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Taşıma ve Depolama

3. DOLUM

3.7. Taşıma ve Depolama

referem‐se exclusivamente à criança, 16 ao professor e 114 a ambos em interação  (Anexo). A seguir, discuto como se configuram as representações sobre a criança  no Referencial.   

 

1.3. A Criança representada no Referencial

 

  Nesta seção apresento de que forma a criança se configura no Referencial, 

focalizando exclusivamente os segmentos em que é posta em situação individual.  O primeiro aspecto relevante que o resultado da análise dos dados mostrou refere‐ se à quantidade de ocorrências em que a criança aparece em situação individual,  126  ocorrências.  Esses  episódios  podem  ser  divididos  em  dois  grandes  grupos,  sendo que o primeiro é marcado pela ausência do agir com utilização de verbos de  ligação  em  que  é  determinado  um  Estado62  (fixo,  praticamente  imutável)  para  a 

criança, ou seja, lhe são atribuídas capacidades, compreendidas como os recursos  mentais  e  comportamentais  que  são  atribuídos  a  uma  pessoa  singular  como  discutido  por  Bronckart  &  Machado  (2004),  e/ou  determinada  características  físicas. Por outro lado, esses segmentos revelam, ainda, a preocupação em fornecer  ao  destinatário  um  saber  sobre  o  que  é  a  criança,  como  demonstra  o  exemplo  a  seguir:

“As crianças são mais capazes de explicitações verbais e de explicar-se pela fala“ (RCNEI, V.3, p.126. Desenvolvimento da Linguagem Oral).

 

O  segundo  grupo  de  ocorrências  relaciona‐se  ao  agir  e  destacam‐se,  principalmente,  quatro  formas:  Agir  Linguageiro,  Agir  Cognitivo,  Agir  Instrumental e Agir Pluridimensional.  

  Antes de apresentar os exemplos, é importante ressaltar que na classificação 

das formas de agir se constatou a ocorrência simultânea de diferentes formas, por 

61 O resultado final da somatória das três orientações poderá ser superior ao número de entradas, tendo em

vista que algumas entradas originaram mais de uma oração com a criança, professor ou ambos em interação.

62A determinação de uma capacidade e/ou característica por meio do verbo de estado, como exemplificado,

foi observada em todos os dados coletados e analisados, no entanto, não é o foco deste trabalho; tendo

esse motivo, nos exemplos que serão apresentados poderão aparecer, além do agir  que se tenciona demonstrar, outras ocorrências.  

  Como, por exemplo, em uma ocorrência como essa: “A criança pensa para se 

expressar,  mas  corre  e  chora  antes  de  elaborar  o  desenho”.  Pode‐se  perceber,  nesse 

segmento,  as  seguintes  forma  de  agir:  cognitivo  (pensar);  linguageiro  (se  expressar);  corporal  (correr);  pluridimensional  (elaborar);  e  afetivo  (chorar).  Mesmo  sendo  apenas  um  exemplo  criado  para  ilustrar  essa  ocorrência,  nos  documentos analisados foram encontrados diversos episódios em que as formas de  agir  se  configuram  simultaneamente.  Essa  constatação  confirma  a  tese  de  Bronckart (2006), discutida no capítulo inicial deste trabalho, de que essa divisão é  meramente  metodológica;  na  atividade  não  ocorrem  divisões  entre  as  formas  de  agir, que se entrelaçam na atividade. 

  A seguir, apresento os exemplos encontrados no Referencial, marcados com 

as  seguintes  formas  de  agir:  Agir  Linguageiro  LG;  Agir  Cognitivo  COG;  Agir  Corporal  CO;  Agir  pluridimensional  PLU;  Agir  Afetivo  AFE;  Agir  instrumental  INS, e Agir Prescritivo PRE.   

