O princípio da solidariedade é um dos fundamentos do nosso Estado Democrático de Direito, previsto nos incisos I e III do art. 3º da CF88:
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - omissis;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - omissis.
Este princípio traduz o valor voltado à realização do bem comum e da paz social, como instrumentos necessários para o digno e igual desenvolvimento do homem.
Com este escopo, o princípio da solidariedade irradia os valores que auxiliam o legislador e o aplicador do direito a interpretar o sistema de forma a alcançar a satisfação do direito individual e, concomitantemente, a satisfação do direito coletivo (de todos), promovendo a parificação (igualdade) e a pacificação social, como salienta Rosa Maria B. B. de Andrade Nery84:
83 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na
Constituição Federal de 1988. 4. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. p. 77.
84 Apontamentos sobre o princípio da solidariedade no sistema do direito privado. In: REIS,
O princípio da solidariedade tem a ver com isso: com o risco da vida e da morte que a todos compromete; com o risco da vida na sociedade, sociedade marcada pelo cada vez mais intricado e complexo risco de viver.
É no princípio da solidariedade que devemos buscar inspiração para a vocação social do direito, para a identificação do sentido prático do que seja funcionalização dos direitos e para a compreensão do que pode ser considerado parificação e pacificação social.
Até a revolução industrial, o direito vislumbrava o homem como um ser isolado, tutelando seus direitos sem atentar para o contexto social em que estava inserido, culminando na criação de regras individualistas que prevaleciam sobre os interesses e direitos coletivos, sociais, fundadas, sobretudo, na proteção do patrimônio.
Após a revolução industrial e, especialmente, após a Segunda Guerra Mundial, não apenas se percebeu a importância do ser humano, por sua própria natureza, como se notou a importância da solidariedade entre os homens para seu desenvolvimento e crescimento. O homem não é nada sozinho.
A solidariedade, como fato social, elevou-se a princípio jurídico a orientar e direcionar o direito que, a partir disto e paulatinamente, foi se modificando para, em linhas gerais, limitar a liberdade individual visando adequá-la aos direitos e interesses do próximo.
Maria Celina Bodin de Moraes85 salienta que aludido princípio impõe aos homens que se ajudem mutuamente para a construção de uma sociedade justa, livre e digna:
O princípio da solidariedade, ao contrário, é a expressão mais profunda da sociabilidade que caracteriza a pessoa humana. No contexto atual, a Lei Maior determina – ou melhor, exige – que nos ajudemos mutuamente a conservar nossa humanidade
(Org.). Questões de direito civil e o novo Código. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. p. 44.
85 O princípio da solidariedade. Disponível em: <www.idcivil.com.br/pdf/biblioteca9.pdf>.
porque a construção de uma sociedade livre, justa e solidária cabe a todos e a cada um de nós.
No mesmo sentido opina Giovanni Ettore Nanni86:
Por conseguinte, uma vez que os seres humanos convivem em sociedade, tal previsão constitucional determina que os interesses pessoais não podem se sobrepor aos da sociedade. Sendo um princípio constitucional dotado de plena aplicabilidade em todas as relações jurídicas entre particulares e/ou com o Estado, a solidariedade, muito mais do que mero valor simbólico ou de amor ao próximo, não apenas tutela como também impõe conduta às pessoas de agirem em conformidade com os seus ditames.
Isto acarreta a necessidade de o direito assegurar a todos uma existência livre e digna, não apenas no aspecto físico, intelectual, espiritual e material, mas também no negocial e econômico, sem a predominância do interesse meramente individual e sim de inserção no meio social de sua convivência. Sua consecução só é possível pela convivência social solidária, porque o homem é um ser social, que depende do outro para se realizar e alcançar sua própria felicidade, como assevera José Jairo Gomes87:
[...] não menos correta parece ser a assertiva de que mais forte e pertinaz é o desejo do ser humano de evoluir e realizar-se plenamente no mundo, o que somente é factível através da convivência social solidária. [...]
Afirmar a igualdade de todos implica igualmente afirmar o respeito, o reconhecimento do outro e a sua dignidade intrínseca como pessoa humana. É a convivência social entre “pessoas iguais” que torna o homem mais civilizado, mais solidário, mais cooperativo, menos egoísta.
É pela convivência social e, portanto, pela presença do outro, que o homem se individualiza, tornando-se único na medida em que se diferencia de todos os demais. Para tornar-se homem, o homem necessita do outro: ele não vive senão con-
vive. Assim, o “eu” não prescinde do “nós”, pois a dimensão
social do homem é essencial para o seu ser e para a sua realização no mundo.
Sobre o ponto, Maria Celina Bodin de Moraes88 registra o mesmo posicionamento:
86 O dever de cooperação nas relações obrigacionais à luz do princípio constitucional da
solidariedade. In: NANNI, Giovanni Ettore (Coord.). Temas relevantes do direito civil
contemporâneo: reflexões sobre os cinco anos do Código Civil. São Paulo: Atlas, 2008. p. 296-
297.
A pessoa humana, no que se refere diametralmente da concepção jurídica de indivíduo, há de ser apreciada de sua inserção no meio social, e nunca como uma célula autônoma, um microcosmo cujo destino e cujas atitudes pudessem ser indiferentes às demais
Conforme salienta José Fernando de Castro Farias89, percebe-se que é neste contexto que o homem deixa de ser tratado apenas como sujeito de direito para assumir uma “função social”:
O homem não é mais unicamente um ser de direito; ele é chamado a preencher uma “função social”. A existência do homem só tem sentido no quadro da sociedade, e sua ação deve ser dirigida para o “dever social” de preencher seu papel no seu sistema da “solidariedade social”, pois seu próprio desenvolvimento enquanto homem depende do funcionamento do sistema social de “solidariedade” como um todo.