4. TAŞINMAZ İLE İLGİLİ RESMİ KURUM İNCELEMELERİ
4.5. Taşınmazın Son Üç Yıllık Dönemdeki Mülkiyet ve İmar Durumundaki Değişiklikler
A cruz usada provisoriamente será substituída por outra, após o “ritual da cruzinha”, como explica Lorenza.
Depois que a pessoa morre é feita uma cruz seguindo as explicações dadas pelo pajé. É ele que ouve o que Nhanderu diz e repassa para a gente ir fazendo a cruz. Depois que termina nós vamos na casa de reza durante 15 dias, só então colocamos definitivamente a cruz.
52 Trecho da entrevista em profundidade concedida pelo pajé Luiz Carlos Coronel. Material completo,
ver apêndice B.
Antes de chegar ao cemitério, Graciela contou que desde a morte do menino o tempo na aldeia permanecia encoberto e com chuvas somente no local do cemitério. “O pajé disse que Nhanderu está triste, e o jeito de mostrar é deixando o céu assim”. Há, também, entre os índios o temor de que a morte de uma criança seja o sinal de tempos difíceis e castigos a serem cumpridos.
A morte, para os Mbya, tem seu sentido social na medida em que é o termômetro que indica o grau de sanidade do Tekoha, que pode ser fator indicativo de novos caminhos, agindo como alerta, reafirmando as normas corretas para a conduta social. (...) Desse modo, as mortes também trazem indicações distintas se foram súbitas, trágicas, de crianças pequenas, realizadas por feitiços, por doenças etc54.
No local, a jovem mostra as cruzes colocadas. “Se a pessoa enterrada não gostar da cruz, ela joga a cruz no chão. Se isso acontecer o pajé tem de explicar como deve ser a nova cruz”.
A mesma referência sobre a presença das almas por meio de deslocamento de objetos é citada por Ladeira. A observação da autora teve como foco os índios Garani-Mbyás, no litoral de São Paulo e no Sul do Brasil. As alterações provocadas pelas almas foram citadas pela autora como acontecendo principalmente na Opy (Casa de Reza). O fato de nenhuma narrativa localizar o cemitério como local de manifestação reforça o propósito deste capítulo onde os registros feitos podem ser considerados inéditos.
As almas deixam marcas de suas visitas, por meio da transfiguração de objetos ou da alteração de seus lugares, sobretudo os de uso ritual, na opy (casa de rezas) e no elemento da natureza. Durante os rituais coletivos na
opy, especialmente por ocasião do ritual de atribuição de nomes-almas, deve
acontecer o encontro entre as almas dos vivos, dos que estão próximos ou distantes, e dos mortos55.
No cemitério onde o corpo de Juscelino foi enterrado, havia tecidos amarrados às cruzes. A largura era de cerca de quinze centímetros e, nas pontas, três dobras em pregas. O ritual, narrado a seguir por Graciela, parece ser típico da tribo:
54 LADEIRA, Maria Inês. O Caminhar sob a luz: território mbya à beira do oceano. São Paulo: Ed.
Unes, 2007. il. p.120.
55 HENNERICH, Juçara Elza. Olhares de guarani para guarani. Guarapuava: Ed. da Universidade
É o nosso costume fazer essas faixas. A família do morto é quem escolhe a pessoa que vai costurar. Eu e minha mãe fizemos quase todas. A gente vai na casa da pessoa que morreu e pega o tecido. Naquele caixão ele é vermelho com flores porque não tinha nenhuma roupa branca na casa. Como é uma mulher que foi enterrada ali, e ela é a primeira que morreu na aldeia, decidimos pegar esse tecido colorido.56
Ainda no campo visual, garrafas haviam sido colocadas aos pés da cova. O vasilhame continha água.
— Essas garrafas são para que o morto beba água quando ele está com sede. Olha, ali tem o copo cheio de água e veja que está faltando água na garrafa. Após mostrar o Campo Santo ela olha para o céu e diz:
— Viu, está chovendo, é só neste lugar, disse ao recusar-se a correr por entender que deveria respeitar o desejo de Nhanderu.
Nos túmulos, um detalhe remonta ao passado das histórias, quando os corpos mais eminentes eram colocados em canoas, ateando-se fogo e lançando a embarcação no rio. No entorno do monte de terra, onde estão enterrados os pequeninos, foram plantadas estacas em formato de arca.
