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O processo de criação do IPHAN estabeleceu as bases de atuação do órgão e formou um conceito de patrimônio histórico e artístico nacional, com o conceito restritivo de bem cultural edificado visto anteriormente, que conseguiu perpassar todas as mudanças políticas, econômicas e sociais enfrentadas pelo Brasil ao longo do século XX, ainda influenciando o órgão de maneira decisiva em pleno século XXI. Fato ilustrativo disto, a gestão de Rodrigo Melo Franco de Andrade à frente do órgão (1937-1967) e de seu assessor direto neste

período, Renato Soeiro5 (1967-1979), talvez marquem a mais longa continuidade

administrativa presente no Brasil desde o descobrimento, em 1500. Outro exemplo é o caso

de Ayrton da Costa Carvalho, que foi superintendente regional do IPHAN em Pernambuco por mais de quarenta anos ininterruptos, até 1998, quando faleceu.

Houve por certo nesse longo interregno programas e ações voltados à recuperação, conservação e utilização do patrimônio histórico e artístico nacional com propostas diferentes da concepção tradicional do IPHAN, com destaque para o Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste, com sua utilização para fins turísticos (PCH), e a gestão de Aloísio Magalhães à frente do órgão de preservação federal, entre 1979 e 1982, além de avanços recentes, como o artigo 216 da Constituição Federal de 1988 (ampliação do conceito de bem cultural) e o decreto n° 3.551 de 04.09.2000 (bens culturais imateriais). Apesar disso tudo, a ideologia formada nos primeiros anos de atuação do IPHAN continua a permear o instituto, exercendo forte influência sobre seu corpo funcional e sua forma de atuação.

Os trinta anos da gestão Rodrigo Melo Franco de Andrade foram marcados pelo novo conceito em relação ao patrimônio histórico e artístico nacional. Grande número de bens culturais foi tombado, passando a ser protegido por leis federais – 716 monumentos e obras, 28 conjuntos arquitetônicos parciais e 12 conjuntos arquitetônicos de cidades. Foram empreendidas pelo IPHAN pesquisas, decifrações e restaurações de documentos de arquivos civis e eclesiásticos de vários estados, elevação à categoria de monumento nacional das cidades de Parati, Mariana e Alcântara, e criação e fomento de novos museus, a exemplo dos

5 Sobre a sucessão de Rodrigo Melo Franco de Andrade, escreve Lúcio Costa: “Apenas a serena, correta e constante dedicação do confiável Soeiro escapou dessas oscilações, daí a escolha dele para sucedê-lo na direção do Patrimônio, tendo Alda Meneses como secretária.” (COSTA, 1986, p. 6).

museus regionais do Diamante (Diamantina, MG), da Inconfidência (Ouro Preto, MG), da Imigração e Colonização (Joinville, SC), além das casas de Vitor Meireles (Florianópolis, SC) e Otoni (Serro, MG), entre diversas outras ações. (ANDRADE, 1986). Trata-se dos ‘anos de ouro’ do patrimônio brasileiro (MARINHO, 1986), ou da chamada fase heróica.

Apesar dos avanços obtidos, a atuação do IPHAN, centrada em monumentos representativos da religião católica, da etnia branca e dos vencedores da história oficial, tornou a política do órgão altamente elitista, excluindo os artefatos produzidos pelas classes populares e a heranças das etnias africanas e nativas. A falta de representatividade da política empreendida pelo IPHAN é considerada como fator de isolamento do órgão dentro do governo federal e da própria sociedade, levando ao seu esvaziamento político, a dotações decrescentes de recursos e a sua incapacidade operacional (FALCÃO, 1984).

O domínio da corporação de arquitetos na sistemática de tombamento e intervenção fez com que estes processos adquirissem diretrizes de caráter estritamente técnico (no sentido arquitetônico), ignorando aspectos sociais e econômicos (FALCÃO, 1984). Ou seja, o tombamento passou a ser, no Brasil, um processo cujos interessados mais diretos – proprietários e governos sub-nacionais, entre outros – nunca conseguiram participar de maneira efetiva, no que Joaquim Arruda Falcão denominou ‘monólogo dos arquitetos’.

De acordo com esta visão, preservar um bem cultural edificado significa restaurá-lo arquitetonicamente, a partir de uma visão de viés museológico (FALCÃO, 1984). Isso ajudou a perpetuar séria indefinição quanto aos usos a dar ao acervo de bens tombados, e a nutrir um enorme distanciamento, dificuldade de contato e incapacidade de negociação entre os técnicos do órgão e os proprietários dos bens, fossem eles pessoas, entidades de governo, igrejas, etc.

Outro ponto importante é que, dada a hegemonia da corporação de arquitetos e a presença de um processo centralizador de decisão, a atuação do IPHAN nunca foi integrada com os numerosos órgãos estaduais e municipais de preservação do patrimônio (LONDRES, 2001). Isto reforçou o esvaziamento do órgão e impossibilitou a criação de um sistema articulado nacionalmente de proteção patrimonial; não é à toa que até hoje não exista uma divisão clara de tarefas entre as diversas instâncias governamentais.

