KONGRE, KONFERANS ve ÇALIŞTAY
XII. Türkiye Ulusal Tarım Ekonomisi Kongres
Na medida que a humanidade avançou com seus modelos produtivos, na sociedade agrícola, industrial e a agora, na sociedade do conhecimento, o ser humano buscou o seu bem-estar, sendo que na busca da melhoria da qualidade de vida, quase sempre, escolheu caminhos nem sempre compatíveis com os cuidados ecológicos. Ademais, a exclusão social que divide o mundo em ricos e pobres, em conjunto com o meio ambiente, formam um binômio de preocupações máximas no mundo atual. A influencia dessas preocupações na normalização é o escopo desse capítulo.
2.2.1 Evolução da questão socioambiental na economia
Entre as ciências naturais, a ecologia surgiu tardiamente, apesar de que as estruturas para o pensamento ambientalista estar presente na obra do médico Hipócrates (460-375 a.C.), já que, de acordo com a sua doutrina o corpo humano era composta por quatro elementos, ditos primordiais: o fogo, a terra, o ar e a água. No final do século XVIII alguns estudiosos interessados na biologia haviam pesquisado como os sistemas biológicos surgiram e se desenvolveram, mas só na segunda metade do século XIX é que a visão sistêmica foi inserida em tais estudos, elegendo o foco principal da ecologia, como ciência, na interdependência entre os seres vivos (CONSTANZA, R.; DALY, H.; CUMBERLAD, J. et al. 1999). Um precursor da ecologia como ciência foi o economista, Thomas R. Malthus (1766-1834) que afirmou que as populações humanas eram capazes de aumentar exponencialmente enquanto a sua capacidade de gerar alimentos crescia linearmente, o que levaria à guerra, à enfermidade e à fome, em função da competição pelos alimentos escassos. Apesar de não prevêr as inovações que levaram ao ganhos de produtividade do campo, Malthus criou um marco na consciência ambiental, o que explica a sua enorme influência em outros intelectuais-chave na história da humanidade como Charles Darwin e Ernest Haeckel, naturalista alemão que ajudou a popularizar o trabalho de Darwin e um dos grandes expoentes do cientismo positivista, a quem é creditado alguns termos utilizados frequentemente como filo e ecologia, em 1866.
Hubberman (1986) alerta que por trás da crença ambientalista de Malthus, reside um argumento em prol da visão da “mão invisível do mercado” de Adam Smith, na medida que a razão pela qual as classes trabalhadoras eram pobres, ainda segundo Malthus, não estavam
nos lucros excessivos (razão humana) mas no fato de que a população aumenta mais depressa do que a subsistência (lei natural). Foi David Ricardo (1722-1823) que apresentou um segundo modelo para a forma que a atividade humana se relaciona com o meio ambiente. Devido às guerras napoleônicas, o trigo teve seu preço elevado e uma área de terras cada vez maior foi dedicada ao seu plantio. Havia na Inglaterra as Leis do Trigo, uma espécie de tarifa protetora do trigo, que mantinha preços e benesses aos fazendeiros ingleses. Por isso, travou- se uma disputa de interesses entre industriais que queriam que os preços baixassem pois isso forçava os salários, na medida que representava um aumento no custo de subsistências dos operários, enquanto que os agricultores apostavam em preços altos, pois significava mais renda, mais dinheiro. E mais, aumentou-se a pressão por terras menos férteis para semeio do trigo, fazendo que os arrendamentos para uso do solo subissem. O modelo de Ricardo explica que o aumento da população estimula a busca de terras menos férteis para a produção agrícola, por isso, os estudos de Ricardo ainda hoje são importantes para explicar as relações entre a sobrevivência humana e os sistemas ecológicos que sustentam a vida. Juntos os modelos de Malthus e Ricardo deram lugar no que na economia clássica é chamada “ciência deprimente”, ou seja, segundo os autores citados, a constatação de que os limites da capacidade de carga do planeta previstos por Malthus e a decadência dos recursos decorrente da pressão humana de Ricardo são os embriões nas discussões entre economia e ecologia, presentes ainda no século XXI. O avanço da ecologia sobre a economia ainda percorre o trabalho de Charles Darwin (1809-1882) com a sua obra On the Origin of Species by Natural Seletion, publicada em 1859 e que foi chamada de subversiva pelo seu questionamento à criação divina. Desde Darwin o paradigma da evolução tem sido aplicado aos sistemas ecológicos e econômicos, dando materialidade aos conceitos de competição, sobrevivência e equilíbrio, ao demonstrar que a evolução genética é fruto das mutações e que a seleção natural se dá pelo critério do êxito reprodutivo. Em Karl Marx (1818 – 1883) os aspectos socioambientais são abordados, entre suas numerosas críticas ao capitalismo (CONSTANZA, R.; DALY, H.; CUMBERLAD, J. et al. 1999) ao retratar que as concentração de terra e capital entre uma pequena porção da sociedade afeta o funcionamento da sociedade como um todo. Assim disse Marx:
