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Um estudo fenomenológico é uma tentativa de representar ou descrever a existência da pessoa, adequadamente, permanecendo fiel à própria qualidade e experiência da mesma. O ponto de vista, a terminologia, a ênfase de um estudo fenomenológico são aqueles que o próprio sujeito experiencia (VAN DUSEN, 1977, p. 133-4).
A presente pesquisa teve como objetivo conhecer e compreender o processo de luto do(a) filho(a) da pessoa que cometeu o suicídio, com base na sustentação teórica da Gestalt- terapia. Sendo assim, a questão a ser explorada foi: “como é o processo de luto do(a) filho(a) da pessoa que cometeu o suicídio?”. Trata-se de pesquisa qualitativa, baseada no modelo fenomenológico proposto por Edmund Husserl e adaptado por Clark Moustakas (1994). A realização de uma pesquisa qualitativa justificou-se pela necessidade de compreensão das vivências do filho da pessoa que cometeu o suicídio. E a escolha do método fenomenológico justificou-se pela preocupação com a descrição dos fenômenos da consciência e pelo meu interesse, como pesquisadora, pelo procedimento reflexivo da fenomenologia, por meio da análise das imanências, ou seja, o alvo da investigação é a compreensão dos significados atribuídos pelos colaboradores e a maneira de a pessoa perceber a vivência. A perspectiva teórica utilizada no presente estudo foi a conjunção entre a epistemologia fenomenológica e a abordagem da Gestalt-terapia, encontrada nos trabalhos de Moustakas (1994) e Perls, Hefferline e Goodman (1997).
O processo de luto decorrente do suicídio esteve diretamente vinculado à maneira singular e relacional de constituição das vivências. Sabadini, Sampaio e Koller (2009, p. 141) mencionam que: “Na abordagem qualitativa, os pesquisadores procuram, a partir de observações e de análises abertas, descobrir as tendências e os processos que explicam o como e o porquê dos fenômenos”. Cassel e Symon (1994, p. 7) apontam que “[...] os métodos qualitativos são frequentemente mais interativos, mais intensos e envolvem um compromisso de longo termo”. O objeto de estudo e o método estabeleceram congruência, uma vez que a pesquisadora pretendeu compreender, descrever e mostrar os fenômenos desvelados no processo de luto
dos filhos da pessoa que cometeu o suicídio. Keen (1979, p. 32) afirma: “A psicologia fenomenológica tem de produzir interpretações sistemáticas em lugar das informais e causais, mas tem também de permanecer aberta ao acontecimento em sua estrutura e presença únicas. Evitando enquadrá-lo segundo alguma teoria que exclua outras perspectivas”. Isso posto, cabe ressaltar que, ao fazermos um estudo fenomenológico, precisamos saber que o conhecimento obtido nas entrevistas e no processo de análise dos depoimentos tem duração contextualizada e depende do contexto que o colaborador experiencia naquele momento. Em outras palavras, o que filho da pessoa que cometeu suicídio percebe naquele momento sobre o processo de luto pode ser diferente em outro momento de sua vida.
As ideias de Clark Moustakas derivam das concepções de Edmund Husserl, influenciado, por sua vez, principalmente por Wilhelm Dilthey – que preconizava que toda experiência está originalmente relacionada com a consciência – e por Franz Brentano, estudioso da distinção entre fenômenos psíquicos, que comportam a intencionalidade da consciência, e fenômenos físicos. Moustakas tornou-se, nos Estados Unidos da América, um ícone do movimento humanista que utiliza o método fenomenológico e, embora no Brasil, o método proposto por Giorgi (1985) seja o mais utilizado, considera-se que a adaptação de Clark Moustakas, em seu livro Phenomenological Research Methods (1994) permite ao o leitor ter maiores elucidações sobre o manejo dos dados da pesquisa fenomenológica. Além disso, trata-se de proposta atual e, a meu ver, mais rica, pois inclui as sete condições existenciais propostas pelo existencialismo. São elas: temporalizar, espacializar, aspectos relacionados ao corpo, motivação, materialidade, relacionamento com o mundo próprio, relacionamento com outros e com as coisas circundantes.
