5. TÜRKĠYE’DE KADIN ĠġGÜCÜ
5.1 Türkiye‟de Kadın ĠĢ Gücü
Tomando como objeto de análise, marcas linguísticas, como pontos sensíveis e constitutivos de toda escrita, inscreve-se a heterogeneidade enunciativa nas expressões de não coincidências do dizer. Nossa proposta é estudar como se materializa a relação do pesquisador com o conhecimento ao mobilizar um conceito de área e dar a ver em sua escrita,
por meio de marcas que testemunham no discurso, espaços em que a enunciação7 se desdobra em comentários, acerca dela mesma e se representa não coincidente consigo mesma. Tais, estruturas correspondem a um modo de enunciação desdobrado, em que o dizer pode mostrar formas da relação do pesquisador com o conhecimento culturalmente sistematizado (AUTHIER-REVUZ, 1998).
A relevância dos estudos de Authier-Revuz (2004) em nossa pesquisa centra-se nas abordagens que tratam o sujeito como constitutivamente heterogêneo, na medida em que é atravessado por sua própria divisão, pelo social, pelo discurso de outrem e pelas numerosas formas de exterioridade. Conforme a linguista, esse sujeito pode também mostrar a heterogeneidade no discurso ao articular as diferentes vozes que o atravessam constitutivamente.
Apontamos para a discussão sobre os efeitos de sentido que formas linguísticas denominadas não coincidências do dizer podem exercer no discurso e revelar, no “movimento escrito”, o modo como o pesquisador lida com o conhecimento culturalmente sistematizado, considerando as dissertações como objeto de pesquisa.
Partimos da compreensão de que as manifestações da linguagem são fortes influências do imaginário, produzem sentidos que se supõem únicos. A modalização autonímica é a configuração enunciativa da reflexividade metaenunciativa. Authier-Revuz (1998) considera que,
em um ponto de seu desenrolar, o dizer representa-se como não afetando, por si, o signo, ao invés de preenche-lo, transparente, no apagamento de si, de sua função mediadora, interpõe-se como real, presença, corpo, objeto encontrado no trajeto do dizer e que se impõe a ele mesmo como objeto; a enunciação desse signo, em vez de se realizar “simplesmente”, no esquecimento que acompanha as evidências inquestionáveis, desdobra-se como um comentário de si mesma (AUTHIER- REVUZ, 1998, p.14).
Percebe-se, então, um dizer que rompe discursos que refletem sobre si mesmos, como atravessados por sua autorrepresentação opacificante. Na perspectiva dos estudos linguísticos das representações metaenunciativas da interlocução, Authier-Revuz (2004), em suas reflexões no campo da enunciação, aborda a relação da linguagem com sua exterioridade, dando lugar às não coincidências do dizer. Além de catalogar as formas de representação da
7Tomamos como referência o conceito de “enunciação” conforme abordado por Bertoldo (2005, p. 71), que toma a enunciação como algo da ordem do irrepetível e, por isso, como um fenômeno que guarda algo de irrepresentável. A enunciação desenvolve-se no tempo e no espaço.
enunciação, a autora propõe uma interpretação subjetiva dessas manifestações, que nomeou de metaenunciação. No dizer da linguista, a “metaenunciação” diz respeito a procedimentos que o sujeito mobiliza para inserir no discurso eventos linguísticos construídos sintaticamente de modo a marcar a presença da heterogeneidade enunciativa. A linguagem e a heterogeneidade são caracterizadas pelo princípio dialogal, logo é justo supor que a heterogeneidade é um princípio constitutivo da linguagem.
A linguagem é o campo do diálogo. Esse diálogo é constante e interminável, pois há inúmeras vozes que se cruzam e se entrecruzam, em alguns momentos concordantes; em outros, discordantes. A linguagem é um campo multifacetado. Ela exige do sujeito enunciador certas escolhas, que se colocam como fio condutor de sentido para a enunciação.
Apoiando-se nessa concepção dialógica da linguagem, na polifonia do Círculo de Bakhtin e, na psicanálise freud-lacaniana, Authier-Revuz estabelece a noção de heterogeneidade enunciativa. A autora considera, com base no dialogismo, que a linguagem é o campo do heterogêneo, do múltiplo, do “não um”. Das teorias psicanalíticas de descentramento do sujeito e do conceito de dialogismo de Bakhtin, ela toma o postulado da interação com o outro/Outro como lei constitutiva de todo e qualquer discurso, que o ser humano é inconcebível fora das relações que o ligam ao outro.
