4. KALĐTE YÖNETĐM SĐSTEMĐ
4.2. Dokümantasyon Şartları
4.2.3. Dokümanların Kontrolü
O tom de sua voz era baixo, a modulação pareceu a mesma do início ao fim, apresentando, nos momentos mais delicados da locução, como quando falou na separação “inesperada” dos pais, um sorriso de superação que acompanhava a maciez de suas palavras.
A maneira de dizer, o tom que impõe à sua fala, que toma o lugar da voz se transforma num indicativo que pressupõe o que aqui afirmamos. Como nos coloca Ducrot (1972, p.25): “há sempre no dizer e no modo como o sujeito o faz, um
não dizer. Um não dizer fundador qual fala tudo e que se repete nesses momentos, recorrentemente”.
Assim procedia Hera que, apesar desta serenidade por nós propalada, revelava em seu discurso um tom autoritário por se colocar como agente exclusivo, apagando as reações dos outros sujeitos que faziam parte do cenário narrado por ela.
Hera liderava, embora parecesse abrir mão de sua própria vida pela edificação da vida dos que a rodeavam. Filha predileta, parceira do pai, formada para enfrentar adversidades que poderiam surgir, deixando isto explicito ao narrar ter sido preparada pelo pai para assumir-lhe os negócios, como se ele já intencionasse abandonar a família que estaria “bem entregue” a Hera. Tanto que o fez simbolicamente quando a filha se avizinhou da maioridade.
Hera em seu relato demonstra ter sido talhada para liderar, organizar, formar, indicar o rumo aos seus irmãos, depois à sua mãe depressiva, aos pares da escola e agora em processo, aos velhos da Vila do Coração.
Hera, ao contar de suas desilusões amorosas, quando, por exemplo, rompeu o noivado, desfazendo um casamento promissor, o faz com firmeza; não sorri, apenas relata como algo que devia ter sido feito, e assim o fez.
O único momento em que a diretora pareceu emocionada foi quando se referiu ao talento abandonado da pintura em tela, algo que ela revela que lhe doeu e marcou, justificando que não volta a ativá-lo por medo de ter que abandoná-lo mais uma vez, pois a vida carrega surpresas – a mãe está muito idosa e precisa dela cada vez mais.
Hera não se aprofunda nos relatos, passando por eles ou detendo-se neles apenas o tempo que considerava suficiente e necessário para tratar deles.
A diretora, no entanto, reiterou várias vezes que se sente missionada para a construção dos outros, mas que não se apega a ninguém e a nada de material, o que chega a condizer com os dados obtidos de seu teste kohlbergiano, no qual se citou no nível pós-convencional, estágio 5, que remete a sujeitos despojados ao que almejávamos.
Ela era o que era, pareceu nos dizer. Falou de si sem se idolatrar, mas, com autoridade, demonstrando a maturidade de quem reflete a cada passo empreendido, a cada palavra emitida, enunciada.
Com a mesma reverência ao momento, que apresentou no início, ela encerrou a narração.
FORMAÇÃO MORAL SENSIBILIDADE MORAL CONSCIÊNCIA MORAL
- “Ensinado a compartilhar - A cuidar do mais frágeis. - União familiar.
- Infância estável financeira e emocionalmente.
- Pais presentes: pai
amoroso, parceiro; filha
predileta. - Mãe rígida.
- Ensinada a falar a verdade.
- Abdicou dos próprios
interesses em prol dos mais frágeis: - a mãe (que foi abandonada pelo marido na juventude de Hera); - os irmãos mais novos que ajudou a formar e orientar profissionalmente.
- Perdoou o pai e o reaproximou da mãe.
- Abdicou do casamento. - Abdicou da vida artística, tudo pelo outro.
- Consciência como esteio da família, em particular da mãe.
- Consciência universal,
missionada a cuidar dos jovens, crianças e velhos. - Abdicou do casamento
para preservar-se e
permanecer integra.
- Desapego dos bens
materiais.
- Missão espiritualista
transcendental pelo BEM da Humanidade.
Fonte: elaboração própria, com suporte na fala do sujeito.
4.8.2 Discurso de Calipso
Calipso nos surpreendeu pela quantidade e qualidade da locução que fez de si. Durante seu discurso, fez pausas, tomou o ar como se sufocasse e não nos dirigiu o olhar em nenhuma ocasião em que estávamos diante um do outro. O fato de relatar-se sem se voltar para nós parecia ser intencional, parecia revelar um desejo de agredir, ferir, afrontar o “outro” que “intrometia-se” e perscrutava a dor de sua história. Ao mesmo tempo, parecia necessitar daquele momento, de realizar aquela “dura tarefa”.