3.3.1 Instrumentos e procedimentos de coleta dos dados da pesquisa
• Convite aos participantes
A pesquisadora entrou em contato com pessoas da rede de relacionamentos (amigos, familiares e alunos) para convidar possíveis colaboradores. Também divulgou o projeto e escreveu para a rede de Gestalt-terapeutas (acesso da internet GT-BR). Posteriormente, entrou em contato com os colaboradores, filhos de pessoas que cometeram suicídio, e fez o convite de entrevista, apresentando a pesquisa e seus objetivos, bem como, solicitando o preenchimento do termo de consentimento. Nesse contato com os colaboradores, a entrevista foi agendada e realizada individualmente e em local conveniente ao entrevistado. Cabe salientar que as entrevistas foram agendadas previamente, que os horários foram respeitados conforme a disponibilidade do entrevistado e que o entrevistado teve a liberdade de participar e de se retirar da pesquisa se achar conveniente.
• Colaboradores e critérios de aceitação
O número de colaboradores não foi previamente definido e dependeu do interesse pela participação na pesquisa entre o período de 2011 a 2012. O participante é filho de pessoa que cometeu suicídio, tem mais de 18 anos e estava disposto a compartilhar sua experiência.
• Critériosdeexclusãodoscolaboradores: O suicídio não deveria ter acontecido
recentemente [pelo menos há mais de dois (2) anos], pois se acreditou que a pessoa estivesse em sofrimento psicológico intenso nesse período, o que dificultaria a entrevista direcionada à pesquisa. Além disso, a entrevista poderia causar sofrimento adicional pelas lembranças. No entanto, cabe ressaltar que se tratava de uma estimativa e, caso houvesse sofrimento intenso, a entrevista poderia ser interrompida.
• Questões éticas envolvidas e procedimentos adotados, relativos a essas questões
A pesquisa foi desenvolvida considerando-se os princípios éticos de que a pesquisadora manteria sigilo, privacidade, confidencialidade e não identificação dos dados do colaborador, principalmente por se considerar a vulnerabilidade do entrevistado, como afirma Franco (2010, p. 35): “[...] o enlutado está em condições de maior vulnerabilidade, como, por exemplo, quando pesquisamos uma população não clínica, sem termos informações sobre os riscos que a participação na pesquisa pode desencadear”. Sendo assim, o entrevistado participou voluntariamente e poderia retirar-se da pesquisa quando quisesse.
Buscou-se o mínimo de riscos, pois não se utilizou de nenhuma técnica invasiva ao corpo e não se pretendeu infligir sofrimento psicológico. No entanto, a entrevista poderia suscitar lembranças que, mesmo momentâneas, poderiam provocar sofrimento. Se fosse necessário, seria oferecido acolhimento ao colaborador da pesquisa, após entrevista, que seria encaminhado para cuidados psicológicos, caso desejasse.
Antes de cada entrevista, foi assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo A) e explicado que o sigilo de identidade seria preservado em toda e qualquer situação. O participante estava ciente de que sua participação foi voluntária e que tinha o direito de retirar seu consentimento ou sair da pesquisa sem que isso lhe trouxesse qualquer prejuízo e/ou ônus à sua pessoa.
• As entrevistas
Os depoimentos foram gravados com a anuência dos entrevistados. Foram realizados uma entrevista – para a coleta de depoimento, de aproximadamente 3 horas de duração – e dois contatos por e-mail – para enviar a transcrição das entrevistas e outro, depois da análise dos dados, para compartilhar com o colaborador a compreensão da pesquisadora.
1. A entrevista (anexo B): tratou-se de entrevista aberta, de aproximadamente 3 horas de duração, para coleta do depoimento, utilizando-se a afirmação disparadora: “Compartilhe sua experiência de ser filho(a) de um pai ou mãe que cometeu suicídio”.
A entrevista iniciou-se com base na apresentação do objetivo da pesquisa e o participante falou livremente. Só houve intervenção, em forma de perguntas, quando foi necessário aprofundar algumas questões, explorar ou esclarecer o que foi dito.
2. Os contatos: trataram-se, o primeiro, do envio da transcrição da entrevista e o outro para dialogar sobre a compreensão dos dados. Como afirma Amatuzzi (2003, p. 22): “Nesse tipo de pesquisa, o melhor juiz é o próprio colaborador. Só ele saberá dizer se se reconhece no que o pesquisador ‘lê’ no que ele diz”.
