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2.8. Türkiye‟de Hastane Atıklarıyla Ġlgili BaĢlıca Mevzuatlar

2.8.3. Sağlık Mevzuatı

Magalhães no IPHAN (1979-1982).

A década de 1970 assiste à emergência de duas novas propostas no trato dos bens materiais tombados pelo IPHAN. São visões alternativas à concepção tradicional do órgão de preservação federal, mas que, apesar de algum resultado, não conseguiram mudar de forma efetiva o padrão de atuação do IPHAN.

O Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste, com sua

utilização para fins turísticos (PCH)7, surgiu como uma iniciativa da Secretaria de

Planejamento da Presidência da República (Seplan/PR), graças ao apoio decisivo do então secretário João Paulo dos Reis Veloso. Além de contar com a participação do IPHAN em questões técnicas, faziam parte do PCH a própria Seplan/PR, o Ministério do Interior e o Ministério da Indústria e Comércio, através da Empresa Brasileira de Turismo (EMBRATUR).

Desvinculado da orientação museológica do IPHAN, o PCH tinha como principal objetivo o desenvolvimento econômico e social de localidades pobres do país, que, em geral, tinham grande parte do seu patrimônio preservado em virtude da estagnação econômica pela qual tinham passado. Ao invés de recuperar bens levando-se em conta apenas o valor histórico e artístico dos mesmos, o PCH considerava o potencial turístico de conjuntos e monumentos, com o uso destes bens como instrumento de geração de emprego e renda nas comunidades onde estavam inseridos (MICELI, 1984).

A aplicação de recursos no PCH e a busca de parcerias com proprietários de bens tombados, empresários do setor de turismo e dirigentes públicos eram realizadas através de critérios sociais e econômicos, com o objetivo de tornar o patrimônio recuperado auto-sustentável (o turismo era um elemento fundamental para isto) e de reduzir as desigualdades regionais (as áreas atingidas pelo programa apresentavam baixo desenvolvimento econômico e social).

7 O PCH foi criado em maio de 1973.

O PCH tinha também como objetivos, a partir da identificação de carências na área patrimonial, difundir o conhecimento a respeito do valor da conservação de bens culturais edificados, formar mão-de-obra capacitada em serviços de recuperação e conservação e fomentar a descentralização de ações de preservação no Brasil (GASTAL, 2003).

É dentro deste último objetivo que se insere a criação, na primeira metade dos anos 1970, de órgãos estaduais ligados à questão patrimonial, como coloca Rosa Bonfim, arquiteta do corpo funcional da FUNDARPE:

[...] na época da criação da FUNDARPE, havia um programa a nível federal, que era o Programa de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste.

Perg.: A FUNDARPE trabalhou muito com este projeto?

Resp.: Sim, trabalhou. Praça Marechal Deodoro, em Igarassu, Igreja de Nossa Senhora da Graça, Igreja da Sé, Palácio do Bispo, onde hoje existe o Museu de Arte Sacra, Forte das Cinco Pontas, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Velha: eram obras de vulto, obras grandes. Era um programa que trazia recursos, e muitos recursos, que funcionou bem. Com a extinção deste programa, a coisa entrou em declínio e o governo do Estado nunca teve uma política de recursos. Desde então, a gente vem engatinhando.” (Entrevista no Recife, 28.06.2005).

Ou, como relata uma historiadora aposentada da FUNDARPE, Virgínia Pernambucano de Mello: “Também era um contexto especial. Todas as fundações estaduais de cultura dos principais centros de patrimônio histórico material foram criadas neste mesmo período. Havia um contexto que favorecia isto.” (Entrevista no Recife, 06.07.2005).

Tal afirmativa é confirmada pelo arqueólogo Ulisses Pernambucano de Mello, neto, do mesmo órgão: “Inclusive de financiamento, com o Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste, da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, a Seplan/PR.” (Entrevista no Recife, 06.07.2005).

O volume de recursos angariado pelo PCH representou um grande aumento nas aplicações na área patrimonial. A demanda por técnicos, estudos e levantamentos mostrou a precariedade institucional do IPHAN, que vinha atuando com dotações decrescentes de recursos públicos. A participação do IPHAN no PCH, e a conseqüente absorção deste programa pelo órgão em

1979, mostravam claramente a falta de infra-estrutura da única entidade oficial da vertente patrimonial e aprofundou a necessidade de sua reestruturação (MICELI, 1984).

