1. KOSTÜM VE AKSESUAR
1.1. Tanı mları
Com a promulgação da Convenção Internacional de Direitos da Pessoa com Deficiência, por meio do Decreto nº 6.949 de 2009, nos moldes do art. 5º, §3º, da Constituição Federal96, reconhece-se o primeiro, e atualmente único, tratado de Direito Internacional com
status constitucional presente no ordenamento jurídico brasileiro.
Essa Convenção, embora haja muito a ser feito, trouxe uma série de transformações substanciais no tratamento conferido à pessoa com deficiência, por exemplo, servindo de paradigma para o desenvolvimento da Lei Brasileira de Inclusão, assunto que será tratado
94 BRASIL. Disponível em: <http://aempreendedora.com.br/wp-content/uploads/2017/04/Manual-
Diagn%C3%B3stico-e-Estat%C3%Adstico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5.pdf>. Acesso em: 02 nov. 2017, p. 20.
95 Que dizem respeito a atitudes oriundas de preconceito e estereótipos, que, em alguma medida, limitam o exercício
de direitos das pessoas com deficiência.
96 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos es-
trangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em
cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equiva- lentes às emendas constitucionais.
adiante.
Art. 1o É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência
(Estatuto da Pessoa com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania.
Parágrafo único. Esta Lei tem como base a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, ratificados pelo
Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo no 186, de 9 de julho de
2008, em conformidade com o procedimento previsto no § 3o do art. 5o da
Constituição da República Federativa do Brasil, em vigor para o Brasil, no plano jurídico externo, desde 31 de agosto de 2008, e promulgados pelo Decreto no6.949, de 25 de agosto de 2009, data de início de sua vigência no plano interno.
(grifou-se)
Em seu art. 3º, a Convenção enuncia alguns princípios relevantes para o direcionamento deste estudo, a saber:
a) O respeito pela dignidade inerente, a autonomia individual, inclusive a liberdade de fazer as próprias escolhas, e a independência das pessoas; b) A não-discriminação;
c) A plena e efetiva participação e inclusão na sociedade;
d) O respeito pela diferença e pela aceitação das pessoas com deficiência como parte da diversidade humana e da humanidade;
e) A igualdade de oportunidades; f) A acessibilidade;
g) A igualdade entre o homem e a mulher; [...]
Dos princípios apresentados, destaca-se a igualdade de oportunidades, que se relaciona com o princípio da isonomia, previsto no art. 5°, caput, da CF. Tais princípios também direcionam a aplicação do Direito Penal, o que inclui a execução da medida de segurança. Nesse sentido, acrescenta o art. 4º que, além da vedação aos atos discriminatórios, deve-se buscar a revogação de dispositivos normativos que contrariem esses princípios.
Art. 4º: 1. Os Estados Partes se comprometem a assegurar e promover o pleno exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência, sem qualquer tipo de discriminação por causa de sua deficiência. Para tanto, os Estados Partes se comprometem a:
a) Adotar todas as medidas legislativas, administrativas e de qualquer outra natureza, necessárias para a realização dos direitos reconhecidos na presente Convenção;
b) Adotar todas as medidas necessárias, inclusive legislativas, para modificar ou revogar leis, regulamentos, costumes e práticas vigentes, que constituírem discriminação contra pessoas com deficiência;
c) Levar em conta, em todos os programas e políticas, a proteção e a promoção dos direitos humanos das pessoas com deficiência;
d) Abster-se de participar em qualquer ato ou prática incompatível com a presente Convenção e assegurar que as autoridades públicas e instituições atuem em conformidade com a presente Convenção; (grifou-se)
Assim também enuncia o art. 5° pela igualdade de proteção e de direitos perante a lei, segundo o qual "os Estados Partes reconhecem que todas as pessoas são iguais perante e sob a lei e que fazem jus, sem qualquer discriminação, a igual proteção e igual benefício da lei".
O tratado estabelece ainda que os Estados que a ele se submeterem deverão proporcionar mecanismos que contribuam para a realização concreta do acesso à justiça por parte das pessoas com deficiência. Podemos citar como exemplo o uso de tecnologias assistivas97 e a
presença de intérpretes nas audiências.
Art. 13: 1. Os Estados Partes assegurarão o efetivo acesso das pessoas com deficiência à justiça, em igualdade de condições com as demais pessoas, inclusive mediante a provisão de adaptações processuais adequadas à idade, a fim de facilitar o efetivo papel das pessoas com deficiência como participantes diretos ou indiretos, inclusive como testemunhas, em todos os procedimentos jurídicos, tais como investigações e outras etapas preliminares.
