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3.2.1 Prólogo, Preâmbulo...

Pede o uso que se dê um prólogo ao Livro, como um pórtico ao edifício; e como este deve indicar por sua construção à que Divindade se consagra o Templo, assim deve aquele designar o caráter da obra.

Gonçalves Magalhães O termo prólogo advém da tradição do antigo teatro grego, é a primeira parte da tragédia, na qual era exposto o seu tema, e podia ser estruturado na forma de monólogo ou diálogo. No Romantismo, era uma prática comum a presença de prólogos nas obras literárias, seja antecedendo os versos, seja antecedendo a narrativa ficcional.

O prólogo, geralmente, era escrito na forma de prosa pelo autor e o seu conteúdo apresentava os temas a serem retratados na obra, bem como comentários sobre a forma e explicações do próprio autor sobre a composição, assim como nas tragédias gregas. Tratando especificamente das obras da Literatura Romântica Brasileira que apresentam prólogos, podemos destacar Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves Magalhães, consagrado marco inicial do nosso Romantismo, assim como Primeiros Cantos, de Gonçalves Dias, As

Primaveras, de Casimiro de Abreu, Espumas Flutuantes, de Castro Alves, e os romances de

José de Alencar, O Guarani e Iracema.

Se consultarmos um dicionário da época do Romantismo, como o Diccionario da

Lingua Brasileira, de Luiz Maria da Silva Pinto (1832), no verbete “prologo”, encontraremos

o seguinte significado “principio de Livro, etc. Preambulo”. No caso de Terra Natal, Ferreira Itajubá não utilizou “prologo”, mas o seu sinônimo “Preambulo” para intitular a prosa que antecede o início da história.

Seguindo o pensamento de Tarcísio Gurgel, esse Preâmbulo, além apresentar as origens da produção da obra, mostra todo o ideário romântico ao qual ela se vincula:

[...] longa prosa poética que introduz o enredo de Terra Natal [...] é uma espécie de resumo de todo o ideário do movimento romântico. Nela, utilizando-se dos principais elementos da escola para descrever a natureza, Itajubá, sem necessariamente citar nomes, alude à obra de vários dos grandes escritores do Romantismo brasileiro (Alencar, Cassimiro de Abreu, Álvares de Azevedo [...] (GURGEL, 2001, p. 51, grifo do autor)

O “Preambulo” possui quatro páginas com numeração em algarismos romanos. De cunho metalinguístico, o enunciador inicia o texto explicitando a origem da história do livro: “Este livro originou-se de uma lenda que me referiram, quando menino, ao ruido de uns coqueiros da riba mar.” (ITAJUBÁ, 1914, p. I). Ao sabermos que a lenda de Branca motivou a produção da história, ficamos na expectativa de que ela será a protagonista, porém, ao lermos os cantos que compõem a obra, percebe-se que a história é narrada e protagonizada pela personagem masculina, o noivo, que viaja para o Amazonas deixando Branca e os entes da família em sua terra. De toda forma, o Preâmbulo nos indica que a história narrada em

Terra Natal teria sido baseada numa lenda ouvida pelo enunciador na sua infância, no

ambiente em que ele nasceu e viveu, o litoral da cidade de Natal.

Ao descrever o palco de sua infância, o litoral potiguar, o enunciador insere, entre aspas, uma passagem do romance Iracema: lenda do Ceará, de José de Alencar:

E porque não hei de amar o isolamento das planicies arenosas se nellas passei os dias alegres da meninice, brincando nas dunas prateadas que si desemrolam de Parahyba até á costa luminosa “onde a jandaia canta na fronde da carnaúba”? (ITAJUBÁ, 1914, p. II, grifo do autor)

Essa passagem, em destaque, está no primeiro capítulo do romance, com algumas alterações: “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da

carnaúba” (ALENCAR, 1865, p.1, grifo nosso). Como podemos ver, Itajubá, ao se valer da

passagem de Iracema, fez as seguintes alterações: pôs a oração na ordem direta, primeiro o sujeito depois verbo, e realizou a flexão para o singular, “frondes da carnaúba”, ficou, então, “fronde da carnaúba”. Essa pequena diferença pode ter ocorrido porque a citação foi feita, provavelmente, através do uso da memória, sem consulta à obra de Alencar, não sendo, por consequência, uma transcrição literal do trecho; ou ainda, tal modificação pode ter sido proposital pelo enunciador, para adaptá-la ao contexto em que foi inserida.

