimento dos países do resto caminhou para dois padrões distintos, que seriam determinantes para o desempenho destas economias após a crise da década de 1970. De um lado, a autora identifica um grupo o qual chamou “independente”, formado por países da Ásia, sobretudo (China, Índia, Coreia e Taiwan), aqueles voltados ao incentivo às exportações e escorados na decisão de ‘fazer’ tecnologia. De outro lado, a autora identifica outro grupo, chamado “integracionista”, formado por países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, México) e pela Turquia. Estes países teriam primado pela expansão da industrialização através da “compra” de tecnologia, via endividamento do Estado, provedor do desenvolvimento, possibilitada pelo acesso fácil ao crédito internacional, característico do Fordismo.

O impacto da crise de 1979-1980 foi sentido de forma distinta nestes dois grupos de países. Os independentes sofreram o impacto e logo retomaram o crescimento, os integracionistas, por sua vez, amargaram duas décadas de baixo crescimento.

De forma semelhante, também Payer, ainda em 1988, agrupava os países da periferia, ou do, assim chamado, “terceiro mundo”184 em dois tipos de padrões de desenvolvimento: “o internamente induzido e o induzido por exportações”185.

Segunda sua percepção, bastante similar à de Amsden, os países de desenvolvimento internamente induzido teriam como característica o incentivo à demanda interna, o que alimentaria as importações de bens de consumo, pioraria a balança comercial e deprimiria o potencial de exportações, visto que encareceria a mão de obra. Os empréstimos para alimentar a produção voltada para atender a demanda, assim, pouco repercutiriam em crescimento econômico. Os serviços da dívida cresceriam, sem que a economia crescesse em igual

184 O termo “Terceiro Mundo” é característico da visão de mundo dominante no contexto da Guerra Fria, onde o Primeiro Mundo seria o grupo de países capitalistas desenvolvidos, o Segundo Mundo, o grupo de países de economia planificada “socialista”, e o Terceiro Mundo, o grupo de países subdesenvolvidos.

proporção. Neste grupo, encontram-se os países que Amsden classificara como “integracionistas”

O crescimento induzido por exportações, por sua vez, quando bem sucedido poderia apresentar melhores resultados, segundo a autora. Porém os países precisariam encontrar compradores para suas mercadorias em quantidades crescentes para compensar a rolagem da dívida e levar a receita de exportações e se tornar suficiente para o pagamento do serviço daquelas. Neste grupo, encontram-se os países que Amsden classificara como “independentes”.

Durante o auge da “Era de Ouro”, o modelo Fordista mostrava-se claramente favorável às políticas de industrialização adotadas pelos países da América Latina. Utilizamos aqui a nomenclatura de Amsden. Durante as décadas de 1950 e 1960, as economias “integracionistas” do subcontinente tiveram desempenho econômico claramente favorável com crescimento anual médio do PIB superior a 5%186. Tal taxa foi sustentada pelo crescimento da produção industrial impulsionada pela política de “substituição de importações”.

Segundo Bresser Pereira, a política de “substituição de importações”, a despeito das diversas leituras ideológicas sobre, fora muito bem sucedida durante a fase de implantação das indústrias na América Latina:

Competiam três teorias básicas do subdesenvolvimento: a teoria marxista radical do imperialismo, a teoria reformista da nova dependência e a teoria conservadora da modernização. Entretanto, apesar do debate ideológico, esses países se desenvolveram segundo uma mesma e bem-sucedida estratégia econômica: a estratégia de industrialização através da substituição de importações, voltada para dentro e conduzida pelo Estado.187

Ainda que a estratégia de substituição de importações sofresse uma oposição retórica por parte dos conservadores e de Washington que a esta faziam uma crítica suave, visto que era conduzida pelo Estado e voltada para dentro, na prática, tanto o governo dos EUA quanto dos empresários do centro do sistema sempre a apoiavam enquanto fosse bem-sucedida188. Os próprios organismos supranacionais criados no âmbito do Fordismo pareciam favoráveis a esta estratégia:

186 SAES e SAES, História Econômica Geral, 2013, p. 576 187 PEREIRA, “Uma interpretação da América Latina”, 1993, p. 40. 188 PEREIRA, “Uma interpretação da América Latina”, 1993, p. 40.

O Banco Mundial, até o final dos anos 70, permanecia fiel à ‘teoria do desenvolvimento econômico’ (development economics) que fora formulada por economistas keynesianos e estruturalistas nos anos 50 e 60, e à correspondente estratégia de industrialização que não estava longe do nacional- desenvolvimentismo.189

Como visto, a industrialização destes países nas décadas de 1950 e 1960 era voltada ao mercado interno. Isto significa que a produção crescia constantemente acima das exportações e, com isto, a América Latina apresentava desequilíbrios externos, com problemas para financiar as importações necessárias ao processo industrial.

