As sentenças aditivas (stricto sensu) podem ser classificadas, conforme proposta feita por Carlos Blanco de Morais, de acordo com três critérios distintos. Para o autor português, as sentenças aditivas poderiam ser diferenciadas (i) quanto à natureza do bem jurídico protegido; (ii) quanto à forma da operação ablativa; e (iii) quanto às razões que presidem a operação reconstrutiva. Os subtipos de sentenças aditivas seriam: quanto ao primeiro grupo, (i-a)
sentenças aditivas de garantia ou (i-b) de prestação; quanto ao segundo grupo, (ii-a) sentenças aditivas com redução de texto ou (ii-b) sem redução de texto; por fim, quanto ao terceiro grupo,
(iii-a) sentenças aditivas de caráter corretivo ou (iii-b) de conteúdo integrativo.
271 Vide, a respeito, item 3.2.2, supra.
3.7.1 Classificação quanto à Natureza do Bem Jurídico Protegido: Sentenças Aditivas de Garantia e Sentenças Aditivas de Prestação
Uma primeira distinção diz respeito à natureza do bem jurídico em conflito a ensejar a atuação aditiva do Tribunal. Assim, são por ele denominadas sentenças aditivas de garantia aquelas que “julgam e reparam, com efeitos imediatos, a inconstitucionalidade parcial de uma disposição normativa violadora de situações jurídicas constitucionalmente protegidas, como é o caso de direitos, liberdades e garantais e de certas garantias institucionais” (MORAIS, 2009, p. 48). São decisões relacionadas a uma postura absenteísta do Estado, a um comportamento negativo (non facere) ou, por assim dizer, a um dever de sujeição do ente estatal (BOSELLI de SOUZA, 2013, p. 104-105). As sentenças aditivas de prestação, por sua vez, atuam com o fim de proteger, em regra, certos direitos econômicos, sociais e culturais e, por isso, “a componente aditiva reclama por parte do Estado, não apenas o reconhecimento de um direito ou a sua proteção, mas também a realização material de uma tarefa em favor de um titular, ou ainda, a outorga de um benefício patrimonial” (MORAIS, 2009, p. 50).
Tal distinção também fora feita por Leopoldo Elia, que defendia a diferença entre as
sentenze di garanzia e as sentenze di prestazione, estas últimas caracterizadas “pela aquisição
por parte de uma determinada categoria de sujeitos de um direito de conteúdo patrimonial ou de prestação de serviços cujo desfrute a juízo da Corte resultava ilegitimamente excluído ou limitado pela lei submetida a controle de constitucionalidade” (MARTÍN DE LA VEGA, 2003, p. 313).272
As sentenças aditivas de prestação são geralmente associadas à reparação de violações ao princípio da igualdade e costumam ser apontadas como geradoras de um impacto orçamentário direto e mais robusto do que aquele oriundo das sentenças aditivas de prestação,273
272 No original: “[...]Elia ya distinguía, como vimos, entre sentencias aditivas 'di garanzia' y un segundo tipo, las
sentencias aditivas di 'prestazione', caracterizadas por lá adquisición por parte de una determinada categoría de sujetos de un derecho de contenido patrimonial o de prestación de servicios cuyo disfrute a juicio de la Corte resultaba ilegítimamente excluido o limitado por la ley sometida a controle de constitucionalidade”. A referência é à obra de ELIA, L. Le sentenze additive e la piú recente giurisprudenza della Corte costituzionale. In: Scritti sul
a Giustizia Costituzionale in onore di V Crisafulli. I, Padova: [s.n.], 1985, p. 913-914.
273 Não parece correto afirmar que as sentenças aditivas de garantia não geram nenhum impacto orçamentário.
Veja-se, por exemplo, situação em que o Tribunal Constitucional tenha declarado inconstitucional determinada lei concessiva de assistência judiciária gratuita a um grupo de pessoas (e.g., os brasileiros natos e naturalizados), silenciando a respeito de outra categoria (p. ex.: estrangeiros residentes, apátridas, asilados, turistas etc.). O caso é de proteção de uma garantia constitucional, qual seja o acesso à jurisdição das pessoas hipossuficientes. Ao estender a gratuidade de justiça aos grupos não originalmente contemplados, a Corte Constitucional estará, por via indireta, gerando um gasto orçamentário consistente no aumento da despesa destinada à manutenção do sistema de justiça sem a contrapartida habitual das taxas judiciárias. O custo financeiro não é tão direto e palpável quanto aquele que verificado numa decisão extensiva de certo benefício previdenciário, mas, inegavelmente, existe.
num debate que se relaciona à clássica distinção entre direitos de primeira e segunda dimensões. Essa discussão a respeito do “custo” das sentenças aditivas de prestação fez com que parte da doutrina italiana consolidasse o termo sentenza di spesa para se referir a tais decisões (MARTÍN DE LA VEGA, 2003, p. 313 e ss.).
