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Nesta seção apresenta-se um modelo teórico desenvolvido com base nos princípios de governança, nos modelos clássicos de governança corporativa no mundo, nas recomendações dos órgãos de mercado voltadas especialmente para empresas de capital aberto, bem como nos modelos de governança encontrados para incubadoras de empresas, parques tecnológicos e redes de incubadoras.

Cumpre mencionar que o modelo de governança representa as etapas que a gestão da rede de incubadoras percorrerá para sua governança. Este modelo é o ponto de partida desta pesquisa que será confrontado com o atual quadro de práticas de governança da Rede de Incubadoras de Empresas do Ceará (RIC). Com a confrontação entre os elementos sugeridos na literatura e as peculiaridades da rede, surge o modelo de governança para a RIC.

Inicialmente, foi preciso identificar os grupos que se relacionam com a rede de incubadoras, ou seja, seus stakeholders. Freeman (1984) afirma que os stakeholders são indivíduos e grupos que podem afetar ou podem ser afetados pela organização. Em uma moderna definição, Freeman (2004) destaca que são grupos vitais para a sobrevivência e o sucesso da organização.

Em um cenário mais semelhante, Cassiolato e Szapiro (2003) destacam que os atores em arranjos produtivos locais são: grupos de pequenas empresas, pequenas empresas nucleadas por grande empresa, associações, instituições de suporte, serviços, ensino e pesquisa, fomento e financeiras.

Para Chichetta (2010), os atores envolvidos com os parques tecnológicos são: órgãos governamentais: setor público nas esferas federal, estadual e municipal; empresas de base tecnológica; sociedades empresariais; investidores; instituições bancárias e/ou investidores de capital de risco; universidades; institutos de pesquisa, desenvolvimento e inovação; e, incubadoras.

Gallon (2009) destaca que os atores envolvidos em um modelo de avaliação de desempenho de uma incubadora de empresas são: coordenador da incubadora, SEBRAE, gestores e colaboradores das empresas de base tecnológica incubadas, bem como a sociedade que se beneficia dos produtos e serviços gerados pelas incubadoras e as empresas incubadas.

Dessa forma, tendo em vista o que foi exposto e a definição de que stakeholders

são grupos vitais para o sucesso de uma organização (FREEMAN, 2004), os stakeholders que se relacionam com uma rede de incubadoras considerados na proposição do modelo, são: (i) universidades; (ii) órgãos de fomento; (iii) governo, nas esferas federal, estadual e municipal;

(iv) investidores de capital de risco; (v) institutos de pesquisa, desenvolvimento e inovação; (vi) incubadoras de empresas associadas à rede, e; (vii) empresas incubadas vinculadas às incubadoras.

Sousa e Almeida (2003) observam que há dois tipos de stakeholders: os passivos (involuntários) e os ativos (voluntários). Segundo os autores, os stakeholders das empresas podem ser relacionados com a geração de valor obtido por meio de relações já existentes,

stakeholders passivos, ou então através de relações a existir, stakeholders ativos.

Nessa perspectiva, os stakeholders da rede de incubadoras foram agrupados em voluntários ou involuntários no modelo proposto. Os stakeholders involuntários são as incubadoras de empresas que são associadas à rede e suas empresas incubadas e os

stakeholders voluntários são as universidades, órgãos de fomento, governo, investidores de capital de risco e institutos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Após a seleção dos stakeholders da rede de incubadoras, foi necessário analisar os agentes de governança. Silva (2010) destaca que os agentes mais envolvidos com as operações corporativas são: conselho de administração, conselhos consultivos, conselhos fiscais, auditorias independentes, comitês corporativos de gestão e diretoria executiva.

Na mesma perspectiva, o IBGC (2009) destaca que os sócios, conselheiros de administração, executivos, conselheiros fiscais e auditores são os principais agentes de governança.

O Código PREVI de Melhores Práticas de Governança Corporativa foi uma iniciativa pioneira entre os fundos de pensão do Brasil para contribuir na otimização do desempenho das companhias. Os órgãos de governança, de acordo com o Código são: conselho de administração, diretoria executiva, conselho fiscal, comitês e auditoria independente (PREVI, 2012).

Silva (2010) ressalta que a boa governança deve ter como principal objetivo a perpetuação da empresa e um modelo de governança deve garantir que esse objetivo seja atendido. Para tanto, o modelo de governança deve incluir a criação de um conselho de administração e/ou consultivo e deixar claro a distinção de papéis entre a diretoria executiva e o conselho.

Logo, para o modelo teórico ora proposto, os agentes de governança da rede de incubadoras considerados, são: (i) conselho de administração; (ii) conselho fiscal; (iii) comitês de assessoramento, e; (iv) diretor-presidente, conforme se observa na Figura 9.

Figura 9 – Modelo de governança teórico para redes de incubadoras

Fonte: Elaborado pela autora com base na revisão de literatura (2013).

