Dado o sinalagma de que se impregna o contrato de empreitada, as obrigações são recíprocas. Não é só o empreiteiro que assume obrigações.
Também quem encomenda a obra incumbe-se de deveres que variam conforme a maior ou menor complexidade dela.
No capítulo dedicado a esta espécie de negócio jurídico, não foram listadas de forma sistematizada, como fez o Código Civil em relação a outros institutos, as obrigações das partes envolvidas. Elas se encontram referidas de modo mais ou menos aleatório, como se pode notar com as obrigações do empreiteiro.
A principal obrigação a que está vinculado o dono da obra é a retribuição correspondente.
Em alguns casos (compra e venda, por exemplo), a contraprestação tem de ser necessariamente em pecúnia; noutros (locação, por exemplo), pode ser em dinheiro ou em outro bem.
No caso da empreitada não há dispositivo algum dentre os que constituem o capítulo próprio que faça expressa referência à contraprestação devida pelo dono da obra, embora, num ou noutro, se cogite de abatimento ou de aumento do preço.
No entanto, no Capítulo I deste trabalho, colocou-se em evidência, nas definições de empreitada examinadas, que esse tipo de negócio tem como uma de suas características, a onerosidade, sendo que a principal vantagem do empreiteiro está no preço devido pelo dono da obra.
A retribuição devida pela execução da obra é o móvel, o objeto mesmo para o empreiteiro, constituindo, pois, um elemento do negócio jurídico. Noutras palavras, não se pode presumir a gratuidade do contrato de empreitada.
A propósito, tal assertiva decorre de dispositivo legal que está, de maneira indireta, vinculado à empreitada. Trata-se do artigo 594, segundo o qual toda espécie de serviço ou trabalho lícito, material ou imaterial, pode ser contratada mediante retribuição. O texto refere-se ao contrato de prestação de serviços, não à empreitada. Mas pela mesma razão, a retribuição é também devida ao empreiteiro como corolário natural, eis que na empreitada há execução de serviços. Daí o termo empreitada de lavor.
Em obra monográfica editada nos idos de 1955, Alfredo de Almeida Paiva diz que “o empreiteiro, ao contratar a feitura de uma obra, assume o
ônus de sua execução, enquanto o dono ou proprietário se obriga a pagar por ela o preço convencionado”108.
Nos diplomas estrangeiros que estão sendo invocados para fins de algumas comparações, a contraprestação devida pelo dono da obra ao empreiteiro vem expressamente referida.
No Código Civil italiano, o artigo 1655 usa a locução “um corrispettivo in
danaro”; no alemão, o parágrafo 631, (1) fala em remuneração pactuada; o
português, no artigo 1270º, diz mediante um preço; e o argentino alude, no artigo 1251, a una retribuición. O único que, a rigor, fala em pecúnia, como remuneração, é o italiano. Os outros cogitam de uma remuneração.
O artigo 615 do Código Civil vigente determina o seguinte: “concluída a obra de acordo com ajuste, ou o costume do lugar, o dono é obrigado a recebê-la”. Mais apropriado teria sido dizer: “é obrigado a pagá-la”. Desde, é evidente, que ela tenha sido executada de conformidade com o que foi objeto da convenção, ou os costumes, na ausência de ajuste, para que possa receber.
O dono da obra não tem, propriamente, a obrigação de recebê-la, pois o credor tem direitos, não deveres. O que se deve entender do texto é que o proprietário, recebendo ou não recebendo a obra encomendada, desde que ela tenha sido executada conforme o ajuste ou o costume do lugar tem a obrigação de pagar ao empreiteiro a retribuição devida, quer haja sido expressamente pactuada, quer não.
Uma vez ajustado o preço, o credor da obra somente ficará forro se pagar exatamente o que for devido. Se o preço não foi convencionado pelas partes, ele terá de ser objeto de arbitramento, requerendo, se for o caso, perícia para subsidiar sua a fixação. Tudo em homenagem ao princípio da boa- fé objetiva em geral e, em particular, ao enriquecimento sem causa.