A necessidade de capital era uma constante. Os investidores latino-americanos, no entanto, pareciam preferir aplicar seu capital em contas na Europa ou nos Estados Unidos. Assim, na ausência do capital interno, era comum a busca crescente de financiamento internacional. O grande problema não era atrair o capital estrangeiro para a América Latina, mas impedir que o escasso capital local vazasse para o exterior190.

Para os países latinos, o capital estrangeiro durante o Fordismo parecia ser uma ótima fonte de financiamento. Era uma fonte abundante, dada a liquidez do mercado internacional, relativamente barata, dado o regime de câmbio fixo imposto pela conferência de Bretton Woods e relativamente segura, dados os juros baixos, outra facilidade criada pela norma de cooperação internacional que vigorava na “Era de Ouro”.

Os padrões que vigoravam durante o Padrão-Ouro e que tanto favoreciam os empréstimos em moeda estrangeira durante o século XIX pareciam funcionar com igual vigor em meados do século XX. As dívidas em moeda estrangeira multiplicaram-se no período. Ademais, sempre é bom retomar, não era interessante para nenhuma das partes (credores ou devedores) que as dívidas externas fossem pagas, mas simplesmente “roladas”, com novos empréstimos. O fluxo sempre se renovaria e, a rigor, o investimento estrangeiro geraria um crescimento econômico tal que, no longo prazo, mitigaria o valor da dívida para o país devedor, em última instância. Também o capital internacional mudou seu tratamento para com o subcontinente. Nos primeiros anos da “Era de Ouro” do Capitalismo, na década de 1950, ainda por causa das sucessivas quebras de contrato na América Latina nos anos 1930, o capital privado (bancário, sobretudo) mantinha-se afastado do Terceiro Mundo e até o início da década de 1960, o capital fornecido era majoritariamente estatal (oficial). Ao longo dos anos 1960, porém, o

189 PEREIRA, “Uma interpretação da América Latina”, 1993, p. 40 190 PAYER, “As causas da crise da dívida”, 1989, p. 60.

capital privado também passa a financiar a região, inundando a América Latina de capital internacional.

Por volta dos anos 60, a nova geração de banqueiros que já não se lembravam das lições de 30 estava assumindo o comando de suas corporações. Induzidos pelo incentivo oficial e seguindo seus clientes multinacionais que se expandiam no Terceiro Mundo (principalmente na América Latina), esses banqueiros desenvolveram rapidamente uma rede de correspondentes ou de agências bancárias nos países estrangeiros considerados promissores.191

Os motivos que teriam levados os bancos privados a se interessarem em fornecer empréstimos para a América Latina são elencados por Payer192:

a) Nos anos 1960, países tomadores de empréstimos eram raros no mercado com exceção daqueles da América Latina (muitos passavam a emitir seus próprios papéis, passando ao largo dos bancos).

b) Lucros fáceis a partir de altas taxas de juros (dado o risco no Terceiro Mundo ser maior).

c) Os golpes militares no Terceiro Mundo (Brasil 1964, Chile, 1973, Argentina, 1966 e 1976) “permitiram aos bancos acreditar que as velhas e ineficientes políticas haviam mudado e que os governos devedores estavam agora no cominho certo.193”

d) As perspectivas de exportação dos países devedores pareciam excelentes sobretudo nos dois anos que antecederam o choque do petróleo.

e) Principal: Os bancos esperavam novos reescalonamentos e novas rolagens das dívidas. E não temiam o risco de Default, pois esperavam um socorro dos governos.

O resultado foi uma oferta ainda maior de crédito aos países do subcontinente e uma aceleração no ritmo do crescimento de suas dívidas externas ao longo dos anos 1960, tendência que se intensificaria nos anos 1970.

Neste momento, enquanto o capital privado ganhava espaço no mercado de crédito internacional, os Estados Unidos iam, aos poucos, mudando sua posição de fonte oficial de empréstimo para intermediário e custodiante deste capital:

Por volta de 1970, os Estados Unidos não estavam mais investindo ou emprestando seu próprio capital no exterior. Após 1973, os Estados Unidos tornaram-se suas

191 PAYER, “As causas da crise da dívida”, 1989, p. 65. 192 PAYER, “As causas da crise da dívida”, 1989, p. 66 e 67. 193 PAYER, “As causas da crise da dívida”, 1989, p. 66.

relações com o mundo uma espécie de banco gigantesco que garantia o grau em que os postulantes da América Latina, África e Ásia mereciam o crédito dos emprestadores da Europa, do Golfo Pérsico, Japão, Formosa e Hong Kong. De uma ou outra maneira, as poupanças desses países eram mantidas no banco americano.194 Num primeiro momento, este crescimento das dívidas em moeda estrangeira dos países da América Latina durante a década de 1960 não oferecia maiores dificuldades. Saes e Saes, porém, ressaltam que estes empréstimos nem sempre eram destinados a investimentos no setor industrial.

