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Müberra Bülbül

1.1. Tanıtım ve Halkla İlişkiler

Terra da minha Pátria. Abre-me o seio Na morte ao menos

Almeida Garrett É com essa epígrafe, retirada da parte XVI do Canto Décimo do poema Camões, do poeta português Almeida Garrett, que Ferreira Itajubá inicia o longo poema Terra Natal. Essa obra de Garrett, publicada em 1825, é considerada o marco inicial do movimento Romântico em Portugal e retrata a vida de Luís Vaz de Camões, em especial, o momento de produção e publicação de Os Lusíadas.

Antes de Itajubá, também Casimiro de Abreu, poeta do Romantismo brasileiro, servira-se dos mesmos versos garretianos como epígrafe ao seu poema “No lar”. Nesse poema, temos um eu-lírico que esteve longe de sua pátria (assim como o eu-lírico de Terra

Natal), e que, ao reencontrá-la, passa a relembrar o passado vivido em sua terra. Entre as

lembranças recordadas estão os lugares da infância, como a casa em que viveu, alguns elementos da natureza, como a cachoeira e o laranjal, e a família, em específico a mãe e as irmãs. A maioria desses temas também é abordada nos cantos de Terra Natal e a presença dessa epígrafe, antes do início dos cantos, cumpre o papel de anunciar a vinculação dos temas da obra a uma tradição romântica que tem o sentimento de saudade telúrica como fio condutor. Desse modo, a presença da epígrafe é um primeiro elo que vincula Terra Natal duplamente à tradição romântica, tanto à portuguesa quanto à brasileira.

Dando continuidade a apresentação da estrutura de Terra Natal, após a epígrafe aparece o “Preambulo”, uma prosa poética, na qual se explica a origem da história narrada na obra, que foi a da lenda de Branca. Essa prosa é assinada por “Manuel Virgílio Ferreira Itajubá”, o autor do livro. Em seguida, tem-se um poema introdutório, não numerado e não intitulado, de cunho metalinguístico, que funciona como uma espécie de apresentação da obra, no qual o eu-lírico saúda a sua mãe e sua terra natal, bem como apresenta alguns dos temas que serão retratados ao longo dos cantos. Só então, após o Preâmbulo e o “poema introdutório”, é que se inicia propriamente a história do eu-lírico exilado, de cunho lírico- narrativo, cujo enredo desenrola-se por 34 cantos de estrofes variadas.

Entendemos que o enunciador da prosa poética e o eu-lírico do poema são duas entidades diferentes; sendo o eu-lírico do poema introdutório o mesmo dos cantos, só que em momentos diferentes. Provavelmente, o poema não numerado foi escrito após os cantos, ou seja, após o retorno do eu-lírico à sua terra. O enunciador da prosa foi quem criou a personagem masculina, o noivo de Branca, que é o protagonista da história narrada nos trinta e quatro cantos. Chega-se a essa conclusão a partir da leitura dos primeiros cantos. Outra explicação seria a diferenciação entre quem é Branca para o enunciador da prosa poética, apenas uma lenda, e para o eu-lírico protagonista, sua noiva.

No que diz respeito ao enredo, desenvolvido no decorrer dos cantos, Terra Natal apresenta-se como uma expressão lírica do relato da trajetória de um eu-lírico exilado. De acordo com a sequência de acontecimentos narrados, podemos agrupar os cantos nos seguintes blocos temáticos: a despedida da mãe, do roseiral e do laranjal tomam espaço, respectivamente, nos cantos I, II e III; a viagem da terra natal para o exílio no Amazonas é descrita nos cantos IV, V e VI; a chegada ao Amazonas e as condições da estadia sofrida no exílio são descritas a partir do canto VII ao XXV; a esperança de retorno à terra natal é expressa nos cantos XXVI e XXVII; no canto XXVIII, temos a descrição da viagem do retorno, e a partir do canto XXIX até o canto XXXIV, o eu-lírico descreve o retorno à sua terra natal.