[...]
A Convenção também trata especificamente dos casos de privação de liberdade da pessoa com deficiência. Assim como para as demais pessoas, nestes casos, qualquer cerceamento de liberdade deve estar de acordo com os dispositivos legais. Outro ponto importante salvaguardado pelo artigo é a vedação a qualquer privação de liberdade fundamentada apenas na deficiência. Por fim, destaca o dispositivo que, em caso de supressão da liberdade, o indivíduo deverá ser custodiado em local com adaptação razoável a sua condição.
Art. 14: 1. Os Estados Partes assegurarão que as pessoas com deficiência, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas:
[...]
b) Não sejam privadas ilegal ou arbitrariamente de sua liberdade e que toda privação de liberdade esteja em conformidade com a lei, e que a existência de deficiência não justifique a privação de liberdade.
2.Os Estados Partes assegurarão que, se pessoas com deficiência forem privadas de liberdade mediante algum processo, elas, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, façam jus a garantias de acordo com o direito internacional dos direitos humanos e sejam tratadas em conformidade com os objetivos e princípios da presente Convenção, inclusive mediante a provisão de adaptação razoável. (grifou-se)
Quanto ao art. 15, destaca-se a previsão sobre o dever do Estado de pensar e realizar, em todas as esferas e Poderes, penas e tratamentos que não sejam cruéis e degradantes.
Art. 15: 1. Nenhuma pessoa será submetida à tortura ou a tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. Em especial, nenhuma pessoa deverá ser sujeita a experimentos médicos ou científicos sem seu livre consentimento. 2. Os Estados Partes tomarão todas as medidas efetivas de natureza legislativa, administrativa, judicial ou outra para evitar que pessoas com deficiência, do mesmo modo que as demais pessoas, sejam submetidas à
tortura ou a tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. (grifou-se)
Do art. 19, por sua vez, depreende-se que o Estado tem o dever de promover a inclusão da pessoa com deficiência na vida comunitária e de ofertar tratamentos minimante invasivos, que não suprimam o direito do indivíduo de definir como deve ser sua rotina, isto é, tratamentos desenvolvidos precipuamente fora do confinamento, ideal que se coaduna com a orientação disposta no art. 4º da Lei 10.216/0198.
Art. 19: Os Estados Partes desta Convenção reconhecem o igual direito de todas as pessoas com deficiência de viver na comunidade, com a mesma liberdade de escolha que as demais pessoas, e tomarão medidas efetivas e apropriadas para facilitar às pessoas com deficiência o pleno gozo desse direito e sua plena inclusão e participação na comunidade, inclusive assegurando que:
[...]
b) As pessoas com deficiência tenham acesso a uma variedade de serviços de apoio em domicílio ou em instituições residenciais ou a outros serviços comunitários de apoio, inclusive os serviços de atendentes pessoais que forem necessários como apoio para que as pessoas com deficiência vivam e sejam incluídas na comunidade e para evitar que fiquem isoladas ou segregadas da comunidade;
[...] (grifou-se)
Por fim, destaca-se o art. 25, que trata do direito à saúde da pessoa com deficiência, trazendo a ideia de regionalização do atendimento, isto é, que o indivíduo seja tratado o mais próximo possível do seu local de convivência, integrando a comunidade à própria terapêutica.
Art. 25: Os Estados Partes reconhecem que as pessoas com deficiência têm o direito de gozar do estado de saúde mais elevado possível, sem discriminação baseada na deficiência. Os Estados Partes tomarão todas as medidas apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o acesso a serviços de saúde, incluindo os serviços de reabilitação, que levarão em conta as especificidades de gênero. Em especial, os Estados Partes:
[...]
c) Propiciarão esses serviços de saúde às pessoas com deficiência, o mais próximo possível de suas comunidades, inclusive na zona rural;
[...] (grifou-se)
Assim, cabe ressaltar, que qualquer afronta a dispositivo presente na Convenção constitui uma afronta ao texto constitucional, como já mencionado. Diante disso, verifica-se que o instituto da medida de segurança, tanto se interpretado como sanção penal como se tratamento, é passível de declaração de inconstitucionalidade, tendo em vista que em nada promove a inclusão da pessoa com deficiência, apenas aflige.
98 Art. 4o A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se