1. ASMA TANK ELEMANLARI ÖN İMALATINI YAPMAK
1.6. Tank Elemanları Yapım Aşamaları
Conheci Maria através de seu marido, Grozzi. Maria e Grozzi construíram parte de suas vidas juntos e também trabalharam no Banespa. Eles têm, ambos, cinqüenta anos e se conhecem há trinta, sendo que Grozzi trabalhou no Banespa entre 1975 e 2003 e Maria, entre 1978 e 2002. Assim, suas histórias de vida se entrelaçam. Na primeira visita à residência do casal, onde moram em uma casa de um bairro de classe média no distrito de Barão Geraldo, em Campinas, as nossas conversas envolveram a ambos através de rememorações compartilhadas entre lembranças da família, e do trabalho no banco em que enfatizavam, sobretudo, as experiências recentes do desligamento do Banespa.
Primeiramente, entrei em contato com Grozzi por telefone. A sua história me interessava, pois tinha saído, como supervisor, em um PDI - Plano de Demissão Incentivada, e fez carreira no Banespa, iniciando-a como contínuo. Todavia, conhecendo Maria, já na sua residência, vi que sua história seria um contraponto interessante à de Grozzi: primeiro, porque inscreve, à primeira vista, uma distinção de gênero; segundo, porque Maria não fez carreira no banco, permanecendo sempre como escriturária, até decidir aposentar-se ao antecipar sua saída através de uma aposentadoria proporcional com vinte e oito anos de trabalho e não com trinta, o que lhe daria direito a uma aposentadoria com tempo integral.
As experiências de Maria e de Grozzi foram apresentando distinções que me fizeram envolver-se separadamente com cada um deles. Essas distinções seriam a priori mais interessantes de serem investigadas que o compartilhamento de experiências de ambos, pois, nas conversas com o casal, as lembranças e os eventos mencionados eram evocados, subjetivamente, de formas distintas. Assim, realizei quatro sessões de entrevistas com Maria e outras quatro com Grozzi, concomitantemente, entre março e início de maio deste ano.
As narrativas de Maria e de Grozzi construíam histórias de vidas distintas nas quais cada um constituía a si no campo de experiências vivenciadas na família e no trabalho que iam se tornando para mim significativas, ainda mais quando essas se associavam à história de
Nilton, tratada no capítulo anterior, mesmo que todos eles se refiram a uma identidade banespiana como forma de adscrição.
Na minha primeira visita, Grozzi mostrou-me um texto que havia recebido dias atrás, uma mensagem eletrônica de um banespiano que a enviou para os cadastrados da Afubesp e que reproduzo a seguir:
“Caros amigos,
Entrei no site da Afubesp, para dar uma olhadinha nas coisas do Banespa. Não conhecia o novo site, pois faz algum tempo que não acessava. Curioso como sempre fui, resolvi dar uma olhada na seção ‘Colegas’ para ver se não havia algum conhecido. Encontrei muitos. Colegas das agências, do Corep24, da Afubesp, Banesprev, etc.
Encontrei também pessoas que, apesar de me serem desconhecidas, me lembraram de sentimentos que tive, tempos atrás. Indignação, dúvida, raiva e outros da mesma ordem, com relação à privatização e aos eventos subseqüentes.
Por esse motivo resolvi, depois de 03 anos, contatar todos para dar um testemunho. A maioria de vocês deve me conhecer de ouvir falar: Sergio Silva do Corep, do Banesprev, de Piracicaba, de Monte Alegre do Sul, etc.
Saí do Banespa em Maio/2001, no PDV. Passei 01 ano me desfazendo de propriedades em São Paulo e vim para Canavieiras, no sul da Bahia. Fazia 03 anos que pesquisava o estado da Bahia.
Hoje possuo o melhor restaurante da cidade, à beira-mar e empreendimentos voltados para o desenvolvimento turístico da cidade.
Minha vida nunca foi melhor, e quem me conhece sabe que sempre fui um ‘bon vivant’.