Em alguns países, parte dos empréstimos se destinou simplesmente à rolagem da dívida externa: em outros, para financiar as crescentes importações de bens de consumo induzidas pela abertura do mercado.195

As explicações de Amsden e Saes e Saes indicam que o aumento do endividamento da América Latina durante a “Era de Ouro” teria sido causado pela política industrial dos países da região, financiada por empréstimos estrangeiros e favorecida pela abundância de crédito internacional resultante do modelo Fordista.

Façamos aqui um breve parêntese para expor mais uma visão sobre como se deu o aumento da dívida externa dos países do Terceiro Mundo. Cheryl Payer, em seu texto “As causas da crise da dívida” de 1988 (publicado no livro “Dívida Externa: Crises e Soluções”, organizado por Bresser Pereira em 1989), em meio ao agravamento da crise da dívida da América Latina, fazia uma leitura distinta sobre o porquê deste aumento.

Em sua visão, assim como a de Saes e Saes, as bases do problema da dívida haviam sido plantadas décadas antes do “choque do petróleo”. Na visão de Payer, suas raízes estariam numa contradição fundamental da política econômica norte-americana com relação ao Terceiro Mundo.

Como vimos, o abundante capital internacional privado não se interessou pela América Latina já no início da “Era de Ouro”. Na década de 1950, o capital estatal dos países centrais era o padrão para financiar o crescimento industrial dos países periféricos.

Segundo Payer, a norma começaria a mudar a partir de um fator específico: o programa de ajuda externa que o governo dos Estados Unidos começou na década de 1950 “como forma de

194 MAYER, “A crise financeira mundial e seu impacto econômico”, 1989; p.121. 195 SAES e SAES, História Econômica Geral, 2013, p. 579.

sustentar governos anticomunistas no Oriente Médio e na Ásia”196. A ajuda, a princípio governamental, adquiriu caráter privado quando os países desenvolvidos começaram a atrelar a ajuda externa em capital às vendas dos produtos de suas empresas, ou à própria abertura dos países receptores dos empréstimos para a instalação de unidades fabris. “(…) A distinção entre ajuda estrangeira e incentivo à exportação tornou-se pouco clara.”197

O modelo seria, enfim, exportado a todos os países do Terceiro Mundo que aceitassem as condições ao longo dos anos 1950. Para Payer, os afluxos governamentais dos países desenvolvidos para os países subdesenvolvidos traziam dois benefícios para os primeiros: garantiam a ampliação da pauta de produtos exportados (o que garantia a expansão do emprego e da renda nos países do primeiro mundo) e garantiam o comportamento submisso dos países subdesenvolvidos (que mantinham o perigo comunista longe das coalizões governamentais).

O fato era que o capital fluía dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento, onde financiariam o crescimento econômico e garantiriam a expansão dos lucros.

A teoria econômica convencional diz que os chamados países em desenvolvimento são pobres em capital, e, porque o capital é escasso, a remuneração para os investimentos de capital é maior nos países do Terceiro Mundo do que nos países desenvolvidos com excedente de capital. De acordo com esta teoria, o capital privado deveria fluir naturalmente dos países desenvolvidos para os subdesenvolvidos.198

Para a teoria econômica, como o risco em investir nos países subdesenvolvidos é maior, maior é a taxa de retorno exigido pelo capital investido nesses países, o que, por si só, asseguraria um fluxo natural de investimento para os países subdesenvolvidos. Como resultado, criou-se o mito de que os fluxos de capitais eram naturais, ainda que o capital privado só se desse mediante um “suborno” sobre os Estados desenvolvidos com apoio das forças militares para garantir o retorno do investimento.

Por serem esses fluxos de capital tão úteis na conquista e controle de ‘Estados clientes’ no Terceiro Mundo, assim como para a invasão de mercados nos quais as companhias norte-americanas de outra forma não seriam capazes de competir, a ideia de que tais fluxos eram naturais ganhou consistência, a despeito da clara evidência de que até os investimentos privados manter-se-iam longe do Terceiro Mundo se não fossem promovidos e protegidos pelo suborno americano e apoiados por formas militares e ações encobertas onde necessário.199

196 PAYER, “As causas da crise da dívida”, 1989, p. 60. 197 PAYER, “As causas da crise da dívida”, 1989, p. 61 198 PAYER, “As causas da crise da dívida”, 1989, p. 60 199 PAYER, “As causas da crise da dívida”, 1989, p. 61

Para o país devedor, o modelo também poderia oferecer vantagens, pois elevava os investimentos diretos externos, aumentava o fluxo de capital internacional e permitia aos países devedores acesso ao crédito privado internacional para a política de rolagem da dívida. Assim, tal qual Amsden e Bulmer-Thomas, Payer vê o desenvolvimento industrial dos países do Terceiro Mundo como relacionado ao crescimento de suas dívidas. Porém, diferente dos demais autores, Payer vê um agravante. Os países endividados não seriam atores independentes, responsáveis pelo crescimento de suas dívidas, mas peças num jogo muito maior de expansão do Capitalismo.

