A diretora nasceu no mês de setembro no ano de 1954. É a terceira de oito irmãos, dos quais cinco eram homens. Hera confessa que nunca apreciou as brincadeiras das irmãs por serem muito repetitivas, sem graça e sem vigor.
Sempre foi uma pessoa vigorosa. Mandava nos meninos, propunha atividades de embrenharem-se nos matos, mergulhar o mais profundo que podiam no açude e correr para espantar o gado, fato do qual diz haver se arrependido posteriormente.
Hera era a predileta do pai, segundo relata. Em vez de convidar seus irmãos homens, mais velhos do que ela, para ir à cidade resolver os problemas do armazém do qual eram proprietários, no interior, próximo à Capital, era a ela que chamava. Era com ela que contava. E ela nunca o decepcionara.
A mãe de Hera, Dona Afrodite, era uma mulher formosa que criara os filhos de modo firme. Tudo primeiro era para ela. Primeiro ela. Os filhos temiam mais a mãe do que o próprio pai, carinhoso e brincalhão.
Hera levava muitas reprimendas da mãe, que parecia sentir ciúmes dela com o pai. A mãe chegou a dar-lhe palmadas, colocá-la de castigo, pois dizia que Hera só queria ser “macho”!
Certa feita, após ela e seus irmãos presenciarem uma morte na pracinha da cidade onde habitavam, a noite tornou-se um verdadeiro pesadelo. Todos tremiam de medo. Hera, que sempre dormia na rede armada na porta do quarto dos pais, igualmente temerosa, mas em silêncio, escutou o choro do irmão mais velho que dizia estar “vendo miragem”.14
Dona Afrodite também escutou as lamúrias do menino e ordenou que Hera cedesse seu lugar na rede para o irmão, já que ela não tinha medo nem de “alma”. Sendo uma criança, Hera obedeceu, mas protestou, pois estava assustada, como os demais.
Diante do protesto, a mãe mandou a menina dormir no estábulo junto com os animais, fato que deixou marcas em sua memória, pela escuridão do local, misturado aos ruídos que os bichos faziam.
Toda experiência, no entanto, tem seu lado bom, diz a diretora. Desde esse dia, passou a amar as criaturas de Deus que todos consideravam “inferiores”, por eles a terem respeitado e não machucado.
Os pais tiveram uma forte discussão por causa disso, mas, nessas ocasiões, a opinião de Dona Afrodite sempre prevalecia.
Na infância, Hera queria ser cientista. Vivia no “mundo da lua”, como contou, com um largo sorriso. Não perdia um programa de televisão: Perdidos no Espaço, que se tratava de um seriado de aventura envolvendo um cientista e sua família que moravam numa nave espacial, recolhendo material dos planetas por onde passavam, encontrando monstros, enfrentando perigos instigantes que sempre resolviam e venciam!
Além de televisão, Hera gostava de ler e de pintar quadros. Na adolescência, gostava de festas, de dançar e conversar com os amigos, que eram muitos.
Dona Afrodite não permitia que a menina fosse às festas, o que fazia sob a proteção do pai, seu cúmplice nas madrugadas. Muitas vezes, ele próprio a acompanhava e os dois dançavam a noite toda.
Quando a mãe descobria, resultava em uma semana de castigo para Hera e um mês de cara fechada para o companheiro de folguedos da menina.
Para reprimir as escapadelas da filha, sob a alegação de que, no interior, Hera desperdiçaria sua inteligência e talento, Dona Afrodite mandou a menina estudar num colégio de freiras na Capital em regime de internato.
Como a diretora gosta de apregoar, que todo mal traz um bem, foi lá que teve os primeiros contatos com a Filosofia, curso escolhido na fase de juventude para prestar exame vestibular.
Hera identificou-se com filósofos como Aristóteles e Platão. De Aristóteles memoriza muitas passagens de quando estudou Política nos livros VI e VII, quando o Filósofo escreve que “Os homens tornam-se bons e virtuosos devido a três fatores: a natureza, o hábito e a razão. A inteligência e a razão são os fins da natureza. Por isso, é necessário preparar-lhes a formação e o culto dos hábitos. Isto se faz pela educação”.
