4. TAŞINMAZ İLE İLGİLİ RESMİ KURUM İNCELEMELERİ
4.2. Tapu Kayıtları İncelemesi
43 HENNERICH, Juçara Elza. Olhares de guarani para guarani. Tradução em Guarani, Mário Tupã
Lopes. Guarapuava: Ed. da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2007. p. 116.
44 Depoimento da índia Cecilia Nhanju Gaspar da aldeia Água Santa de Guarapuava. Ele é um dos
vários registros sobre o mesmo tema feitos por HENNERICH, Juçara Elza. Olhares de guarani para guarani. Guarapuava: Ed. da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2007. p. 92
Tanto o luto pela morte do menino quanto a vigília pela cruz estão liberados. O retorno ao cemitério, após o enterro, é feito na companhia de Graciela, junto com a irmã dela, Rosalina, treze anos. A escuridão da Opy, durante o velório, impedia ver a todos. Gracielar revelou que não havia participado do enterro por “sentir” que não teria forças para ver o menino que a chamava de “namorada” ser enterrado. “Ele brincava e ria o tempo todo. Não dá para acreditar que ele está aqui”, disse, entre lágrimas, ao se aproximar do monte de terra e pedras colocadas sobre o caixão. A jovem não fez o sinal da cruz ou nenhum gesto, mas parecia estar em oração, manteve as mãos junto ao próprio corpo. Os soluços quebravam o silêncio da tarde do domingo, dia 26, estava prestes a chover.
A organização social e as atividades desempenhadas em cada aldeia dependem sobretudo da orientação religiosa, que, de um modo geral, quando há famílias de subgrupos diferentes, absorve os modos, representações e experiências diversos, criando um perfil próprio. Há também aldeia onde os indivíduos que pertencem a uma subdivisão distinta da maioria passam a respeitar as regras (sociais e políticas) e a adotar costumes e rituais do grupo local dominante45.
Enquanto ela permanecia em silêncio, meus olhos procuravam semelhanças e diferenças entre o cemitério indígena e o cristão. Mais do que isso, buscava evidências do que havia restado do ritual Guarani antes da colonização portuguesa e consequente presença dos jesuítas. O que observei foi que, ao invés de lápide em mármore ou cimento, apenas uma construção em madeira, uma espécie de reprodução semelhante a um barco. O modelo reproduzia não o barco como elemento de transporte de seres ou coisas, mas o elemento que transporta a alma indígena para a Terra dos Sem Males.
Sobre as cruzes, que mais parecem lemes, elas, ali fincadas, parecendo definitivas, guardam um outro ritual: o da cruz, mas não a cruz cristã e, sim, o símbolo guarani – uma cruz envolta em tecidos que dão a impressão de velas – a leveza dos tecidos, quando tocados pelo vento, parece fazer com que o barco singre as águas em direção a Terra dos Sem Males.
45 LADEIRA, Maria Inês. Espaço Geográfico Guarani – Mbya: significado, constituição e uso. Maringá,
De acordo com registros históricos feitos pela Itaipu Binacional durante a construção da hidrelétrica, o enterramento dos primeiros habitantes indígenas era realizado de duas maneiras:
Nesta região os enterramentos registrados na tradição Tupi-Guarani podem ser primários ou secundários, sendo o último o mais frequente. O enterramento primeiro caracterizava-se pela disposição do corpo em grandes urnas logo após a morte antes de ser atingida a rigidez cadavérica. Neste caso, o corpo ainda quente é disposto em posição fetal e depositado no interior da urna. Os enterramentos secundários consistem na deposição dos ossos em grandes urnas. O corpo era primeiramente sepultado na terra, após a decomposição da carne os ossos eram desenterrados e limpos, sendo, então, colocados no interior de urnas. Em ambos os casos as urnas eram geralmente tampadas e quase sempre estavam acompanhadas de oferendas46.
Aos primeiros mortos eram depositadas flores e pétalas como companhia. Com o passar do tempo, os despojos passaram a ser protegidos por pedras e, em seguida, também com armas, num claro registro histórico dos períodos vividos.
“A sepultura neanderthalesa testemunha não só uma irrupção da vida humana, mas também modificações antropológicas que permitiram e provocaram a irrupção47”. Na aldeia, a ausência da urna é provocada pela inexistência da produção
de artesanato em cerâmica, principal característica Guarani. A referência ao método e falta da cerâmica foi citada por Lorenza durante entrevista em profundidade48,
realizada um mês antes da morte de Juscelino. Lorenza teve sete filhos, dois morreram, conforme relato feito por ela:
– Eu tive mais dois, mas um morreu aos dez anos após ser atingido por um pedaço de telha na cabeça. Ele estava brincando com amiguinhos e a telha bateu bem aqui. [Ela mostra a região da nuca]. Ele morreu na hora. Depois uma menina de um ano que ficou doente e também morreu.
