O instituto da responsabilidade civil encontra sua razão no princípio da dignidade da pessoa humana, porque nele contém a noção de que se deve respeitar o próximo. A respeito do tema, opina Romualdo Baptista dos Santos96:
Sendo assim, a responsabilidade civil, como instituição jurídica que é, encontra razão de ser na dignidade da pessoa humana. O princípio alterum non laedere, que informa a responsabilidade civil, traduz bem a idéia de que o ser humano deve ter em consideração a pessoa dos outros e de que deve se conduzir de modo a não ofender a esfera de interesses dos demais.
Nesta seara, o princípio da solidariedade impõe o dever de reparar àquele que causou um dano a outrem porque, com tal proceder, causou um
95 O princípio da dignidade humana. In: MORAES, Maria Celina Bodin de (Coord.). Princípios
do direito civil contemporâneo. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p. 28.
96 Responsabilidade civil e dignidade da pessoa humana. In: HIRONAKA, Giselda Maria
Fernandes Novaes e FALAVIGNA, Maria Clara Osuna Diaz (Coord.). Ensaios sobre
desequilíbrio social que deve ser restabelecido, tal como salienta José Jairo Gomes97:
Mas é a solidariedade e a cooperação que impõem às pessoas o auxílio mútuo, cumprindo-lhes solidarizarem-se entre si, mormente quando a ação ou a atividade de uma delas acarrete danos à outra; quem prejudica o próximo, e, todavia, permanece indiferente à sua sorte, comporta-se em desarmonia com a solidariedade que permeia a trama da teia social.
A violação da esfera jurídica da pessoa, seja no patrimônio, seja nos direitos da personalidade, seja, ainda, no âmbito dos interesses coletivos, com causação do dano, implica a quebra da harmonia que deve haver no seio social, ocorrendo a ruptura do equilíbrio solidário existente, o que gera uma crise que deve ser debelada.
Ainda no âmbito da responsabilidade civil geral, credita-se à valoração da dignidade da pessoa humana e ao princípio da solidariedade a ampliação do conceito e alcance da responsabilidade civil.
Primeiramente, e de forma sutil, quanto ao deslocamento de seu foco, que passou do causador do dano para a vítima. Veja-se que, nesse momento, ainda não existe o princípio da dignidade da pessoa humana, porém a preocupação com a vítima, parte fraca na relação, destaca a atenção dirigida à tutela da fragilidade humana.
Em segundo, já sob o enfoque da vítima, a responsabilidade civil se desenvolveu originando a teoria da responsabilidade sem culpa, que agrega tanto o valor inerente à dignidade humana, quanto o valor contido no princípio da solidariedade.
Sobre a relação entre o princípio da solidariedade e a responsabilidade independente de culpa, esclarece Rosa Maria B. B. de Andrade Nery98:
97 Responsabilidade civil e eticidade. Belo Horizonte: Del Rey, 2005. p. 222.
98 Apontamentos sobre o princípio da solidariedade no sistema do direito privado. In: REIS,
Selma Negrão Pereira dos (Coord.); OLIVEIRA, Rogério Alvarez; FRANCO, Eloisa Virgili Canci (Org.). Questões de direito civil e o novo Código. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. p. 42-43.
Refiro-me, por exemplo, às situações de risco social que acabaram por identificar a noção social da culpa como algo insuficiente para abarcar todas as hipóteses que demandavam solução jurídica na sistemática da responsabilidade civil, pois não encontravam saída no sistema da responsabilidade subjetiva.
[...]
A resposta jurídica se encaminhou na forma de solução para assegurar a reparação do prejuízo, a partir de um outro sistema de responsabilidade: o sistema da responsabilidade objetiva. Evidentemente o princípio da socialização dos riscos é uma decorrência lógica do princípio constitucional da solidariedade social, principalmente por causa do risco da vida.
O princípio da integridade psicofísica, alinhado ao princípio da dignidade da pessoa humana, garantiu o reconhecimento do dano moral como objeto de reparação.
Em relação ao dano moral vale lembrar que, inicialmente, o direito à reparação era essencialmente material. Ou seja, reconhecia-se o direito à reparação apenas dos danos patrimoniais, porque a valoração do indivíduo era proporcional ao seu patrimônio. O ser humano era reduzido aos seus bens.