Por isso, digo o seguinte: ‘Existe muita vida depois do Banespa !’ Muita Força a todos e estou à disposição. Sempre!!! “[Grifo nosso]
Saí dessa visita, pensando o que Grozzi queria enfatizar quando me mostrou a mensagem. Fui compreendo, na medida em que construía as narrativas de Grozzi e de Maria, o que eles quiseram mostrar: como viveram e vivem hoje, convencendo-me, assim como na
mensagem, que “Existe muita vida depois do Banespa!”. Para este capítulo, construo a narrativa da história de vida de Maria25.
A infância e a adolescência
Maria passou sua infância em um bairro, à época, da periferia de Campinas. Contudo, a família de Maria migrou para Campinas quando ela tinha apenas três anos. Ela nasceu em 1954, em Cornélio Procópio, no Paraná, como informa: “Eu sou da terra dos pés roxos lá,
com muito orgulho!”.
Ela conta que seu pai e avós paternos vieram de Minas Gerais, seguindo a rota da economia cafeeira, para trabalhar nas fazendas do norte do Paraná como meeiros e não sendo bem-sucedidos nessa atividade, mudaram-se para Cornélio Procópio. Então, seu pai passou a trabalhar como comerciário, atividade que exerceu a vida toda. A sua mãe nasceu em Piraju, no Paraná, também em uma fazenda, e foi ainda menina trabalhar em Cornélio como empregada doméstica, atividade que já realizava sua avó e bisavós maternas, sendo que sua mãe sempre trabalhou como empregada e aposentou-se na profissão. Seu pai tem escolaridade primária, mas “é muito inteligente” e sua mãe é analfabeta, mas, diz Maria. “na questão do dinheiro, menino,
você não engana ela de jeito nenhum, isso não tenha dúvida!”
Seus pais se conheceram em Cornélio, num hotel da cidade no qual o seu pai trabalhava como gerente e sua mãe, como arrumadeira. Daquela época Maria não tem lembranças, mas guarda dois aneizinhos que ganhou de presente de aniversário de uma rica duquesa que se hospedou no hotel. A referência ao anel presenteado pela rica duquesa e até hoje guardado indica como Maria posiciona socialmente sua família ao situar a condição de pobreza, ainda que desde menina tentava diferenciar-se desse contexto, como enunciam os aneizinhos guardados.
Para mudar de vida, seu pai aceitou uma oferta de emprego em Campinas, em 1958, como comerciário de uma loja do Grupo Votorantim. O estabelecimento em Campinas nos primeiros tempos não foi fácil e Maria lembra a situação em que viviam na sua infância, comparando-a com a que vive hoje:
“Lembro, lembro por causa disso daí, que... os meus pais sempre foram de
conversar também, então a gente sabia que a vida era difícil, porque você ia para algum lugar, você não tinha dinheiro para gastar com nada. Natal, Papai Noel. Que Papai Noel? Você cansava de esperar Papai Noel. Você podia ficar a noite inteira ali que não ia ver Papai Noel nunca. Se você dormisse a noite inteira e você ia levantar de manhã, você nem árvore de natal não tinha, porque nem existia isso. Páscoa? Imagina...Páscoa, quase... Páscoa que eu conheço? Não é a páscoa de agora que só abre os chocolates não. Naquela época, a gente ia para a igreja, ia para a procissão de velinha na mão, que era aqui na Nossa Senhora da Vila Nova. Mas Papai Noel, essas coisas, não tinha.”
Ao fazer referência a essa situação lembra de seu irmão que compartilhou com ela as dificuldades dessa infância, mesmo que cercado de carinhos:
“Naquela época, eu ia para o parque, para a escola, o Carlos não tinha idade
para ir para a escola, nem para o parque ainda. O meu pai levava ele para o serviço. Sabe aquelas caixas d’água da Eternit? O meu pai forrava, colocava ele ali, ali ele dormia, ali ele comia, ali ele fazia xixi, ali ele fazia tudo. ...E as pessoas ali, todo mundo que entrava, ai, o Carlinhos. Era só ele abrir a boca que já tinha um lá, ou um vendedor ou um cliente ou um peão e estava carregando cimento e estava num horário de tranqüilidade, ia lá, pegava ele, sabe? Então ele foi muito paparicado pelos outros. Cliente chegava lá, Nossa Senhora, não tinha quem chegasse... Então ele ficava nessa caixa, na Eternit, ficava lá o dia inteiro.”