Ao estudar Filosofia, Hera sentia-se tocada, emocionada. Dizia-se vocacionada a auxiliar os homens a serem virtuosos, a serem bons. Esquecera as naves espaciais, os monstros, as galáxias de seu programa predileto. Agora, queria ensinar Filosofia, que considerava uma dádiva recebida por Deus por meio dos mestres que surgiram em seu caminho.
Enquanto sonhava com o futuro, quase certo da docência, os pais de Hera se separaram, o que foi para ela motivo de grande dor. O pai formara uma outra família, tinha até filhos, fora embora para outra cidade do norte do País. Dona Afrodite, atônita e fragilizada, entrou em estado depressivo, manipulando os sentimentos de Hera, que, deixando inconcluso o curso universitário, voltou à sua cidade para servir de esteio àquela mulher tão bela que parecia em frangalhos.
Ao deparar-se com a mãe desfigurada pela dor da perda, os sentimentos de Hera pelo pai se transformaram de uma admiração amorosa e apaixonada a uma espécie de rancor e mágoa profunda. O herói, o cúmplice, o amigo fiel, virava um vilão odioso.
Hera reorganizou a família, assumiu o armazém, deixou sua vida, seus sonhos para depois, para mais tarde (como afirma desta feita com um sorriso triste) e foi viver a vida de sua mãe. Foi ser a mãe, o marido, o sustentáculo de Afrodite.
Quando todos seguiram seus caminhos, graduam-se uma, casaram-se outros, Hera voltou a procurar o pai, que acenou para ela com promessa de reconciliação. Fechado o armazém, vendido o gado, despedidas feitas, partem mãe e filha para o Norte em busca de uma nova ou renovada vida.
O encontro com o pai foi inesquecível. Lágrimas, pedidos de desculpas, juras de amor eterno e todos estavam juntos novamente: o pai, a mãe e... Hera.
Ela agora ia retomar à faculdade, fazer exposições de seus quadros, namorar e casar.
Hera encontrara o amor da vida dela na figura de um marinheiro bonito, inteligente, mas autoritário... como descreve a diretora, agora sorrindo e fechando os punhos, “machão”!.
De casamento marcado, vestido branco encomendado, Hera estava feliz. Seus pais voltavam a se entender. Abandonar a vida em sua cidade natal parecia ter valido a pena. “Não há mal que não traga um bem”.
A Secretaria de Cultura do Estado onde ela morava organizou sua mostra de quadros muito visitada, apreciada, fotografada para os jornais locais.
Os pais compareceram, vieram irmãos, quatro ao todo para prestigiá-la. O noivo também estava lá, vigilante, atento, carrancudo. Após o discurso do secretário de Cultura, enaltecendo a beleza de Hera, a perfeição de seu trabalho, antecipando- lhe um futuro de glória, os quadros começaram a ser destruídos, rasgados, pisoteados, atirados em todas as direções. Não restou um só nas paredes da galeria.
Diante da audiência atônita, percebeu que o causador daquela atitude insana era seu próprio noivo, que possuído de ciúmes a saltar-lhe dos olhos, da boca, do coração e do corpo todo, punha fim ao que seria uma promissora história de amor.
Hera compreendeu, a partir daquele dia, que não nascera para ser oprimida, desrespeitada, ultrajada como se sentia na ocasião. Decidiu que não se
“prenderia” a mais ninguém. Retornou ao seu Estado. A diretora ainda permanece solteira. A mãe voltou com ela, visto que o pai continuava lhe sendo infiel. Atualmente são amigos, distantes, mas, cordiais.
Reconstruindo a vida, mais uma vez. Hera foi cursar Pedagogia, avivou seu antigo projeto de ensinar a ser bom. Associou-se a um grupo espiritualista, segundo ela, para reaprender a amar as pessoas sem apego, o que diz ser sua missão. Há 15 anos toma parte desta irmandade e constrói na Região de serra de seu Estado, no alto do Olimpo, a “Casa do Coração”, onde pretende morar e trabalhar no campo, pregando o amor. A casa do coração está sendo construída com base em doações e acolherá, segundo a diretora, “As pessoas de alma limpa, sem bens materiais que busquem o amor desinteressadamente”.
A casa da mãe de Hera já foi concluída; lá as duas morarão até atingirem o plano divino, conclui a diretora.