A Figura 9 permite visualizar que os stakeholders considerados no modelo, voluntários ou involuntários, influenciam e são influenciados pelo sistema de governança da rede de incubadoras. O conselho de administração se relaciona com os comitês de assessoramento, o conselho fiscal e o diretor-presidente e este último é influenciado pelo conselho de administração, pelo conselho fiscal e pelos comitês de assessoramento.

O conselho de administração, segundo o IBGC (2009), é responsável pelo processo decisório da organização em relação ao seu direcionamento estratégico, sendo o principal componente do sistema de governança. O principal papel do conselho de administração é ser o elo entre a propriedade e a gestão para controlar orientar e supervisionar a relação da gestão com as demais partes interessadas.

Para a CVM (2002), o conselho de administração tem o objetivo de proteger o patrimônio da organização e orientar a direção para maximizar o retorno do investimento. A CVM (2002) recomenda que o conselho de adminsitração contenha de cinco a nove conselheiros, com mandato de um ano, sendo permitida a reeleição.

O conselho de administração presta conta aos sócios e os conselheiros não podem estar vinculados às partes interessadas. Assim, o IBGC (2009) indica que ele deve ser

composto de cinco a onze conselheiros e ter a maior presença de membros independentes. A avaliação do desempenho do conselho de administração e de cada conselheiro deve ser anual e o mandato não deve ser superior a dois anos, sendo permitida a reeleição, mas não pode acontecer automaticamente (IBGC, 2009).

A Bolsa de Mercadorias e Futuros Bovespa (BM&FBOVESPA) lançou no ano 2000 os segmentos de listagem das empresas, com o objetivo de estimular o interesse dos investidores e de valorizar as companhias, estimulando o mercado de capitais brasileiro. Dessa forma, foram criados os níveis diferenciados de governança corporativa: Novo Mercado, Nível 1, Nível 2 e Bovespa Mais. O Novo Mercado é o nível que possui o mais elevado padrão de governança corporativa. Dentre as regras estabelecidas nesse segmento de listagem, destaca-se que o conselho de administração deve ser composto por no mínimo cinco conselheiros, que devem ser eleitos em assembleia geral e devem ter um mandato de até dois anos, sendo permitida a reeleição (BM&FBOVESPA, 2013).

A estrutura do conselho de administração também é observada na Lei nº 6.404/76, que determina a obrigatoriedade do conselho de administração a todas as companhias de capital aberto. A eleição dos conselheiros deve ocorrer em assembleia geral e a composição deve ser no mínimo de três membros e o mandato não pode ser superior a três anos, podendo ser renovável (BRASIL, 1976).

No que tange ao conselho fiscal, esse tem o objetivo de fiscalizar os atos dos administradores, denunciar erros, fraudes e crimes, sugerindo providências às companhias. A atuação do conselho fiscal assegura o exercício do direito dos acionistas de fiscalizar a gestão dos negócios (PREVI, 2012). O conselho fiscal então não exerce administração ativa da empresa, apenas informa, opina, recomenda e denuncia (ROSSETTI; ANDRADE, 2011).

Para a Lei nº 6.404/76, o conselho fiscal pode ser permanente ou instalado apenas em exercícios sociais a pedido dos acionistas e deve ser composto por no mínimo três e no máximo cinco membros, sendo que os suplentes devem ser em igual número. Os conselheiros fiscais devem ser eleitos em Assembleia Geral (BRASIL, 1976).

Para o IBGC (2009), o conselho fiscal também pode ser permanente ou apenas instalado a pedido dos sócios. Esse conselho deve ser formado por membros do conselho de administração ou, no mínimo, chefiado por um dos conselheiros. A composição e a eleição devem ser de acordo com a Lei nº 6.404/76.

O Código PREVI destaca que o mandato do conselho fiscal é estabelecido em lei, sendo permitida reeleição. Deve ser composto de três a cinco membros e respectivos

suplentes. Pelo menos um membro do conselho fiscal deve ter reconhecido conhecimento em contabilidade e em finanças (PREVI, 2009).

A CVM (2002) comenta que o conselho fiscal deve ser composto de três a cinco membros e a periodicidade e o método da convocação das reuniões devem ser discutidos no regimento do Conselho.

Mais próximo do modelo que se apresenta nesta pesquisa, Chiochetta (2010), em sua proposta de modelo de governança para parques tecnológicos, evidencia que o conselho fiscal deve ter seis membros, sendo três efetivos e três suplentes.

Cabe ressaltar que o conselho de administração também pode ter órgãos acessórios, chamados de comitês. As atividades do conselho que demandam muito tempo podem ser exercidas com mais profundidade por comitês de assessoramento específicos, como de auditoria, recursos humanos, governança e sustentabilidade (IBGC, 2009).