Os nhee ru ete enviam as almas aos seus filhos que nasceram na terra, por ocasião do ritual do batismo dos nomes-almas. As almas (nhee) também movimentam-se, seguem o percurso até seu pai (nhee Ru), aquele que as enviou. É o apyka (peça ritual feita de cedro, com forma de canoa) que reúne
Nhanderu Kuéry (todos os Nhanderu, os nhee ru ete) na Opy (casa de rezas)
e os transporta simbolicamente entre os dois mundos57.
Observar à distância a imagem remetia a pequenas embarcações, mas no meio da floresta. Se tomarmos a frase “e os transporta simbolicamente entre os dois mundos”, é possível substituir a “vida e a morte”, como indica a autora, para a realidade atual entre o “passado e o presente”. Cravada em meio a uma área em reflorestamento, os moradores estão distantes de rios, já quase sem árvores para cortar e fabricar a apyka. Então, sem expectativa de ter esse lugar de origem e sem a Terra sem Mal, na Tekoha Añetete eles, além perseverar nessa busca, constroem essa Terra eterna.
O relatado acima, resultado de uma experiência única, até então, ganha mais contorno de registro histórico nato, quando comparado ao que relata Clasters. Ele
56 Depoimento completo de Graciela, ver DVD anexo.
57 LADEIRA, Maria Inês. O Caminhar sob a luz: território mbya à beira do oceano. São Paulo: Ed.
assegura que a busca da Terra sem Mal é “uma particularidade rara, somente encontrada na América do Sul desenvolvida exatamente entre os Tupis-guaranis58”.
Como visto no capítulo um, sobre a localização e pertencimento dos guaranis da Tekoha Añetete, ele fazem parte da mesma filiação linguística dos tupis-guaranis. Clasters também assegura que eles, os “guaranis, ocupavam um território muito vasto: ao Sul, os guaranis estendiam-se do Rio Paraguai, ao oeste, até o Litoral do Atlântico, a leste, quanto aos tupis, eles povoavam esse mesmo litoral até a foz do Amazonas, ao norte, e penetravam no interior do país a uma profundida imprecisa59”.
Apesar destes afastamentos e distância entre eles e suas respectivas regiões, Clasters afirma que eles demostravam “grande homogeneidade cultural” e que essa semelhança existia porque eles já pregavam sobre a Terra sem Mal, mesmo antes do encontro deles com os europeus e que este primeiro contato tenha acontecido. “De fato, foi com os tupis do litoral que se estabeleceram os primeiros contatos entre europeus e índios no início do século XVI. Viajantes e missionários de diversas nacionalidades deixaram sobre estes povos uma abundante literatura, rica em observações do tipo, particularmente no que se referem às crenças a aos costumes60”.
E foi ao analisar este legado que o pesquisador viu-se diante do que pode ser considerado como o nascer do discurso sobre a Terra sem Mal. Antes de adentrar a este território tão revelador se colocado, no lugar onde esta Tese aqui defendida se refere, na Tekoha Añetete, durante o enterramento de Juscelino, o Pajé Rezador revelava que a missão de explicar e manter o rito do que era ser pajé cabia ao mais velho e este o fazia por meio, única e exclusivamente da fala.
Aportados ainda no território Añetete, Seu Aleixo Bogado, 105, era o Pajé conselheiro e exercia seu poder por meio da fala, não de outro modo. Claster alerta que este Modo dos guaranis agirem, por meio da pregação da palavra sobre a Terra sem Mal é anterior à presença do branco e que também não deve ser confundida com o Xamanismo. O xamanismo, segundo Clasters, era usado pelos guaranis também, mas no terreno mais material, assegurando “coesão social61” como em outras nações
58 CLASTERS, Pierre. A Sociedade Contra o Estado. Tradução Theo Santiago. São Paulo: Cosac
Naify, 2012. p.124.
59 Ibid, p.125. 60 Ibid, p.125.
61 CLASTERS, Pierre. A Sociedade Contra o Estado. Tradução Theo Santiago. São Paulo: Cosac
indígenas, que tinham como elementos místicos, heróis culturais, mas essas semelhanças paravam ali.