A maioria dos cantos parece missivas que o eu-lírico escreve para Branca, a sua noiva, para contar os seus padecimentos durante o exílio. Os outros cantos, como os cantos iniciais e finais, possuem interlocutores diferentes de Branca, mesmo que o eu-lírico não deixe de citá- la. O poema introdutório é remetido à mãe e à terra natal; já os cantos de despedida I, II e III são dirigidos, respectivamente, à mãe, ao roseiral e ao laranjal. Após retornar do exílio, do canto XXVIII ao XXX, o eu-lírico saúda a terra natal, no XXXI louva a terra e a sua mãe, e descreve o reencontro com o laranjal e o roseiral, respectivamente nos cantos XXXII e XXXIII.

Observamos que Terra Natal possui traços tanto das essências do lírico, do épico e do dramático, mas há uma diferenciação no grau da ocorrência dos traços de cada gênero, ocorrendo a predominância da “essência” do lírico em primeira instância, do épico em segunda, e uma sutil presença da essência do dramático. Nesse caso, Terra Natal participa, em maior escala, dos gêneros lírico e épico e, em menor escala, do gênero dramático, mas há uma presença mais nuclear da “essência” do lírico em comparação com as demais, sendo assim, a obra pertence ao “ramo” da Lírica.

Os conceitos de “essência” e “ramo” foram propostos por Emil Staiger (1975), na obra

Conceitos fundamentais da poética, e parecem ter resolvido o dilema da tripartição fechada

dos gêneros, ao estabelecer a diferenciação entre a conceituação “substantiva”, que se refere aos “ramos”, e “adjetiva”, que seria a “essência”. Segundo ele, “os substantivos Épica, Lírica, e Drama são usados em geral como terminologia para o ramo a que pertence uma obra poética considerada, globalmente, segundo características formais determinadas” (STAIGER, 1975, p. 185), enquanto que os adjetivos lírico, épico, dramático, caracterizariam as três essências possíveis de uma obra e a predominância de uma dessas essências determinaria a qual ramo a obra pertence.

A predominância da essência do Lírico, em Terra Natal, configura-se através da musicalidade, do apego ao passado, da dependência entre as partes e da expressão do estado d’alma de um Ser que geralmente é projetado em elementos do mundo, principalmente na natureza. Essa projeção é resultado da estreita relação entre o eu-lírico e o mundo, que por consequente tende a expressá-lo de forma mais emotiva e subjetiva. Essas reflexões líricas estão dispostas num enredo, que relata a história de um eu-lírico que necessita se exilar do aconchego de sua terra para viver num local estranho. Desse modo, o desenrolar de um enredo e a grande extensão da obra constitui-se uma aproximação à essência do Épico. A presença de tensões entre o eu-lírico e Branca, em alguns momentos da obra, aproxima-a do gênero dramático, mesmo que timidamente.

Após a explanação desses aspectos mais estruturais da obra, deter-nos-emos em questões sobre o enredo da obra, em específico, realizaremos inferências sobre as possíveis motivações que levaram o eu-lírico a se exilar.

3.1.1 Possíveis motivações para o exílio do eu-lírico

Ha dois annos, cumprindo o mysterioso fadario Ferreira Itajubá Ao lermos atentamente todas as partes que compõe Terra Natal, não encontramos passagens que explicitem as causas que motivaram o exílio do eu-lírico. O que sabemos é que a viagem foi forçada e que não foi ao encontro dos anseios do eu-lírico, pois ele lamenta profundamente o fato de deixar sua terra e seus entes mais estimados – a mãe e a noiva Branca – bem como a natureza telúrica, metonimicamente representada pelo roseiral e pelo laranjal.

Mesmo não estando claramente explícito no texto, há pelo menos alguns indícios que nos ajudam a compreender as possíveis causas dessa viagem forçada, como o local de embarque do eu-lírico ─ a cidade de Natal – e de desembarque, o Amazonas: “No Amazonas cheguei” (ITAJUBÁ, 1914, Canto VII, p. 22). A partir desses dados e nos voltando para o contexto no qual a obra foi produzida, entre o fim do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, podemos empreender algumas inferências para esclarecer as causas que motivaram a viagem do eu-lírico, assim como a escrita da história por Ferreira Itajubá.

No período citado, ocorria um forte movimento migratório de diversos nordestinos, inclusive norte-rio-grandenses, para a região amazônica. Muitos desses migrantes iam para estados como Amazonas, Pará ou Acre, fugindo da seca que castigava diversos estados da região nordeste26 do Brasil. Os migrantes buscavam não só melhores condições de vida, como também a oportunidade de trabalhar no ciclo da borracha, uma atividade que estava em ascensão naquela época na região amazônica.