 

“Os bebês  emitem sons (LG) articulados que  lhes  dão prazer (AFE)” (RCNEI, V.3, p.  126. Desenvolvimento da Linguagem Oral).    “A criança fala (LG) com mais precisão o que deseja, o que gosta e o que não gosta, (AFE) o  que quer e o que não quer(AFE) fazer(PLU)” (RCNEI, V.3, p. 126. Desenvolvimento  da Linguagem Oral).     “Pelas interações os bebês incorporam (COG) as vocalizações rítmicas revelando o papel  comunicativo,  expressivo  e  social  que  a  fala  desempenha  desde  cedo” (RCNEI,  V.3,  p.  125. Desenvolvimento da Linguagem Oral). 

 

“As crianças elaboram (PLU) uma série de idéias e hipóteses provisórias antes de

compreender (COG) o sistema escrito em toda sua complexidade” (RCNEI, V.3, p.  128. Desenvolvimento da Linguagem Oral). 

 “As  crianças  utilizam‐se  (INS)  de  livros,  revistas,  jornais,  gibis,  rótulos  etc.  para  “ler” o que está escrito” (RCNEI, V.3, p. 125. Desenvolvimento da Linguagem  Oral). 

“(A criança) familiarizar‐se (INS) com a escrita por meio do manuseio de livros, revistas  e outros portadores de texto” (RCNEI, V.3., p.131. Objetivo). 

 

  Com  base  nos  exemplos  apresentados,  pode‐se  afirmar  que  nas  páginas 

analisadas  do  Referencial,  a  criança  aparece  como  dotada  de  capacidade  linguageira  e  capacidade  cognitiva.  Percebe‐se,  também,  que  lhe  é  atribuída  a  capacidade  de  utilizar  instrumentos  sócio‐históricos  construídos  e  a  ela  disponibilizados pelo meio (livros, revistas, etc). 

  No entanto, além dessas capacidades configuradas nos episódios em que a 

criança  se configura  isoladamente,  fora  da  interação,  percebe‐se  outra  ocorrência  relevante  que  refere‐se  ao  Agir  Prescritivo,  e  se  apresenta  da  seguinte  forma,  no  Referencial:   

 

 “(As  crianças)  devem  recordar  (PRE)  a  história  para  situar  o  momento  no  qual  a  personagem  fala  e  consultar  (PLU)  o  texto,  procurando  (PLU)  indícios  que  permitam  localizar  (PLU)  a  palavra  ou  trecho  procurado”  (RCNEI,  V.3,  p.142.  Orientações  Didáticas – Práticas de Leitura 4 a  6 anos).  

 

  Nessa  ocorrência  o  que  se  constata,  além  das  ocorrências  de  Agir 

Pluridimensional,  que  o  Referencial  prescreve  o  agir  da  criança,  o  documento  afirma,  em  outros  termos,  que  para  localizar  palavras  no  texto  a  criança  deverá 

recordar  a  história.  O  Agir  Prescritivo  determina  procedimentos  que  visam  o 

desenvolvimento de habilidades e/ou capacidades; no exemplo acima, habilidades  verbais  que  refere‐se  à  capacidade  de  recorda‐se  visando  à  realização  da  tarefa  proposta.  A  prescrição  é  marcada  pela  incidência  de  relações  predicativas  indiretas, como discutido no capítulo teórico, ou mais precisamente, por meio de  modalizações deônticas (tem que, deve) e as de modalizações de valor epistêmico  (de verdade, poder), acentuando o caráter da obrigação social e da conformidade  com as normas estabelecidas. 

Do mesmo modo, foram localizadas outras formas de prescrição, assim, com  base  em  exemplos  retirados  do  Referencial,  pode‐se  afirmar  que  o  RCNEI  apresenta três tipos de prescrição para o agir da criança:  

 

1) Agir da Criança prefigurado ‐  se  apresenta  como  um  agir  assegurado,  como  uma  possibilidade  futura  da  criança  desenvolver  determinada  capacidade 

e/ou habilidade, marcado pelas modalizações epistêmicas (de verdade, de poder).  Nos  exemplos  a  seguir,  observa‐se  que  o  primeiro  exemplo  refere‐se  a  um  segmento  localizado  na  subseção  ‘desenvolvimento  da  linguagem  oral’,  assim,  o  documento  afirma,  em  outras  palavras, que  gradativamente a  criança será capaz  de  utilizar  frases  em  sua  linguagem  oral.  No  segundo  exemplo,  o  documento  afirma que pela leitura a criança poderá ampliar seu conhecimento sobre diferentes  culturas:  