...As crônicas dos viajantes franceses, portugueses e espanhóis, testemunham uma diferença tão considerável que confere aos Tupis- Guaranis uma posição absolutamente original no horizonte dos selvagens sul-americanos. Com efeito, os recém-chegados depararam-se com um fenômeno religioso de dimensão e natureza tais que eram rigorosamente incompreensíveis pelos Europeus... Que fenômenos eram esses? Além das guerras incessantes, eles eram extremante religiosos e o estranho fenômeno do profetismo”.62
Clasters demostra sua surpresa por meio do modo como reproduzir a análise, ele o faz por meio de questões levantadas por ele, seguindo das respostas. Uma espécie de lide jornalístico com: Onde? Como? Por quê? Quando? Esse profetismo, visto por meio dos documentos citados pelo antropólogo, estava no fato de os guaranis terem anunciado, por meio da palavra, que tinha como corpo a existência dessa Terra Sem Mal.
Por ser próprio somente dos guaranis que moravam na selva, Clasters definiu como “fenômeno autóctone que nada deve ao contato com o Ocidente, e que não estava, por isso mesmo, de modo algum orientado contra os brancos; tratava-se claramente de um profetismo selvagem do qual a etnologia não assinalou nenhum equivalente noutros lugares63”.
Para o pesquisador, ao ser avistada essa forma de usar a “fala, e falar era sua única atividade sobre a Terra sem Mal”, não podia ser esperada outra reação de quem os ouvia, se não fosse “a manifestação pagã do demônio e, nos artifícios desse movimento, os sequazes de satanás64”.
A definição sobre a Terra sem Mal realizada pelos índios escolhidos para essa missão e que não eram impedidos, em quaisquer territórios que entrassem ou estivessem, seja em guerra ou em rivalidade, ao contrário, eram recebidos como ‘deuses’, carregavam não só o mesmo conceito, mas a mesma convicção ouvida atualmente na Tekoha Añetete da índia Lorenza, do Pajé Rezador e dos índios mais
62 Ibid., 126. 63 Ibid., 126. 64 Ibid., 126.
velhos: A Terra sem Mal se tratava “de um discurso, para além do discurso, da mesma maneira que eles mesmos se achavam para além do social65”.
Esse pregar buscava “um mundo bom”, diferente do “mundo mau” em que eles estavam inseridos, ou então já se preparavam para ser enquadrados antevendo a chegada do descobridor. Ou ainda, queriam buscar outra terra, não aquela das guerras já travadas pelos guaranis, ou existente apenas na pena de quem escreveu sobre o “Povo Selvagem que só sabe lutar”.
Esta busca pela Terra sem Mal, segue Clasters, além de tornar o guarani único, também fez dele exemplo desta busca, resultando na perda de muitas vidas. Essa busca pregada pelos Karaí era a constatação da morte da sociedade. O pesquisador afirma que, apesar de quase dizimados e das grandes transformações enfrentadas pelos guaranis, tanto o legado como os Karai ainda resistem e seguem em busca da Terra sem Mal.
“A tudo isso convém acrescentar que o profetismo não desapareceu com os tupis do litoral”. Com efeito, eles são mantidos entre os guaranis do Paraguai, cuja última migração em busca da Terra sem Mal ocorreu em 1947; ela conduziu algumas dezenas de índios Mbyás, até a região de Santos, no Brasil.
Clasters apenas diz que a essa migração de fluxos cessou no Brasil, não sua mística. A certeza de Clasters foi vista em 2008, final da tarde, na Tekoha Añetete, onde os índios recolocados, após cinco despejos, reproduziam o ritual da Terra sem Mal no enterro de Juscelino. Sobre a covinha do menino e de todos os que lá jazem no cemitério, nasce não apenas o genuíno, mas eterniza essa busca por meio das
Apykas.
Não só a profecia se repete, como também os guaranis aprenderam a resistir por meio do próprio crer e usando o crer do outro:
— A gente coloca a cruz, não porque acredita nesse sentido que o branco acredita, mas é porque branco no estraga onde tem cruz, lembra Lorenza e a imagem mostra tanto o sentido material como imaterial do legado dos Ikaraí.
65 CLASTERS, Pierre. A Sociedade Contra o Estado. Tradução Theo Santiago. São Paulo: Cosac
Figura 7: Foto como ilustração As apikas (peça ritual feita de cedro, com forma de canoa), junto com a cruz (da crença cristã do descobridor e do colonizador) eternizam para o futuro a continuidade da Terra sem Mal. O Guarani guarda seu legado nos cemitérios, onde a inexistência deles garante a existência.
Fonte: VENDRAME, 2008