Pudemos verificar na subseção anterior que nas duas últimas décadas a síndrome de uma nova superexploração da força de trabalho expandiu-se no Brasil, ao agregar, do modelo introduzido inicialmente no Japão, influentes elementos de gestão no processo produtivo, sem extirpar, contudo, algumas das clássicas práticas autoritárias das relações de trabalho.143
A acumulação flexível e o toyotismo são as novidades. É da essência do modelo japonês a insistência na captura da subjetividade do empregado para ganhar-lhe o corpo e a alma, o que passa indubitavelmente pela adoção de políticas pedagógicas e repressoras nessa direção, no âmbito da empresa. Quer-se, desta maneira, cooptar doutrinariamente os trabalhadores, a qualquer custo, levando-os a defender, de maneira enfática, a ideologia patronal em nome do bem comum de todos, amortecendo, por conseguinte, a luta organizada contra a burguesia. Exigências cada vez mais frequentes no cotidiano laboral, sobressaindo a qualidade total e a estipulação de metas, demandam a presença do trabalho intensivo sem
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ALVES, Giovanni. Trabalho e neodesenvolvimentismo. Choque do capital e nova degradação do trabalho no Brasil. Bauru: Práxis, 2014b. p. 118.
elevação salarial, forma categórica de obtenção da mais-valia relativa, concomitantemente ao uso dos recursos da microeletrônica.
Entre as velhas maneiras de extrair mais-valia absoluta adicional pela superexploração da força de trabalho, têm especial relevo a redução salarial como uma das medidas mais drásticas bem como o aumento da jornada de trabalho, cuja forma particular de geração de riqueza analisada alhures viola até mesmo o quantum ordinário estabelecido para remunerar o trabalho (violação da força de trabalho).
Na acepção de Marini, na hipótese de superexploração, a força de trabalho se remunera abaixo de seu valor real, ou seja, aquém dos limites da mais-valia tradicional “pactuada”. A gênese das economias capitalistas dependentes, de quem o capital global exige acumulação nos níveis mais elevados possíveis (acumulação em nível máximo para o sistema mundial), tanto tem autorizado a expropriação adicional do trabalhador, quanto legitimado a sangria de divisas ou a “a transferência de valor dos países dependentes para os países metropolitanos”. Nessa quadra, põem-se pesados obstáculos para a consolidação da democracia burguesa no Brasil, sobretudo nas relações de trabalho historicamente autoritárias.144
Da superexploração da força de trabalho resultam duas formas clássicas de precariedade salarial: a extrema, aquela na qual a massa proletária mais frágil não tem acesso direto aos direitos trabalhistas previstos na Constituição e legislação ordinária (CLT), dado o alto grau de informalidade no mercado de trabalho brasileiro; a regulada, que abrange os trabalhadores cujos contratos de trabalho regulados formalmente pela CLT lhes permitem desfrutar das garantias ali previstas e também na Constituição Federal. A acumulação flexível, pelo seu método de retirar direitos de forma enviesada, teria criado outra forma de precariedade, qual seja, a nova precariedade salarial.
Sob tais contornos sociológicos, onde se enquadraria a terceirização, do ponto de vista de modalidade de precariedade salarial? Em mais de uma forma, senão em outro modelo não debatido ou qualificado pelo giro semântico até então apresentado.
É imprescindível destacar que parte considerável dos trabalhadores terceirizados no Brasil encontra-se no mercado informal, laborando para pequenas empresas subcontratadas por conglomerados econômicos, quando não executando as suas atividades laborativas por
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intermédio de falsos contratos autônomos de natureza civil (“PJs”, “pejotização”, arremedos de cooperativas de trabalho, etc.) formalmente celebrados com pessoas jurídicas de variadas magnitudes econômicas. A exponencial massa trabalhadora terceirizada sem registro formal trabalhista, portanto, integra o conjunto mais geral de pessoas residentes no Brasil alcançadas pela precariedade salarial extrema.
Saindo da seara especulativa, a Tabela 1 transcrito a seguir expõe pequena fração do substancial contingente de trabalhadores terceirizados atingidos pela informalidade em suas relações de emprego mantidas sem registro formal com empresas que recorrem ao artifício jurídico da subcontratação. Em inúmeras oportunidades as subcontratadas, por sua vez, sequer providenciam a anotação das carteiras de trabalho dos empregados, descumprindo, por via de consequência, praticamente todas as obrigações trabalhistas e previdenciárias correlatas.
