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6.4. Derin Çekme-Germe
Fenomenologia é método, epistemologia, gnosiologia e filosofia. Os estudos husserlianos buscam elucidar o fundamento de realidade das representações científicas, sendo que realidade em 1900 significava a objetividade e as representações científicas o próprio conhecimento. É o que revela Husserl (2000, p. 87): “O que a diferencia das ciências aprióricas objetivantes é o seu método e o seu objetivo. A fenomenologia procede elucidando visualmente, determinando e distinguindo o sentido. Compara, distingue, enlaça, põe em relação, separa em partes ou segrega momentos”. Fenomenologia significa o estudo do conhecimento da maneira como conhecemos e pressupõe o retorno-às-coisas-mesmas ou o retorno à intuição originária ou voltar-se a um ato intencional. E como Ribeiro Júnior (1991, p. 24) aponta:“[...] a Fenomenologia é ‘uma direção de nosso olhar se voltando das realidades experimentadas para o caráter de serem experimentadas’”. Edmund Husserl (1859-1938) dedica seus esforços para organizar uma proposta de investigação de conhecimento, cujo objetivo era a ampliação do caminho da verdade, e de questionamento crítico sobre o psicologismo, compreensão cartesiana de Descartes e transcendência kantiana. E como salienta Bello (2000, p. 64-5): “Pela análise fenomenológica husserliana se aceita o método descritivo, intuitivo, que visa evidenciar essencialmente o sentido das questões e dos fatos, enfim, da Sache (“coisa”) que é objeto da análise, e a Sache é a realidade: é neste ponto que se inicia a diferenciação a respeito de Husserl”.
É nesta tentativa de conhecer o existente, conforme ele se manifesta na consciência, que Husserl vai desenvolver seu pensamento fenomenológico a partir da palavra- -chave: retorno-às-coisas-mesmas, para postular que se observe e descreva cuidado- samente os fenômenos (reais ou imaginários) com o objetivo de apreender a essência de determinada espécie de eventos (RIBEIRO JR., 1991, p. 16).
A palavra fenomenologia remete a duas expressões gregas: Phainómenon, que faz referência aos eventos celestes e significa aquilo que se mostra por si mesmo, e Logos, que significa a proposição de se perceber algo e considera a compreensão do discurso a respeito daquilo que se mostra por si mesmo.
Fenômeno é, pois, o aspecto do objeto patente imediatamente na consciência. Os aspectos não presentes à consciência integram o objeto. O fenômeno é o aparente, é a aparência. Mas, note bem! A aparência não no sentido de ilusão, como oposta à realidade, senão no sentido do dado à mera presença na mente, ao que Husserl chama de consciência pura de algo (RIBEIRO JR., 1991, p. 23).
A fenomenologia surgiu na época em que as explicações eram oferecidas pela objetividade das ciências naturais e sua preocupação vai ao encontro de uma realidade a fim de descrevê-la enquanto experiência significativa até sua essência, ou seja, até o retorno-às-coisas-mesmas. E para Bruns e Holanda (2003, p. 42): “a Fenomenologia é um método de acesso à realidade concreta do mundo”.
Matemático e estudioso de filosofia, argumentou que todo o problema de conhecimento envolve reflexão e, dessa maneira, retornar-às-coisas-mesmas implica a busca das essências e sua relação com a intencionalidade da consciência. Envolve um processo e, por esse motivo, não pode ser compreendida somente do ponto de vista ôntico (estudo daquilo que se mostra como se mostra), mas, sim, do ponto de vista transcendental, representado na seguinte tabela.
Tabela 1 - Diferenças entre o estudo ôntico e ontológico
Quando tudo começou:
Positivismo Quando tudo começou: Fenomenologia Ôntico: “[...] diz respeito aos entes em sua
existência própria” (CHAUÍ, 1995, p. 238-9). Exemplo: Botânica
Ontológico: “[...] ontológico diz respeito aos entes tomados como objetos de conhecimento” (CHAUÍ, 1995, p. 238-9).
Exemplo: Daseinsanalyse Ocupação: Ente
Ente: aquilo que é, mas não existe ou qualquer coisa claramente definida.
Ocupação: Ser do ente
Sein: ser que existe e não apenas é (ente).
