2.1. SERMAYE YAPISI TEORİLERİ
2.1.2 Takas Teorisi
Sinalagma significa contrato, daí por que, “contrato sinalagmático” é uma redundância: “A expressão ‘sinalagma’, utilizada no texto citado (de Ulpiano), nada tem a ver com a bilateralidade; trata-se de uma expressão grega que quer dizer contractus ou conventio, mas por um erro de interpretação dos compiladores e comentaristas da época pós-clássica, vinculando-a ao ultro citroque obligatio e atribuindo-lhe uma significação mais ampla, começou-se a afirmar que contrato bilateral era contrato sinalagmático, resultando sua característica essencial a reciprocidade e interdependência das obrigações, quer dizer, o ultro citroque obligatio. É possível que a expressão ultro citroque obligatio tenha sido interpolada190”.
De fato, no surgimento desse constructo, no direito romano, “as obrigações recíprocas não nasciam de um acôrdo formal entre as partes, mas de duas autônomas estipulações, cada qual respectivamente tendo como objeto uma das duas prestações. Assim, o contrato bilateral foi concebido originariamente como o complexo de dois contratos distintos, independentes um do outro, e que assim se mantinham mesmo no momento da execução, com um caráter autônomo191.”
Essa concepção foi adotada durante muito tempo até que Labeão, jurista romano que entendia a língua grega, ao analisar um trecho de Ulpiano no Digesto, dissecou o conceito “synallagma” como significado de “contractum”, assimilando a idéia de que o contrato significa obrigação de uma e de outra parte, caracterizando a reciprocidade. Insta ressaltar que o conceito de “synallagma” para os gregos, naquela época, não era visto dessa forma, mas essa foi a interpretação dada por Labeão e seguida pelos demais juristas daquele tempo192.
Em conseqüência, o vínculo sinalagmático começou a ser entendido como a reciprocidade de obrigações e não de simples consentimentos como pregavam os gregos. Por conseguinte, o sinalagma consistiu na representação do acordo de vontades calcado na reciprocidade das
190
LOPES, Miquel Maria de Serpa, Exceções Substanciais, p. 232.
191
Idem, Ibidem, p. 229.
192
obrigações dispostas pelas partes, existindo uma correlação muito forte entre a prestação e a contraprestação devidas.
Assim, o sinalagma, no signo lingüístico, traz significado de contrato, mas a utilização social deste significante acabou por incorporá-lo à concepção de reciprocidade e interpedendência das obrigações no sentido de que “a las obligaciones bilaterales corresponden en particular los contratos sinalagmáticos que se caracterizan por el hecho de que cada una de las partes promete hacer una prestación a la outra para obtener de ella una contraprestación ...193”.
A vinculação existente entre o dever de executar a prestação na expectativa de receber a contraprestação faz com que a interdependencia sustentada no silagma produza um equilíbrio no programa contratual, ao passo que a obrigação de um contratante confluencia para a obrigação do outro, de maneira equânime. Nada adianta impor uma correspectividade entre o dever jurídico do devedor e o direito subjetivo do credor, se não houver a proporcionalidade equilibrada entre eles.
O silagma contratual é incorporado em todos os sistemas jurídicos, na concepção da bilateralidade das obrigações dispostas no programa contratual, obrigando os contrantes reciprocamente, como dispõe, de maneira objetiva, o artigo 1.102 do Código Francês, verbis: “Le contrat est synallagmatique ou bilatéral lorsque les contractants s’ obligent réciproquement les uns envers les autres”. Em alguns sistemas jurídicos alienígenas, as codificações não trazem a conceituação do sinalagma, sendo uma construção meramente doutrinária, como por exemplo, o BGB e o Código Suíço das Obrigações.
A reciprocidade advinda do sinalagma expressa prestações equivalentes e não idênticas. Serão recíprocas conforme a vontade e a intenção dos parceiros194: “c’est la réciprocité des engagements qui en découlent, chanune des parties ... le double rôle de créancier et de débiteur195”.
193
LARENZ, Karl. Op. cit. p. 18-19.
194
Idem, Ibidem, p. 174.