Durante o trabalho de campo no Recife, quando foram entrevistados diversos técnicos da superintendência regional do IPHAN em Pernambuco, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE) e do Departamento de Preservação de Sítios Históricos da Prefeitura da Cidade do Recife (DPSH/PCR), ficou mais do que nunca muito clara a departamentalização da ação patrimonial no Brasil, com raros projetos comuns e falta de foros ou ocasiões de diálogo e troca de experiência, nos últimos trinta anos.

Sobre a forma de intervenção do IPHAN e o domínio da corporação de arquitetos, uma historiadora aposentada do corpo funcional da FUNDARPE, Virgínia Pernambucano de Mello, diz:

O corpo técnico [do IPHAN] que restou foi uma criação de Rodrigo [Melo Franco de Andrade]. Todas as pessoas que dirigiam o patrimônio, por todo o país, eram filhos intelectuais de Rodrigo. Então, este ranço da época heróica permanece ainda hoje. [...] até na valorização de edificações religiosas. Ainda permanece na leitura apenas arquitetônica também, e isto eu acho péssimo, porque basta embonecar, pintar e fazer algumas interferências... Há alguns textos de Joaquim Falcão sobre isto, falando que é o arquiteto o dono da restauração, e apenas ele. Isto é o olhar resultante da ação de Rodrigo e das pessoas que trabalhavam com ele: Dr. Ayrton em Pernambuco, Diógenes Rebouças na Bahia, Kurtz no Rio Grande do Sul, Saia em São Paulo. Saia já era mais leve. Os herdeiros continuaram a mesma coisa, e os escritos de Joaquim Falcão falam sobre isto, a respeito da hegemonia do arquiteto, de achar que é o dono do patrimônio material no Brasil, de que o arquiteto é quem determina o que deve ser feito e tal. (Entrevista no Recife, 06.07.2005).

Para ilustrar a falta de relacionamento entre o IPHAN e outros interessados nos bens culturais edificados, relata uma assistente social aposentada da FUNDARPE, Melônia Costa Carvalho, quando de uma intervenção em Igarassu nos anos 1970, dentro do PCH:

Em princípio, os moradores tinham medo, e não queriam receber-me, porque pensavam que nós estávamos ali para multar, recriminar, aquele sentimento de que nós iríamos penitenciar (sic) eles. E, na verdade, a proposta não era esta. Era de convocar, de chamar e de mobilizar a comunidade para uma participação efetiva. [...] Inclusive, o proprietário da padaria estava sofrendo um processo na justiça por parte do IPHAN. E ele não queria nem ouvir falar de patrimônio e muito menos me receber. Ele tinha medo, pensando que a gente iria mudar o uso; se fossem colocadas portas de ficha inteira, como ele conseguiria continuar funcionando como padaria? Então, vimos como poderíamos adequar a restauração do imóvel com a necessidade deste proprietário. [...] Foi muito interessante, de repente o homem ficou agradecido, porque a proposta contemplou a sua necessidade

e a causa saiu da justiça. O problema, eu dizia muito na época, era a falta de esclarecimento. (Entrevista no Recife, 30.06.2005).

Por tudo isto, entre outros fatores, o IPHAN chega ao século XXI esvaziado politicamente, com falta persistente de recursos e não renovação do seu corpo funcional. Ao mesmo tempo, o acervo do patrimônio histórico e artístico nacional encontra-se, de forma geral, em estado calamitoso de conservação e utilização.

A falta de recursos, tanto na recuperação de conjuntos e monumentos degradados quanto na preservação de bens tombados, o desuso do patrimônio protegido e a pouca atratividade desse tipo de bem cultural fizeram com que, em meados dos anos 1990, segundo dados do próprio IPHAN, cerca de 50% dos imóveis históricos sob tutela federal se encontrassem degradados e 25% necessitassem de obras de recuperação. Esta mesma pesquisa indicou, ainda, que aproximadamente dois terços desses imóveis encontravam-se abandonados ou subutilizados (TADDEI, 1998). Ainda de acordo com essa fonte, seria necessário, a época, o equivalente a US$ 1 bilhão para a recuperação integral do acervo então tombado, bem como o dispêndio de US$ 50 milhões anuais para sua conservação.

Tendo o início dos anos 1980 como época do último ingresso de funcionários, o IPHAN assistiu, na década seguinte, a uma redução da ordem de 50% do seu corpo técnico, dentro do cenário de que 60% dos funcionários remanescentes podem aposentar-se até 2010 (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2005). Além disto, apesar do aumento verificado no investimento do órgão federal nos dois últimos anos, o IPHAN apresenta orçamento disponível para investimento bem aquém das necessidades, como pode ser observado na Tabela 1:

Ano Lei Orçamentária (R$) Orçamento Disponibilizado (R$) 1995 9.104.299,00 8.258.940,00 1996 15.358.524,00 7.460.738,00 1997 17.054.251,00 13.150.290,00 1998 12.423.462,00 6.555.855,00 1999 8.071.302,00 12.122.389,00 2000 6.269.951,00 11.305.178,00 2001 6.339.327,00 13.434.787,00 2002 10.439.253,00 10.261.267,00 2003 10.127.571,00 25.667.492,00 2004 17.380.256,00 28.139.339,00 Fonte: INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2005.