Como exemplo dessa migração, podemos destacar aquela realizada por cearenses para a Amazônia, tema estudado por Franciane Gama Lacerda (2006), no artigo “Entre o sertão e a floresta: natureza, cultura e experiências sociais de migrantes cearenses na Amazônia (1889- 1916)”. Nesse artigo, Lacerda se propõe a compreender a imagem bucólica e idealizada que os migrantes cearenses construíram de sua terra natal, no período entre 1889 a 1916, momento que esses tiveram que deixá-la em busca de melhores condições de vida na região Amazônica, em específico no estado do Pará.

Para realizar sua análise, Lacerda utilizou como corpus a coluna “Jornal dos Estados”, do jornal paraense “Folha do Norte”. Essa coluna funcionava como meio de comunicação entre os migrantes e sua terra natal, o Ceará. Através dela, os migrantes ficavam informados sobre o que ocorria no Brasil, sobretudo, no Nordeste. Esse mesmo espaço era utilizado pelos poetas exilados para cantarem sua terra através de seus versos, como foi o caso dos cearenses Rocha Moreira e Juvenal Galeno e do norte-rio-grandense Alípio Bandeira.

Lacerda destaca que um desses poetas, Rocha Moreira, utilizava em suas produções a metáfora “aves de arribação” para se referir aos migrantes nordestinos. Essa mesma expressão é título do romance naturalista do autor cearense Antônio Sales, Aves de arribação (1913),

26 Vale salientar que, na época em que ocorreu essa migração, todo o território que corresponde, atualmente, às regiões Norte e Nordeste do Brasil era chamado apenas de Norte, conforme a afirmação de Margareth Rago ao prefaciar a obra A invenção do Nordeste e outras artes (2011), do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr.: “Até meados da década de 1910, o Nordeste não existia.” (2011, p. 13). Segundo Albuquerque Jr. (2011, p.81) “O termo nordeste é usado inicialmente para designar a área de atuação da Inspetoria Federal de Obras contra as Secas (IFOCS), criada em 1919”. E a partir dessa denominação a região Nordeste passou a ser reconhecida como um espaço de peculiaridades que se distinguia da região chamada de Norte.

que retratou o “pesadelo da seca e da imigração” (BOSI, 2006, p. 195) vivenciado por cearenses do final do século XIX e da primeira década do século XX. Essas aves também compuseram o título de dois poemas de Ferreira Itajubá, a quadra “Aves de arribação” e o soneto “Ave de arribação”, ambos presentes na obra Harmonias do Norte (1927). Na quadra, o eu-lírico, também na situação do exílio (tema recorrente na poesia de Itajubá) parece observar as aves migratórias partindo para outros lugares em busca de melhores condições de vida, assim como fizeram muitos nordestinos:

Rôlas que longe Buscaes pousada, Si acaso virdes A noiva amada, Dáe-lhe lembranças, Beijos que eu mando Da terra estranha, Pombas de bando [...]

Que, quase morro Do coração, Por não ser ave De arribação.

(ITAJUBÁ, 1927, p. 100) No trecho citado, o eu-lírico chega a invejar as aves e lamenta por não ser uma delas e assim poder retornar a sua terra quando julgasse necessário. Esse mesmo desejo é expresso no soneto “Ave de arribação”, onde lemos: “[...] Que anceio/ De ser aza emigrante e fugir pelos ares”. Mais adiante, na quadra, o eu-lírico chega a estabelecer uma relação entre as aves e o sertanejo que emigra:

Ai, passarinhos Dos meus pezares, Que, pela secca, Mudaes de lares [...]

Que o sertanejo, Que o pão não tem Deixa a cabana, Parte também!

Outra obra que retratou o tema da seca e da migração foi o romance Dona Guidinha

do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva, que, apesar de ter sido escrito por volta de 1851, só foi

publicado cem anos depois, em 1951 (BOSI, 2006, p. 195). Nesse romance, lemos:

O pobre emigrava como as aves, que vivem ambos do suor do dia. Eram pelas estradas e pelos ranchos aquelas romarias, cargas de meninos, um pai com o filho às costas, mães com os pequenos a ganirem no bico dos peitos chuchados. (PAIVA, 1997, p.32-22)

Como podemos observar, o contexto das grandes secas e da consequente migração em busca de melhores condições de vida pelos nordestinos foi um drama vivenciado por muitos deles no fim do século XIX e início do XX. Em virtude desse fato, muitos autores escolheram o tema para retratá-lo. Dessa forma, cogitamos a possibilidade de Ferreira Itajubá também ter sido motivado a escrever Terra Natal com base nesse contexto.