• Dados da pesquisa
As entrevistas foram transcritas e literalizadas. Cabe salientar que durante as entrevistas houve várias interrupções que não foram consideradas no texto para facilitar a leitura. Dados relevantes da entrevista foram utilizados na pesquisa e as citações sem identificação ficarão disponíveis ao público, bem como para ensino, publicação em periódicos, livros e/ou apresentações em encontros científicos. O colaborador teve garantia de privacidade em toda a participação, e o sigilo de sua identidade foi preservado de toda e qualquer situação.
• Benefícios ao colaborador, pesquisadora e relevância
Acredita-se principalmente nos benefícios que o filho da pessoa que cometeu o suicídio recebeu ao compartilhar com a pesquisadora suas vivências, ao receber acolhimento e experienciar a escuta da pesquisadora.
Franco (2002, p. 34) afirma: “Se luto por causa repentina ou violenta coloca o enlutado na condição de risco para desenvolver luto complicado, esta condição da nossa sociedade impõe a necessidade de um olhar mais cuidadoso para essas pessoas”. A relevância dessa investigação traz implicações e contribuições para a psicoterapia, bem como aprofunda e oferece questões para reflexões sobre o suicídio e o processo de luto, validando dados qualitativos sobre os fenômenos da vida e da morte. Mais especificamente, acredita-se que o estudo colabora para aprofundamento de outros estudos sobre o processo de luto da família da pessoa que cometeu o suicídio, expondo que o suicídio é um evento que provoca sofrimento e que, por isso, deixa, possivelmente, marcas no enlutado.
Cientificamente, este estudo constituiu um campo teórico e de pesquisa, reconhecido em diversas áreas da Psicologia e da Saúde, sendo que os dados obtidos poderão ser utilizados posteriormente para instrumentalizar profissionais de saúde mental no manejo do luto da família da pessoa que cometeu suicídio.
• Análise intencional e compreensão dos depoimentos: a proposta de Clark Moustakas para o método fenomenológico
O conteúdo foi organizado e analisado pelo método fenomenológico proposto por Clark Moustakas (1994) em seu livro Phenomenological Research Methods. Ressalta-se que, ao utilizar o método fenomenológico, os resultados não são preditivos nem generalizáveis a situações que outros filhos possam experimentar.
A compreensão dos depoimentos apresentou a seguinte sequência.
(1) Os depoimentos foram transcritos e mantida a fala original do depoente. A transcrição foi transformada em texto e literalizada. Os textos foram numerados conforme a sequência das entrevistas, e o depoente, referido também pelo número da sequência da entrevista, i.e., texto 01, colaborador 1 (C1). Após as entrevistas, foi feito o agrupamento dos depoimentos transcritos. Cabe salientar que as interrupções e pausas durante as entrevistas não foram inclusas no texto para facilitar a leitura.
(2) A entrevista transcrita foi enviada, por e-mail, para o colaborador anexada ao texto: Olá (nome do colaborador). Conforme combinei com você, envio anexo sua entrevista transcrita. Iniciei a compreensão fenomenológica e a enviarei posteriormente, para que possa verificar se consegui compreender sua experiência. Mais uma vez agradeço pela disponibilidade para ser colaborador(a) da minha pesquisa e por compartilhar sua vivência comigo. Um grande abraço. Karina
(3) Distanciar-se dos dados por algum tempo, a fim de suspender preconceitos e juízos, ou seja, descansar ou fazer atividade não relacionada à pesquisa e então retomar para derivar os temas da vivência do entrevistado – o pesquisador exercita o procedimento proposto por Edmund Husserl: Epoché – palavra grega da filosofia medieval que significa cessação, estado de repouso mental pelo qual nada se afirma ou nega. Em todo o processo da análise, o pesquisador deverá suspender conceitos prévios.
(4) Redução fenomenológica: redução neste sentido significa voltar à coisa mesma. Leitura de cada texto, a fim de identificar significados singulares. Para derivar os temas individuais, foram assinalados, sublinhados e selecionados os temas mais representativos da vivência do entrevistado, considerando as repetições dos temas pelo menos duas vezes e os aspectos significativos para a questão da pesquisa. Ou seja, foi preciso considerar as categorias que depreenderam do texto sem o a priori. A redução fenomenológica subdivide-se em:
a) engajamento inicial;
b) agrupamento – focalizar na experiência do fenômeno estudado e agrupar as repetições; c) delimitação – considerar o que se repete e delimitar o conteúdo;
d) horizontalização – aproximar as palavras e afirmações que permanecem depois da delimitação; e) agrupamento das principais unidades de significados e dos temas – são as frases que representam o agrupamento dos temas.