Se o dono da obra deixar de pagar a retribuição devida, incidirá em mora e sujeitar-se-á aos efeitos dela (mora solvendi), consoante as prescrições dos artigos 389 e 395 do Código Civil. Se ele deixar de receber a obra ficará caracterizada outra espécie de mora (mora accipiendi), submetendo-se, em
108 Alfredo de Almeida Paiva, Aspectos do contrato de empreitada, Rio de Janeiro, Editora Forense,
conseqüência, aos efeitos dela, segundo o disposto no artigo 400 do Código Civil.
Assim, poderá estar sujeito aos efeitos das duas espécies de mora, o pagamento da retribuição devida e o recebimento do trabalho executado. Não lhe serve de escusa, para subtrair-se aos efeitos da mora debitoris, o simples fato de recusa do recebimento da prestação. A menos que a recusa tenha fundamento, alegação que poderá ter lugar no bojo de ação de consignação promovida pelo empreiteiro, ou mesmo em procedimento preparatório.
Se procederem suas alegações, não terá incidido nem numa espécie de mora, nem noutra. Não se pode deslembrar, porém, que embora a obrigação do empreiteiro seja obrigação de resultado, não basta o dono da obra alegar insatisfação pura e simples para justificar a recusa, pois como se deixou assentado alhures, essa apreciação não pode ficar por conta do subjetivismo puro, ao contrário, deverão ser considerados os aspectos objetivos, conforme o tipo de obra.
A retribuição, enfim, é a principal obrigação que o dono da obra assume perante o empreiteiro. Ela pode ser ajustada conforme as conveniências das partes. Pode ser paga em etapas, ou de uma só vez, no início ou no final, quando da entrega da obra. Pode ser em dinheiro ou em outra coisa, como é até comum nas construções de obras civis, em que o dono da obra paga o empreiteiro com unidades construídas. Nem por isso o contrato de empreitada se desnatura.
Pode até ser o caso de a retribuição somente ser devida se a obra executada for a contento de quem a encomendou, cláusula que está expressamente contemplada no contrato de compra e venda (artigo 509 do Código Civil)109.
Acrescente-se, por fim, que a retribuição é devida ainda que o dono da obra suspenda a sua execução. Neste caso, deverá, consoante o preceito do artigo 623 do Código Civil, pagar ao empreiteiro as despesas e lucros relativos aos serviços já feitos, mais indenização razoável, calculada em função do que ele teria ganho, se concluída a obra.
109 Código Civil, Art. 509. A venda feita a contento do comprador entende-se realizada sob condição
suspensiva, ainda que a coisa lhe tenha sido entregue; e não se reputará perfeita, enquanto o adquirente não manifestar seu agrado.
Trata-se de indenização dos danos causados ao empreiteiro, compreendendo os danos emergentes e os lucros cessantes, cabendo observar que com relação a estes últimos, a indenização não será fixada em verba considerada razoável, mas em verba que corresponda ao prejuízo, se for razoável a sua ocorrência. Ou seja, indeniza se for razoável que ele tenha existido, não o quanto ele seja razoável.
A lei contempla ainda algumas obrigações que podem competir ao dono da obra, além de tantas outras que a convenção venha a estabelecer segundo a conveniência das partes.
Assim a obrigação de fornecer os materiais. Trata-se de obrigação que incumbe ao proprietário, a menos que o empreiteiro assuma o mister, o qual deverá constar do pacto, pois segundo o parágrafo 1º do artigo 610 do Código Civil, a obrigação de fornecer os materiais não se presume.
Se a obrigação pelos materiais incumbe ao dono da obra, deverá ele apresentar aqueles que sejam apropriados para a perfeita execução do trabalho. Cabe ao empreiteiro apontar a inadequação do material ofertado, não lhe aproveitando a escusa de que o eventual defeito da obra deveu-se à falta de qualidade do material apresentado, pois ele é quem deve reunir os predicados pessoais e técnicos para avaliá-lo e utilizá-lo. Reputando-o impróprio, impõe-se-lhe o dever de repudiá-lo.
