A Licença de Operação (LO), ou Licença de Funcionamento, como alguns autores a denominam, é definida pela Res. CONAMA n. 237/97213 como aquela que “autoriza a
213 Art. 8º, inciso III (CONAMA, 1997).
operação da atividade ou empreendimento, após a verificação do efetivo cumprimento do que consta das licenças anteriores, com as medidas de controle ambiental e condicionantes determinados para a operação”.
A LO é a terceira fase do licenciamento ambiental, que deverá essencialmente verificar o cumprimento do que consta das licenças anteriores para, finalmente, licenciar a atividade sob análise. Após aprovado o projeto e construído o empreendimento, deverá o licenciador realizar perícias técnicas no local a fim de constatar se houve efetiva obediência às condicionantes, restrições e medidas de controle anteriormente impostas, tanto na fase preliminar, quanto na fase de instalação. Essa verificação é condição determinante para a concessão da LO, que licencia o funcionamento da atividade pretendida.
Cabe ressaltar que esta fase é prescindida em casos de empreendimentos que não irão exercer uma atividade, como p. ex., a construção de uma casa residencial nas proximidades de uma APP, em lugares especialmente protegidos, como morros, encostas, etc. Nesta situação, o projeto deverá ser licenciado pelo órgão ambiental competente, através da LP, assim como a construção da casa deverá ser licenciada através da LI, só podendo ser dado início às obras depois das respectivas licenças ambientais. Contudo, como não há atividade comercial, econômica, ou que envolva a utilização direta de recursos ambientais, não haverá LO, eis que a natureza da obra não a exige.
No entanto, na maioria dos casos do Licenciamento Ambiental Ordinário há o exercício de uma atividade, que explorará economicamente recursos naturais, como se vê dos empreendimentos sujeitos ao Licenciamento Ambiental elencados no Anexo I da Res. 237/97 do CONAMA. Assim, quase sempre haverá a necessidade da outorga da LO.
Depois de observado o estrito cumprimento das medidas de controle ambiental e demais condicionantes impostas nas Licenças Ambientais precedentes, o gestor ambiental poderá licenciar a atividade e, ainda, impor outras medidas de controle e condicionantes a serem obedecidas enquanto perdurar a operação da atividade licenciada, sob pena de suspensão ou cancelamento da licença concedida, conforme estudaremos a seguir.
Cabe ressaltar que, nos casos excepcionais em que atividade tiver sido instalada sem as respectivas e devidas LP e LI, a LO poderá ser concedida no procedimento de Licenciamento Corretivo, que se dará com a observância do cumprimento das normas de tutela ambiental, podendo o licenciador exigir que o empreendimento de adéque às exigências legais, assim como poderá impor medidas de controle ambiental e compensatórias como condições prévias à outorga da LO, que só se dará no caso em que for possível regularizar o empreendimento. Outrossim, a deferimento da LO em tais situações não exime o
empreendedor das responsabilidades decorrentes de sua omissão, que, ademais de configurar infração administrativa, é crime ambiental.
As maiores dificuldades encontradas na prática das concessões das licenças de operação é que os órgãos ambientais podem consolidar situações de dano ambiental já permitidas pelos equívocos cometidos nas licenças anteriores, sendo importante que o órgão ambiental licenciador averigue atentamente o cumprimento das exigências anteriormente estabelecidas, assim como firme novas obrigatoriedades, a fim de adequar cada tipo de atividade às peculiaridades normativas inerentes ao seu funcionamento, evitando riscos ambientais e à saúde humana.
O Poder Judiciário também deve compreender a necessidade da revisibilidade das atividades degradadoras do meio ambiente, para permitir que, embora certas situações de ilícito ambiental estejam equivocadamente consolidadas pela concessão de Licenças de Operação, que estas podem ser alteradas, modificadas a qualquer tempo, com o fito de adequar o empreendimentos às normas ambientais. Contudo, nem sempre o Judiciário decide desta forma, podendo amparar suposto direito do empreendedor a permanecer na situação de prejuízo ao meio ambiente, por entender que a licença ambiental concedida consolida tais situações, como ocorreu no caso a seguir exposto:
PROCESSUAL CIVIL. OFENSA AO ART. 535 DO CPC. OMISSÃO CONFIGURADA.
1. Cuida-se de ação civil pública ambiental, em que o recorrente busca a condenação do ora recorrido (i) a desocupar, demolir e remover as edificações existentes em área de preservação permanente, (ii) a abster-se de promover qualquer intervenção ou atividade na área de preservação permanente, (iii) a reflorestar a área degradada situada nos limites do lote descrito na petição inicial e (iv) a pagar indenização por danos ambientais em valor a ser arbitrado pelo juízo.
2. A Corte de origem, ao reformar a sentença, além de concluir que a área de preservação permanente a ser respeitada era de 100 metros, reconheceu que a situação se encontrava consolidada pela licença concedida pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul - IMASUL. Entendeu, também, descabida a aplicação das medidas adotadas na decisão de primeiro grau, sob pena de ofensa aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade.
3. Com razão o recorrente, porquanto da análise dos autos, nota-se que o acórdão recorrido restou omisso quanto à tese da apelação pela suspensão de ofício e da declaração de nulidade de Licença de Operação n. 12/2008 e do Termo de Ajustamento de Conduta firmado entre o IMASUL e a Associação dos Proprietários das Casas de Veraneio do Vale do Rio Ivinhema, de modo que não abordou todos os pontos necessários à composição da lide.
4. A corte a quo simplesmente partiu da premissa de que a Licença Operação n.
012/2008 não teria feito qualquer menção com relação à área que poderia ser explorada e edificada para concluir que eventual restrição deveria estar expressa, sob pena de ofensa ao artigo 5º, inc. II, da Carta Magna. Concluiu, ainda, que haveria expressa autorização do órgão competente para a utilização da área de preservação permanente, o que imprimiria contornos de legalidade à situação. Contudo, em nenhum momento adentrou o tema relativo à eventual
suspensão e nulidade do citado ato administrativo, questão essencial para o deslinde da controvérsia.
5. Recurso especial provido.214
No caso, jamais poderia a administração pública ter concedido nenhuma licença ambiental ao empreendimento que pretendia instalar-se em área de preservação permanente, eis que, como visto, são de caráter não-edificante.
Incorrendo o órgão ambiental em equívoco, não poderia o Judiciário entender que tal situação de dano ambiental estava consolidada, posto que o equilíbrio ambiental é direito fundamental indisponível, devendo o empreendedor, a qualquer tempo, adequar-se às normas de tutela do meio ambiente, independentemente de estar ou não munido de licença ambiental, eis que esta não é meio capaz de amparar ou consolidar situações de dano ambiental, estando sempre sujeita à revisibilidade, consoante veremos mais adiante.
Nestes casos, também poderá ser responsabilizado pelos danos ocorridos o Poder Público, que terá, como sua omissão ou irregularidade, permitido situação danosa ao bem ambiental.
Destarte, deverá o órgão ambiental competente exercer um controle constante das atividades que licencia, eis que a fase de operação exige especial atenção ao cumprimento dos padrões e normas ambientais, para evitar que danos ocorram, sendo de suma importância que as condicionantes a serem estabelecidas pelo licenciador atentem para as especificidades de cada atividade, o entorno e a sinergia que esta detém com outras exercidas na mesma região, principalmente porque o funcionamento das atividades utilizadoras dos recursos ambientais, potencialmente poluidoras é a fase que representa mais riscos ao meio ambiente e à saúde humana.