• Sonuç bulunamadı

2.1. Talaşlı İmalat İşleminde Isı Oluşumu

2.1.2. İşlem parametrelerinin ısı oluşumuna etkisi

2.1.2.4. Takım aşınması ve takım ömrü

Para analisar o papel dos diversos segmentos da sociedade curaçolenha na for- mação e difusão do papiamentu, é necessário discutir a relação entre demografia e crioulogênese. Arends (1995: 21) chama a atenção para a necessidade de considerar os fatores demográficos para um melhor entendimento sobre a formação dos criou- los, uma vez que as características populacionais estão intrinsicamente ligadas aos processos que possibilitam o nascimento de uma nova língua. Segundo o autor, há dois aspectos demográficos que não podem ser desconsiderados. O primeiro deles diz respeito à proporção entre brancos (colonizadores) e negros (escravos) sobretudo na fase inicial da colonização. Esse dado é importante porque a presença de falantes da língua de prestígio (do colonizador) é essencial para o processo de aprendizagem dessa língua como segunda língua (L2). Ademais, a quantidade de falantes também exerce influência: quanto maior o acesso à língua-alvo, mais próxima dela tende a ser a forma aprendida pelos colonizados. Outro fator se refere à homogeneidade linguística tanto dos colonizadores (e, por conseguinte, da língua de superstrato) quanto dos colonizados (logo, das línguas de substrato) (ARENDS, 1995: 22-24). Esse aspecto permite observar as influências que a língua em formação irá receber. Parkvall (2000: 185-213) também discute o papel da demografia no processo de formação de uma língua crioula. Para o autor, quanto maior a proporção do ele- mento branco em uma dada colônia, maiores as chances de haver um predomínio de variedades acroletais (isto é, mais próximas de suas línguas lexificadoras) do crioulo (PARKVALL, 2000: 193). Contudo, o próprio autor adverte que a presença ou au- sência do elemento branco não é um fator cabal para um crioulo ser basiletal (mais distante do lexificador) ou acroletal, sendo necessário levar em consideração diversos

11A participação dos sefarditas no cenário da gênese e do desenvolvimento do papiamentu

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fatores populacionais, a saber: (i) a heterogeneidade das línguas de substrato; (ii) as características tipológicas das diversas línguas envolvidas na situação de contato; (iii) os dados do trânsito dos escravos da África para as colônias; (iv) a quantidade de crianças no cômputo geral da população escrava; (iv) a miscigenação; (v) as mudanças na língua de prestígio; (vi) as atitudes linguísticas do falante e outros fatores linguísticos microssociais; (vii) a proximidade tipológica entre o superstrato e o substrato; (viii) as fugas de escravos e a posterior organização de comunida- des quilombolas; (ix) a taxa de mortalidade de escravos e o número de imigrações anuais; (x) a proporção entre escravos de casa e de campo; (xi) a persistência do contato entre a língua crioula e seu lexificador; (xii) as oportunidades educacionais (PARKVALL, 2000: 197). Diante dessa multiplicidade de fatores, nem sempre é possível fazer uma análise aprofundada dos aspectos demográficos envolvidos na formação de uma língua crioula até mesmo porque, muitas vezes, os registros sobre esses elementos não são muito numerosos e claros, permitindo somente um retrato parcial (mas ainda assim, importante) dos aspectos demográficos.

De acordo com Holm (2004), um dos fatores sociais elementares na crioulização é a proporção entre falantes nativos e não nativos da língua-alvo nos primeiros anos de surgimento de uma língua crioula, determinando em que medida essa nova língua que está surgindo será mais próxima ou mais distante da língua lexificadora (HOLM, 2004: 24-26, 136). O autor aponta que o momento em que a população não branca (escrava) ultrapassa o número de habitantes brancos tem uma grande importân- cia para engatilhar o processo de desenvolvimento dos crioulos. Essa importância das proporções entre os diversos segmentos da sociedade não deve, contudo, ser tomada isoladamente, uma vez que outros fatores sociais desempenham um papel relevante na crioulogênese, como o tempo necessário para o desenvolvimento da lín- gua e mesmo o fato de a população recém-chegada já dominar um pidgin (HOLM, 2004: 135-136).

Apesar da notável relevância dos critérios demográficos, nem sempre eles são considerados nos estudos dos crioulos. Mufwene (2009 [1996]: 373) afirma que, ao analisar os elementos europeu e não europeu nas línguas recém-formadas, em ge- ral, negligenciam-se a importância demográfica desses segmentos com relação ao

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cômputo geral dos habitantes e sua possível variação durante o período de desen- volvimento das comunidades falantes dos crioulos.

