3.2 Türk-Romen Güvenlik İşbirliği
3.2.2 Türkiye’nin Romanya'nın NATO Üyeliğine Olan Desteği
A questão sobre o sentido no trabalho nos conduz para a compreensão do reconhecimento. Sabemos que a experiência do reconhecimento não pode ser pensada fora da relação com o Outro e de sua dimensão contextual, em uma perspectiva histórica.
Podemos, pois, dizer que a relação com o outro é fundamental para a nossa reflexão. E daí, afirmar também que não existe auto-reconhecimento. Eu não me reconheço por mim mesmo, estou sempre alienado no olhar ou no discurso do outro (...). Numa linguagem que nos é familiar: é pela alienação na imago de outrem ou no discurso do Outro (a cultura, a “lei”, uma ideologia, um contexto político- econômico, etc.) que nasce minha “identidade” ou meu modo de “ser no mundo”. (Araújo, 2001, p. 32)
Se o reconhecimento de si pelo outro é matriz fundamental para a construção identitária do sujeito, Lhuilier (2005) irá afirmar que o trabalho é o “cenário onde se desenvolve esta procura de identidade que leva o sujeito a criar e a manifestar e a fazer reconhecer a sua singularidade através das suas práticas” (p.212).
Destacamos, na seção anterior, profissões que trabalham sobre o negativo psicossocial sinalizando especificidades para a construção do sentido do trabalho e a complexificação para o processo de reconhecimento social. Em se tratando de práticas degradantes, humilhantes, transgressoras, esses profissionais precisam se haver com confrontações maciças perante o julgamento emitido pelo outro, que tende a rejeitar, ocultar, desconhecer suas práticas. Pensamos que tais confrontações são ainda mais maciças sobre as dimensões do agir dos trabalhadores do tráfico de drogas. Se, para os lixeiros, por exemplo, é possível localizar uma positividade para sua função e encontrar
uma condição civilizatória pela perspectiva da limpeza urbana, no tráfico de drogas, seguir por uma linha de compreensão que abarque elementos de positividade parece, a princípio, uma função impossível. A dureza com que o real – no sentido lacaniano do termo, daquilo que escapa à simbolização – se apresenta na constância dos processos de mortificação exige um algo a mais para a árdua tarefa de atribuir sentidos em um campo às avessas ao que é valorizado socialmente. Há a precariedade de recursos simbólicos, mas há também a precariedade de recursos materiais que, como bem aponta Kehl (1999), faz a luta do jovem pobre na busca pelo reconhecimento ser ainda maior. Uma luta que ganha tônus dramáticos no suplício pelo olhar e que foi tão sensivelmente delineada na canção Meu Guri, de Chico Buarque, cuja letra transcrevemos a seguir.
Já com tudo dentro Chave, caderneta Terço e patuá
Um lenço e uma penca De documentos Prá finalmente Eu me identificar
Olha aí! Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega! Chega no morro
Com carregamento Pulseira, cimento Relógio, pneu, gravador Rezo até ele chegar Cá no alto
Essa onda de assaltos Tá um horror
Eu consolo ele Ele me consola Boto ele no colo Prá ele me ninar De repente acordo Olho pro lado
E o danado já foi trabalhar
Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega! Chega estampado
Manchete, retrato Com venda nos olhos Legenda e as iniciais Eu não entendo essa gente Seu moço!
Fazendo alvoroço demais O guri no mato
Acho que tá rindo Acho que tá lindo De papo pro ar
Desde o começo eu não disse Seu moço!
Ele disse que chegava lá
Olha aí! Olha aí! Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí
Olha aí!
Os 33 anos que separam a composição de Chico Buarque e esta dissertação marcam um importante processo de modificação na criminalidade urbana, como pôde ser visto no capítulo anterior. Ações individuais como as do Guri, voltadas para crimes contra o patrimônio, não correspondem mais ao foco de um “padrão” da criminalidade atual. Estampados nas primeiras páginas dos jornais, não estão mais os delinquentes de outrora.