Calipso recusou-se a parar, a abortar o relato, quando em uma de suas pausas para organizar o discurso, questionamos se desejava fazer uma pausa, um pequeno intervalo que fosse, ao que negou bruscamente com a cabeça, pedindo para prosseguir o relato, sob pena de não mais falar, deixando transparecer seu mal-estar (implícito-explícito) em revisitar sua infância e seus segredos (como se reportou à “revelação”).
Na escolha que fez do que ia falar, Calipso parecia escutar-se. Parecia assustada com o teor do que ia lhe escapando da alma, por intermédio do discurso. A professora chegou a tremer o corpo, apertava as mãos, estalava os dedos ao ponto de deixá-los vermelhos, mas parecia verdadeiramente querer falar de si para si mesma.
Na forma como descreveu o pai, embora o revelasse agressivo e alcoólatra, a professora deixava implícito que o amava e que sentia carinho por ele, conquanto o temesse quando ele bebia. O pai, segundo ela, “era trabalhador... não passávamos fome quando morava conosco e me chamava de minha loura”.
A professora sinaliza também com atos de sensibilidade moral, ao reconhecer a ajuda da avó e valor que esta imprimia ao fato de a neta gostar de estudar, mostrando-se aplicada e também responsável na Escola.
Embora revele que aguarda o reconhecimento da mãe pelo apoio financeiro e o “cuidado” que demonstra lhe dedicar, atenta às suas enfermidades, diabetes e hipertensão, Calipso não se furta a esta ajuda, demonstrando, como ficou atestado no teste kohlberguiano, situar-se no Nível Convencional, no estágio 3, que caracteriza a moral retributiva. Do “eu faço, mas quero que façam por mim”, reclamando um retorno na mesma medida.
Calipso apresenta no discurso, pelo modo como se refere no passado e ao mesmo tempo omite no presente a existência do irmão, preferido pela mãe em detrimento dela, fato explicitado pela genitora reiteradas vezes, uma espécie de mágoa, inveja, desprezo, não conseguindo esconder no tom de voz o amargor que é referir-se a ele, assim como parece lhe doer a simples existência dele no mundo. Ao que nos parece, faz questão, a professora, de matá-lo simbolicamente.
Da mesma forma que aniquila o irmão, Calipso não ressalta o papel do marido policial, o qual ela revela não temer, na entrevista, referindo-se à patente do cônjuge.
O marido, no discurso da professora, é apresentado e descrito como alguém neutro, amorfo, frio e indiferente, que nem ajuda, mas que também não atrapalha, dando indícios de que cada um vive sua vida.
Calipso enfatizou, tanto na sua história como na sala de aula e durante a entrevista, que nutria uma certa rejeição por pessoas que ela classifica como “acomodadas”, que não lutam pelos sonhos, não perseveram para alcançar objetivos, ressaltando que “ser pobre” não constituí desculpa para não vencer na vida, como os alunos da Calipolis, segundo ela.
FORMAÇÃO MORAL SENSIBILIDADE MORAL CONSCIÊNCIA MORAL
- Abandonada na infância, fome.
- Agressões físicas e morais à mãe por parte do genitor na presença dos filhos. - Pobreza: inadimplência,
insolvência quanto a
obrigações físicas.
- Exploração por parte da
mãe que lhe transferia
tarefas de adultos: lavar roupa, cuidar do irmão, limpar a casa.
- Gravidez na adolescência. - Humilhações verbais.
- Açoites e agressões
físicas.
- Mentiras e subterfúgios por medo.
- Desejo de proteger a mãe
da agressão do pai
(importância).
- Sentimento de rejeição: a mãe que preferia o irmão. - Ódio pela mãe.
- Reconhecimento do papel da avó em sua formação escolar.
- Moral retributiva em
relação à mãe.
- Filhos como conseqüência do casamento.
- Vida conjugal apática, fria.
- O saber como construtor de percurso positivo.
- Perseverança para realizar os sonhos (luta).
- Consciência do dever que tem para com a mãe doente (embora rejeite a mãe).
- Consciência da
responsabilidade como mãe.
Bruscamente a professora encerrou seu discurso, levantando-se, quase saltando da cadeira onde estava acomodada e incomodada ao mesmo tempo, o que não aniquila seu aparente esforço em “confiar” sua história a uma pesquisadora, estranho ao seu contexto. A locução de Calipso nos pareceu mais uma conversa interior, como já expressamos; algo particular, pessoal, catártico até, embora, intencionalmente ou não, desejasse revelar uma pseudofrieza, uma certa indiferença pelo cunho das revelações que se debulharam imersas em emoções significadas e marcas existenciais profundas, algumas delas ainda em plena ebulição.