TABELA 1

Evolução do orçamento disponibilizado para investimentos - IPHAN (1995 - 2004)

A insuficiência de recursos e de corpo funcional para recuperação e conservação de edifícios, bem como a falta de diálogo e coordenação com a sociedade e demais responsáveis por bens materiais, acabam produzindo situações insólitas. Tendo eu sido confundido com um técnico do IPHAN - por um membro da confraria de São José do Ribamar, co-responsável pela guarda e manutenção de três igrejas tombadas pelo IPHAN no centro do Recife, por ocasião do trabalho de campo -, dele ouvi o seguinte:

Vocês estão acabando com as igrejas do Recife6: não deixaram a confraria [de São José do Ribamar] fazer a reforma do forro da igreja [de São José do Ribamar], e ele caiu. Não estão deixando nós fazermos uma reforma na frontaria da Igreja do Santíssimo Sacramento da Boa Vista, e também não fazem. Quando ela cair, eu quero ver o que vocês falarão a respeito.

[Nesta pausa, esclareci que eu não era do IPHAN, mas apenas um mestrando na FGV-SP, mas não adiantou, continuando ele]:

[...] A confraria [de São José do Ribamar] recolheu dinheiro para reformar o forro da igreja, estava tudo certo, até que veio um técnico do IPHAN e disse que nós não poderíamos fazer a reforma, porque precisava disto, daquilo, e tinha que vir um outro técnico, e tal. O tempo passou, e não veio ninguém. Até que o forro caiu, e eles agora fizeram o que você está vendo [forro

6 Em mais de uma ocasião, responsáveis e proprietários de bens tombados pelo IPHAN demonstraram certa irritação ao pensar que eu era um técnico deste órgão. Um tipo de pergunta freqüente que ouvi ao longo do trabalho de campo, tanto no começo de entrevistas quanto em observações participantes, foi, “- Mas você não é do patrimônio, é?”

Isto ilustra também a falta de interesse de outras corporações – administradores, economistas, etc. – pela questão do patrimônio. Sempre se espera que quem estuda patrimônio no Brasil são arquitetos, historiadores ou arqueólogos.

novo, sem aproveitamento da pintura original]; perdemos o teto antigo, e tínhamos dinheiro para reformar. [...] [Na Matriz da Boa Vista] é a mesma coisa. Fizemos um orçamento para limpar e reformar a frente da igreja, recolhemos dinheiro, e o IPHAN disse que não podemos mexer, porque é tombado, é preciso pessoal especializado, e estas coisas. Agora, eles não fazem, e nem deixam a gente fazer. Ter monumento tombado pelo IPHAN é mais ou menos assim: a casa é sua, só que você não pode consertar o telhado, porque o IPHAN não deixa. Mas eles também não fazem. (Entrevista no Recife, janeiro de 2005).

A resposta de um clérigo à indagação de uma técnica do IPHAN a respeito de igreja histórica do Recife sob sua guarda, não tombada pelo IPHAN, também é ironicamente exemplar no mesmo sentido:

Um dia, uma moça do patrimônio veio a uma celebração que o bispo celebrou na [nome da igreja] e perguntou a mim, “- Esta igreja é tombada?” Eu respondi que não era não, que quando o patrimônio tomba ela cai mesmo. Se o patrimônio tombar, eu não consigo mais mexer em nada aqui. (Entrevista no Recife, 03.01.2005).

Ou seja, fica claro que as primeiras medidas efetivas de preservação patrimonial no Brasil surgem em um Estado forte, expansionista e autoritário (Estado Novo, 1937- 1945), a partir de um pequeno grupo formado principalmente por intelectuais e arquitetos, interessado em criar uma legislação, localizar e tombar bens de pedra e cal do Brasil Colônia.

Ao mesmo tempo em que se criou um consenso dentro deste grupo de que a atribuição pela guarda, recuperação e conservação deste patrimônio seria primordialmente tarefa do Estado, não houve uma reflexão quanto aos usos possíveis desses monumentos, sua preservação estabelecendo-se sob uma ótica estritamente “cultural”.

Cabe agora, no próximo tópico, analisar duas propostas de intervenção pública na questão patrimonial – o PCH e a gestão Aloísio Magalhães à frente do IPHAN – que adotaram filosofias distintas da presente na atuação tradicional do IPHAN. Isto permitirá analisar as ações e os conceitos alternativos empregados em relação ao patrimônio histórico e artístico nacional. A criação da FUNDARPE, órgão de conservação estadual pernambucano, insere-se no PCH.

2.4. O Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste, com