Apesar da importância deste programa em termos de recursos financeiros investidos, articulação entre órgãos federais e estaduais, em diversas áreas de governo, participação da comunidade e presença do turismo como justificativa de investimento e fator de sustentabilidade do patrimônio restaurado, há pouca literatura disponível sobre o PCH. Em virtude disto, o estímulo que o programa deu para a criação de órgãos estaduais de preservação patrimonial será analisado a partir do caso da FUNDARPE.

A FUNDARPE foi criada em 17.07.1973, inicialmente como fundação ligada ao Banco do Estado de Pernambuco (BANDEPE). Posteriormente, ficou subordinada à Secretaria de Cultura, em geral em conjunto com a função turismo, e atualmente encontra-se atrelada à Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco.

Como relatado acima, por Rosa Bonfim, Virgínia Pernambucano de Mello e Ulisses Pernambucano de Mello, neto, o PCH foi um dos responsáveis pela criação de órgãos de conservação estaduais no início dos anos 1970. Apesar de não ter sido possível identificar literatura específica sobre isto, supõe-se que a Seplan/PR necessitasse formar corpos funcionais nos estados aptos a realizar trabalhos de recuperação e conservação do patrimônio material, além de haver interesse dos estados em captar recursos federais para obras de recuperação, conservação e utilização de seus bens culturais edificados.

De acordo com o projeto PE-011 – agenciamento da Praça Marechal Deodoro e restauração do mercado municipal, da casa nº 83, para instalação da agência do BANDEPE, e das fachadas do casario da Rua Joaquim Nabuco – 80% do valor total desta obra do PCH foi bancado pela Seplan/PR, com contrapartida de 20% do governo estadual (BRASIL, 1976). De acordo com informações recolhidas na FUNDARPE, esta divisão repetiu-se em outros projetos. O projeto PE-011 pretendia restaurar o casario da Praça Marechal Deodoro e o imóvel em questão, além de envolver a comunidade neste processo e fomentar o turismo como fator de dinamização econômica da área. O projeto da Praça Marechal Deodoro será visto com mais detalhes no estudo de caso sobre a Igreja e Convento de Santo Antonio em Igarassu, no capítulo 5.

No início dos anos 1980, o PCH é extinto, logo após sua incorporação ao IPHAN. Não existem indicações claras na literatura a este respeito; a queda da capacidade de investimento do governo federal, com o fim do “milagre brasileiro”, e a perda de importância da questão dos bens culturais edificados no Brasil, após um período de reflorescimento nos anos 1970, parecem ser os fatores mais prováveis para a extinção do programa.

De acordo com entrevistados do Recife, a extinção do PCH levou ao esvaziamento da questão patrimonial no órgão de conservação estadual pernambucano, com o crescimento, nos últimos anos, das ações de fomento cultural. A passagem, citada anteriormente, de Rosa Bonfim, arquiteta da FUNDARPE, coloca isto de forma clara:

[...] na época da criação da FUNDARPE, havia um programa a nível federal, que era o Programa de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste. [...] Com a extinção deste programa, a coisa entrou em declínio e o governo do Estado nunca teve uma política de recursos. Desde então, a gente vem engatinhando. (Entrevista no Recife, 28.06.2005).

Um advogado da mesma instituição, que cuida dos processos de tombamento no nível estadual, assim se manifesta:

Agora, veja bem, as coisas aqui são as grandes ondas. Nos anos 1970, início dos anos 1980, investiu-se muito em patrimônio; foi a época da Igreja da Sé de Olinda, do Seminário de Olinda, de Igarassu8. Depois, vieram os eventos. Primeiro, com as manifestações folclóricas do Estado de Pernambuco. Depois, com este rock ‘porra-loca’9, que no carnaval ficou em frente ao prédio da Alfândega. (Entrevista no Recife, julho de 2005).

E Virgínia Pernambucano de Mello, historiadora aposentada da FUNDARPE, resume, em sua opinião, o problema do órgão estadual de conservação: “O problema fundamental da FUNDARPE, hoje, é a eventologia (sic).” (Entrevista no Recife, 06.07.2005).