Tabela 1 – Desvirtuamento da intermediação de mão de obra ou da terceirização de serviços (2005-2009)
TIPO
Procuradoria Regional do Trabalho
Total 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 Inquérito civil 570 331 618 359 168 66 45 65 171 187 52 188 16 107 600 24 47 179 25 66 23 82 114 38 4141 Procedimento preparatório 532 269 1372 256 204 20 134 149 169 257 105 709 148 411 304 22 110 106 67 65 96 36 59 59 5659 Representação 335 106 1380 82 93 71 125 227 77 67 73 104 56 167 309 19 50 82 125 34 33 7 29 115 3766 Total de procedimentos 1437 706 3370 697 465 157 304 441 417 511 230 1001 220 685 1213 65 207 367 217 165 152 125 202 212 13566 Ações – PAJ* 234 59 350 91 29 28 36 30 77 62 38 57 57 73 143 17 15 21 15 15 21 25 27 42 1562 TAC† 178 68 382 187 60 9 15 29 94 56 0 415 10 48 451 5 5 87 22 27 53 58 87 30 2376 Número estimado de beneficiados 5446 1759 6815 2895 930 3592 603 51 6213 652 460 1071 2672 6287 5613 379 2608 734 434 1479 1596 250 1336 2590 56465
Fonte: CAIXETA, Sebastião. Terceirização geral. In: BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Terceirização – bancários. (Painel. Audiência pública).
Brasília, DF, out. 2011. Disponível em <http://www3.tst.jus.br/ASCS/audiencia_publica/index.php?audiencia=nav/arquivos>. Acesso em: 21 jul. 2014.
Na forma retratada na Tabela 1, o relatório elaborado pelo Ministério Público do Trabalho, sob a condução da Coordenadoria Nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Emprego (Conafre), descreve nominal e numericamente os diversos procedimentos administrativos instaurados pelo órgão de natureza estatal responsável pela defesa da sociedade brasileira e do direito social nas 24 regiões trabalhistas, bem como o quantitativo de trabalhadores lesados em seus direitos trabalhistas elementares pela falta de registro formal dos contratos de emprego, por força da terceirização introjetada na relação jurídica triangular. Nas diversas operações levadas a cabo pelas procuradorias regionais do trabalho, verificaram- se quase 60 mil trabalhadores terceirizados laborando sob o manto da informalidade. O número, reitere-se, embora considerável, é apenas a face mais visível do caráter informal que graceja no Brasil afora, permeado de crescimento da terceirização.
Em síntese, jamais pode ser relegada a face da terceirização brasileira umbilicalmente vinculada a dois modos distintos de informalidade trabalhista. A primeira é aquela concernente à informalidade clássica resultante da falta de registro do contrato de emprego por qualquer uma das empresas beneficiárias da prestação laboral desenvolvida pelo trabalhador. A segunda informalidade, em um nível intermediário, decorre da ausência de anotação da CTPS do empregado por quem, de fato e de direito, é a empregadora da referida relação jurídica. Configura a informalidade intermediária o fato de o trabalhador terceirizado, mesmo com a sua relação jurídico-laboral formalizada com a empresa terceira, ser impedido de ter acesso aos direitos sociais próprios da sua legítima categoria profissional, especialmente aqueles negociados coletivamente pelas entidades sindicais representativas de empregados e patrões.
A partir de tais pressupostos conceituais, é forçoso reconhecer que muitos dos trabalhadores terceirizados vivem em total informalidade (precariedade salarial absoluta), sem o registro dos seus contratos de trabalho em qualquer documento apto a propiciar o respeito espontâneo, pelas empresas, à Constituição e à CLT. O outro contingente de empregados terceirizados tem acesso limitado aos direitos sociais de sua categoria profissional, ao menos até a provocação dos órgãos e das entidades criados para conferir efetividade aos direitos do trabalho e à ordem jurídica social trabalhista.
Em tese, os empregados terceirizados, cujos contratos de trabalho foram formalizados pelas empresas intermediárias ou terceiras da relação triangular, integrariam os contingentes
humanos de submissão à precariedade salarial regulada (regidos formalmente pela CLT). Por outro lado, diante das alterações promovidas no âmbito da gestão empresarial nas últimas décadas, poderiam eles estar vinculados à nova precariedade salarial (empregados submetidos aos métodos de gestão da acumulação flexível, com o trabalho flexível). Esse seria o ajuste tradicional, tomando em conta apenas as classificações e divisões conceituais expostas ao longo desta seção.
A terceirização brasileira, contudo, é guardada de especial particularidade, o que nos faz projetar um outro tipo de precariedade salarial aplicável aos trabalhadores terceirizados cujas carteiras de trabalho foram anotadas pelos seus empregadores formais (empresas subcontratadas da empresa principal e fornecedoras de mão de obra).
Não é apenas o fator trabalho flexível que está presente no contexto das relações de trabalho triangulares formatadas no Brasil. É bem verdade que o modo flexível de prestação laboral fragiliza direitos sociais previstos no ordenamento jurídico de origem estatal (CLT, Constituição e outros diplomas legais) e que foram historicamente conquistados pela classe trabalhadora, conduzindo, desse modo, os empregados terceirizados a uma nova precariedade salarial.
A realidade brasileira, no campo específico da terceirização, vai além da nova forma de precariedade salarial (trabalho flexível), tendo em vista o conteúdo e principalmente a interpretação e a aplicação dadas ao tema jurídico-laboral denominado enquadramento sindical, regularmente previsto na CLT.