Considerando a relação estabelecida entre demografia e crioulogênese, é de grande relevância conhecer as estatísticas populacionais de Curaçao nos séculos xvii, xviii e xix para determinar o número de pessoas de cada segmento social (judeus, holandeses, escravos, entre outros) e sua relação com o total de habitantes. A partir da história de povoamento da ilha, é possível notar que havia uma grande heterogeneidade linguística tanto no segmento dominante (que incluía holandeses e judeus) quanto no dominado (escravos). Diversas línguas eram usadas em Curaçao e cada uma delas foi contribuindo (mais ou menos) para a formação do papiamentu. Munteanu (1996: 42) e Maurer (1998: 190) mencionam a dificuldade de se chegar ao número exato de pessoas de cada segmento até 1789/1790, quando foi realizado o primeiro censo populacional da ilha. Algumas cifras sobre a composição demográfica durante os primeiros 150 anos da colonização holandesa são encontradas de forma esparsa nas obras que tratam do papiamentu. Segundo Maurer (1998: 190), em 1634, ano em que os holandeses chegaram a Curaçao, a população da ilha compreendia 421 europeus e 75 índios nativos12. Em 1635, de acordo com o autor,

o número de ameríndios já havia diminuído para 5013. Nos anos posteriores, já não

há mais menção a esse segmento, o que sugere que os ameríndios não representavam uma comunidade numericamente representativa. Isso não significa, porém, que os indígenas foram completamente exterminados de Curaçao, havendo a possibilidade de manutenção de alguns núcleos isolados no interior da ilha — Maurer (1998: 190) afirma inclusive que o último índio curaçolenho morreu em 1778.

Quanto ao elemento africano, Maurer (1998: 90) aponta a presença de 8 a 9 africanos em 1639. Esse número aumentou para 100 em 1650 (MUNTEANU, 1996: 42; MAURER, 1998: 190), ano considerado por alguns autores como o início

12Munteanu (1996: 42) aponta um número levemente menor de nativos: 70.

13As estatísticas mostram que, no período de formação do papiamentu (iniciado por volta

de 1640), o número de indígenas era pequeno, o que justificaria a pequena influência desse segmento na estruturação da língua. Como será discutido na seção 5.3 do capítulo 5, é possível que o léxico indígena tenha entrado no papiamentu através do espanhol.

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do tráfico negreiro para as ilhas (conforme seção 3.1), e só foi crescendo gradati- vamente durante o período em que Curaçao foi um entreposto de escravos. Em 1652, a população de descendência africana ultrapassava 20% do total, chegando a mais da metade em 1657 e, por fim, em 1685, já era de mais de 80% da população da ilha (GRANT, 2008b: 95). Em 1683, segundo Kouwenberg & Muysken (1995: 205) e Munteanu (1996: 42), havia 2.400 escravos africanos em Curaçao, dos quais 1.800 (75%) eram escravos de casa, atuando em atividades domésticas, e 600 (25%) trabalhavam no campo. A mesma cifra total de escravos é registrada em 1697 por Maurer (1998: 190-191), acrescentando que esse valor incluía apenas os escravos que pertenciam à Companhia das Índias Ocidentais, desconsiderando os escravos de par- ticulares. De acordo com E&E (1970: 228, 277), em 1765, havia 5.534 escravos em Curaçao; dentre eles, 860 eram propriedade dos judeus (aproximadamente 15,3%).

Com relação à comunidade judaica, E&E (1970: 228, 277) afirmam que, em 1651, entre 50 e 100 judeus chegaram a Curaçao. Em 1713, havia 140 famílias judaicas vivendo na ilha caribenha, ao passo que as famílias não judaicas (holandesas e outras) somavam 320 (E&E, 1970: 109). A proporção de judeus foi aumentando com o passar dos anos e, em 1715, esse segmento correspondia a 36% da população branca da ilha de acordo com E&E (1970: 115, 228, 277). Entre as décadas de 40 e 70 do século xviii, o número de judeus manteve-se mais ou menos constante, o que pode ser percebido pelas cifras de Emmanuel (1957: 7) e E&E (1970: 302, 1024): (i) 1745: cerca de 1.400; (ii) 1746: aproximadamente 1.450; (iii) 1750: mais ou menos 1.500; (iv) 1769: cerca de 1.350.

