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Türkiye Tarım Kredi Kooperatifleri Merkez Birliği

1. BÖLÜM

2.8. Türkiye Tarım Kredi Kooperatifleri Merkez Birliği

Entre os documentos guardados no Centro de Documentação da Cinemateca Brasileira, encontra-se um dossiê sobre a censura cinematográfica, composto de recortes de textos da imprensa brasileira. Grosso modo, a partir da leitura de alguns desses textos publicados na década de 1950 foi possível perceber posicionamentos diferentes a respeito da censura cinematográfica: um desses convoca as autoridades a tomarem as devidas providências diante de alguns filmes inapropriados ou, em outras palavras, filmes considerados como ameaças ao decoro público. Um exemplo disso é o artigo assinado por Nicanor M. Fischer, “Da imoralidade como diversão”, publicado no jornal

A Hora, em 26 de julho de 1954, no qual critica a imoralidade presente em algumas produções culturais do período. Não muito distante disso, o artigo publicado em O

Correio Paulistano, em 30 de abril de 1955, intitulado “Filmes Inapropriados”, menciona que o cinema deveria ter uma função educativa, que muitos filmes estrangeiros eram dotados de aspectos “imorais”, chamando a atenção para o fato de alguns desses filmes terem alcançado um alto número de bilheteria.

Ressaltamos, assim como faz Inimá Simões (1999: 30), que,

para os porta-vozes da ordem dominante, o cinema se colocava em oposição direta aos valores e instituições tradicionais. Os imigrantes e seus filhos não se sentiam atraídos para a cultura cinematográfica só porque o cinema era barato, ubíquo e atraente como fantasia e entretenimento. O cinema era também um provedor de ideias, de símbolos e de segredos.17

O próprio público que ia aos cinemas de certa forma era “complacente” com a censura cinematográfica, considerando-a necessária e legítima. Esse apoio do público à censura talvez tenha entre outras justificativas o fato de a Igreja Católica – que possuía uma influência significativa na orientação do que viria a ser uma boa moral diante de

seus fiés – nessa conjuntura exercer uma influência significativa no campo de atuação da censura cinematográfica não apenas aqui no Brasil, como nos Estados Unidos, por exemplo. E também o fato de a imprensa em algumas situações compartilhar dessa complacência.

Em 24 de agosto de 1955, O Correio Paulistano publica a notícia “Diversões Públicas”, que relata ao leitor do jornal o envio à Assembleia Legislativa de um oficio elaborado pela Comissão de Moral e Costumes da Confederação das Famílias Cristãs, o qual pedia uma cooperação “para surtar a onda de imoralidade que certos filmes estão espalhando em nossa terra”. Uma das críticas feitas pela Comissão diz respeito à falta de uniformidade na atuação da censura no país, tanto no que se refere aos procedimentos quanto às medidas adotadas; essa queixa esteve muito presente na imprensa durante essa primeira metade da década de 1950.18

Conforme transcrito pelo jornal: “O que falta é justamente uniformidade de critério e rigor na censura. Embora centralizada, ela usa às vezes de dois pesos e duas medidas, proibindo o que não devia e aprovando verdadeiros absurdos, escandalizando a parte sã das plateias”. O artigo é finalizado apresentando uma concordância às reivindicações e críticas feitas pela Comissão à Assembleia Legislativa:

Procede a manifestação da CMC contra esse bifrontismo e contra a exibição de filmes excessivamente realistas, quase merecedores de proibição total, em nossos cinemas. Não basta, sem dúvida, a restrição “proibido até 18 anos”. Há películas que nem assim deveriam ser apresentadas em sessões públicas. Mas ainda outro aspecto existe a requerer as vistas das autoridades competentes: peças teatrais e filmes impróprios para menores estão sendo divulgados pela televisão, dando a crer que isso se faz sem “placet” da censura, desde que esta impôs restrições quando da apresentação desses trabalhos em teatros e cinemas. Deveria haver, ao menos, de parte dos dirigentes das empresas de TV o cuidado de avisar com antecedência os telespectadores sobre a classificação oficial das peças e películas quanto à sua parte moral, evitando, desse modo, degradáveis situações nos lares onde crianças assistem a tais espetáculos.

18 A princípio não podemos afirmar que essa discussão já era pautada pela imprensa nas décadas anteriores, pois consultamos apenas os textos publicados na mencionada década.