 

“As  crianças  gradativamente  podem  separar  e  reunir  em  suas  brincadeiras  fragmentos  estruturais  de  frases” (RCNEI,  V.3,  p.  126.  Desenvolvimento  da  Linguagem  Oral). 

 

“Pela  leitura  de  histórias  (a  criança)  pode  conhecer  a  forma  de  viver,  pensar,  agir  e  o  universo  de  valores,  costumes  e  comportamentos  de  outras  culturas  situadas  em  outros  tempos  e  lugares  que  não  o  seu”  (RCNEI,  V.3,  p.143.  Orientações  Didáticas  –  Práticas de Leitura 4 a  6 anos).  

 

2)  Agir  Necessário/Desejado  para  a  Criança  ‐  corresponde  à  prescrição  de  uma habilidade e/ou capacidade que deverá necessariamente ser desenvolvida na  criança.  Marcado  pelas  modalizações  deônticas  (deve,  tem  que).  No  exemplo  a  seguir  ‘tal  prática’  refere‐se  à  ‘situação  problema’  como  forma  de  a  criança  desenvolver a capacidade de escrever: 

 

“As crianças que não sabem escrever de forma convencional, ao receberem um convite para  fazê‐lo,  estão  diante  de  uma  verdadeira  situação‐problema,  na  qual  se  pode  observar  o  desenvolvimento do seu processo de aprendizagem. Tal prática deve favorecer a construção  de  escritas  de  acordo  com  as  idéias  construídas  pelas  crianças  e  promover  a  busca  de  informações específicas de que necessitem, tanto nos textos disponíveis como recorrendo a  informantes  (outras  crianças  e  o  professor)”  (RCNEI,  V.3,  p.148.  Orientações  Didáticas – Práticas de Leitura 4 a  6 anos).  

 

3)  Objetivo  do  Agir  da  Criança  dirigido  para  X  –  corresponde  a  um  agir  desejado,  que  visa à  realização  ou  obtenção  de  um  determinado fim.  Refere‐se a  uma  agir  sujeito  a  condições,  assim,  para  obter  X  a  criança  tem  que  realizar  Y,  como mostra o primeiro exemplo a seguir, que afirma que para escrever as crianças  precisam  pensar  antes  na  escrita,  ou  o  segundo  exemplo,  em  que  se  afirma  que  para escrever a criança terá que lidar com dois processos: 

  

“As crianças precisam pensar  sobre  quantas e  quais  letras  colocar para escrever o texto” 

(RCNEI, V.3, p.148. Orientações Didáticas – Práticas de Leitura 4 a  6 anos).    

“Sabe‐se  que  para  aprender  a  escrever  a  criança  terá  de  lidar  com  dois  processos  de  aprendizagem  paralelos:  o  da  natureza  do  sistema  de  escrita  da  língua  –  o  que  a  escrita  representa e como – e o das características da linguagem que se usa para escrever” (RCNEI  V.3, p. 126, Desenvolvimento da Linguagem Oral). 

 

  Nota‐se que em todos os exemplos anteriores, o agir prescritivo marca uma 

agir futuro que deverá/poderá ocorrer. Dessa forma, são colocadas condições para  que  esse  agir  aconteça,  e,  nesses  casos,  implicitamente  o  que  o  documento  determina é que o agir do professor (ler para acriança, propor situações problemas,  criar  situações  de  escrita  espontânea,  de  bilhetes  e  outras  como  revelam  os  exemplos  anteriores)  vise  ao  desenvolvimento  futuro  da  criança.  Portanto,  a  prescrição do agir futuro da criança prescreve, de fato, o agir do professor, mesmo  quando oculto na frase. Desse modo, com base em todos os exemplos apresentados  nesta seção, pode‐se inferir que são colocadas em cena, no Referencial, as seguintes  crianças:    1) Criança Caracterizada – marcada pelos verbos de ligação: “A criança é capaz  de ler na medida em que a leitura é compreendida como um conjunto de ações que transcendem a  simples decodificação de letras e sílabas” (p. 140).   

