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Türkiye’de Uluslaşma Sürecinde Kültürel Haklar ve Kimlik Politikası

2. BÖLÜM: TÜRKİYEDE ULUSLAŞMA SÜRECİNDE KÜLTÜR VE

2.1.1. Türkiye’de Uluslaşma Sürecinde Kültürel Haklar ve Kimlik Politikası

Para a convivência num Estado Democrático de Direito, fortemente caracterizado pelo pluralismo, não basta a tolerância, o respeito aos direitos alheios e aos modos de viver e de pensar dos outros.

Como ensina NORBERTO BOBBIO, a tolerância nasce de um acordo de reciprocidade para respeito das diferenças entre ao menos duas pessoas: “Eu o tolero se você me tolera”.1 É uma troca. Quebrado o pacto, a tolerância cessa, surge a violência.

A convivência numa sociedade pluralista exige mais do que a simples tolerância, exige a compreensão de que a diversidade e o dissenso são valores que enriquecem o indivíduo e a sociedade, que as diferenças são elementos que impulsionam a modificação das relações sociais.

Nesta sociedade hostil em que estamos inseridos, o indivíduo que respeita os direitos e pensamentos alheios, que “deixa o outro ser o

que é”2, e que reage de forma racional em situações de conflito, ao mesmo tempo

em que interrompe o ciclo de violência, possibilita a transformação do negativo em positivo, estimulando a pacificação das relações sociais.

O exercício da democracia depende da existência de diferenças, de contrários. Sem minorias e sem oposição não há democracia. Por outro lado, no dizer de NORBERTO BOBBIO, “têm o objetivo de permitir a solução

dos conflitos sociais sem a necessidade de recorrer à violência recíproca (as

1 Elogio da serenidade, p. 43. 2

138

cabeças são contadas e não cortadas)”, o que exige a “máxima extensão da relação de confiança recíproca entre os cidadãos, e portanto da eliminação, tão completa quanto possível, da estratégia da simulação e do engano”.3

HANNAH ARENDT explica a importância da expressão política do cidadão na esfera pública, em que qualquer um pode aparecer, mostrar

quem é, ser visto e ouvido pelos outros, e dizer sua opinião.4

Observa que o método socrático dialético sempre começava com perguntas, com o intuito de conhecer a opinião do outro e estimular o encontro da verdade de cada um para tornar os cidadãos mais verdadeiros e, em conseqüência, a atividade política na cidade mais verdadeira também. A referida autora ensina que:

“Para Sócrates, como para seus concidadãos, a doxa era a formulação em fala daquilo que doke moi, daquilo que me parece. Essa doxa não tinha como tópico o que Aristóteles chamava de eikos, o provável, as muitas

verisimilia (distintas da unun verum, a verdade única, por um lado e das

falsidades ilimitadas, as falsa infini, por outro), mas compreendia o mundo como ele se abre para mim. Não era, portanto, fantasia subjetiva e arbitrariedade, e tampouco alguma coisa absoluta e válida para todos. O pressuposto era de que o mundo se abre de modo diferente para cada homem, de acordo com a posição que ocupa nele; e que a propriedade do mundo de ser o ‘mesmo’, o seu caráter comum (koinon, como diziam os gregos, qualidade de ser comum a todos), ou ‘objetividade’ (como diríamos do ponto de vista subjetivo da filosofia moderna), reside no fato de que o mesmo mundo se abre para todos e que a despeito de todas as diferenças entre os homens e suas posições no mundo – e conseqüentemente de suas

doxai (opiniões) -, ‘tanto você quanto eu somos humanos’”.5

3 Elogio da serenidade, p. 98-99. 4 A dignidade da política, p. 96-98. 5 Ibidem, p. 96-98.

139 Neste contexto, a mediação surge como espaço seguro e de confiança, no qual o indivíduo pode expressar suas opiniões, pensamentos e verdades, de acordo como o mundo se abre para ele.