[...] a descoberta de ouro e prata na América, a extirpação, escravização e o sepultamento, nas minas, da população nativa, o início da conquista e saque das Índias Orientais, a transformação da África num campo para a caça comercial aos negros assinalaram a aurora da produção capitalista. Esses antecedentes idílicos
constituem o principal impulso da acumulação primitiva. (MARX, KARL. O capital, vol. 1 apud HUBERMAN, LEO. 1986, p. 145)
A ecologia como ciência independente, e com nome próprio, surge com Ernest Heinrich Haeckel (1834 – 1919), que em 1866 usou pela primeira vez a palavra oecologie. Haeckel foi quem primeiro apresentou uma definição completa de ecologia: “por ecologia se entende o conjunto de conhecimentos sobre a economia da natureza: a investigação das relações totais entre os animais tanto com seu ambiente inorgânico como o ambiente orgânico” (CONSTANZA, R.; DALY, H.; CUMBERLAD, J. et al. 1999, p.41). Destaque-se uma evidente relação conceitual profunda, nessa definição, entre economia e ecologia, a ecologia era, nas palavras de Haeckel, o estudo da economia da natureza (op. cit., p. 42). Assim, desde o nascimento da ecologia10 como ciência, observamos uma íntima correlação entre seres humano, meio ambiente e economia11. Essas idéias são precursoras da teoria geral dos sistemas e tiveram grandes influencias no conceito de externalidades vital para correlacionar a economia com a ecologia e a normalização.
A teoria geral dos sistemas parte de princípio que os sistemas são grupos de partes interdependentes que interagem por meio de trocas complexas de energia, matéria e informação. A teoria se aplica perfeitamente nas ciências ambientais e econômicas, onde pequenas alterações podem causar profundos impactos, quer no ecossistema, quer no meio econômico, por isso, ao estudar a ecologia não podemos buscar as soluções da ciência clássica, pela qual buscam-se explicações pela redução do problema até a parte “atômica” do todo.
Na economia, a idéia de externalidade tem origem em Pigou (1877-1959) ao estudar a maneira como os custos e os benefícios que não estão incluídos nos preços de mercado afetam a maneira como as pessoas se relacionam. Jaeger (2005) descreve graficamente o conceito de externalidade ao analisar uma indústria que possui um custo externo adicional ao seu processo, o custo imposto à sociedade pela emissão de poluentes atmosféricos. Se adicionarmos o custo marginal externo (MEC) ao custo marginal privado (MPC), obtemos o
10
fr. écologie (1910) 'ecologia', do gr. oîkos,on 'casa' + gr. lógos,ou 'linguagem'
11
gr. oikonomía,atos 'administração, direção de uma casa; organização, distribuição; economia' pelo lat. oeconomìa,ae 'disposição, ordem, arranjo, economia (de um discurso, de um poema)' (DICIONÁRIO HOUAISS)
custo marginal social (MSC) conforme ilustra o primeiro gráfico da figura 2.10. A cada nível de produção a distância vertical entre MPC e MSC é igual ao MEC. Note-se que o nível ótimo de produção Qm que ocorre quando a curva da demanda cruza com a curva do custo marginal
privado, não corresponde ao nível ótimo de produção considerando-se o custo social Q* . Por isso, ao produzir ao nível Qm o fabricante impõe externalidades negativas expressas pela área
do triângulo hachurado. preço produção MSC2 MPC demanda PM QM Q* MSC preço produção MSC MPC demanda PM QM Q*
Fonte: JAEGUER, W. 2005, p.77, adaptação e tradução nossa Figura 2.12 – Externalidades em produção industrial
A idéia de que uma organização deve mitigar os seus impactos ambientais, tão presente na normalização, em particular nas normas da série ISO 14000, decorre do conceito de externalidade. Na análise da figura 2.12 é nítida a impressão de que ao reduzirmos quantidades de produção para Q* estaríamos reduzindo a externalidade ambiental. Essa análise, à luz da gestão ambiental, é simplista. É possível reduzir emissões maximizando a eficiência de equipamentos produtivos, ou investindo-se em novos processos industriais menos poluidores, assim, a inclinação da nova curva MSC2 se aproximaria da inclinação da
curva MPC com redução da região da externalidade (ver segundo gráfico da figura 2.10).
A visão integrada de economia e ecologia – a economia ecológica – é um novo paradigma o que tem levado os economistas e ecologistas a terem de aprender uns com os outros e assim formar massa crítica conjunta. Uma forma de ver a economia ecológica com o sentido de englobar a tanto a economia, tanto a ecologia está representada na figura 2.13. O esquema proposto por Constanza; Cumberlan; Daly et al (1999) relaciona os campos de ação da
economia ecológica, com a economia tradicional, com a ecologia, com a economia de recursos e meio ambiente e a análise dos impactos ambientais.