Por fim, para caracterizar o sucateamento e esvaziamento da área patrimonial na FUNDARPE, cabe destacar dois fatos importantes. Primeiro, do total de dotações concedidas

8 Além do projeto da Praça Marechal Deodoro, o PCH contemplou obras na Ladeira dos Santos Cosme e Damião e na Igreja e Convento do Sagrado Coração de Jesus, em Igarassu.

pela Lei de Incentivo à Cultura do Estado de Pernambuco (FUNCULTURA), muito pouco é destinado à área patrimonial. A liberação do FUNCULTURA em 2005, por exemplo, contemplou apenas três projetos na área de patrimônio: o Maracatu Elefante, com R$ 60.000,00, que não é um bem cultural edificado, o Museu Histórico de Brejo da Madre de Deus, com quase R$ 40.000,00, e a restauração da Igreja de São João dos Militares, para utilização como equipamento educacional, com R$ 40.000,00. De um total de quase R$

10.000.000,00, a área de patrimônio captou menos de 2% das dotações do fundo10.

Segundo, o corpo técnico do órgão vem sendo progressivamente reduzido ao longo dos últimos anos. Ao ser questionada sobre a reposição dos funcionários que se aposentam no órgão, Rosa Bonfim, arquiteta da FUNDARPE, mostra a dimensão do problema:

Não [há reposição]. O quadro está cada vez menor. Hoje, do quadro permanente, a gente tem dois engenheiros, três arquitetos, um arqueólogo, um restaurador e um desenhista. Não temos mais pesquisadores de história ou assistentes sociais. [...] Há muito tempo que a gente tenta que sejam contratados, ou trazidos de outro órgão, mas é difícil, não é fácil não. [...] Nunca houve um concurso público na FUNDARPE. [...] A educação patrimonial é uma coisa fundamental para a preservação dos monumentos, mas ela não existe; nós não temos nem ao menos equipe para isto. Do quadro permanente, são oito funcionários. Há mais dois arquitetos, que são o diretor e o coordenador, mas eles não são do quadro permanente. E há um desenhista e dois estagiários, que também não são do quadro permanente. Nós já tivemos dezenove funcionários no quadro permanente, inclusive dois pesquisadores de história, não temos mais nenhum, assistente social, não há mais nenhuma, e havia uma educadora, que também não tem mais. Cinco arquitetos e dois engenheiros já dançaram. Ou seja, a equipe está cada vez menor. [...] (Entrevista no Recife, 28.06.2005).

10

Tentei obter informações a respeito do histórico de liberações de recursos pelo FUNCULTURA desde a sua criação, em fins dos anos 1990, mas o diretor responsável por esta área na FUNDARPE me disse que não tinha os dados de forma organizada. Logo, não é possível dizer com precisão qual é a participação da área patrimonial nos recursos liberados pelo FUNCULTURA nos últimos anos, mas contatos informais dentro do órgão dão conta de que as ações de fomento cultural quase monopolizam as liberações de recursos.

Ao pedir o processo de um projeto que recebeu recursos do FUNCULTURA (‘Refazendo os caminhos de Duarte Coelho’, em Igarassu), o diretor disse-me que se surpreendeu com meu pedido, pois nunca alguém havia antes requisitado este tipo de informação. Apesar de o projeto ter recebido verbas do governo estadual (o FUNCULTURA distribui dotações de recursos para os projetos aprovados), o referido diretor condicionou a possibilidade de entrega de uma cópia do material a uma autorização explícita que eu deveria procurar obter na Prefeitura Municipal de Igarassu, a instância que recebeu os recursos.

Ulisses Pernambucano de Mello, neto, arqueólogo do corpo funcional do órgão, mostra-se pessimista em relação ao futuro da área patrimonial na FUNDARPE, ao comentar sobre seu “sucateamento”:

Não apenas no caso de recursos financeiros, mas também humanos e metodológicos. Havia toda uma equipe voltada para a recuperação, mas [hoje não há mais], pois volta a [ênfase] em eventos. Houve uma perda enorme. A FUNDARPE tinha doze arquitetos só na área de preservação, com oito ou dez advogados. Hoje, isso tem sido esvaziado: as pessoas aposentam-se, morrem ou saem do órgão, e não há reposição. A tendência é ladeira abaixo, com a questão do patrimônio avançando cada vez menos.

Perg.: Você vê algum possibilidade de reverter esta tendência de “ladeira abaixo”?