Assim como Sócrates denominou de maiêutica seu método de diálogo que, como a arte da obstetrícia, “queria ajudar os outros a darem

à luz o que eles próprios pensavam, a descobrirem a verdade em sua doxa”,6 o

mediador propõe auxiliar os mediandos a descobrirem, eles próprios, seus interesses e necessidades, bem como a forma de compatibilizá-los com os interesses e necessidades dos outros, e a se integrarem em um sentido de cidadania, de comunidade, de pertencimento. A base do procedimento da mediação são as perguntas.

“O cidadão exerce a cidadania na cidade”7, que é o local

típico para o exercício da atividade política.

A cidadania é o reconhecimento social e jurídico de que uma pessoa tem direitos e deveres pelo fato de pertencer a uma comunidade nacional.

O cidadão é o indivíduo que está vinculado ao Estado por um liame jurídico-público e dotado da capacidade de participar do processo político.

A cidade é o espaço onde se desenvolve o núcleo urbano, é o local onde as pessoas que nela habitam ou transitam exercem as funções urbanas.

ALEJANDRO MARCELO NATÓ, MARIA GABRIELA RODRÍGUEZ QUEREJAZU e LILIANA MARÍA CARBAJAL assinalam que o espaço público é o lugar de representação e expressão coletiva que possibilita o exercício

6

Ibidem, p. 97.

7

140 da cidadania, cuja qualidade é proporcional à intensidade e qualidade das relações sociais que propicia, ou seja, pela capacidade de mesclar grupos sociais e de estimular a identificação simbólica, a expressão e a integração cultural.8

A mediação, especialmente a comunitária, não é de uso exclusivo dos cidadãos, pois está à disposição de todas as pessoas, nacionais e estrangeiras, em um determinado núcleo social. É veículo de diálogo social para o exercício da cidadania e construção das políticas públicas, que, sem retirar a liberdade para a solução dos problemas, pode gerar nexos comunitários no tecido social ou restabelecê-los onde houve ruptura e fortalecer a relação entre os indivíduos, grupos sociais, instituições e Estado.

A cidade foi criada com o propósito de ser um espaço de cooperação mútua e proteção. Entretanto, com a aceleração das desigualdades sociais e o aumento de pessoas relegadas à margem no cenário urbano, com ostensiva oposição entre a riqueza e a miséria, o espaço urbano público foi desvalorizado e passou a ser vivenciado como lugar de insegurança, de tensão, no qual se imagina o outro como uma ameaça e dele tudo de mal se espera a qualquer momento.

No Estado Democrático de Direito, a insegurança passou a ser o foco principal da preocupação dos indivíduos, o que é evidenciado pela

“arquitetura do medo e da intimidação”9, com profusão de guaritas, seguranças

armados, equipamentos eletrônicos, câmaras vídeogravadoras, veículos blindados, cercas elétricas, grades, portões, muros altos, “chips”, alguns dos poucos exemplos que restringem a liberdade individual e social em tempo integral.

8 Mediación comunitaria, p. 26. 9

141 As pessoas são constantemente vigiadas e controladas, mas o terror é tanto que não só não reagem como consideram as medidas mais invasivas à liberdade como boas e necessárias.

A violência urbana é um dos maiores problemas enfrentados pela sociedade contemporânea. Os delitos aumentam quantitativa e qualitativamente, cada vez mais sofisticados, atingem um maior número de pessoas e com uma crueldade se não injustificável, difícil de compreender.10

PAULO SÉRGIO PINHEIRO e GUILHERME ASSIS DE ALMEIDA relatam pesquisa realizada por autoridades americanas a respeito da influência da comunidade sobre a atuação de seus componentes, especialmente na formação das crianças e jovens, como segue:

“Toda espécie de comportamento, e não apenas o desviante e criminal, é afetada pelo meio ambiente externo. As ruas, os pares, as pessoas que encontramos regularmente desempenham papel fundamental em plasmar e formar o que somos e como agimos. Essa afirmação se evidencia em relação às crianças e aos jovens. A pesquisa científica mais recente afirma que a influência dos pares e da comunidade chega a ser mais importante que a influência da própria família em determinar o comportamento futuro das crianças”.11

Além da influência da comunidade ser preponderante sobre seus componentes, ZYGMUNT BAUMAN comenta sobre os riscos da convivência no espaço público urbano:

“Desde o início, as cidades têm sido lugares em que estranhos convivem em estreita proximidade, embora permanecendo estranhos. A companhia de estranhos é sempre assustadora (ainda que nem sempre temida), já que faz parte da natureza dos estranhos, diferentemente tanto dos amigos quanto dos inimigos, que suas intenções, maneiras de pensar e

10

Cf. Renato POSTERLI. Violência urbana: abordagem multifatorial da criminogênese; Regis de MORAIS. O que

é violência urbana? 11

142

reações a condições comuns sejam desconhecidas ou não conhecidas o suficiente para que se possa calcular as probabilidades de sua conduta. Uma reunião de estranhos é um lócus de imprevisibilidade endêmica e incurável. Pode-se dizer isso de outra forma: os estranhos incorporam o

risco. Não há risco sem pelo menos algum resquício de medo de um

dano ou perda, mas sem risco também não há chance de ganho ou triunfo. Por essa razão, os ambientes carregados de risco não podem deixar de ser vistos como locais de intensa ambigüidade, o que, por sua vez, não deixa de evocar atitudes e reações ambivalentes. Os ambientes repletos de risco simultaneamente atraem e repelem, e o ponto em que uma reação se transforma no seu oposto é eminentemente variável e mutante, virtualmente impossível de apontar com segurança, que dirá de fixar”.12

Um desafio aos planejadores urbanos é a relação entre o espaço público e o privado, a praça e o jardim, pois seus conflitos raramente são resolvidos por iniciativa isolada, seja pública, seja privada.

O medo fez com que as pessoas com condições econômicas mais favoráveis formassem espaços de convivência próprios, fechando- se em condomínios, em clubes, em shoppings, em praias “particulares”, e, quando na convivência pública, para garantir a segurança, se utilizassem de telefones celulares e automóveis com “chips”, que permitem localizá-las a todo tempo.

A necessidade fez com que as pessoas com condições econômicas mais desfavoráveis tomassem o espaço público, sem a menor cerimônia, como se estivessem em sua própria casa: quantas pessoas moram na rua, namoram na rua, trabalham na rua, instalam na calçada sua moradia ou seu comércio, relegados à própria sorte e expostos a todo tipo de violência e perigo.

12

143 Deve se buscar o reequilíbrio entre os espaços público e privado, entre a liberdade e a segurança dentro do cenário urbano.13 No Estado

Democrático de Direito, a habilidade do diálogo, da negociação e da mediação devem servir de veículo para compensação do medo e da insegurança pela celebração das diferenças entre as pessoas, as atividades, as crenças, e da capacidade de se movimentar livremente pela cidade.

Por fim, ALEJANDRO MARCELO NATÓ, MARIA GABRIELA RODRÍGUEZ QUEREJAZU e LILIANA MARÍA CARBAJAL sentenciam que:

“Devemos preservar, reconstruir ou inventar espaços que propiciem a comunicação e as ações contributivas dos indivíduos e dos grupos de indivíduos. Âmbitos como o espaço urbano, a escola pública, os espetáculos públicos ou os centros de ação comunitária são inestimáveis neste sentido.

Estimular a participação e o compromisso de abertos coletivos sociais no desenvolvimento de atividades de diálogo que conduzam a desenhar programas de prevenção da violência e de promoção de uma cultura de inclusão é um desafio e, para nós, uma obrigação.” (tradução nossa).14