Após a repartição dos custos segundo as horas de pico das redes-tipo, o método os agrupa formando as tarifas de referência nos postos tarifários de ponta e fora de ponta. Essa agregação corresponde à soma de cada parcela de custo das horas que compõem os postos tarifários.
Por outro lado, Santos (2008) propõe uma nova maneira de representação desses custos para formar os preços de ponta e fora de ponta. Por esse critério, as tarifas são calculadas pela média dos custos das horas que compõem o posto tarifário ao invés da sua soma. Ao mesmo tempo, o autor mantém o critério de somar os custos horários para definir a tarifa média do nível tarifário e conseqüentemente a relatividade entre os níveis de tensão.
Analisando a composição da responsabilidade de potência, observa-se, na Equação 4.1, que a soma dos custos horários de um cliente-tipo corresponderá ao custo marginal de expansão do nível de tensão, se as demandas máximas do
11 Esse é um dos itens de aprimoramento proposto pela ANEEL na Consulta Pública nº 056/2009 que trata da proposta de alteração da estrutura tarifária.
cliente-tipo forem coincidentes com as demandas máximas das redes nas quais estava conectado, ou seja, fator Ph=1.
Neste caso, por exemplo, se uma rede-tipo tiver dois horários de pico, o custo unitário de expansão (por kW) será dividido pela metade por conta do critério de eqüiprobabilidade pelo qual o custo unitário é dividido proporcionalmente ao número de horários de ponta da rede-tipo.
Assim, o critério de somar os custos horários está correto em termos de recuperação de custo total. Isto porque, se fosse aplicada a tarifa horária, o montante total a ser arrecadado seria a somatória dos custos horários (por kW) pelas demandas horárias.
Por outro lado, a média proposta por Santos (2008) para formar as tarifas dos postos tem o mérito de mitigar o efeito das diferentes durações dos períodos tarifários: três horas para o período ponta e vinte e uma, para fora de ponta. Em geral, na teoria de precificação de ponta alguns autores adotam períodos com duração idêntica para simplificar a análise do problema, o que pode exigir um tratamento adicional para que as conclusões do caso geral sejam aplicadas em casos que tenham períodos com diferentes durações, como defendido por Williamson (1966).
Embora a metodologia atual permita que seja calculada uma tarifa para cada hora, o aplicativo Tardist, utilizado pela ANEEL, não está configurado para fazer o cálculo adequadamente. Na prática, primeiramente são definidas as horas que formam cada posto tarifário e depois calculadas as tarifas por posto.
Este procedimento pode ser comprovado ao analisar o fator Ph, apresentado no relatório do Tardist. Como visto, esse fator corresponde ao valor percentual (p.u.), em determinada hora, calculado sobre a demanda máxima; porém, o aplicativo utilizado pela ANEEL calcula o valor em p.u. sobre a demanda máxima do posto tarifário.
A Tabela 5.16 apresenta as demandas em p.u. calculadas sobre a demanda máxima e sobre as demandas máximas dos postos tarifários. Observa-se que a demanda máxima do posto tarifário fora de ponta é 49,38 MW (17:00h - 18:00h)
enquanto que a demanda máxima na ponta é 123,08 (18:00h - 19:00h) que também é a demanda máxima do dia.
Tabela 5.16 – Curva típica e respectivos valores em p.u.
Período (h) MW MWmax MW / (p.u.) MW / MWmaxposto (p.u.) 00:00- 01:00 30,45 0,247 0,617 01:00 - 02:00 24,89 0,202 0,504 02:00 - 03:00 23,88 0,194 0,484 03:00 - 04:00 23,51 0,191 0,476 04:00 - 05:00 22,73 0,185 0,460 05:00 - 06:00 25,02 0,203 0,507 06:00 -07:00 26,96 0,219 0,546 07:00 - 08:00 27,01 0,219 0,547 08:00 -09:00 30,05 0,244 0,609 09:00 - 10:00 25,30 0,206 0,512 10:00 - 11:00 25,13 0,204 0,509 11:00 - 12:00 25,66 0,208 0,520 12:00 - 13:00 28,09 0,228 0,569 13:00 - 14:00 25,68 0,209 0,520 14:00 - 15:00 23,18 0,188 0,469 15:00 - 16:00 31,47 0,256 0,637 16:00 - 17:00 32,72 0,266 0,663 17:00 - 18:00 49,38 0,401 1,000 18:00 - 19:00 123,08 1,000 1,000 19:00 - 20:00 54,16 0,440 0,440 20:00 - 21:00 43,58 0,354 1,000 21:00 - 22:00 39,07 0,317 0,791 22:00 - 23:00 31,41 0,255 0,636 23:00 - 24:00 27,24 0,221 0,552
No método do DNAEE (1985), este fator não está calculado por posto tarifário, e sim para a demanda máxima da curva de carga. Este critério possibilitaria a soma dos custos horários sem a definição prévia dos postos tarifários.
Porém, após essa agregação, como os custos marginais de capacidade estão referenciados à demanda máxima da curva, é necessária, na visão dos autores do Livro Verde, uma adequação da tarifa do posto tarifário caso a demanda máxima neste período não coincidir com a máxima da curva. O ajuste é, então, realizado pela relação entre a demanda máxima da curva e a demanda máxima do posto tarifário (DNAEE, 1985, p. 287).
CMCp’ = CMCp * demanda máxima / demanda máxima do posto
Onde,
CMCp = Custo Marginal de Capacidade do posto tarifário p;
CMCp’= Custo Marginal de Capacidade ajustado do posto tarifário p.
Esse critério mantém o montante (em R$) a ser pago pelo cliente-tipo alterando o custo unitário (por kW), no caso da demanda máxima a ser faturada no posto tarifário não corresponder à demanda máxima da curva, para a qual a tarifa foi calculada.
Na prática não há diferenciação entre o procedimento de cálculo do Tardist, que calcula os custos marginais de capacidade já a partir dos fatores Ph dos postos tarifários, e o critério do Livro Verde que efetua, posteriormente, os ajustes sobre os fatores Ph independentes de posto tarifário.
Ou seja, as duas etapas do procedimento do DNAEE (cálculo em p.u. da máxima e depois o ajuste com base na demanda do posto tarifário) são equivalentes ao procedimento atual adotado pelo Tardist que já calcula inicialmente os custos em função da demanda do posto tarifário. Porém, o método atual impõe que a definição dos postos tarifários seja realizada antes de se conhecer os custos horários, dificultando a criação posterior de outros postos tarifários distintos dos definidos inicialmente.
De qualquer forma, os custos marginais de capacidade, calculados pela ANEEL, assim como os custos marginais do nível de tensão, calculados por Santos (2008)12, têm como função principal definir a relatividade dos custos a serem cobertos pelos consumidores de cada nível tarifário, ou seja, a relatividade vertical.
Quanto à correta aplicação desses custos para a definição da relatividade horizontal ou das tarifas de ponta e fora de ponta, entende-se que a agregação dos custos que formam as tarifas dos postos tarifários deve corresponder à média dos custos horários, porém sem o ajuste promovido atualmente, como será discutido no próximo capítulo.