O objetivo dessa fase (4) é a compreensão do que é dito. Os depoimentos representaram o conteúdo, a parte noemática, o objeto do ato, o “o que”. Ao final da redução fenomenológica esperou-se:
• temas e descrições individuais dos depoimentos; • compreensão das unidades de significados;
• composição das unidades de significados de todos entrevistados (foi apresentada após as entrevistas).
(5) A adaptação de Clark Moustakas tem seu início na fase de variação eidética ou imaginativa.
Considerar as estruturas universais que descrevam sentimentos e pensamentos rela- cionados ao fenômeno, tais como a estrutura do tempo, espaço, relações com corpo, materialidade, motivação, relacionamento com o mundo próprio, ou relacionamento com outros (MOUSTAKAS, 1994, p. 99, tradução nossa).
Variação eidética é a descrição e ampliação que visa à busca da essência. Eidos é a experiência que influencia a configuração do fenômeno. E segundo Moustakas (1994, p. 99, tradução nossa) “tem seu início na variação sistemática dos possíveis sentidos das estruturas universais latentes nas significações dos depoimentos”. Sendo assim, Moustakas adota a visão existencialista que considera que todo ser humano apresenta sete condições humanas ou sete estruturas universais. Deve-se procurar as afirmações que estão relacionadas aos aspectos estruturais dos depoimentos (MOUSTAKAS, 1994).
1. Temporalizar: apresentação da vivência do tempo 2. Espacializar: apresentação da vivência do espaço 3. Aspectos relacionados ao corpo
4. Motivação: apresentação da compreensão do fenômeno
5. Materialidade: utilização de figuras de linguagem que remetem à compreensão do que o depoente sente por meio de exemplos concretos. É a utilização de linguagem de algo concreto como se fosse algo abstrato.
6. Relacionamento com o mundo próprio
7. Relacionamento com outros e com as coisas circundantes
O objetivo dessa etapa é a apreensão das análises que representam o processo daquilo que aconteceu, noesis, o ato, a forma como se deu a experiência, o significado da experiência, a informação estrutural, o que não foi falado, o velado e o implícito e segundo Flewelling (2008, p. 98-9, tradução nossa):
O processo da variação imaginativa, entretanto, não é um processo sem estrutura, mas em vez disso é conduzido pelas estruturas existenciais universais do temporalizar, espacializar, corpo, materialidade, motivação e relacionamento com o mundo próprio e com outros.
Finalizada a fase da variação imaginativa, pode-se esperar: • Temas e descrições individuais das condições humanas • Compreensão das condições humanas
• Composição das condições humanas de todos os entrevistados (apresentada após as entrevistas).
Cabe salientar que a pesquisadora apresentou a compreensão das sete estruturas universais na análise intencional e compreensão da entrevista de cada participante.
(6) Neste momento, outro contato por e-mail foi realizado para que pesquisadora e entrevistado pudessem compartilhar a compreensão desvelada, com base na articulação entre conteúdos textual e estrutural. O contato com o colaborador foi necessário para validar o que foi captado pela pesquisadora. As perguntas norteadoras foram direcionadas para verificar: “Consegui captar sua experiência? O que escrevi aqui é verdadeiro para você? Faz sentido para você?” A análise foi enviada, por e-mail, para o(a) colaborador(a) anexada ao texto: (Nome do colaborador), envio a análise que fiz do seu valioso depoimento. Por favor, verifique se concorda e se sente que foi visto(a) e compreendido(a) por mim. Aguardo seu feedback. Abraço. Karina
(7) O feedback do colaborador e a resposta da pesquisadora foram acrescentados à análise. (8) Síntese: é a composição das análises intencionais de todos os colaboradores na qual ocorreu
a integração de todas as compreensões.
(9) Follow-up: a pesquisadora acompanhou as eventuais ocorrências e necessidades dos colaboradores relacionados aos possíveis sentimentos e pensamentos que emergiram nas e após as entrevistas.