Resp.: Seria preciso criar a decisão política de reverter isto, que se decida favoravelmente por este caminho. Eu já estou chegando aos sessenta anos, já não sou mais dos otimistas. (Entrevista no Recife, 06.07.2005).

O Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) foi criado em 1975 pelo Ministério da Indústria e Comércio (MIC), pelo designer Aloísio Magalhães e pela Secretaria de Educação do Distrito Federal. A atuação de Aloísio Magalhães à frente do CNRC, entre 1975 a 1979, seria o “campo de testes” para as mudanças a serem implementadas na vertente patrimonial, quando de sua nomeação como novo diretor do IPHAN, em 1979 (MICELI, 1984). O centro trouxe idéias inovadoras à área da cultura, principalmente para a vertente patrimonial, com destaque à recuperação do conceito de patrimônio histórico e artístico nacional elaborado por Mário de Andrade no início dos anos 1930 e para a prática de uma ação cultural que visava, principalmente, a valorização das manifestações populares, a busca pelas raízes culturais nacionais e o envolvimento das comunidades na ação cultural (MAGALHÃES, 1997).

Assim como o PCH, o CNRC congregou a participação de diversos órgãos federais, como a Seplan/PR, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Banco do Brasil, entre outros, tendo sido incorporado ao IPHAN em 1980.

Fugindo do elitismo presente na tradicional noção de bem cultural do IPHAN – monumentos de pedra e cal representativos da etnia branca e da sua elite civil, militar e eclesiástica, ou seja, os vencedores da história oficial –, Aloísio Magalhães incorporou a este conceito os bens ecológicos, a tecnologia, a arte, o fazer e o saber popular, tanto das elites quanto do

povo em geral. Não apenas da etnia branca, mas também da negra e da índia, formadoras do povo brasileiro.

Ao agregar aos bens móveis e imóveis impregnados de valor histórico ou artístico e aos bens de criação individual espontânea que constituem o acervo artístico nacional (música, literatura, arquitetura, teatro, etc.) uma vasta gama de bens provenientes, em sua maior parte, do saber popular e de uso cotidiano, Aloísio Magalhães tentou contribuir para democratizar o processo cultural, combatendo o elitismo e valorizando a participação das comunidades neste processo.

Outro traço de sua gestão foi a ampliação do conceito de bem cultural e tombamento. O estudo multidisciplinar do caju, um dos projetos mais abrangentes do CNRC, mostra a abrangência do conceito de bem cultural pretendida, bem como a participação de outros órgãos governamentais – disseminação da cultura por todo o governo, e não apenas em órgãos específicos – e a participação ativa da comunidade no projeto (MAGALHÃES, 1997).

Apesar de tudo isto, a gestão Magalhães apresentou dois problemas principais, que viriam a ofuscar os resultados alcançados durante os três anos de trabalho à frente do IPHAN.

Ao ser nomeado para diretor do IPHAN, Aloísio Magalhães encontrou um corpo de funcionários identificado com os ideais de Rodrigo Melo Franco de Andrade, sendo muitos ainda do núcleo original de colaboradores do órgão (MARINHO, 1986). Além disto, o IPHAN apresentava uma estrutura de funcionamento precária, causada pelos anos de abandono e de esvaziamento político (MICELI, 1984).

Em virtude disto, a gestão Magalhães enfrentou vários problemas para operacionalizar seus projetos. As ações de maior destaque do IPHAN durante esta gestão, como o reconhecimento de Olinda e Ouro Preto como patrimônio mundial pela UNESCO e a compra dos Autos da Inconfidência Mineira, podem ser caracterizados mais como atos do próprio Aloísio Magalhães, enquanto pessoa influente dentro do governo federal e respeitado pela comunidade artística por seu trabalho de designer, do que como projetos desenvolvidos dentro da estrutura do IPHAN.

O segundo problema da gestão Magalhães foi a perda de força do conceito abrangente de bem cultural e da orientação inovadora do órgão após sua morte, em 1982.