Uma passagem semelhante à citada pode também ser encontrada em “Como tenho vivido”27 (1910), que analisamos no Capítulo 1 deste trabalho. Comparando a passagem do texto biográfico – “brinquei nos lençóis alvadios que se estendem da Paraíba até a costa cearense” – com o trecho do “Preambulo”, percebe-se que a expressão “costa cearense” é substituída por “costa luminosa” e é acrescentada a referida passagem do romance Iracema. Ao realizar essa substituição é como se o enunciador reconhecesse o romance Iracema como a história da criação do Estado, através da “lenda do Ceará”, proposta por José de Alencar,

tendo como fim fundamentar a lenda de Branca que o enunciador da prosa poética propõe no Preâmbulo.

A paisagem descrita pelo enunciador localiza-se à beira mar e é caracterizada pela presença de coqueiros, areia alva e dunas. Essa natureza é também caracterizada como inconstante, que maltrata a pátria de Branca e do enunciador do texto:

De volta, mais tarde, ás margens verdenegras do rio amigo, a saudade das choupanas que então me hospedaram, despertou-me a recordação das alegrias e desgostos de BRANCA, a pobre filha da terra onde nasci e em cujo soffrimento o meu coração viu um symbolo da dor de nossa patria commum, tão maltratada pela naturesa inconstante.

(ITAJUBÁ, 1914, p. I) Caracterizar a natureza como inconstante significa expressar seus dois momentos díspares, a escassez e a fartura, que são provocados pela presença ou ausência do estio. Na passagem seguinte, podemos observar a ilustração desses dois momentos: “A villa a que me refiro é muito aprazivel e fertil, quer as chuvas renovem as folhas que o estio levou, quer o estio desbote as folhas que as chuvas reverdesceram” (ITAJUBÁ, 1914, p. III).

Ora verde, frondosa e alegre, ora cinzenta, seca e triste. Essas são as duas configurações que a natureza assume. Ora provocando alegria nos habitantes da vila nos tempos de colheita – “então nesse tempo, as praieiras cantam mais satisfeitas, ao trinado das violas dolentes, encordoadas para os louvores sacros e para as toadas primitivas da aldeia” (ITAJUBÁ, 1914, p.III) –, ora provocando tristeza nos momentos de estio ou ainda refletindo o desalento que maltrata o enunciador ao relatar a morte de Branca através de “ramos seccos e as flores murchas” e do “vento choroso”, como podermos observar na seguinte passagem:

O tempo, demoliu ha muito a cruz poeirenta com que a piedade christã lhe assignalou a cova rasa que o laranjal ensombrou até cahir a derradeira folha e o roseiral perfumou até seccar o derradeiro espinho.

E, sobre essa mesma argilla que recolheu os ramos seccos e as flores murchas, um homem construiu um abrigo para agasalhar a prole feliz, rodeado de quixabeiras, de vinagreiras fructiferas ao halito desse vento choroso que sibila nas plumas do coqueiral e, á noite, apaga as lamparinas das povoações amigas...

(ITAJUBÁ, 1914, p. IV) Nessa passagem, há o relato de como a natureza ficou após a morte de Branca. Os ramos secos, as flores murchas e o vento choroso expressam uma natureza ressequida e sem

vida, em contraste com aquela descrita quando Branca era viva. Além disso, podemos relacionar essa inconstância da natureza à inconstância do amor. Nos cantos, poderemos observar que o casal, o eu-lírico e Branca, desfrutou tanto de momentos prazerosos e felizes juntos no passado, como também sofre a dor da separação na situação do exílio.

Além da natureza, o enunciador descreve os elementos humanos fortemente ligados ao mar. São eles os pescadores, barqueiros, marujos e os marinheiros que aportavam na região. Segundo lemos no texto em análise, coube, principalmente, aos pescadores locais difundir as lendas entoadas na região, pois, naquela época, eles “narra[va]m lendas remotas do oceano e lembra[va]m visões que, constantemente, apavoravam aqueles retiros” (ITAJUBÁ, 1914, p. I). Mais adiante, os pescadores reaparecem no texto sendo chamados de “homens rudes que lançam os tresmalhos e tripulam as embarcações” (ITAJUBÁ, 1914, p. II). Essa denominação de “homens rudes” aproxima-se da noção do “bom selvagem” de Jean-Jacques Rousseau, versão do primitivismo valorizado pelo Romantismo. Essa expressão caracteriza um ser ainda não tocado pela civilização e que por isso mantém seus traços mais espontâneos e puros. Dessa forma, é mais atraído e apegado à terra e às suas tradições, por isso serem eles os responsáveis por difundir as lendas locais.