– A senhora os enterrou onde? Isso se a senhora quiser falar sobre o assunto.
– A gente enterrou ali no cemitério adiante. O índio Coronel é nosso compadre, porque ele ajudou muito na hora de enterrar, então ele ficou nosso compadre.
– Antigamente eram feitas urnas de cerâmica e o corpo era enterrado lá dentro na posição de feto. Foi assim também com os seus filhos? – Antigamente era assim, mas agora a gente não faz mais porque não tem mais a cerâmica. Agora usamos como o branco dentro de um caixão.
46 A informação sobre o ritual do enterramento faz parte do roteiro de visitas do Ecomuseu da Itaipu
Binacional. Para mostrar com detalhes, foi construída uma réplica do cemitério no pátio do museu, o primeiro ponto de parada dos visitantes.
47 MORIN, Edgar. O Paradigma do Perdido: a natureza humana. Lisboa: Publicações Europa –
América, Ltda. 2000. p. 22-155.
A alteração da tradição da cerâmica para a taquara e agora para os caixões de madeira foi repetida pelo pajé Luiz Coronel durante a série de entrevistas para este trabalho. Durante o enterro da mãe dele, realizado há trinta e dois anos, o costume ganhava outro recurso que não era a urna feita em cerâmica.
Ela foi enterrada quase no costume branco, mas só que os brancos usam caixão de madeira e nós a enterramos em um caixão feito de taquara. Nós fizemos uma espécie de cesto e enrolamos o corpo em um pano e colocamos ela dentro. A gente cantou cantigas durante o enterro49.
A troca da cerâmica pela taquara alerta para a realidade de que há mais de três décadas o Paraná ainda mantinha uma cobertura vegetal nativa, permitindo o uso de taquaras, mesmo material usado para a construção das cabanas indígenas. Atualmente, devido à devastação da flora, invadida pela mecanização, e a perda da tradição ceramista, pela ausência de argila nos assentamentos, Juscelino foi envolto em um caixão de madeira.
A cova atendia à disposição (sentido) do primeiro corpo enterrado há sete anos. “Não devia ser essa posição e, sim, a posição do nascer do sol”, reclamou Graciela. Para os índios, o sol não faz uma circunferência em torno da terra. O trajeto de Kuaray (sol) atende pelas seguintes disposições:
Ao meio dia no centro (arambyte). No fim do dia, vai para nhandekupére (às nossas costas), o poente, e passa por trás do mundo para nascer em
nhanderenondére (na nossa frente), no nascente. Seu percurso se dá,
portanto, em linha reta, pela frente e por trás do mundo. Reveza com Jaxy (lua), formando o dia e a noite50.
Ladeira também registra a importância que os índios reservam para o sentido das construções.
Os pontos cardeais estão associados, para os Guarani, com as regiões dos
Nhanderu ete (ou Nhee Ru ete). Essas forças que regem o mundo terreno
(yvy vai) indicam como eles devem se orientar e localizar seus bens (casa, roça, objetos pessoais), de modo a estar em sintonia com o lugar e com os movimentos de seu nhee Ru ete (pai de sua alma)51.
49 * C.
50 LADEIRA, Maria Inês. O Caminhar sob a luz: território mbya à beira do oceano. São Paulo: Ed.
Unes, 2007. il. p.110.
51 LADEIRA, Maria Inês. Espaço Geográfico Guarani – Mbya: significado, constituição e uso. Maringá,
Sobre o monte de terra, um cachimbo pequeno. O assessório era usado por Juscelino durante as rezas. Ele já participava dos rituais, em que a fumaça é soprada como forma de “afastar os maus espíritos”.
“A fumaça é para doença na terra que são os vários tipos. Os brancos usam do jeito deles para a cura e os pajés usam a fumaça e o cachimbo como símbolos de Deus”. Temos duas formas de fazer que é com a oração e com o cachimbo52.
– A oração do cachimbo, quando o senhor usa?
– O cachimbo eu uso quando estou na casa de reza [Opy] e chega a pessoa doente, eu vejo que ela não está bem. Então, eu pego o cachimbo e, através do Deus [Nhanderu], então a força de Nhanderu faz a pessoa ficar boa, forte de novo.
– Por que o uso da fumaça?
– A fumaça é para doença na terra que são os vários tipos. Os brancos usam do jeito deles para a cura e os pajés usam a fumaça e o cachimbo, é o símbolo do Deus.
– E quando utiliza a reza para curar?
– A reza é por meio do violão, do chocalho, é através do chocalho que reza. Nessa reza a gente pede para a pessoa viver bem. Para a pessoa não maltratar outra pessoa nem a própria família53.
Sobre a Casa de Reza entregue pelo Governo Federal dentro do projeto de alvenaria, com cobertura de telhas vermelhas, rede elétrica, ela sempre permaneceu fechada.