O procedimento metodológico utilizado para a realização da situação investigativa I foi inspirado na metodologia da pesquisa de Leboeuf e Borges (2002) sobre a gravidade como ação à distância (esse estudo compõe o domínio ontogenético deste estudo). Esses pesquisadores utilizaram a entrevista semiestruturada (perguntas abertas e estruturadas), organizada na sequência previsão, observação e explicação. Segundo os autores, nesse tipo de estruturação,
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as entrevistas são organizadas seguindo essa sequência de ações. Primeiro, os sujeitos pesquisados são convidados a fazer previsões sobre situações relacionadas ao objeto da pesquisa colocadas pelo pesquisador. Em seguida, é oferecida uma situação experimental (um acontecimento que conduz ao objeto da pesquisa) para que os participantes possam observar e explicá-lo. Consideram este tipo de entrevista “particularmente interessante”, pois, a partir da análise das previsões e explicações apresentadas pelos sujeitos da pesquisa, podemos obter informações relevantes sobre o pensamento conceitual dos sujeitos.
Neste estudo, foi incorporada a representação gráfica com desenho à sequência previsão-observação-explicação utilizada por Leboeuf e Borges (2002). O desenho como registro gráfico foi considerado como linguagem simbólica importante para ampliar a explicitação e a interpretação do pensamento conceitual das crianças. Vergnaud (1985) diz que um conceito remete a muitas situações, procedimentos e representações (linguagens) e, reciprocamente, uma situação remete a muitos procedimentos, representações e conceitos.
O pensamento conceitual de uma criança se processa, portanto, através de um conjunto amplo e variado de situações, as quais remetem a uma gama de conceitos, procedimentos e a muitos tipos de representações e múltiplas linguagens. Na sua teoria interativa de conceitos, o autor dá destaque especial às representações, incluindo as gráficas, que deixam de ser apenas um subproduto das estruturas cognitivas e passam a ser fundamentais para a descrição psicológica dos conceitos. O acréscimo do desenho configurou-se como uma ação a mais para a criança refletir e ampliar sua conceitualização.
A entrevista semiestruturada (perguntas abertas e estruturadas), desse estudo foi organizada na sequência previsão-observação-explicação-representação/desenho. Para cada momento dessa sequência, algumas perguntas foram estruturadas, enquanto as outras surgiam no diálogo em contexto dialógico com as crianças, considerando o que dizem Souza e Castro (2008, apud CRUZ, 2008, p. 59) quando explicam a entrevista como produção de linguagem:
A entrevista, no âmbito de uma dada pesquisa, se configura no espaço de construção de sentidos ou de produção de linguagem entre sujeitos organizados socialmente a partir de um enquadramento relacional específico.
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A situação investigativa I foi desenhada em uma entrevista semiestruturada na seguinte sequência: previsão-observação-explicação-representação/desenho. Em cada item da sequência, algumas perguntas da entrevista foram estruturadas.
Antes da pesquisa oficial, essa estruturação metodológica foi experimentada em uma pesquisa piloto realizada na Escola F e em outras atividades experimentais realizadas em outras duas escolas de Fortaleza, mostrando-se bastante eficaz. No momento da previsão, foi indagado o que as crianças previam que iria acontecer com um objeto após ser largado ou ser lançado por uma pessoa. No momento da observação, as crianças realizavam e observavam a ação com o objeto (soltavam e lançavam o corpo) e, no momento da explicação, as crianças, em roda de conversa, explicavam o que aconteceu no momento da observação, expressando o seu pensamento, as suas ideias acerca da queda do objeto. No momento da representação com desenho, especificidade deste estudo, as crianças desenhavam, conversavam e explicitavam seus pensamentos. Nesse momento, foi concluida de modo reflexivo, a realização da situação investigativa I, que durou cerca de 30 minutos, para não cansar as crianças.
A situação investigativa I foi pensada e organizada baseando-se em uma queda de objeto, realizada e provocada pelo contato físico da criança com esse objeto. Na situação denominada de A, a criança segurou e soltou um objeto. Na situação denominada de B, a criança segurou e lançou (jogou para cima) um objeto. Ou seja, o ato de a criança soltar e lançar corpos compõe a situação investigativa I. Nas duas situações, A e B, seguindo a estrutura metodológica, cada criança realiza as seguintes ações: faz previsões sobre a queda; realiza (solta e lança) e observa a queda do objeto; dá explicações e, por fim, desenha uma queda.
O bloco escolhido era de madeira e leve, no formato de paralelepípedo (com altura de quatro centímetros, largura de dois e meio centímetros e profundidade de dois e meio centímetros), na cor verde. Esse bloco é uma peça de um jogo de construção muito usado pelas crianças. As características desse objeto lúdico (especialmente a familiaridade) foram consideradas na sua escolha, para não desviar a atenção das crianças para a exploração do mesmo. Como esse bloco ia ser jogado para cima, foi pensada, também, a questão da segurança para as crianças, de modo que o bloco não provocasse acidente quando lançado.
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Detalhamento da Situação A: soltar o bloco
MOMENTO DA PREVISÃO – Em cada um dos Grupos A e B separadamente, as quatro crianças foram convidadas a sentarem em cadeiras, uma ao lado da outra. A ordem das crianças para falar as suas previsões foi escolhida pela sequência das cadeiras nas quais estavam sentadas (da direita para a esquerda ou o contrário). Em pé e com o braço estendido, segurei o bloco na mão e perguntei ao grupo: “Se eu soltar esse bloco, o que vocês acham que acontece com ele?”. Escutei cada criança responder sem fazer perguntas ou comentários. Convidei-as para que elas mesmas soltassem o bloco, uma de cada vez.