Segundo Itajubá, essas eram “lendas cuja idade ninguem sabe dizer, tradições que passam de descendencia a descendencia, quantas e quantas veses repetidas nas festas populares e nos serões” (ITAJUBÁ, 1914, p. I). Essas lendas encantavam e procuravam explicar alguns fatos ocorridos na região, em que pouco se conhecia ou, poderíamos dizer, até mesmo se desconhecia o estudo científico presente em outras sociedades que passaram por um diferente processo civilizatório. Os serões, nos quais eram contadas as lendas, farão parte da recordação do eu-lírico exilado mais adiante no decorrer da história, em específico no canto XVIII. Logo após ao trecho referido, o enunciador chega a citar algumas daquelas lendas que ouviu:

Lembro-me ainda que foi no pontal de Aguamaré onde me fallaram, pela primeira vez, da sereia de cabellos loiros, que extasia os navegantes com a melodia dos seus cantares; da mãe d’agua, que arrebata as crianças nos banhos marinhos, na plaga oriental; e de uma barca perdida, cujos marinheiros, de semblantes tostados, contavam, enxugando a lagrima tepida da nostalgia, debaixo das latadas de pesca e dos ranchos cobertos de hera, os episodios curiosos dos amores que trouxeram das velhas terras lusitanas. (ITAJUBÁ, 1914, p.II, grifo nosso)

No trecho citado, o enunciador enumera três lendas. A primeira, a lenda da “sereia de cabellos loiros”, que enfeitiçava os navegantes com seu canto, que, provavelmente, seria uma variação da lenda da Iara; a segunda, a lenda da “mãe d’água”; a terceira, da “barca perdida”.

Esse percurso, por essas três lendas típicas de sua terra, introduz a explicação da lenda principal, que teria inspirado a elaboração de Terra Natal; trata-se da lenda da noiva que morreu de saudade:

BRANCA morreu de saudade. Tendo apenas deseseis annos quando o noivo partiu para o exilio, nunca mais o seu sorriso alentou outro sorriso; e quando não poude mais resistir adormeceu para a morte no mesmo canto em que, á luz de outras eras, lhe desabotoaram os lyrios da paixão que se transformou em martyrio. (ITAJUBÁ, 1914, p.III)

Nessa passagem, o enunciador resume a lenda de Branca, uma jovem moça de dezesseis anos que viu o noivo partir para o exílio e morreu de saudade esperando ele voltar. O triste fim de Branca aponta para o fantasioso, típico da própria lenda, que apresenta um cunho mais popular e que serviu de fonte para escritores do Romantismo, como foi o caso de José de Alencar ao escrever o seu romance Iracema. Desse modo, podemos estabelecer uma relação entre o fim de Branca e o fim de Iracema, pois a personagem também morreu de saudade esperando seu amado Martim.

Em outra parte do “Preambulo”, o enunciador demonstra seu apego à terra, o orgulho de nela ter nascido, o privilégio de nela morar e assim poder desfrutar de uma natureza exuberante de árvores frutíferas, belas roseiras e belas praias: “formosas são, por exemplo, Maracajaú, Petitinga, Rio das Garças, Santo Alberto e sobretudo Tres Irmãos” (ITAJUBÁ, 1914, p. II).

Para enfatizar seus laços com a terra, enobrece-a ainda mais por ter sido o chão de origem de seus pais, também norte-rio-grandenses: “Minha mãe soltou o primeiro lamento ás brisas saudaveis de Morrinhos, neste Estado; meu pae que tambem era rio-grandense do norte vivia da industria da pesca”. Incluindo esse dado, que coincide com a biografia de Itajubá, o enunciador reforça sua vinculação à terra, iniciada não propriamente ao nela nascer, mas num tempo ainda mais antigo, perdendo-se em sua ascendência.