Como foi dito, em linha com a percepção de equilíbrio para o qual os mercados tendem a convergir, o modelo econômico aponta que o capital dos países desenvolvidos seria atraído pelas maiores taxas de retorno oferecidas pelos países subdesenvolvidos, o que resultaria no desenvolvimento destes basicamente pelo bom funcionamento natural do modelo. Ocorre que o modelo não considera algumas variantes apontadas por Payer.

A autora aponta como falha crucial o fato de que os empréstimos, mesmo aqueles de juros baixos, implicavam num pagamento em valor maior ao recebido. Até este ponto, nenhuma novidade, o país tomador de empréstimo deveria investir o capital recebido no presente, de modo a gerar um crescimento econômico tal que possibilitaria a ele pagar os juros com lucro considerável após alguns anos. Este era o princípio último da estratégia da rolagem da dívida. Porém, para Payer, ao valor dos juros, pó si só suficientes para remunerar o capital, somava-se a condição estabelecida pelos países desenvolvidos de impor suas empresas nos países subdesenvolvidos. Ainda que, num primeiro momento, estas empresas representem um acréscimo no capital investido nos países do Terceiro Mundo, num segundo momento, esta condição viraria um problema.

As corporações investiram nos países terceiro-mundistas porque queriam obter lucros nesses países e depois levá-los para fora. Mas se os empréstimos – mesmo aqueles a juros baixos – eram o principal veículo dos fluxos de capital, eles também exigiam o retorno de juros e amortizações. Tanto com empréstimos quando com investimentos, o resultado pé que, em algum momento, ocorre a inversão do fluxo do capital.200

As empresas “exportadas” buscam o lucro. Assim, elas, no primeiro momento, investiriam nos países subdesenvolvidos para, anos depois, obter lucro e levá-lo para fora do país. Em

outras palavras, no momento 1, o país subdesenvolvido recebe o capital do empréstimo e do investimento privado, para num momento 2 ter que devolver o capital acrescido de juros e remeter ao exterior o lucro das empresas estrangeiras num volume tal que compense a estas o risco do investimento feito no passado.

O crescimento das dívidas dos países subdesenvolvidos se daria, assim, para Payer, por consequências do modelo de concessão dos créditos (ligados à implantação de empresas dos países desenvolvidos).

Nesta visão, a contradição estava lançada. De um lado, os países do Terceiro Mundo precisariam importar capital para a rolagem da dívida, por outro lado, o capital internacional, para se ofertar a estes países, incluía cláusulas que significariam remessas de lucros ao exterior, num montante maior que os juros acertados (que, por si só, já remuneravam o capital).

Mesmo que as taxas de câmbio fossem fixas no Fordismo, os retornos dos capitais fornecidos ao terceiro mundo, segundo a visão de Payer, seriam variáveis, dada a inclusão da cláusula de se “exportar empresas”. Sua explicação, assim, aponta para a percepção de que o capital que saía dos países do terceiro mundo, via remessa de lucros superava os benefícios do capital que entrava via empréstimos, o que fazia estes países recorrerem a empréstimos novos e maiores sempre.

Ainda que a percepção de Payer seja bastante atraente, não podemos deixar de observar esta teoria com certa restrição. O capital internacional investido no país subdesenvolvido (ainda que comprometido com o objetivo final da remessa de lucros) daria início a um processo de circulação interna de moeda conhecido como efeito multiplicador 201 do capital. Não temos aqui dados suficientes para elaborar cálculos, mas não podemos descartar a hipótese de que o efeito multiplicador possa compensar a remessa de lucros. A empresa estrangeira não é necessariamente ruim, dado que gera empregos, efeito multiplicador e distributivo da renda. A autora parece minimizar estes efeitos, mas a teoria é interessante por propor que o capital que

201 “Multiplicador: Termo utilizado por Keynes para definir o índice de aumento na renda nacional resultante de

um dado aumento na quantidade de investimentos. Pelo efeito multiplicador, um aumento nos investimentos gera um aumento proporcionalmente maior na renda. Assim, se um aumento de investimentos da ordem de R$ 50.000.000,00 causar um aumento na renda nacional de R$ 200.000.000,00, o multiplicador será igual a quatro. Uma das identidades fundamentais na macroeconomia keynesiana é a de que o multiplicador é igual