Para situar a posição social de sua família, de migrantes em Campinas, Maria conta que sua mãe era a empregada doméstica e os outros, os ricos, eram os patrões. Tal como a duquesa que lhe dera os aneizinhos no Paraná, os patrões de sua mãe também lhe davam não propriamente presentes, mas o complemento da comida diária de sua família:
“Então, como eles [refere-se a um casal de patrões de sua mãe] tinham filhos,
daí a vida já começou a melhorar um pouco, porque, vamos supor, se lá tinha um arroz, lá tinha um feijão, se lá tinha uma fruta, sabe? Então, a minha mãe, vamos supor: ‘Olha, [cita o nome de sua mãe], a sua sobremesa hoje vai ser uma banana!’. Então, ela sabia que tinha dois filhos, então praticamente a minha mãe trazia a sobremesa dela embora para casa.”
A sua família vivia em uma pequena casa de fundos de sala, quarto e cozinha, e pagava aluguel até se mudar anos mais tarde para uma casa financiada pelo Governo em um bairro de periferia. Assim ela lembra:
“... E naquela época, era um quarto, uma sala e uma cozinha, não tinha nada
nisso aí. Meu pai pegou, conseguiu arrumar uma porta, colocou janela, colocou a janela na cozinha, pintou tudo de azul, era cal, naquela época, pintou-se a casa com um pinguinho de azul,
aquele azul[frisa], assim, para dar ‘oi’, por dentro tudo branco, aquele vermelhão no chão,
que... com parafina, aquela cera e tal. Virou outra casa e tinha escovão, já fomos comprar escovão. Aí, eu lembro que eu ia escovar, o Carlos sentado encima do escovão, e a gente ia escovar aquela casa. E mudamos [para o bairro de casas populares], mas pelo menos meu pai
dormia no quarto, meu pai, minha mãe e minha irmã; meu irmão na sala, dormia no sofá; eu dormia na cozinha, mas naquela cama de abrir e fechar. Mas a gente tinha uma mesa, um fogão, tinha uma cozinha, a sala... a sala, eu lembro perfeito, era um sofá-cama aqui, a máquina de costura da minha mãe...”
Da infância, Maria lembra que freqüentava a escola e a igreja católica de seu bairro. Ela fez a primeira comunhão, foi catequista e participou da irmandade de filha de Maria. Sobre a igreja, ela conta:
“Eu sempre morei aqui na Vila Nova. Então, tem a Paróquia da Nossa Sra. das Graças ali, é essa daqui, olha [mostra a imagem da santa que está pendurada em um correntinha em seu pescoço] Eu sou devota dela. E aí fiz a primeira comunhão ali, meu irmão também fez, vínhamos todos os domingos na igreja e, depois da igreja, tinha as filhas de Maria, que agora tem, mas é tão pouquinho... e a gente ficava depois da missa, porque a gente tinha catecismo. Aí eu já tinha de seis para sete... mais, porque eu já estava na escola, eu tinha de oito para nove anos já. Cheguei a ser [filha de Maria], fui catequista, fui. Aí a gente fez a primeira comunhão, eu tenho fotos também que mostra.”
A escola é mencionada por Maria como uma boa lembrança. Na verdade, a escola pública era um lugar em que podia complementar a sua alimentação diária, e aprender valores cívicos:
“Nossa, você chegava na escola, bom, para começar, tinha o parque infantil, eu
adorava ir no parque infantil, porque no parque infantil você come como criança. Em casa você tinha refeição, mas era, assim, precário, ou você almoçava, mas você não sabia se ia jantar, por isso que eu falo que eu não passei fome, mas eu passei necessidade e vontade, porque fome, os meus pais, graças a Deus, nunca deixou a gente passar. Sempre tinha um arroz novo, um arroz e um tomate. Sou pobre, mas detesto ovo e tomate. Tomate, eu ainda como, mas ovo... aí a gente ia
para a escola. A escola era legal, porque você chegava, você tinha... era obrigatório cantar o Hino Nacional, certo? E depois cantar o Hino da Escola. Mas era assim, você... era afinado.”