A predileção pela “solidão” começa a ser expressa no seguinte período: “Eu amo extraordinariamente a solidão tristissima dos lençóes que forram as espumas salgadas” (ITAJUBÁ, 1914, p.II), continua no período nestes termos: “E porque não hei de amar o isolamento das planicies arenosas” (idem) e se prolonga até o outro parágrafo: “Como é doce viver nesses logares desertos, arredados do bulicio quotidiano das ruas” (idem). No primeiro período, o enunciador confessa amar a solidão, no segundo, afirma amar o “isolamento”, no terceiro, confessa gostar de viver nos lugares desertos, por estarem longe do barulho das ruas. Esse culto à solidão se apresenta, possivelmente, como uma necessidade que o artista possui

de se isolar da sociedade para conseguir refletir acerca dela. Esse tema é uma constante na Literatura e pode ser observado, por exemplo, no soneto “A um poeta”, do poeta parnasiano Olavo Bilac, que se inicia com os famosos versos: “Longe do estéril turbilhão da rua,/ Beneditino escreve!” (1996, p. 21)

Com relação à linguagem utilizada pelo enunciador, percebemos que as construções caracterizam-se pelo excesso de adjetivações e superlativos, como no período citado anteriormente: “Eu amo extraordinariamente a solidão tristissima dos lençóes que forram as espumas salgadas” (ITAJUBÁ, 1914, p. II). No trecho citado, a inserção do advérbio de modo “extraordinariamente” hiperboliza a forma que ele ama a solidão dos lençóis, que, por sua vez, não é apenas uma solidão “triste” e sim “tristíssima”.

Essa linguagem cheia de excessos em que se apresenta a prosa poética do “Preambulo” expressa a intensidade das emoções e do sentimentalismo típicos do espírito romântico.

Muitos dos períodos que compõem o “Preambulo” apresentam-se sem pausas e parecem ser entoados quase que sem fôlego, nos quais a oração principal se perde no meio de tantas subordinadas, como no trecho a seguir:

Ah! quantas tristezas se alvoroçam no coração do peregrino inflammado no amor do solo natal e da familia, na lembrança nostalgica das areias que o mar sacode no regaço dos comoros enxutos, dos morros que se desfiguram na rampa das aguas salças, agitadas, quasi sempre, pelo sul tempestuoso, na eterna tortura desta parte abrasadora do tropico. (ITAJUBÁ, 1914, p. I) Na parte citada acima, a oração “quantas tristezas se alvoroçam” apresenta duas complementações: “no coração do peregrino” e “na lembrança nostálgica das areias”, que ainda se desdobram em mais outras, pois o coração do peregrino é “inflammado no amor do solo natal e da família” e a lembrança nostálgica das areias foi sacudida no regaço “dos cômoros enxutos” e no regaço “dos morros [...]”. Além disso, o uso de interjeição “Ah” e de exclamações em várias partes do texto expressam uma exaltação e um entusiasmo ao descrever seu berço natal.

Esse tipo de construção poética, típico da expressividade romântica, associa o enunciador a escritores de meados do século XIX. Muitos desses escritores, por meio dessas expressões de linguagem flagrantemente excessivas, pareciam não acreditar que a linguagem ordinária fosse capaz de exprimir seus arrebatados sentimentos, acrescentando, portanto, diversos complementos e apostos a tudo que diziam. O que percebemos no texto analisado é que o enunciador apresenta uma visão de mundo romântica que se configura não só no ponto

de vista idealizador e enaltecedor, a partir do qual enxerga a sua terra, mas também através da linguagem em que se exprime.

Após a análise do “Preambulo”, realizaremos, na próxima seção deste capítulo, um comentário analítico sobre o poema que nomeamos de introdutório, no qual ressaltaremos os principais aspectos temáticos e formais do Romantismo presentes.

3.2.2 Poema introdutório – Um prenúncio dos cantos

A tudo volta bela primavera,

– Só este inverno da alma não se acaba – Só eu não passo nunca do que era.

Ferreira Itajubá O poema introdutório, que se estende das páginas 2 a 6 da edição de 1914 é composto, principalmente, por versos dodecassílabos, mas também apresenta alguns versos hexassílabos, e ao contrário dos cantos, não possui título e nem numeração. As rimas entre versos dodecassílabos são emparelhadas enquanto que os hexassílabos são brancos.

Nesse poema, a voz do eu-lírico se dirige à sua mãe e à sua terra, a cidade de Natal. Considerando esses dois interlocutores, poderíamos dividir o poema em duas partes: a primeira, na qual o eu-lírico exalta a figura materna; e a segunda, na qual ele louva a terra. Essa divisão também pode ser demarcada através de três asteriscos presentes na página 4, que delimitam a mudança de interlocutor. Na última estrofe do poema, a décima, o eu-lírico tanto se dirige à sua terra, nos seis primeiros versos, como a sua mãe, nos oito versos seguintes. Assim, podemos considerá-la como uma estrofe de síntese das duas partes do poema.