Essa possibilidade também foi cogitada por Câmara Cascudo, no capítulo do livro

Alma Patrícia, dedicado a Ferreira Itajubá:

Nada mais natural e commum entre nós, os nortistas, do que estes amores, embalados apenas, e que o noivo segue atraz da miragem do ouro amazonico [...]. De 1877 a 1910, milhares de nordestinos, rumaram esta Colchida, na esperança de vello de ouro da abastança. Rara, ainda hoje é, a familia que não possue membros, vivendo ou morrendo improficuamente, na região do Amazonas, “o inferno verde”, a terra previlegiada da Borracha, do Ouro e da Morte.

Ferreira Itajubá, mui naturalmente, escolheu para théma, o facto que era commum e banal aos seus patricios.

(CASCUDO, 1921, p. 123) No trecho citado, Cascudo mostra que a miragem amazônica criada naquela época enfeitiçou milhares de nordestinos, de diversos estados da região Nordeste, inclusive do Rio Grande do Norte. A Amazônia encantava através da sua natureza exuberante e chegou a nutrir ilusões de um enriquecimento fácil através da exploração da borracha e do ouro.

Como resultado, muitos dos migrantes vivenciaram momentos de extrema necessidade, como fome, sede e falta de abrigo, além das doenças que contraíram e da exploração que sofreram pelos donos dos seringais e garimpos, que deixaram os migrantes ainda mais pobres do que quando chegaram. Em alguns momentos de Terra Natal, o eu-lírico

menciona a situação de necessidade por ele enfrentada na terra do exílio, como na estrofe seguinte, do Canto XXXII:

Caridade não ha; pois tenho padecido Fome e sêde, e sei como é viver mal vestido, E passar na existencia uma semana inteira Pobre de pão na bolsa e agua na cantareira!

(ITAJUBÁ, 1914, p. 93) Esses acontecimentos deixaram os migrantes numa situação ainda mais difícil, longe da família e sem apoio, muitos não conseguiram retornar à sua terra de origem, como ressalta o próprio Cascudo: “Rara, ainda hoje é, a familia que não possue membros, vivendo ou morrendo improficuamente, na região do Amazonas” (CASCUDO, 1921, p. 123).

Provavelmente, Itajubá, observando essa situação vivenciada na época por várias famílias, sentiu-se motivado a escrever sobre um tema comum ao contexto social em que estava inserido. É o que cogita Cascudo: “Ferreira Itajubá, mui naturalmente, escolheu para théma, o facto que era commum e banal aos seus patricios.” (CASCUDO, 1921, p. 123). O jornalista e político Henrique Castriciano, na coluna “Palestras”, da edição de 30 de maio de 1908, do jornal “A Republica”, também compartilha de pensamento semelhante, ao afirmar que: “o seu poema é a história sentimental da gente pobre da Paraíba, do Ceará e deste Estado; a tristeza de quem, não podendo ganhar a vida em sua terra, emigra deixando mulher e filhos.” Outro autor que concordou com Cascudo (1921) e Castriciano (1908) foi Nilo Pereira (1956, p. 41), ao ressaltar a presença na obra de Itajubá das dores coletivas da sociedade a qual fez parte:

Um poeta como Ferreira Itajubá traz consigo a mensagem autenticamente do povo, as vozes dos sofrimentos coletivos, das esperanças frustradas, dos ideais humildes, uma existência inteira de ansiedades e perplexidades de que os versos são o refúgio menos de um homem do que da multidão.

Observado esse contexto e a argumentação dos autores, é plausível sugerir que a migração dos nordestinos para a região Amazônica provavelmente tenha sido a causa do exílio do eu-lírico de Terra Natal e a motivação para Ferreira Itajubá escrever a obra, independentemente de ter sido ou não uma experiência particular vivenciada pelo autor. Dessa forma, mesmo que a história relatada na obra se apresente como um drama individual do eu- lírico, ela também possui um cunho social coletivo, tendo em vista que a situação vivenciada

por ele era comum a diversos indivíduos não só do Rio Grande do Norte, mas também de outros estados da Região Nordeste, como foi o caso da Paraíba e do Ceará.