Como anota Morais, o Tribunal Constitucional português – e se trata de uma característica que tende a se repetir nas demais Cortes do mundo – é mais restritivo à prolação de sentenças aditivas de prestação. Verifica-se uma maior resistência à sua utilização em sede de controle abstrato do que no controle concreto, já que no primeiro a decisão terá efeitos erga
omnes (MORAIS, 2009, p. 50).
3.7.2 Classificação quanto à Forma da Operação Ablativa: Sentenças Aditivas com e sem Redução de Texto
Uma segunda classificação possível das sentenças aditivas diferencia aquelas que operam mediante a “eliminação do sentido normativo ideal emergente de uma disposição e a concomitante identificação, por parte da sentença de acolhimento, de uma norma ou segmento normativo que se encontrava em falta” (MORAIS, 2009, p. 50), tornando-a compatível com a Constituição. Estas decisões não introduzem modificações no texto do dispositivo impugnado, motivo pelo qual são denominadas sentenças aditivas sem redução de texto.
Por outro lado, há decisões em que a componente ablativa se projeta sobre o texto, e não sobre o conteúdo normativo do preceito impugnado. Nestas, a componente ablativa da decisão recai sobre uma parcela do texto da disposição impugnada. São as chamadas sentenças aditivas
com redução de texto. Sobre a classificação ora exposta, ensina Israel:
[...] a diferença entre as sentenças aditivas com redução de texto e sem redução de texto está na componente ablativa. As primeiras pressupõem a eliminação de parte da norma que consagra uma exclusão explícita ou um duplo tratamento diferenciado. As segundas, por sua vez, fulminam não um segmento normativo expresso, mas, sim, um segmento normativo ideal na parte em que tenha implicitamente excluído uma dada situação – que, por identidade de razões, deveria ter sido contemplada –, para, em seguida, alargar o âmbito de incidência da norma de modo a alcançar situações não previstas originalmente (ISRAEL, 2011, p. 30).274
Nas primeiras, tem-se uma formulação próxima das sentenças de inconstitucionalidade parcial qualitativa (declaração de nulidade sem redução de texto), no entanto, acrescida de um
274 Em ambas as decisões, como anota Morais, a componente reconstrutiva não se distingue (MORAIS, 2009, p.
elemento adjuntivo identificador da decisão aditiva (MORAIS, 2009, p. 51). Nas últimas, por sua vez, há aproximação das sentenças de inconstitucionalidade parcial quantitativa (inconstitucionalidade parcial com redução de texto), à qual também se acresce um quid normativo, caracterizando-a como uma decisão aditiva. Nas decisões aditivas com redução de texto também há similitude com as decisões demolitórias com efeitos aditivos, com a diferença de que, nestas últimas, a componente aditiva deriva automaticamente da ablação operada pelo Tribunal, enquanto nas sentenças aditivas com redução de texto ela é fruto da atividade criadora da Corte, que indica a norma integrativa aplicável aos casos em análise (MORAIS, 2009, p. 56; ISRAEL, 2011, p. 30).
3.7.3 Classificação quanto às Razões que presidem a Operação Reconstrutiva: Sentenças Aditivas de Caráter Corretivo e Sentenças Aditivas de Conteúdo Integrativo
Por fim, as sentenças aditivas podem ser classificadas conforme as razões que presidem a operação reconstrutiva em: sentenças aditivas de caráter corretivo e sentenças aditivas de
conteúdo integrativo, as quais se distinguem pela estrutura da operação reconstrutiva realizada.
Assim, se se está diante de uma omissão parcial à qual é seguida uma reparação aditiva levada a efeito pelo Tribunal Constitucional como forma de tornar a norma reconstruída constitucional, tem-se o que Morais chama de sentença aditiva de caráter corretivo (MORAIS, 2009). O Tribunal, assim, “modifica o sentido originário do preceito em julgamento por meio da adição de um novo quid normativo” (ISRAEL, 2011, p. 31).
Por outro lado, nas sentenças aditivas de conteúdo integrativo, ocorre “o preenchimento do vazio gerado pelos efeitos ablativos da própria decisão de inconstitucionalidade, de forma a evitar situações prejudiciais para o interesse público ou para os direitos fundamentais, susceptíveis de decorrerem imediatamente dessa lacuna” (MORAIS, 2009, p. 56). Neste último caso, a decisão acaba por colmatar uma lacuna gerada pelo efeito ablativo da própria decisão de inconstitucionalidade (ISRAEL, 2011, p. 31), e não por um defeito da norma impugnada. Morais denomina de lacuna técnica, isto é, a lacuna gerada, direta ou indiretamente, pelo efeito ablativo mesmo da decisão (MORAIS, 2009, p. 57).