Por volta de 1700, segundo Grant (2008b: 96), a população total de Cura- çao era de menos de 3.000 habitantes, dos quais uma grande parte era composta por escravos e mulheres, segmentos que não gozavam de grande mobilidade social. Munteanu (1996: 42) e Maurer (1998: 191), por seu turno, trazem cifras bastante superiores para o mesmo período. De acordo com eles, a população curaçolenha seria de 6.000 habitantes, divididos da seguinte forma: 2.400 brancos (incluindo judeus, holandeses e demais segmentos), o que equivale a 40% do total, e 3.600 escravos, representando 60%.

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africanos só foi aumentando a partir de 1650, sendo esse grupo um importante criador e difusor da nova língua que ia se formando na ilha. Quanto aos holandeses, não há muitos dados sobre o número total dos colonizadores, uma vez que as cifras do período, em geral, tratam dos europeus como um todo. De qualquer forma, no caso do papiamentu, o holandês não é a língua de superstrato (ou seja, aquela que forneceu a base para a língua que estava se formando); ela pode ser classificada como uma língua de adstrato, atuando no empréstimo de palavras e/ou estruturas. Por fim, com relação aos sefarditas, sua porcentagem só vai aumentando no decorrer do século xviii, justificando o posicionamento de que, ainda que os judeus (e seus escravos) tenham influenciado a formação do papiamentu, não foi a língua falada por eles que deu origem à língua caribenha. A comunidade sefardita possivelmente tinha mais contato com os escravos do que os holandeses, o que permitiu que essa comunidade pudesse influenciar de forma mais direta a configuração do papiamentu, inicialmente uma língua de escravos (como apontado na seção 3.1).

Com relação ao século xviii, E&E (1970: 277, 302) consideram que, em 1785, a população de Curaçao era de aproximadamente 8.500 habitantes, dos quais 1.200 eram judeus sefarditas e entre 3.000 e 3.200, holandeses brancos. Considerando a constituição demográfica da ilha no período, pode-se presumir que os 4.100/4.300 restantes possivelmente englobavam escravos africanos. Ao final do século xviii, segundo Kouwenberg & Muysken (1995: 205), havia em Curaçao 16.000 negros, incluindo escravos e homens livres. Já os brancos somavam 5.500 habitantes; dentre os quais, 1.500 eram judeus sefarditas. Quanto aos judeus, Casseres (1990: 26) afirma que, nesse período, eles constituíam mais da metade da população branca. Já Munteanu (1996: 40-41) considera que os judeus representavam entre 30% e 50% dos brancos que viviam em Curaçao. Essa mesma cifra é estendida por Maurer (1998: 192) ao começo do século xix.

No final do século xviii, em 1789/1790, é realizado o primeiro censo em Cura- çao. Em 1816, outro censo é realizado na ilha. Os resultados de 1789/1790 conside- ram se os diferentes segmentos sociais viviam no campo ou na cidade (Willemstad). As estatísticas populacionais são mostradas na tabela 3.1 (MAURER, 1998: 193)14: 14As cifras de 1789/1790 aparecem também em Munteanu (1996: 42) com um equívoco

a ilha de curaçao 67

— 1789 1816

Cidade Campo Total Total

Holandeses 2.001 469 2.469 (62,3% dos brancos) 1.759 (63,3% dos brancos) Judeus sefar- ditas 1.423 72 1.495 (37,7% dos brancos) 1.021 (36,7% dos brancos) Total de bran- cos 3.423 541 3.964 (20% do total geral) 2.780 (19,7% do total geral) Escravos 5.359 7.445 12.804 (82,2%

dos não bran- cos)

6.765 (59,8% dos não bran- cos)

Mestiços li- vres

2.615 161 2.776 (17,8%

dos não bran- cos)

4.549 (40,2% dos não bran- cos) Total de não brancos 7.974 7.606 15.580 (80% do total geral) 11.314 (80,3% do total geral) POPULAÇÃO TOTAL 11.398 (58,3% do total) 8.146 (41,7% do total) 19.544 14.094

Tabela 3.1: Censos de Curaçao de 1789/1790 e 1816 (adaptada de MAURER, 1998: 193).

Os dados do primeiro censo quanto à distinção entre campo e cidade mostram que, entre o grupo branco, 81% dos holandeses e 95,2% dos sefarditas viviam em Willemstad. Essas porcentagens se relacionam com as principais atividades desem- penhadas por esses segmentos: os holandeses atuavam na administração colonial e os judeus, no comércio escravocrata, navegação e finanças. No caso dos integran- tes desses segmentos que se dedicavam às atividades de plantation, as cifras podem ser explicadas a partir da asserção de que, sendo donos das terras (e, portanto, não fazendo o trabalho braçal), eles não precisariam estar o tempo todo nas fa- zendas, podendo morar na capital e realizar visitas às propriedades. Com relação quanto ao número de mestiços livres, que aparece como 1.776. Para o ano de 1816, Lenz (1928: 48) aponta os seguintes números: (i) brancos: 2.781; (ii) mulatos livres: 2.161; (iii) escravos: 690; (iv) negros livres: 1.872; (v) escravos: 5.336; totalizando 12.840 habitantes. Em seus dados, há duas cifras para escravos e o autor não apresenta um motivo específico para essa divisão.