O não um da heterogeneidade se revela principalmente através da modalização autonímica, quando sujeito e signo se enfrentam e, no campo de batalha, exige-se a metaenunciação de função reflexiva desdobrada, por meio da qual aquele que escreve torna a linguagem seu objeto de enunciação.
O discurso é constituído com a participação de outros discursos, de modo que o texto acadêmico é atravessado por dizeres outros que testemunham encontros pontuais da participação de vozes de outros pesquisadores. De certa forma, na construção do discurso, os laços reflexivos marcam, através da criatividade do sujeito no trato com a linguagem, a produção escrita de sua pesquisa. Percebe-se, nesse sentido, que há formas marcadas e formas não marcadas, mais ou menos explícitas, passíveis de análise na materialidade linguística do texto que vão constituir, segundo Authier (2004), o processo por ela denominado de
“heterogeneidade mostrada”, no qual há marcas que devem ser compreendidas como formas
linguísticas de representação de diferentes modos de negociação do sujeito falante com a heterogeneidade constitutiva de seu discurso.
A partir dessa perspectiva, a autora afirma que a manifestação discursiva envolve a heterogeneidade constitutiva e que “todo discurso é constitutivamente atravessado pelos
pode ocorrer em dois tipos de enunciado: o que tem marcas explícitas e aquele cujas marcas não se mostram (AUTHIER-REVUZ, 2004). A heterogeneidade constitutiva pode ser descrita com o auxílio da análise de expressões empregadas pelo pesquisador na construção do texto, que podem ser tomadas como indicadores da presença de sobreditos, seja por formas marcadas ou por formas recuperáveis que se inscrevem diretamente na linearidade do dizer – discurso direto, discurso indireto, aspas, glosas, etc.–, delimitando o “caráter explícito,
acessível à análise linguística” (idem. p. 16). A heterogeneidade constitutiva diz respeito a uma abordagem não linguística do “jogo com o outro”, pois o processo de alteridade está ali diluído por uma espécie de “horizonte fora do alcance do linguístico” (AUTHIER-REVUZ,
2004, p. 21).
Reafirmamos nosso interesse no pensamento de Authier-Revuz (2004) ao dedicar-se ao estudo de elementos linguísticos que expressam, de certo modo, a inscrição do outro (em termos de aspectos exteriores à língua no próprio sistema linguístico), que só poderia dar-se por meio da língua. Ela afirma:
Todo discurso se mostra constitutivamente atravessado pelos „outros discursos‟ e pelo „discurso do Outro‟. O outro não é um objeto (exterior, do qual se fala), mas uma condição (constitutiva, para que se fale) do discurso de um sujeito falante que não é fonte – primeira desse discurso (AUTHIER-REVUZ, 2004: 69).
O conceito de heterogeneidade enunciativa permite observar como as formas linguísticas utilizadas pelo sujeito na construção do texto acadêmico marcam o modo como conceitos teóricos são mobilizados na produção escrita. Entretanto, o aprendizado da escrita não ocorre abruptamente por meio de repetição exaustiva de uma teoria ou de uma questão posta por outra pessoa (professor) mais experiente. Esse aprendizado se constrói na relação com o outro, do qual se espera que o sujeito obtenha algo para si e que, ao mobilizar um conhecimento vivenciado ao longo de sua formação, ele possa estabelecer uma relação com outro discurso, que construa uma leitura própria daquilo que lê e, consequentemente, que escreva um novo texto com marcas da presença de outros discursos que circulam no meio acadêmico.
Certamente, tal aprendizado de que necessita o pesquisador consiste em uma experiência que se estabelece com e por meio da escrita e da leitura construída a partir da necessidade de sua pesquisa e/ou por uma inquietação própria. No discurso oral ou no escrito, há a participação discursiva do outro, expressa linguisticamente por meio da heterogeneidade
enunciativa. Entendemos a heterogeneidade enunciativa, mais especificamente nas formas da heterogeneidade mostrada, como marcas da representação de diferentes modos de negociação do sujeito com sua exterioridade discursiva, constitutiva de todo discurso; portanto ela também se faz presente na escrita do sujeito em formação.
A seguir, discutimos modos de expressão linguística da metaenunciação e processos de modalização autonímica na forma das quatro não coincidências do dizer.