195
A reciprocidade entre as obrigações é claramente vislumbrada no contrato bilateral ou plurilateral que é formado por obrigações recíprocas, equivalentes e contrapostas, mas ao mesmo tempo harmônicas, posto que estão direcionadas ao mesmo fim. Mas o ponto cerne dessa questão é que a prestação, por ser objeto da obrigação, é que deve ser recíproca, pois no contrato bilateral podem existir obrigações que não sejam recíprocas, como p. ex., no contrato de locação em que a reciprocidade constata-se apenas por meio da entrega do imóvel, pelo locador, e o respectivo pagamento do aluguel pelo locatário; não havendo reciprocidade no dever de devolução do bem locado ao término do contrato196. Em suma, “o verdadeiro contrato sinalagmático é o que cria, por ele próprio, em virtude do consentimento atual das partes, obrigações recíprocas197”.
A classificação de um contrato em sinalagmático divide-se em genético e funcional, sendo que o primeiro constadado na origem da relação recíproca de dependência que enlaça as obrigações contratuais. Já o segundo representa o vínculo de dependência das obrigações, no momento da execução do contrato, que deve permanecer equilibrado, pois uma prestação não persiste sem a respectiva obrigação.
Alberto Trabucchi apresenta uma definição clara destes dois institutos ao afirmar que: “Sinalagma genético está a significar a relação recíproca de justificação causal que deve intercorrer entre as duas obrigações nascentes do contrato, no momento da sua estipulação (...). Não basta a presença originária das duas prestações com função genética; o direito segue também a vida da relação, e, portanto, o contrato pode ser resolvido se, na seqüência, uma das duas obrigações venha a faltar ou não possa ser executada (sinalagma funcional), que é o fundamento da resolução por inadimplemento ou impossibilidade superveniente198”.
Os sinalagmas genético e funcional reforçam o equilíbrio na reciprocidade entre as prestações e o inadimplemento exigido pela resolução deve ser a tal ponto a abalar a estabilização, privando, substancialmente, o credor da prestação a que teria direito. Não se pode tratar, portanto, simplesmente de falha secundária, sem reflexo na economia contratual. A gravidade
196
Cfr. MIRANDA, Pontes de. Tratado de direito privado, p. 97.
197
LOPES, Miguel Maria de Serpa. Op. cit., p. 252.
198
da ausência da obrigação que seria prestada, mas foi inexecutada, deve ser de tal monta a desnaturar o sinalagma funcional.
Assim sendo, se não houver quebra do sinalagma funcional, poderemos estar diante de uma hipótese de adimplemento substancial. O efeito sofrido pelo sinalagma neste último caso abrange o fenômeno de uma execução boa suficiente da prestação para a parte adimplente obter proveito concreto da mesma, atendendo o seu interesse, bem como respeitando a comutatividade das obrigações. Se o caso concreto é de adimplemento substancial (por ter sido satisfeita a essencialidade da prestação, seja ela principal ou acessória), não há, é claro, comprometimento grave do sinalagma funcional e, para ter sido reconhecido como substancial, a ausência mínima da prestação ainda desperta o interesse para o credor em relação ao contrato como um todo. Isso sinifica dizer que nessa espécie de adimplemento com inexecução de parte de pequena importância a parte da obrigação faltante a executar não se reveste de fundamento para a resolução.
Ao traçarmos um paralelo entre o adimplemento substancial e a resolução, interpretando os ensinamentos de Carlos Miguel Ibáñez que identifica as espécies contratuais passíveis de resolução, compreendendo “todos los contratos con atribuciones recíprocas o interdependientes, incluyéndo-se en el concepto los contratos bilaterales y los reales unilaterales onerosos, quedando excluídos de dicho ámbito los contratos gratuitos y los onerosos sin prestaciones recíprocas199”, detectamos que se a resolução exige a quebra das obrigações recíprocas e interdependentes oriunda da configuração do inadimplemento, a fim de romper o sinalagma funcional, o adimplemento substancial estará caracterizado quando subsistir as obrigações recíprocas e correspectivas, preservando totalmente o sinalagma genético e corroendo, minimamente, o sinalagma funcional.
Diante do exposto, concluímos que só existe adimplemento substancial em contratos sinalagmáticos nos quais a reciprocidade das obrigações é evidente e funciona como mecanismo de ligação entre a prestação e a contraprestação a serem adimplidas.
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