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aos segmentos não brancos, 41,9% dos escravos e 94,2% dos libertos moravam em Willemstad. Esses números podem ser explicados pelo fato de que os escravos eram bastante requisitados para os trabalhos no campo (ainda que também houvesse um número considerável deles na cidade, trabalhando nas casas de seus senhores). Já os mestiços livres, em geral, encontravam melhores oportunidades de emprego nos centros urbanos, saindo, assim, do interior assim que ganhavam sua liberdade.

Comparando os resultados dos dois censos, observa-se que o perfil demográfico de Curaçao pouco se alterou entre 1789/1790 e 1816. A porcentagem de holandeses e sefarditas se manteve mais ou menos constante, bem como o número de brancos quanto à população total. No que diz respeito aos negros e mestiços, seu número continuou sendo majoritário com relação ao total de habitantes. Contudo, a con- figuração interna do grupo sofreu algumas alterações. A porcentagem de escravos baixou de 66% para 48%, ao passo que o número de mestiços livres saltou de 14% para 32,3%. Com relação aos números totais absolutos nos dois censos, observa-se uma queda da população curaçolenha, que passou de 19.544 habitantes para 14.094, havendo uma diminuição de 5.450 pessoas — 1.184 brancos e 4.266 não brancos. Se- gundo Maurer (1998: 192-193), uma das causas dessa redução foi o comportamento que os ingleses tiveram com relação aos comerciantes curaçolenhos, especialmente sefarditas, entre 1800 e 1803 quando ocuparam a ilha pela primeira vez. Eles con- fiscaram ilegalmente grande parte dos bens dos comerciantes, que, por conta disso, deixaram Curaçao junto com seus escravos, passando a viver nas Ilhas Virgens, Santo Domingo, Coro, Maracaibo, Colômbia e Aruba. Além desse aspecto, o autor aponta ainda a escassez de alimentos e epidemias como responsáveis pela diminuição do número de habitantes. Quanto aos escravos e mestiços, pode-se apontar ainda um outro fator: o enfraquecimento da indústria escravocrata no começo do século xix, resultante do fim (ou pelo menos, queda) na importação de escravos em 1778. Depois de 1816, o próximo censo de Curaçao de que se tem notícia é o de 1930 (CBS, 2012: 2). Com relação ao período de mais de 100 anos que separa as duas contagens populacionais, são encontrados alguns dados em obras que tratam de Curaçao e do papiamentu. Lenz (1928: 48), por exemplo, afirma que a população total da ilha em 1833 era de 15.027 habitantes, divididos nos seguintes grupos: (i)

papiamentu: características gerais 69

brancos: 2.602; (ii) negros e mulatos livres: 6.531; (iii) escravos: 5.894. Segundo o autor, em 1849, a ilha possuía 16.530 habitantes, sendo 10.892 livres e 5.638 escravos. Já em 1863, ano da libertação dos escravos, os negros e mulatos libertos somavam 6.751, o que correspondia a cerca de 1/3 da população da ilha (LENZ, 1928: 49), que deveria ser então de aproximadamente 20.000 habitantes. Para o mesmo período, Domingos (1974: 3) apresenta estimativas bastante diferentes: o número total da população seria de 30.000, dos quais apenas 4.000 eram brancos. Em 1886, de acordo com Lenz (1928: 49), havia em Curaçao 25.403 pessoas. Para o começo do século xx, há dados pra 1916 — 33.000 pessoas segundo Domingos (1974: 3) — e 1920 — 34.893 habitantes (LENZ, 1928: 47).

Em síntese, os dados populacionais de Curaçao para o período de formação do papiamentu mostram que, nessa época, diferentes segmentos compunham a socie- dade, como judeus sefarditas, holandeses e escravos africanos. Esses grupos eram representados em diferentes proporções, o que se refletiu em graus de participação diversos na configuração da nova língua que ia se formando. Com o passar do tempo, a sociedade curaçolenha foi se diversificando e outros grupos começam a ser repre- sentados (a exemplo dos mestiços), os quais também trazem influências (em maior ou menor grau) para o papiamentu.

Benzer Belgeler