A escola foi o lugar, assim como na Igreja, onde aprendeu valores que foram construindo na infância a sua visão de mundo sobre a pátria, a família e também sobre o trabalho. Tais valores, para ela, não se encontrariam presentes hoje nas relações sociais, trazendo à tona a idéia da perda. Não por acaso, é assim que lembra o quanto gostava das aulas e da professora de Educação Moral e Cívica:
“Nossa, Educação, Moral e Cívica, como isso faz falta na escola de hoje. Naquela
época, você aprendia tudo o que era moralidade, qual era o seu limite, o que era patriotismo, civismo da pessoa, dignidade, porque hoje ninguém tem mais, é assim, poucas pessoas que têm. Então, lá, a gente aprendia mesmo, a gente tinha uma professora, ela dava música e ela dava Educação Moral e Cívica. Daí a gente se esbaldava, porque nós fizemos parte da aula de música e depois ela juntava mesmo, nós nem saíamos da sala, porque o povo adorava ela. E ela ensinava as músicas. As músicas eram Hino à Bandeira, Hino Nacional, o Hino da Escola, algumas músicas que ela dava para a gente, por exemplo, Dia das Mães, você apresentava, cantava, música de Páscoa, música de Natal, essas coisas que ela fazia para nós.”
Maria mostra-se, nas suas lembranças, como uma menina comportada e obediente na escola e na família:
“... Eu ganhei até medalha [na escola]. Ganhei, ô... Eu sempre soube ser uma
criança muito educada, sabe? Nunca fui uma criança bagunceira. Tinha os meus repentes, como toda criança, mas eu, na sala de aula, era perfeito, isso eu vou falar, era perfeito mesmo.... Eu sempre tive um bom comportamento, meus pais nunca foram chamados lá para fazer qualquer coisa, então os meus cadernos sempre foram caprichados. Não tinha letra, assim, lindésima, mas a minha letra era redondinha, caprichadinha, o meu caderno não tinha uma orelhinha, mas também nunca fui de florzinha, sabe? Porque eu não sei desenhar até hoje.”
A menina religiosa e comportada também tinha que trabalhar em casa. Sua mãe trabalhava fora e Maria fazia os serviços domésticos e cuidava de seu irmão e depois de sua irmã, doze anos mais nova que ela – “eu cuidei dela como cuido até hoje”, brinca. Naquele momento, sua mãe avaliou que era preferível que ela continuasse trabalhando fora como empregada doméstica e ela, a filha mais velha, ficasse cuidando da casa, já que não teria como encontrar
trabalho e ganhar o mesmo salário que a mãe. Maria cuidava de seus irmãos menores na ausência de sua mãe e era valorizada por isso na vizinhança:
“Eu tinha uma vizinha, que era costureira, a Dona Paulina, e ela tinha dois
filhos, um casado e um solteiro. E eu tinha o quê? Já, os meus treze, quatorze anos. Então, o que
ela fazia? A hora que ela via aqueles lençóis no varal, aquelas roupas, então ela falava para a minha mãe: ‘Miriam, olha, eu tenho dois filhos maravilhosos, mas eu queria ter uma filha igual a sua’. Via aqueles lençóis limpinhos, roupa lavada, o chão encerado... a gente colocava jornal, sabe, no chão, para não sujar. Então, como a gente sabia mais ou menos a hora da minha mãe chegar, meu irmão lá da rua, aí todo mundo entrava para dentro. Ficava brincando na rua a tarde inteira, a hora que chegava a hora que a gente sabia que a turma do parquinho estava saindo, daqui a pouco, minha mãe estava chegando em casa. Então já vinha todo mundo, tomava banho... tomava banho? Lavava a roupa, lavava a mão, arrumava assim e tinha um banco em frente de casa, ficava meu irmão, falava assim: ‘A mãe vem vindo!’ Aí ele ia lá, recolhia os jornais, dobrava direitinho para ela entrar, a casa estar brilhando, maravilhosa. A minha mãe era brava, viu?”
