1.2. Önceki çalışmalar
1.2.1. Türkiye’deki çalışmalar
O primeiro desenho que se esboçou na entrevista com a professora da Balão Vermelho foi aquele que permitiu o recorte das atividades que poderiam ser observadas no ano da pesquisa de campo naquela escola. O Projeto Giroletras foi o ponto inicial da conversa, a partir do qual outras questões como a formação, as preferências ou a história de leitora iam sendo amarradas ao eixo que nos unia. Inicialmente perguntei sobre as grandes ações que moviam o trabalho com a leitura literária na escola, que se distinguiam pela mudança de gênero do artigo definido: as pessoas diziam o Giroletras e a Giroletras, para se referirem ora ao Projeto Giroletras, ora à Feira Giroletras: “... na realidade o projeto já existia sem a gente perceber. Só que não tinha onde ele... ele só não amarrava no final do ano”.
Por isso a idéia da feira, para dar maior visibilidade social às ações voltadas para o letramento literário, que vinham já se tornando referências do projeto pedagógico da escola:
Era um projeto todo literário, do Balão inteiro, institucional, e nesse projeto a gente sempre trabalhou
muito com a literatura... e o Balão dá uma importância, um valor muito grande. Só que a gente não
tinha como... vamos dizer assim, o trabalho ficava muito dentro da instituição, não saía. Então ficava
muito aqui dentro ou dentro da sala de aula com os professores, ou entre as turmas, alguma coisa
assim, mas bem restrito. E a [idealizadora do projeto] tinha uma vontade de estar organizando uma
À medida que a professora falava do projeto, aspectos quanto à concepção, à adesão dos professores, bibliotecários e alunos e aos seus desdobramentos de percurso iam sendo pouco a pouco elucidados, quase sem intervenções vindas de minha parte. A segurança da exposição, no que se refere às práticas pedagógicas ligadas ao projeto, se evidenciava como representação discursiva de um trabalho em
progresso que se executa:
... aí ela teve a idéia de fazer essa feira, de organizar uma feira onde os meninos... os alunos da
escola fossem, vamos dizer assim, os vendedores dos livros, mas eles têm muito mais o trabalho da
crítica... de estar vendendo o livro e sabendo falar sobre isso.
Pelo que se observa nas marcas discursivas indicadoras de segurança, de propriedade e do grau de certeza sobre aquilo que se diz - o próprio fato de não haver a necessidade de intervenções ou mudança de turno na situação comunicativa da entrevista, também evidencia isto -, parece existir uma partitura mestra na qual os professores se apóiam quando desenvolvem as suas práticas individuais ou quando falam delas na instituição particular desta pesquisa. O lugar social ocupado pela professora, segundo a idéia de legitimação, se apóia no lugar institucional de destaque, conquistado pela escola, em função da opção pelo letramento literário como marca distintiva no competitivo mercado das escolas particulares da cidade. Outros índices reforçam esse lugar quando se verificam o interesse pela formação em serviço, tais como participação em congressos, bienais e eventos que reforçam os valores da cultura literária.
... eu fui até a Bienal levar o que os meninos fizeram (...) Porque os meninos fizeram em cima de um
livro dela [Ângela Dumont] (...) os meninos leram Águas Emendadas (...) os meninos criaram um
outro texto (...) aí eles fizeram uma colcha toda bordada e aí, no lançamento dela na Bienal lá em São
Paulo há dois anos atrás, eu levei essa colcha pra ela com o texto que eles produziram...
Valores, aliás, partilhados com a classe social das famílias que a procuram para seus filhos, e que se liga, como se sabe, à busca de dividendos não só culturais como também socioeconômicos, quando se pensa nos níveis de letramento literário como marcas distintivas dos sujeitos sociais no cenário cultural da comunidade em que vivem.
De trama bem urdida, o projeto de letramento literário da escola Balão Vermelho apresenta uma complexidade de ações que vão surgindo e se amarrando umas às outras à medida que a professora fala de suas experiências na escola. Durante o ano, as turmas desenvolvem projetos literários, de acordo com as preferências da professora e dos alunos, ou em prosseguimento a atividades voltadas para aquele ciclo/série de aprendizagem, experiências que vinham já se tornando práticas curriculares:
Por exemplo, a quarta série todo ano apresenta um sarau com os textos produzidos ao longo do ano,
que eles escrevem e cada um escolhe o seu melhor texto...
Esses projetos e atividades desenvolvidos durante o ano têm como ponto de culminância a feira, no último bimestre letivo. As feiras, como vimos, são eventos anuais que surgiram da necessidade social de tornar visível o trabalho com a leitura literária que já se fazia há algum tempo na escola. Mas não apenas esses eixos - os
projetos em sala de aula e a amarração na grande feira como ponto de culminância - garantem a dinâmica do processo de circulação de livros e socialização das leituras no ambiente escolar. O papel da biblioteca escolar em articulação com as bibliotecas de classe é outro ponto nodal dessa rede que se tece, em torno da leitura literária. Desta forma, cada sala constitui seu próprio acervo, cada turma tem a sua biblioteca de classe.
No caso da 4ª série da nossa pesquisa, o acervo dessa biblioteca foi construído segundo critérios de seleção mistos, do ponto de vista da recepção, pois contavam com indicação da professora e dos alunos na sua constituição inicial. No segundo semestre, lançamentos enviados por editoras à escola eram, depois de submetidos a triagem pela bibliotecária57, encaminhados em caixas para as turmas de 4ª série, que se encarregariam de analisá-los e criticá-los, com vistas à organização dos estandes da feira anual.