Não conseguindo renovar o corpo funcional do IPHAN nem criar uma nova cultura interna de ação e de definição de bem cultural, os conceitos empregados por Aloísio Magalhães seguiam um processo ‘de cima para baixo’. Com a morte de Aloísio Magalhães, em 1982, a nova orientação proposta por ele para o IPHAN não se sustentou entre o corpo de funcionários. Isto fez com que o órgão voltasse ao seu antigo conceito de patrimônio histórico e artístico nacional, e continuasse dominado pela corporação de arquitetos. E que, nas décadas de 1980 e 1990, entrasse em crise operacional, com falta de recursos financeiros e de pessoal para cumprir sua função institucional. Como coloca Mario Brockmann Machado, questionando a permanência dos conceitos propostos por Aloísio Magalhães:

É bem verdade que algumas medidas de renovação e arejamento desse projeto de política cultural foram ensaiadas, neste início da década de 80, no âmbito da Secretaria da Cultura do MEC [Ministério da Educação e Cultura]. Foi o período de Aloísio Magalhães, e é de justiça que se destaque o esforço então realizado de recuperação do conceito mais amplo de patrimônio nacional originalmente formulado por Mário de Andrade. No entanto, essa experiência inovadora teve curta duração, não sendo possível saber-se se tais tentativas deixarão o nível do discurso e passarão efetivamente a informar, de maneira permanente, a prática do tombamento de bens históricos e artísticos. (MACHADO, 1984, p. 13).

Além disto, Mario Brockmann Machado, prenunciando o que aconteceria nos vinte anos seguintes, coloca:

De qualquer maneira, com a permanência do processo de abertura, tenho para mim que uma política cultural centrada no conceito de patrimônio histórico tenderia a esgotar-se rapidamente. É que a clientela da outra vertente, a da criação do bem cultural (cinema, teatro, música popular, etc.), é muito mais dinâmica, organizada e politicamente ativa, razão pela qual suas demandas terão maior peso no processo de decisão sobre a alocação de recursos das agências que atuam na área cultural. (MACHADO, 1984, p. 13).

Ao longo de todo o trabalho de campo, e também nas pesquisas documentais e bibliográficas, uma coisa que chamou a atenção deste pesquisador foi a quase que completa ausência de políticas, programas e projetos voltados ao patrimônio histórico e artístico nacional (o PCH e

o MONUMENTA BID são exceções que confirmam a regra, até porque surgem fora da estrutura do IPHAN). Em todas as entrevistas com pessoas da área do patrimônio, a tônica do discurso foi sempre a mesma: a atuação e orientação de Rodrigo Melo Franco de Andrade, Aloísio Magalhães, Ayrton da Costa Carvalho e José Luiz da Mota Menezes, como se a atuação do IPHAN dependesse exclusivamente do seu dirigente máximo, seja em nível federal ou estadual (Estado de Pernambuco).

Continua Virgínia Pernambucano de Mello:

Você já deve ter percebido os tempos do patrimônio histórico no Brasil: a fase heróica, com o tombamento dos principais bens, com Rodrigo, e uma ação mais ou menos estagnada, com obras só de contenção. Depois, nos anos 70, retomou-se a questão do patrimônio, com cada Estado cuidando de seu patrimônio, que foi o período de Aloísio Magalhães também, no final dos anos 70. Então, foi um tempo favorável à questão do patrimônio histórico, quando começou a ser considerado o imaterial também. (Entrevista no Recife, 06.07.2005).

Percebe-se que, na área patrimonial, não são políticas públicas, mas sim pessoas, que ainda hoje dominam o debate, com a preponderância das orientações e visões de Rodrigo Melo Franco de Andrade e Aloísio Magalhães. Além de revelar a fragilidade da vertente patrimonial brasileira, deixa pouco espaço para temas não abordados por nenhum dos dois de forma detalhada, como, por exemplo, propostas de turismo cultural.

Por fim, cabe destacar que a orientação inicial do IPHAN estabeleceu que a responsabilidade pelos bens culturais edificados tombados é do governo federal, sem se discutir como outros agentes poderiam ajudar a manter este patrimônio. Além disto, composto por um corpo homogêneo de funcionários, em termos de formação profissional e ideologia, em um tema pouco interessante a outros grupos sociais, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pode ser descrito como um caso de insulamento burocrático dentro do governo federal, pouco disposto a receber influências externas e manter diálogos a respeito dos bens culturais edificados com outros grupos, dentro ou fora do governo.

De acordo com Nunes (1997), insulamento burocrático é a forma através da qual grupos ligados às elites modernizantes tecnoburocráticas e/ou empresariais promovem o desenvolvimento de alguma atividade ou setor em âmbito governamental, protegendo o