De acordo com o que foi possível perceber, a Igreja Católica juntamente com as suas entidades exerceram uma influência relevante junto à efetivação da censura cinematográfica, seja no que diz respeito à aprovação do público diante da “necessidade” de zelar por uma moral, seja até mesmo por uma “ordem”, ou à articulação com os órgãos oficiais. Entretanto, essa relação da Igreja e de suas entidades com a censura oficial deparou-se com algumas situações de controvérsias. Nessa pesquisa não aprofundamos a discussão, mencionando apenas uma nota publicada no jornal Tribuna do Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 1954, cujo título já deixa evidente a problemática apresentada: “Só a polícia pode censurar filmes – Decisão do Chefe de Polícia”. Essa nota menciona de forma breve a recusa do coronel Geraldo Menezes Côrtes (o responsável pela censura de Rio, 40 Graus, alguns meses depois da referida publicação) diante da colaboração dos membros da Ação Social Arquidiocesana no “Serviço de Censura Oficial”.

A Imprensa, como demonstramos, critica a desordem na regularização da censura cinematográfica no Brasil. Todavia, essa crítica à ausência de uma uniformidade no regimento orientador da censura na maioria das vezes não vem acompanhada de uma crítica à censura em si, ou seja, à defesa da liberdade de expressão dos cineastas.19

Dentre os artigos que apresentam essas características, mencionamos apenas o do crítico de cinema Décio Vieira Ottoni, “A censura na berlinda”, publicado no Diário

Carioca, em 8 de março de 1955. Nele Ottoni critica veementemente a falta de regularização do Serviço de Censura de Diversões Públicas, sugerindo que mudanças ocorressem em sua estrutura e regulamento, e, principalmente, que o órgão fosse transferido para o Ministério da Educação, uma vez que os seus profissionais, entre eles o Juiz de Menores, seriam mais qualificados para determinar quais cenas ou filmes não poderiam ser exibidos.

19 Esclarecemos que essa afirmação precisa ser mais bem fundamentada, pois ela foi embasada a partir apenas da leitura dos textos da imprensa publicados nos primeiros anos da década de 1950. Entre esses textos, o artigo de Pedro Dantas mencionado no corpo do texto dessa seção é um dos poucos que se posiciona “contra” a censura. O crítico comenta que os cortes das cenas não podem ser impostos pela censura, pois caberia a ela apenas classificar, proibir ou liberar o filme “com ou sem as restrições da improbidade”. Os cortes deveriam ser uma iniciativa dos realizadores, exibidores ou cessionários dos respectivos direitos de exibição para assim poder obter a classificação e ser exibido. Em suma, Dantas considera o fato de a censura realizar os cortes um ato abusivo. Como foi possível perceber, colocamos a palavra “contra” entre aspas porque o crítico dirige suas apropriadas críticas apenas a uma das medidas adotadas pela censura, e não à “instituição censura”.

O mencionado crítico termina seu artigo enfatizando que: “As nossas críticas não cessarão enquanto o problema não for solucionado e logo reunamos documentos de outros arbítrios indignos do SCDP, voltaremos a revelá-los”.

Em linhas gerais, é possível afirmar que nessa primeira metade da década de 1950, assim como nas primeiras décadas do século XX, a polícia também terá uma atuação no campo da censura. Um exemplo mais claro disso é a proibição de Rio, 40

Graus pelo coronel Geraldo Menezes Côrtes, então chefe do Departamento de Segurança Nacional. A atuação da polícia na censura cinematográfica era criticada na Imprensa brasileira, períodos antes da mobilização que discutirei adiante gerada pela censura do filme de Nelson Pereira dos Santos. O crítico Pedro Dantas, por exemplo, em artigo publicado no Diário Carioca, em 17 de março de 1955, afirma com toda convicção que a polícia não estava apta para analisar quais filmes não seriam adequados para exibição entre os jovens; essa função caberia aos profissionais especializados na área da educação, sobretudo, em psicologia infantil e do adolescente.

Grosso modo, é possível afirmar que as ambiguidades e contradições tão mencionadas no decorrer deste texto, que marcam a atuação da censura cinematográfica no Brasil, também podem ser notadas na atuação da censura em outras instâncias da produção artística e intelectual. É provável que um dos fatores que possa explicar tal situação é o fato de a censura de costumes ter-se mantido dinâmica e influente no campo de atuação da censura institucionalizada politicamente. Sobre essa questão ressaltamos apenas as conclusões de Miliandre Garcia (2009: 71):

No período entre as ditaduras varguistas e a militar, a criação do SCDP buscava primeiro dissociar a censura de costumes da prática política e, segundo, retomar o argumento moral de uma atividade preexistente. Se, na prática, essa separação é pouco consistente, na teoria ela sobreviveu até meados 1960, quando um golpe de Estado modificou o regime político vigente e redimensionou o papel de inúmeras instituições, entre as quais a censura de diversões públicas. Desde então, a censura passou por várias fases, como vimos. Todas elas buscavam se adaptar às demandas políticas da época.

3.3. Alguns dos aspectos da mobilização da imprensa após a censura