MOMENTO DA OBSERVAÇÃO – A sequência das crianças para soltar o bloco (uma por vez) teve o mesmo procedimento de escolha anterior. A criança da vez foi convidada a ficar de pé, segurou o bloco na mão e, com o braço estendido, soltou o bloco da sua mão. Observei cada criança soltar o bloco sem fazer perguntas ou comentários. Ao final, agradecia-lhes e convidava-as para sentarem à mesa.
MOMENTO DA EXPLICAÇÃO – Sentada à mesa com as crianças, expliquei que iríamos conversar sobre o que aconteceu quando elas soltaram o bloco e que eu queria ouvir o que cada criança pensava. Falo para elas que não existe certo nem errado, o importante é cada uma falar o que pensa. A metodologia utilizada foi a entrevista semiestruturada desencadeada a partir dessa pergunta que gerou um diálogo aberto: “Vocês seguraram e soltaram o bloco, agora eu quero que vocês me digam: o que aconteceu com o bloco quando vocês soltaram ele?”.
As respostas das crianças a essa pergunta inicial gerou todo o diálogo, e as minhas perguntas fluíam a partir das colocações delas. Também foram feitas, em vários momentos, perguntas estruturadas, para melhor apreender as concepções de
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gravidade das crianças: “Por que as coisas caem? Por que cai? Tudo cai? Que coisas caem? Há alguma coisa que não cai? Por que não cai?”.
No desenrolar dessa entrevista-conversa com crianças, foram considerados alguns critérios básicos da pesquisa, que tem como foco a escuta da criança: não dirigir ou influenciar as respostas dadas pelas crianças, escutar atentamente para compreender suas respostas, encaminhando o diálogo em dialogia com a questão da pesquisa. Finalizado esse momento, convidei as crianças para outra atividade: o lançamento do bloco (Situação B).
Detalhamento da Situação B: lançamento do bloco
MOMENTO DA PREVISÃO – As crianças voltaram para as cadeiras e, em pé, com o braço estendido, segurei o bloco na mão, fiz a pergunta ao grupo: “Se eu lançar, jogar esse bloco para cima, o que acontecerá com ele?”. Escutei as crianças responderem sem fazer perguntas ou comentários e, ao final, convidei as crianças para lançarem o bloco.
MOMENTO DA OBSERVAÇÃO – Entreguei um bloco para uma criança de cada vez12 e pedi que ficasse de pé segurando o bloco com a mão e, com o braço estendido, jogasse o bloco para cima. Repeti o mesmo processo com cada uma, enquanto as outras ficaram sentadas assistindo. Observei cada criança soltar o bloco sem fazer perguntas ou comentários. Ao final, agradeci e convidei as crianças para sentarem à mesa para conversarmos.
MOMENTO DA EXPLICAÇÃO – Sentada à mesa com as crianças, expliquei que iríamos conversar sobre o que aconteceu quando elas lançaram o bloco para cima e que eu queria ouvir o que cada uma pensava. Falei que não existe certo nem errado, o importante é cada uma falar o que pensa. A seguir, a entrevista foi desencadeada com uma pergunta inicial que gerou um diálogo aberto: “Vocês jogaram o bloco para cima, agora eu quero que
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vocês me digam: o que aconteceu com o bloco quando vocês jogaram ele para cima?”.
As respostas das crianças geraram todo o nosso diálogo, e as minhas perguntas fluíam a partir das colocações delas. Também foram feitas, em vários momentos, as perguntas estruturadas para apreender as concepções de gravidade das crianças: “Por que cai? Tudo cai? Que coisas caem? Há alguma coisa que não cai? Por que não cai?”.
Como na Situação A, no desenrolar da nossa entrevista-conversa dessa situação, foram considerados os cuidados básicos da pesquisa, que tem como foco a escuta da criança.
MOMENTO DA REPRESENTAÇÃO GRÁFICA COM DESENHO – Finalizada a conversa anterior com as crianças, convidei-as para desenhar sobre a queda de alguma coisa. Esse momento tinha como objetivo a representação gráfica com desenho como outra linguagem que expressa o pensamento das crianças, estimula e possibilita outras verbalizações das suas concepções, tanto durante o desenho como na explicação do mesmo. As crianças continuaram sentadas à mesa. Entreguei uma folha de papel branca de tamanho A4 e um estojo com doze canetas hidrográficas coloridas e solicitei que cada criança fizesse um desenho de alguma coisa caindo. Relembrei que elas soltaram e lançaram o bloco e que tínhamos conversado sobre isso. Enfatizei que elas podiam escolher qualquer coisa para desenhar caindo, inclusive, se elas preferissem, podiam desenhar o bloco caindo. O importante era desenhar algo caindo e que cada uma podia desenhar “do seu jeito”. Esclareci ainda que, se elas quisessem, podiam conversar com os colegas e comigo enquanto desenhavam. Quando as crianças aceitaram conversar, participei do diálogo, ouvindo e mediando com perguntas que levavam as crianças à reflexão sobre suas conceitualizações. À medida que cada criança concluía o seu desenho, foi solicitado que ela apresentasse para os colegas e para mim, mostrando o que desenhou caindo e explicando por que está caindo.
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