No ano da pesquisa de campo (ano 2000), a vertente do Projeto Giroletras, voltada para os intercâmbios com a escola pública e com o Instituto São Rafael, já não era realizada. Algumas dificuldades de percurso, perceptíveis através de depoimentos isolados de pessoas - da escola Balão Vermelho e das escolas públicas - que participaram desses intercâmbios e que hoje fazem deles uma revisão crítica, deram visibilidade a meandros decorrentes de conflitos nas interações.58
57
Vimos, no 2º capítulo, o grau de intervenção da bibliotecária no que se refere à circulação de livros na escola.
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A análise mais aprofundada dos intercâmbios ou das tentativas de um diálogo pedagógico sobre a literatura, entre crianças/jovens/professores provenientes de ambientes tão diversos culturalmente, constitui um interessante material para pesquisas de sociologia da educação, com destaque para questões sobre as interações dos sujeitos de diferentes meios sociais, nas quais se manifestam relações também diferenciadas com a cultura letrada.
... eu sei que foi muito interessante do ponto de vista dos meninos que fizeram esse intercâmbio, o
que eles viram, o que eles conheceram. Mas eu não sei falar com muito detalhe. Eu sei que houve -
desde o início desses intercâmbios, até o ano passado - uma mudança em relação a esses
intercâmbios.
Essa idéia de troca sobre leituras, de interlocução entre leitores ganharia força na sua versão pela escola pública, como veremos a seguir. No plano original, época em que o projeto se estendeu para a escola pública, considerava-se acima de tudo esse diálogo. Dissolvendo-se o intercâmbio com a escola pública que estava na origem da proposta de extensão pela escola Balão Vermelho, restringe-se o projeto nesta escola à sua concepção dinâmica de movimentação em torno da literatura, enquanto estrutura de estratégias e projetos.
... quando você faz um trabalho, que você sabe que você tem um objetivo já. Que você tem que
cumprir, de chegar lá no final do ano, e que vai desembocar lá na Giroletras. Então eu acho que isso
aí fica um trabalho mais sistemático que você faz. Mas você fica mais cautelosa, mais cuidadosa,
procura estudar mais, ler mais. E então eu acho que isso, eu acho que essa
preocupação de todos nós, dos professores, principalmente, em ter mais essa responsabilidade.
Então eu acho que isso faz com que a gente procure saber mais. A gente procure se informar melhor,
e fique uma coisa mais organizada. (...)
O Projeto Giroletras, enquanto dinâmica de ações entrelaçadas, estabelece relações diferentes daquelas que se espera no contexto escolar "tradicional", fazendo surgir experiências, em que se manifestam o empenho e envolvimento de alunos e professores:
... até tem um caso muito engraçado que veio um menino pra cá, entrou pra escola no final do ano, e
ele pegou justamente a época da Giroletras. Ele foi pra terceira série. E ele pegou a semana que todo
mundo... a escola toda só prepara pra isso. Tanto é que é uma quantidade... e sai, e prepara sala,
enfeita sala, aquela coisa, né? E convite pra autor, e tudo. Aí ele entrou e ele ficou assim meio
apavorado, chegou e falou: “Mãe, aquela escola não ensina nem a ler e nem a fazer conta, só se fala
em Giroletras”. (( Risos.)) Aí tem que explicar pra mãe, né? A mãe veio aqui perguntar o que estava
acontecendo (...) o que era.
O depoimento acima abriu as portas, durante a entrevista, para a pergunta cuja resposta inspirou o título dessa análise, condução, aliás, preferencial da entrevista de sondagem das práticas voltadas para a literatura:
Pergunta: Deixa eu te perguntar uma coisa: o que se ensina quando se ensina literatura, heim? Resposta: Eu acho que não tem o que se ensina não. Eu acho que não é bem por aí não. Eu acho
que... Eu acho que parte do princípio... É um trabalho de apreciação literária, né? De levar as
crianças pra conhecer, gostar da literatura. Acho que esse é o desafio. Idéias... Eu acho que idéias
pra você trabalhar com literatura é: dinâmica, estratégia. Receitinha, isso tem aos montes.
Trocando em miúdos, para a professora não se ensina a literatura, mas criam-se condições para que ela seja lida e apreciada pelos leitores. O papel da professora, nesse contexto, seria o de dar conta de sustentar o papel de mediação. Uma mediação entre a leitura e as categorias institucionalizadas de apropriação, responsáveis pela formação de um arsenal teórico que dotará os leitores em formação de condições críticas de julgamento, objetivo principal do projeto como um todo. Um registro de aula sobre o gênero crônica59 aponta com clareza o empenho
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O registro corresponde a anotações em caderno, provenientes de aula em que crônicas de diversos autores são lidas e analisadas, quando se focalizam aspectos temáticos e elementos da narrativa.
pedagógico no sentido de munir e orientar o leitor para uma compreensão da literatura próxima a uma compreensão crítica, portanto, legítima do ponto de vista da instituição:
Análise da crônica: Na escuridão miserável
Esta crônica escrita por Fernando Sabino em 1977 (23 anos atrás) mostra a realidade de inúmeras crianças brasileiras que passam grandes dificuldades, além da exploração do trabalho infantil. Apesar de ter sido escrita há muitos anos, esse texto representa muito bem a nossa realidade no ano 2000. Crianças exploradas, infelizes, miseráveis, sem escola, educação, saúde, crianças que não têm o direito de viver no real mundo da criança.
Analisando alguns aspectos literários: Tempo: à noite, durante uma carona.
Espaço: no RS [sic], dentro de um carro, do Jardim Botânico à Praia do Pinto. Narrador: autor-personagem.