O ordenamento jurídico estatal tem a função de garantir aos trabalhadores o patamar social sobre o qual as partes não podem reduzi-lo. Em tal sentido, os direitos resultantes da negociação coletiva, como expressão das conquistas sociais sintonizadas com a correlação de forças entre o capital e o trabalho, em cada setor econômico ou empresa, são fundamentais para a definição da totalidade remuneratória e indenizatória auferida pelos segmentos profissionais. Os valores dos salários, a forma do seu reajustamento, a redução da jornada, a remuneração de horas extras em percentual superior ao previsto em norma estatal, o auxílio alimentação, a política de prevenção de acidentes de trabalho, a remuneração de adicionais diversos e outras tantas matérias trabalhistas, integram o rol das cláusulas de normas estipuladas em acordos e convenções coletivas de trabalho.
Na realidade, os trabalhadores brasileiros terceirizados não têm acesso aos direitos sociais conquistados pelo sindicato de sua verdadeira categoria profissional, que é a entidade sindical mais forte politicamente para negociar com as representações patronais. Alega-se, para reduzir custos patronais, que a qualidade de terceirizado leva o trabalhador a integrar categoria profissional distinta daquela dos seus colegas formalmente contratados pela empresa principal da cadeia produtiva. Os seus sindicatos, então, seriam os dos trabalhadores terceirizados, entidades que firmam pactos coletivos exclusivamente com as empresas subcontratadas (terceirizantes), não sendo rara a inexistência do sindicato dos terceirizados de determinada atividade ou a sua absoluta inoperância, exatamente pela fatia política escassa que lhe resta para negociar com quem, do lado patronal, sofre de igual défice de representatividade, todos eles meros apêndices estáticos dos atores coletivos principais. Trata- se de evidente leitura jurídica equivocada, embora contribua efetivamente para sonegar direitos trabalhistas aos empregados terceirizados.
Segundo disciplinamento legal, o enquadramento sindical deve ser feito com base na atividade preponderante exercida pelo segmento econômico em que o empregado trabalha, na forma prescrita nos arts. 511 e 570, da CLT. Dessa forma, o enquadramento sindical precisa tomar em consideração a similitude de condições do trabalho (§ 1º) de um mesmo grupo de trabalhadores, a identidade de interesses sociais e a solidariedade existente por esse grau de homogeneidade – do ponto de vista das condições de trabalho.
Empregado formal de empresa terceirizante tem identidade, ao menos quanto aos requisitos justificadores do enquadramento sindical, com os empregados e trabalhadores do ramo econômico em que desempenha as suas tarefas. Essa unidade é quebrada com qualquer ação tendente a enquadrar todos os empregados formais das prestadoras de serviços nesse segmento, desvinculando-os, portanto, da base sociológica e jurídica que dá algum sentido à existência de modelo sindical pautado pelo atributo de categoria profissional.
Com a manobra jurídica responsável pelo desvirtuamento do enquadramento sindical, a quase totalidade dos empregados terceirizados formalmente registrados (formalização intermediária) perde os direitos e as garantias pactuados anualmente sob o controle de sindicatos detentores de capital político para enfrentar os verdadeiros patrões de todos os trabalhadores, especialmente nas negociações coletivas (acordos e convenções coletivas de trabalho). Quando são firmados pactos coletivos entre sindicatos de trabalhadores
terceirizados (formalização intermediária) e empresas terceirizantes, o nível de precariedade salarial é extremamente elevado, a começar pelo salário-base igual ou pouco superior ao mínimo legal, além da flexibilização injurídica de direitos previstos na Constituição Federal e na CLT.
No entanto esse caso não é de precariedade salarial regulada clássica nem de nova precariedade salarial configurada apenas pela flexibilidade do trabalho. Suscita-se, por isso mesmo, a possibilidade de os trabalhadores terceirizados brasileiros (formalidade intermediária), em face do sequestro dos direitos conquistados pela sua verdadeira categoria profissional em negociações coletivas, integrarem o grupo atingido pela precariedade salarial parcialmente regulada ou regulada por baixo.
Essa ponta de informalidade (o trabalhador é indevidamente tratado como se fosse de outra categoria profissional) – cujos efeitos negativos são de elevada expressão para os trabalhadores – remete ao modelo de regulação pela metade, com o propósito de aumentar os níveis de mais-valia absoluta (arrocho salarial, redução do fundo de consumo e aumento da jornada) e relativa (elevação da intensidade da jornada).
Na precariedade salarial parcialmente regulada ou regulada por baixo, embora o registro formal do contrato de trabalho na carteira de trabalho e previdência social (CTPS) – informalidade intermediária – garanta ao trabalhador terceirizado o acesso aos direitos previstos em lei, muitas vezes mitigados por acordos e convenções coletivas firmados entre sindicatos de terceirizados e empresas terceirizantes, a parte da regulação do trabalho própria de negociação coletiva, entabulada pelos representantes reais do capital e do trabalho, lhe é subtraída integralmente. Assim se processa o sequestro de direitos do empregado terceirizado com base em artifício jurídico construído para tornar a terceirização ainda mais interessante do ponto de vista econômico, tanto para o tomador, quanto para o prestador de serviços.
4.2.3 Terceirização bancária no Brasil: redução geral de direitos (remuneratórios e