Sob essa visão, barbaridades foram cometidas ao longo da história da humanidade, até que se percebeu o valor do homem por sua própria natureza e essência, considerando sua inteligência, capacidade de transformação, adaptação e superação. Nesse momento, o homem ganhou valor, dignidade.
A valoração do ser humano viabilizou a construção doutrinária para encampar o direito à reparação do dano moral, no seu sentido mais amplo, para além da reparação do prejuízo sofrido na honra, no nome, alcançando o direito à reparação dos danos causados à integridade física, psíquica, à liberdade de expressão, de opção sexual e religiosa.
Para Maria Celina Bodin de Moraes99, o reconhecimento da indenização ao dano moral é reflexo do princípio da dignidade da pessoa humana:
99 O princípio da dignidade humana. In: MORAES, Maria Celina Bodin de (Coord.). Princípios
[...] é efetivamente o princípio da dignidade da pessoa humana, princípio fundante do nosso Estado Democrático de Direito, que institui e encima, como foi visto, a cláusula geral de tutela da personalidade humana, segundo a qual as situações jurídicas subjetivas não patrimoniais merecem proteção especial no ordenamento nacional, seja através de prevenção, seja mediante reparação, a mais ampla possível, dos danos a elas causados. A reparação do dano moral transforma-se, então, na contrapartida do princípio da dignidade humana: é o reverso da medalha.
Pautados pelos princípios da dignidade da pessoa humana, solidariedade e igualdade, também se passou a reconhecer a reparação dos danos transindividuais, resultantes da violação dos danos coletivos e difusos, dos quais se destacam os danos causados ao meio ambiente e ao consumidor.
No campo da responsabilidade civil dos pais pelos danos causados aos filhos menores, estes princípios, conciliados entre si, podem ser observados sob diversos aspectos.
Do ponto de vista da vítima, o reconhecimento de seu direito à reparação do dano, mesmo que provocado pelo menor, sem discernimento, obedece aos princípios da dignidade da pessoa humana e da solidariedade social, pois não seria justo, ético e moral que a vítima, nesta situação, sofresse um dano em seu patrimônio, em sua integridade física ou moral e não pudesse vê-lo ressarcido, suportando-o sozinha.
Também atende ao princípio da igualdade, porque a vítima prejudicada por ato/omissão do menor receberá o mesmo tratamento daquela prejudicada por ato/omissão do maior, não se admitindo, aqui, tratamento diferenciado por força da qualidade do causador do dano, porque sua função precípua é a reparação do dano, circunstância idêntica em um e outro caso.
A responsabilização dos pais pela reparação do dano provocado por seus filhos menores atende, ainda, aos princípios da liberdade, da solidariedade social e da dignidade da pessoa humana.
Os indivíduos têm a liberdade de constituir família, formando-a com base em princípios e valores em que acreditam. Esta formação afetará, diretamente, a formação dos indivíduos que a integram.
Como salienta Antunes Varella, com a transformação da sociedade após a revolução industrial, a função da instituição familiar perdeu terreno para a indústria e as escolas. Muitos dos papéis desempenhados pela instituição familiar passaram a ser desenvolvidos pelos empregadores, nas dependências das fábricas e comércio em geral, na escola, etc.
Contudo, é no seio familiar que o indivíduo encontra o reconhecimento de sua importância única, sendo identificado e diferenciado por suas qualidades e seus méritos, sem qualquer concorrência ou deslealdade.
A família passou a ser o meio de desenvolvimento de seus integrantes, de sua personalidade e, principalmente, de sua dignidade.
E a solidariedade familiar impôs aos pais – como causadores dos filhos, criadores da família a qual eles pertencem e formadores dos valores e princípios a ela inerentes – a responsabilidade pelo cumprimento da obrigação de indenizar oriunda do dano provocado por seu filho menor.
A possibilidade de o menor, por ser incapaz, responder com seus próprios bens pelo prejuízo causado, ainda que subsidiariamente, e a fixação eqüitativa da indenização nestes casos, atende aos princípios da dignidade da pessoa humana, solidariedade e igualdade, de modo a equilibrar interesses e direitos de mesma importância, embora totalmente antagônicos: da vítima e do menor, empregando-se maior efetividade à reparação do dano (interesse da vítima), sem afetar a subsistência e o desenvolvimento do menor (interesse do menor), sendo ambas as situações de interesse e relevância social.