Em sua primeira obra, Filosofia da Aritmética (1891), teceu considerações a respeito do conceito de número, como aspecto lógico, e sobre o processo de enumeração, como aspecto psicológico, considerando o conhecimento não como pura abstração, e, sim, envolvendo reflexão. O número é definido como conceito de relação produzido pela reflexão, que, segundo Bello (2004, p. 51): “é capacidade de examinar toda a estrutura do sujeito humano, é um ato reflexivo, talvez o ato mais importante para o ser humano”. Seu interesse principal era refletir sobre a teoria do conhecimento que buscasse a verdade e, portanto, uma teoria radical e científica que
considerasse a universalidade e a necessidade do conhecimento. Por esse motivo, é por meio do método fenomenológico que acontece a mudança dos modelos epistemológicos, o que, para muitos, representou um marco epistemológico e uma verdadeira revolução paradigmática da realidade científica, principalmente no que diz respeito à relação entre sujeito e objeto que estão intrinsecamente relacionados. Dessa maneira, a intencionalidade da consciência demarca a relação direta, imediata e sem distanciamento entre observador e observado.
[...] Objeto não é sinônimo de coisa. O objeto é a coisa enquanto está presente à cons- ciência. Objeto é tudo o que constitui término de um ato de consciência, enquanto é término do dito ato. Os objetos podem ser reais, como esta mesa, que tenho à minha frente; fantásticos como o centauro; ou ideais como uma expressão matemática, a idéia de verdade, de desejo, de justiça etc. (RIBEIRO JR., 1991, p. 23).
Husserl argumentou que, se nossa consciência fosse definidora, fechada, a importante relação entre sujeito, objeto e as relações que estabelecem com o mundo poderia ser esquecida. Para Husserl, a consciência é aberta, ativa, criativa e intuitiva e por isso, quando percebemos o objeto, ele se torna imanente ou, como Ewald (2008, p. 151) menciona:
[...] partindo da experiência, é possível atingir o concreto, e o mundo da consciên- cia, até então visto como algo basicamente vago destituído de qualquer positividade, controle e possibilidade de previsão, sem qualquer fundamento empírico, no sentido reinante no período, torna-se acessível através dos atos intencionais da consciência e seus modos de relação com o mundo.
Contrariando a ideia de que vemos um objeto externo e ele permanece sob a forma de imagem na consciência, o que poderia induzir a ideia de que temos uma consciência passiva, a fenomenologia é considerada como transcendência da investigação do conhecimento, pois se preocupa em ir além do objeto existente com a finalidade de compreender o objeto percebido. Isto é, sabe-se que “Todo comportamento considerado o mais insignificante é, na verdade, significativo quando explicitado e compreendido em sua experiência originária” (CAPALBO, 2002, p. 19). O comportamento humano não é desprovido de significações, pois toda consciência é consciência de algo e todo ato tem uma direção, graças à intencionalidade da consciência e a relação entre Noesis e Noema. Noema significa o “o que?”, ou o conteúdo ou qualquer coisa que a pessoa possa experienciar; por exemplo: a percepção de que uma pessoa é amigável, bonita, alta. Enquanto a Noesis representa o “como”, ou o processo e as coisas que não se manifestam, como a pessoa fala e vivencia a experiência; por exemplo: essa mesma pessoa lembra uma amiga minha e as experiências não agradáveis com ela. O pesquisador deve, portanto, evitar a atitude captativa e a crença de que o objeto entra passivamente na consciência, devendo adotar uma atitude perceptiva, a fim de promover a reflexão e colocar em evidência que a consciência é uma atividade constituída por atos, tais como percepção, lembrança, imaginação, simbolização etc.
Quando se fala de fenomenologia há maior preocupação com a investigação do conhecimento do que com o próprio teor filosófico e como alertam Bruns e Holanda (2003, p. 42): “fazer ‘filosofia fenomenológica’ é uma coisa e fazer ‘psicologia fenomenológica’ é outra”. Contudo, é necessário não esquecer a importância filosófica na construção do modelo epistemológico e
da reflexão filosófica, cuja direção deriva ao próprio pensamento. Chauí (1995, p. 14) assinala: “A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo” e fundamentalmente, o que importa para a fenomenologia é compreender o processo intrínseco entre ato perceptivo e objeto percebido.
Todo fenômeno deve ser compreendido em seu contexto, seguindo a ampliação compreensiva de que primeiramente é necessário que se desvele o fenômeno no campo perceptivo do sujeito e, em seguida, compreenda-se o campo perceptivo e sua relação com o mundo. Concomitantemente, a proposta de Husserl coloca as atividades do sujeito pensante em relação direta com o mundo.