2)  Criança  Real  –  marcada  por  verbos  no  presente  ou  passado,  mostra  capacidades  e/ou  habilidades  que  a  criança  já  possui:  “As  crianças  brincam  com  os  significados das palavras inventando nomes para si próprias ou para os outros, em situações de faz‐ de‐conta”(p. 126).  

 

  3)  Criança  Futura  –  marcada  pelas  modalizações  deôntica  e  epistêmica, 

‘deve, pode’, ou verbos no futuro revelando que a criança ‘terá/será’ determinadas  capacidades  e/ou  habilidades  no  futuro,  de  acordo  com  o  agir  do  professor:  “As  crianças podem construir uma relação prazerosa com a leitura” (p. 125).  

 

  Concluindo, como observado, pode‐se afirmar que a criança configurada no 

Referencial  possui  capacidades  linguageiras,  pluridimensionais,  afetivas,  corporais, e outras. Nota‐se ainda a criança ‘que é / que está’ (verbos de ligação); e, 

finalmente, uma criança futura que ‘será’, mas em dependência direta ao agir do  professor, desse  modo,  o  desenvolvimento  de  suas  capacidades  e/ou  habilidades  depende diretamente do professor.  Com relação aos recursos para agir, nota‐se,  ainda, que as ocorrências em que são atribuídas capacidades para utilizar artefatos  materiais  são  mais  freqüentes  do  que  a  capacidade  de  utilização  de  artefatos  simbólicos, nos casos em que a criança aparece sozinha. A seguir, discuto como se  configura a representação do professor no RCNEI. 

 

1.4. O Professor representado no Referencial

   

Nesta seção discuto o resultado da análise dos excertos em que o professor é  focalizado isoladamente, ou seja, em ações individuais. Diferentemente da criança,  as ocorrências em que o professor aparece sozinho, quantitativamente, podem ser  consideradas  insignificantes,  tendo  em  vista  que  das  242  entradas  somente  16  referem‐se  exclusivamente  ao  professor.  O  que  se  pode  observar  é  que  as  ocorrências do professor aparecem, basicamente, divididas em dois grupos: Agir  Pluridimensional e Agir Prescritivo, como mostram os exemplos: 

 

 “O  professor  organiza  (PLU)  o  ambiente”  (RCNEI,  V.3,  p.135.  Orientações  Didáticas 0 a 3 anos). 

 

“(O professor) planejar (PLU) situações de comunicação que exijam (PRE) diferentes graus  de  formalidade,  como  conversas,  exposições  orais,  entrevistas  e  não  só  a  reprodução  de  contextos  comunicativos  informais” (RCNEI,  V.3,  p.138.  Orientações  Didáticas  ‐  Fala e Escrita 4 a 6 anos).  

 

“(O  professor)  preparação  (PLU)  de  fitas  de  áudio  ou  vídeo  para  a  gravação  de  poesias,  músicas, histórias etc.” (RCNEI, V.3, p.138. Orientações Didáticas Fala e Escrita  4 a  6 anos).  

 

 “(O professor) deve‐se buscar (PRE) a maior similaridade possível com as práticas de uso  social,  como  escrever  (PLU)  para  não  esquecer  alguma  informação,  escrever  para  enviar  (PLU) uma mensagem a um destinatário ausente, escrever para que a mensagem atinja um  grande  número  de  pessoas,  escrever  para  identificar  um  objeto  ou  uma  produção  etc.” 

(RCNEI, V.3, p.146. Orientações Didáticas –Prática de Escrita 4 a  6 anos). 

Benzer Belgeler