Antes era diferente. Era só eu fazendo os corre, roubando caminhão que chegava na quebrada e fugindo dos homi. Agora não, é mais sussa. Vou trampar lá de noite, vendo a droga e faço minha grana. Sou importante lá na minha quebrada, e não tem essa de ficar correndo de polícia toda hora, não. Claro que os caras sobem, e se vacilar a gente cai mesmo. Eu vacilei, por isso tô aqui. Só que o patrão da minha quebrada me protege. Eu protejo ele e ele me protege. Ele já até mandou o advogado lá da firma olhar meu processo. Antes, se eu fosse preso, morria na cadeia, porque com o dinheiro do corre não dava pra pagar advogado, não. (Trabalhador do tráfico de drogas 3)
Tal modificação com a expansão do tráfico de drogas, aliada a uma série de ações governamentais que promoveram a ascensão social de moradores da periferia, conduz a uma aproximação, muito mais contundente já que possível, com a forma que encontramos de reconhecimento social em uma sociedade do espetáculo (Guy Debord, 1967).
A lógica que se impõe a partir da imagem fetiche é: “o que aparece é bom; o que é bom, aparece” – de tal modo que o reconhecimento social desses indivíduos desamparados depende inteiramente da visibilidade. Só que não se trata da visibilidade produzida pela ação política, mas da visibilidade espetacular, que
obedece a uma ordem na qual o único agente do espetáculo é ele mesmo. (Kehl, 2004b, p. 49)
Maria Rita Kehl (2004b) aponta nessa citação para indivíduos subjetivamente desamparados, já que fisgados pelo fetichismo da imagem, na via do que ela denomina como um “a mais” de alienação. Indivíduos que nascem “sob as condições da vida burguesa” (p.49) e que se tornam “presas fáceis de propostas de engajamento autoritárias” (p.49).
Se pudermos partir de um “a mais” do desamparo, tendo em vista que estamos falando de sujeitos “desafiliados”, verificaremos que a associação ao tráfico de drogas vai ao encontro da conquista dessa imagem fetiche, apesar de ambivalente.
Pela via do trabalho, ainda que ilícito (e aqui é importante marcar a diferença em relação ao Guri que se apropria de bens materiais alheios), o trabalhador do tráfico de drogas pode se vestir com roupas de marcas caras, possuir carros e motos desejadas, conquistar muitas mulheres, entre tantos outros símbolos de ostentação. E vai além, o patrão da firma chega a assumir, conforme aponta Carreteiro (2001), características – diríamos imagem – do chefe da horda, tal como concebido por Freud.
Ele possui sobre os membros da comunidade um poder de vida e de morte. De vida, porque o chefe dessa horda (horda, uma vez que os habitantes não podem se associar livremente e são obrigados a funcionar como se fossem uma massa passiva), para estabelecer e manter seu poder, sabe usar de métodos não-violentos. Ele sabe funcionar nos vazios do sistema estatal e proteger os membros de seu clã (impedir que sejam roubados, dispensar-lhes cuidados médicos, quando necessário, alimentar os mais desprovidos, promover e organizar festas, de maneira a tornar-se
uma pessoa que traz alegria etc.). Em troca de suas atividades de proteção, de suas doações, ele exigirá uma submissão total, um respeito incondicional às normas ditadas, atitudes que vão incentivar a heteronomia e não a autonomia (no sentido Castoriadis). Se, por acaso, alguém tenta se liberar do “paternalismo” do chefe, dessa “violência” velada, manipuladora, sedutora, integradora, coloca sua vida em risco. (Carreteiro, 2001, p.164)
Por outro lado, o caos provocado pelo exercício da violência produz medo e sentimentos aversivos a esse chefe. Nesse sentido, a imagem espetacularizada, aqui, parece servir a dois propósitos, ambos convergindo para a conquista do olhar. Se, de um lado, os símbolos de “ostentação” cativam os demais pela apreensão do desejo de posse e proteção, por outro, a dimensão do espetáculo da força, da “brutalidade” da morte, assegura a manutenção do medo e do domínio.
Por fim, o ato de matar, no tráfico de drogas, conserva essa mesma ambiguidade na medida em que é visto como um trabalho sujo, atualmente muitas vezes delegado ao de menor, ao mesmo tempo em que, quando adicionados elementos com dimensões espetaculares, como vimos no início deste capítulo, fornece um importante passaporte para se galgar a hierarquia na divisão técnica do trabalho. De qualquer maneira, a entrada para o tráfico traz uma exigência primordial: Não tem jeito, não. Se o neguinho quiser entrar pro tráfico, ele tem que ter disposição pra matar. Isso é tipo uma lei (Trabalhador do tráfico de drogas 2).