O Código PREVI destaca que os comitês devem ter a participação de pelo menos um membro do conselho de administração para coordenar o comitê, de forma a facilitar o relacionamento com o conselho de administração. Devem ser compostos de três a cinco membros e os temas de competência do conselho de administração devem ser objeto de aprofundamento pelos comitês (PREVI, 2012).

Para o IBGC (2009), os comitês devem ser formados, preferivelmente, apenas por conselheiros, mas caso não seja possível, devem ser coordenado por um conselheiro de administração. A composição pode ser de no mínimo três membros, em que todos devem ter conhecimento sobre o tópico e questão (IBGC, 2009).

Da mesma forma, a CVM (2002) afirma que os comitês de assessoramento devem ser compostos por alguns membros do conselho de administração e que suas propostas devem ser submetidas à deliberação do conselho de administração.

Cabe ainda informar que o responsável pela gestão da organização é o diretor- presidente, que presta contas ao conselho de administração e atua como elo entre a diretoria e o conselho de administração. A diretoria deve facilitar o acesso do conselho de administração e do conselho fiscal às informações, arquivos e documentos necessários ao desempenho de suas funções (IBGC, 2009).

O Código PREVI (2012) evidencia que o mandato da diretoria executiva não pode ser superior a três anos, sendo permitida a reeleição. A diretoria executiva deve executar as diretrizes definidas pelo conselho de administração e pelas assembleias gerais (PREVI, 2012). Para Chiochetta (2010), em parques tecnológicos, o diretor-presidente deve ser escolhido pelo conselho de administração e deve ter reconhecido conhecimento na área.

Ressalta-se também sobre a importância da assembleia geral, que, de acordo com

o IBGC (2009, p. 22) “é o órgão soberano da organização”, pois tem o poder de eleger ou

destituir, a qualquer tempo, conselheiros fiscais e de administração, além de deliberarem sobre as demonstrações financeiras.

A Figura 10 destaca a estrutura hierárquica dos agentes de governança do modelo teórico proposto para redes de incubadoras.

Figura 10 – Estrutura hierárquica dos agentes de governança de uma rede de incubadoras

Fonte: Elaborado pela autora com base na revisão de literatura (2013).

Cumpre mencionar que o exercício das funções dos agentes de governança deve ser pautado pelos princípios básicos de governança corporativa definidos pelo IBGC (2009). No modelo teórico ora apresentado foram considerados os princípios da transparência, da prestação de contas, da equidade e da responsabilidade corporativa, tendo em vista que foram os princípios mais recorrentes entre as organizações que desenvolveram princípios de governança corporativa.

O princípio da transparência versa que as decisões tomadas e sua fiscalização devem ser realizadas através de regras e regulamentos conhecidos e o processo de decisão

deve ser claro e aceito por todos. Toda a informação deve ser livremente disponível e de fácil acesso para todos que podem vir a ser afetados por essas informações. Cumpre ressaltar que mais do que a obrigação de informar, deve haver o desejo de disponibilizar para as partes interessadas as informações que sejam de seu interesse.

Na prestação de contas, os agentes de governança devem prestar contas de sua atuação, assumindo integralmente a responsabilidade de seus atos e omissões. Essas prestações de contas devem ser analisadas pelo conselho de administração.

O princípio da equidade evidencia que a boa governança deve assegurar igualdade de todos os participantes perante os objetivos da rede. O caminho proposto pela governança deve buscar promover o desenvolvimento econômico de todos os participantes e da rede como um todo. As decisões devem assegurar que todos os membros da rede sintam que façam parte dela e não se sintam excluídos dos objetivos futuros da rede. Atitudes discriminatórias não podem existir.

Na responsabilidade corporativa, os agentes de governança devem zelar pela sustentabilidade da rede, visando à sua longevidade. Dessa forma, resguardadas as individualidades, as incubadoras de empresas associadas à rede precisam perceber que as decisões devem ser tomadas levando em consideração à coletividade. Portanto, não devem agir de forma a privilegiar interesses particulares em detrimento do interesse comum.

Ressalta-se que o modelo teórico de governança para redes de incubadoras evidenciado apresenta os fatores contextuais que representavam o ambiente a ser investigado na pesquisa. Dessa forma, será verificado a aderência da RIC a este modelo.

3 METODOLOGIA

Neste capítulo são descritos o método e os procedimentos da pesquisa. Segundo Martins e Theóphilo (2007, p. 37), método “é o caminho para se chegar a determinado fim ou

objetivo”. Richardson et al. (2008, p. 70) complementam ao afirmarem que o método é “a escolha de procedimentos sistemáticos para a descrição e a explicação de fenômenos”.

No que se refere aos procedimentos, Richardson et al. (2008) destacam que consistem na delimitação de um problema, na realização de observações e interpretações baseadas nas relações encontradas, fundamentando-se nas teorias existentes.

Na sequência, expõe-se o enquadramento metodológico da pesquisa e apresentam- se os procedimentos para coleta e análise de dados.

Benzer Belgeler