O Código Civil, no artigo 612, serve de fundamento para essas observações, embora cogite dos riscos do material, estatuindo que “se o empreiteiro só forneceu mão de obra, todos os riscos em que não tiver culpa correrão por conta do dono”.
Outra obrigação a que está sujeito o dono da obra vem prescrita no artigo 614 do Código Civil, segundo o qual “se a obra constar de partes distintas, ou for de natureza das que se determinam por medida, o empreiteiro terá direito a que também se verifique por medida, ou segundo as partes em que se dividir, podendo exigir o pagamento na proporção da obra executada”. Se a lei diz que o empreiteiro tem o direito de, está afirmando que o dono está
obrigado a. Assim, se se tratar de obra que se executa em partes autônomas e
distintas, como ocorre com freqüência nas construções civis (fundações, estruturação, revestimentos, acabamento, v.g.), ou então, se a natureza dela se determina por medida (ad mensuram), constitui obrigação do dono da obra
recebê-la em partes e pagar a retribuição ajustada pelas partes executadas e entregues, militando em favor do empreiteiro a presunção juris tantum de que tudo que foi medido e pago foi conferido e verificado, decaindo do direito de reclamar por vício ou defeitos que não tenham sido denunciados no prazo decadencial de trinta dias (artigo 614, § 2º).
Também pode ser referida como obrigação do dono da obra a de pagar eventual acréscimo no preço pactuado se forem introduzidas modificações no projeto inicial.
Em empreitadas de construção civil, sejam as grandes, sejam as pequenas, não é incomum que haja acréscimos ou alterações durante a sua execução. Às vezes, por expressa autorização ou mesmo solicitação do proprietário, outras vezes não. O empreiteiro, promovendo-as, tem direito à remuneração suplementar, não podendo o proprietário furtar-se a esta obrigação, quer tenha anuído expressamente, quer tacitamente, hipótese esta que ocorre quando ele, presente à obra, em continuadas visitas, não podia ignorar o que se estava passando, e nunca protestou.
É o que está estatuído no artigo 619 e em seu parágrafo único do Código Civil, cuja parte final constitui mais um inequívoco atestado de que as relações negociais devem ser sempre presididas pelo princípio da boa-fé objetiva.
Essas eventuais modificações pretendidas pelo proprietário têm de contar com a prévia aprovação do autor do projeto. Quer dizer, o dono da obra está obrigado a respeitar o projeto anteriormente por ele aprovado, salvo se existirem razões de ordem técnica que recomendem a alteração, se ficar comprovada a inconveniência ou a excessiva onerosidade de execução do projeto em sua forma originária. É como emenda a disposição do artigo 620 do Código Civil.
Estas são as obrigações contratuais que o empreiteiro assume perante o dono da obra, e as que este contrai perante aquele, por força das provisões que estão contidas no Código Civil e que têm conotação supletiva.
Nada impede, o que aliás é bastante comum, que o contrato celebrado entre as partes contemple uma série de outras obrigações, dado o princípio da autonomia privada, qual seja, o de ajustar o que não for proibido pela lei, pela moral e pelos bons costumes.
Algumas referem-se à empreitada apenas de lavor, outras à empreitada mista. Umas concernem à empreitada de obras da construção civil, outras à empreitada de outras espécies de obra.
Relativamente às obrigações criadas no exercício da autonomia privada, fruto de mais extensa regulamentação pelas partes, o descumprimento delas acarreta, da mesma forma, o dever de indenizar, submetendo-se ao mesmo regime estatuído nos artigos 389 e seguintes do Código Civil. Quer dizer, o descumprimento ou o cumprimento parcial fundam-se na culpa. Logo, não apenas as obrigações contempladas no capítulo constante do Código Civil, mas tantas quantas as partes conceberem para reger as suas relações, de conformidade com as suas conveniências.
A inexecução de qualquer dessas obrigações previstas em lei, bem como as que foram objeto de ajuste contratual, acarreta a mora do proprietário da obra, o que afasta a possibilidade de mora do empreiteiro, como se viu no capítulo I deste trabalho.