A primeira estrofe do poema é iniciada com o eu-lírico oferecendo seu livro a sua mãe:

Roxa saudade viuva, alma desta alma amiga, Estende as tuas mãos e no teu collo abriga O livro que te offerto, o poema da tristura; Escuta-o com desvello e beija-o com ternura, Como o padre ao missal.

[...]

(ITAJUBÁ, 1914, p. 2) Nesse trecho, o eu-lírico se dirige à sua mãe por meio do vocativo “roxa saudade viúva”. A inclusão da palavra “roxa” tem a finalidade de simbolizar o luto pelo qual a sua

mãe sofre, em virtude do falecimento de seu esposo, pai do eu-lírico, que podemos observar mais adiante, no nono verso da quarta estrofe: “Teu pai quando era vivo aqui, neste degredo” (ITAJUBÁ, 1914, p. 2).

Essa simbologia que atribui o luto à cor roxa advém de uma tradição cristã e, segundo Gilberto Freyre (1986, p. 122) remete ao “luto aliviado” e significa que a perda do ente querido ocorreu há mais de um ano, enquanto que a cor preta, mais comumente associada ao luto, é utilizada para simbolizar o “luto a rigor” ou “luto fechado”, no primeiro ano da morte. Relacionando à mãe do eu-lírico, o fato de ele se remeter a ela pela cor roxa, não só nesse poema, como também mais adiante, no canto VIII, no qual ela vai ser chamada de “roxa dália”, significa que a morte de seu pai ocorreu há mais de ano.

Essa é primeira menção a uma simbologia religiosa cristã de muitas que aparecerão no decorrer desse poema, assim como estão presentes em outros cantos de Terra Natal, como iremos observar. Esse uso de simbologias e analogias cristãs para construir as metáforas e comparações é uma das características do Romantismo em contraposição com uso da mitologia pagã utilizada pelos arcadistas brasileiros.

Essa parte da primeira estrofe apresenta um tom de oferenda, pois o eu-lírico pede a sua mãe que abrigue, escute e beije seu livro “como o padre ao missal”. Ao fazer esse pedido, ele equipara o seu livro a um elemento religioso, o missal, livro no qual estão contidas as orações que são feitas no decorrer da missa.

No terceiro verso, é atribuído ao livro o epíteto “poema da tristura”, que foi mais tarde utilizado por Joaquim Inojosa (1962) para intitular um artigo sobre Itajubá, que já comentamos, anteriormente, ao tratarmos da fortuna crítica do poeta. Esse epíteto pode ser melhor compreendido se avançarmos até a sexta estrofe, que é iniciada pelo vocativo “Mãe”, pois essa estrofe possui um teor metalinguístico, ao trazer um comentário sobre o tom de tristeza que caracteriza o livro:

Mãe, tu que sempre foste o meu sonho dilecto, O meu ditoso enlevo, o meu sagrado affecto, Não penses que ha prazer no meu livro dorido. Em cada verso delle ouvirás um gemido, Triste como a canção do passaro agoureiro, Ou como o funeral do vento no salgueiro, Depois que a noite cae

[...]

O tom de tristeza do livro é expresso nessa estrofe através de uma gradação que se inicia no terceiro verso como “meu livro dorido”, seguindo pelas estrofes seguintes “gemido”, “canção do pássaro agoureiro” e “funeral do vento no salgueiro”.

Na continuação da primeira estrofe, o eu-lírico reconhece o que a mãe fez por ele para depois começar a evocar momentos de sua infância: “noites fulgurantes/ da minha meninice”, nos quais a presença materna foi intensa. Em seguida, começa a recordar momentos vividos com ela:

[...] Muito por mim fizeste Na terra, mãe querida. – O meu corpo envolveste Em faixas de alvo linho, e psalmos suavisantes Cantaste ao descambar das noites fulgurantes Da minha meninice.

Ah! Como inda me lembro De um beijo que me deste ao pallor de dezembro, “E ao cingir tua carne eu te disse baixinho: “Como é brando o teu beijo e suave o teu carinho”.

Benzer Belgeler