A menina trabalhadeira também tinha seu tempo de brincar na rua, às vezes assistir televisão na casa do vizinho alfaiate, a única a ter o aparelho na sua rua, e passear com os seus pais nos fins de semana quando iam ao cinema e nos parques públicos, atividades de lazer baratas de famílias nas mesmas condições que a dela. Isso lhe trazia muito contentamento, como rememora:
“Cinema, que a gente pegava o bonde ali na Avenida Brasil; depois o bonde
acabou, acho que 65, 66, mais ou menos e, para a gente economizar, que da Vila Nova que ia até a cidade era puxado para a gente ir. Chegava lá, assistia jogo, sabe, esses filmes assim, Dom Quixote, sessão de desenho, então tinha um monte de desenho, aí vinha embora para casa contente e feliz. Aí tinha domingo que a gente ia para a lagoa, a Lagoa do Taquaral. Era perto e não era essa lagoa bonita que é agora, mas o meu pai pegava a varinha de pescar, eu não sei pescar, mas era um divertimento para a gente. Então a gente saía de casa, então a gente ia para a lagoa e lá ele pescava.... pescava? Ficava lá, e ele ficava lá, e a gente pegava amizade com a família do lado, não sei o quê, com a família do lado direito, aí já começava, deixava a vara para lá, já ia correr no meio das árvores, brincar de esconde-esconde, brincava de pega, sabe?
E era muito legal, ele chegava: ‘Vamos embora?’ ‘Vamos embora, aí pegou muito peixe?’ ‘Oh, pegamos nada, não deu muito peixe’. Que nada, nem a varinha a gente pegava.”
Mas o importante é compreender o que Maria está demonstrando em sua narrativa quando fala de sua infância. Ela procura frisar sua condição de pobreza para situar sua origem ao mesmo tempo em que procura diferenciar-se dessa condição através de suas ações guiadas pelos valores éticos e morais construídos na escola, na igreja e na família.
Assim, Maria conta uma história de como, naquele contexto, conseguia ser a menina mais bem vestida da vizinhança. Depois de cuidar dos serviços domésticos e de seus irmãos, ela ainda ajudava sua vizinha, que era costureira, fazendo pequenos trabalhos, como dobrar retalhos, apanhar linhas e agulhas do chão, e arrumar cozinha. Em retribuição, a costureira fazia suas roupas, tal como o fazia para as meninas de famílias ricas, lembrando:
“Ela me fez um vestido cor de rosa para eu ir numa festa de casamento junto
com ela, que cor de rosa bonito, rapaz! Tinha, usava uns apetrechos, que era um cinto que pegava bem aqui, no quadril, com uma fivela dourada lindésima, aquilo tinha como se fosse militar, sabe, os fatores dourados aqui, uma lapela como se fosse bolso, mas era bolso falso, dois botões, nossa... Aquilo [refere-se ao vestido]... Nossa! Eu parecia, nossa! Ia ser o máximo, uma filha de madame mesmo! Então a retribuição dela para mim era isso daí e eu achava ótimo, eu jamais me importei. E eu lavaria quantas louças fossem preciso, eu ficaria de quatro no chão de novo para catar todas as linhas, sentar naquele chão e dobrar todos aqueles retalhos de novo. Eu faria tudo de novo.”
Maria era religiosa, trabalhadeira e comportada na escola. Por isso a sua mãe tinha um sonho para ela, o de que fosse professora. Assim, Maria justifica o desejo de sua mãe:
“Como ela não sabia ler, nem escrever, então, acho que era uma maneira dela,
por exemplo, dela ter uma filha que pudesse fazer isso pelos filhos dos outros, você está entendendo?”
Todavia, um evento importante mudou os rumos da vida da menina. Maria, após fazer o exame de admissão para ingressar no antigo ginásio, freqüentou a primeira série do antigo ginasial e repetiu o ano letivo em Inglês. A repetência causou-lhe indignação e vergonha e ela, aos doze anos, decidiu abandonar a escola à revelia dos pais. A repetência foi a primeira decepção de Maria com o mundo que a cercava, com a escola e a professora que não ouviram a menina que se esforçava para cuidar da casa e criar os irmãos ao mesmo tempo em que estudava,
tal como queria a mãe. O abandono da escola foi um ato de rebeldia, representando uma ruptura com a sua herança familiar e a escola:
“Eu acho que isso [a repetência] aí me deixou muito triste, porque eu não me
conformava, você está entendendo? Porque eu, uma brasileira, repetir por causa do Inglês, uma língua que não era a minha, então eu não me conformava. Eu fui lá conversar com a professora, eu fui. ‘Você entende? Mas, Maria José, não é possível, eu não posso repetir, isso não pode, meio ponto, meio ponto não é nada, numa língua que não é minha. Você tem que ter... E olha só,