Na seção a seguir, apresentaremos uma possível leitura da estruturação do enredo, entendendo que este foi estruturado através de cartas escritas pelo eu-lírico que tinham como destinatários sua noiva Branca, sua mãe e sua terra natal.

3.1.2 A estruturação do enredo a partir da troca de cartas

Deus queira que esta carta orvalhada e tristonha Chegue no rancho antigo e te encontre risonha

Ferreira Itajubá Como dissemos no Capítulo 2, a liberdade de criação proposta pelo Romantismo, em específico a mistura de gêneros, valorizou a presença de mais de um gênero numa mesma obra literária. No caso de Terra Natal, temos não só a presença dos três gêneros literários ─ lírico, épico e dramático ─ em diferentes graus de ocorrência, mas também, podemos observar a presença, mesmo que sutil, do gênero carta.

No período do Romantismo, foi constante a presença das cartas como elemento interno do romance, gênero que já surge híbrido. A carta perpassou as obras desde o pré- romantismo alemão, em Os sofrimentos do jovem Werther (1774), de Goethe, passando pelo Romantismo português em Amor de perdição (1862), de Camilo Castelo Branco, e pelo Romantismo brasileiro, a exemplo dos romances Cinco minutos (1856) e A Viuvinha (1860), de José de Alencar.

No caso do romance de Goethe, as cartas de Werther para o seu amigo Wilhelm constituem a estrutura do romance epistolar, pois é através delas que a história é narrada. Em

Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, as cartas trocadas entre Simão Botelho e

Teresa de Albuquerque aproximam os dois amantes, que foram distanciados pela impossibilidade de seu amor. Porém, as cartas, nesta última obra, não são elementos tão fundamentais quanto foram para o romance de Goethe, pois no romance do autor português as cartas são apenas um dos elementos do enredo. Em Amor de Perdição, as cartas aproximavam os amantes, assim como permitiam o estabelecimento de uma comunicação entre eles e se constituíam como uma forma de expressar o que sentiam um pelo outro, como podemos ver na primeira carta do romance:

Meu pae diz que me vai encerrar n’um convento, por tua causa. Soffrerei tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-has no convento, ou no ceo, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome has de responder á tua pobre Teresa. (BRANCO, 1864, Capítulo II, p. 21)

O primeiro romance de José de Alencar, Cinco Minutos, é estruturado como se fosse uma grande carta à “D...” , prima do narrador. Nessa carta, o narrador conta como conheceu Carlota, mulher pela qual se apaixonou perdidamente, e todos os acontecimentos pelos quais passaram para ficarem juntos: “É uma historia curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma historia, e não um romance.” (ALENCAR, 1860, p. 99)

Em outro romance de Alencar, A Viuvinha, a estrutura da narrativa é praticamente a mesma, inclusive a carta é escrita pelo mesmo narrador de Cinco minutos que a endereça a sua mesma prima “D ...”. Como bem percebe Karin Volobuef, “Tanto Cinco Minutos como A

Viuvinha são constituídos, cada um, por apenas uma única carta que abarca o texto inteiro”

(VOLOBUEF, 1999, p.184). A diferença estrutural entre os romances é a mudança no foco narrativo, uma vez que, em A Viuvinha, é em terceira pessoa, e, em Cinco minutos, em primeira pessoa.

No caso de Terra Natal, o eu-lírico relata as notícias de sua situação no exílio, incluindo sua viagem e sua estadia na terra estranha. Muitos desses cantos podem ser compreendidos como uma carta, na forma de versos, que foram remetidas para Branca, em sua maioria, ou para outros entes queridos do eu-lírico, como a sua mãe e a natureza de sua terra. Em diversos trechos dos cantos, ficam perceptíveis as marcas que demonstram a ocorrência de uma correspondência entre eles. No trecho a seguir, o eu-lírico faz menção a uma carta que ele enviou para Branca:

Deus queira que esta carta orvalhada e tristonha Chegue no rancho antigo e te encontre risonha

Benzer Belgeler