4. BULGULAR
4.2. Türkiye’de Hastanelere Göre Uluslararası Hastaların Dağılımı
Os sistemas da incomienda, enclosures, indentures e da peonaje por deudas são, historicamente, portanto, os antecessores da servidão por dívida, que no Brasil é a forma mais comum de redução do trabalhador rural à condição análoga à de escravo, situação em que o trabalhador encontra-se “acorrentado” ao fazendeiro por dívidas, em sua grande e exclusiva maioria, constituído fraudulentamente.
A servidão por dívida foi a forma mais comum de se reduzir o trabalhador à condição análoga de escravo no Brasil contemporâneo, onde sua origem histórica é dos tempos da antiguidade, e seu início se deu antes mesmo da abolição da escravatura. Nessa época era utilizado o método do aviamento, uma estratégia para manter o trabalhador dependente de seu patrão por conta das dívidas. Nessa prática, o trabalhador, na escala de poder, era a parte mais desprotegida, por conta das dívidas que começavam antes mesmo de ele iniciar os trabalhos.
Vejamos o que Caio Prado Júnior diz a esse respeito:
[...] As dívidas começam logo ao ser contratado: ele adquire a crédito os instrumentos que utilizará, e que embora muito rudimentares (o machado, a faca, as tigelas onde recolhe a goma) estão acima de suas posses, em regra, nulas. Frequentemente estará ainda devendo as despesas de passagem desde sua terra nativa até o seringal. Estas dívidas iniciais nunca se saldarão porque sempre haverá meios de fazer as despesas de o trabalhador ultrapassar seus magros salários. Gêneros caros (somente o proprietário pode fornecê-los porque os centros urbanos estão longe) [...] E quando isto ainda não basta, um hábil jogo de contas que a ignorância do seringueiro analfabeto não pode perceber completará a manobra. Enquanto deve, o trabalhador não pode abandonar seu patrão credor; existe entre os proprietários um compromisso sagrado de não aceitarem a seu serviço empregados com dívidas com outro e não saldadas.127
127PRADO JUNIOR, Caio. História econômica do Brasil. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1953. p.
244, apud IANNI, Octavio. Origens agrárias do Estado brasileiro. São Paulo: Brasiliense. 1984. p. 232-233.
Nos dias atuais, observando a área rural, a servidão por dívida ainda persiste no Brasil, vitimando trabalhadores (geralmente em locais com baixo desenvolvimento e/ou trabalhadores com grande necessidade financeira), que trabalham muito longe de onde residem.
Estes trabalhadores são encontrados pelos chamados gatos, ou seja, empreiteiros contratados pelos donos de fazendas, onde, com a falta de fiscalização do governo local e Estatal e, também, com o auxílio dos donos de pensões e empresários do ramo dos transportes, recorrem à chamada desterriorização do trabalhador, fenômeno que efetiva o trabalho análogo ao de escravo no meio rural128.
Por vezes, estes trabalhadores são obrigados a sair da cidade onde residem para trabalhar em outra cidade ou unidade da federação do país, o que acaba tornando-os mais vulneráveis a este tipo de exploração por não conhecerem o local em que prestarão seus serviços de mão de obra.
Devemos lembrar que estes “gatos” cobram pelo transporte até o novo local de trabalho, e este trabalhador fica responsável por arcar com o pagamento do transporte de volta ao convívio de sua família. Estes trabalhadores também não possuem vínculos com os sindicatos e comunidades locais, que representa que o “gato” é seu único ponto de referência.
Estes trabalhadores, jovens ou de meia idade, também não são bem vistos pelos trabalhadores nativos da região em que vão prestar sua mão de obra; por vezes são considerados concorrentes, estranhos estereótipos, bêbados e arruaceiros.
Foi em 1850, que ocorreu um dos primeiros exemplos de servidão por dívidas no Brasil, no caso da empresa Vergueiro & Cia., de propriedade do Senador Nicolau de Campos Vergueiro, que importou centenas de imigrantes alemães, portugueses e suíços para trabalharem como parceiros na fazenda Ibicaba, em Limeira, São Paulo. Eles foram contratados com a promessa de que teriam o seu próprio transporte, de seus familiares, e a manutenção paga como forma de adiantamento até a primeira colheita da safra de café.
128VELLOSO, João Gustavo Vieira. Sobre o tratamento jurídico dado ao trabalho escravo: o
movimento de descriminação. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 14, n. 59, p. 90-127, mar./abr. 2006.
O sistema de contratação do Senador Vergueiro foi seguido por muitos fazendeiros do oeste paulista, podendo ser indicado como o precursor dos registros de escravidão por dívidas no Brasil, mal que, como visto, insiste em assolar os trabalhadores até os dias de hoje, mesmo e a despeito de toda a evolução de nosso ordenamento jurídico, dos princípios legais protetores do trabalho, da Liberdade e da Dignidade da Pessoa esculpidos em nossa Constituição129.
Frise-se que o “Sistema Vergueiro” de escravidão ocorreu em um período que trabalho livre no Brasil era regulado por duas leis ineficientes; a primeira, de 1830, e a segunda, de 1837, que tiveram pouca aplicação, vez que preponderava na época o trabalho escravo, bem como em razão de seus conteúdos nebulosos e, por conseguinte, de difícil aplicação130.
Em 17 de setembro de 1871, foi promulgada a Lei nº. 2040, a “primeira” lei que tratou da “transição” do trabalho escravo para o livre de modo claro, que passou a ser conhecida como Lei do Rio Branco ou Lei do Ventre Livre.131 Considerada como item essencial de estratégia legal para unir a reordenação do trabalho à libertação e reorganização dos trabalhos dos escravos libertos e a transição para um mercado de trabalho livre, porém de maneira gradual, foi a primeira Lei a tratar da locação de serviços, em seu artigo 4º, § 3º 132.
Imediatamente libertava todos os filhos de ventres escravos nascidos após a data de sua promulgação, além de estabelecer regras para a indenização do trabalho de menores, e cuidado dessas “crianças livres”, que, em última análise, ficariam sob os cuidados dos senhores. A Lei cuidava de vários aspectos e práticas recorrentes na relação escravista, além da possibilidade de o escravo acumular pecúlio e, com este, resgatar sua liberdade (possibilidade ao alcance de poucos), ou, ainda, de se valer de um empréstimo de terceiro para resgatar sua alforria, além das indenizações devidas aos senhores133.
129SILVA, Marcello Ribeiro. op. cit. 130Id. Ibid.
131LIMA, Henrique Espada. Sob o domínio da precariedade: escravidão e os significados da
liberdade no trabalho do século XIX. TOPOI: revista de história, Rio de Janeiro, v. 6, n. 11, p. 289-326, jul./dez. 2005. Scielo. Disponível em: <http://socialsciences.scielo.org/scielo.php?pid=S1518-33192006000200003&script=sci_arttext>.
132Id. Ibid. 133Id. Ibid.
O fato é que a esmagadora maioria das alforrias concedidas mediante empréstimo de terceiro envolvia a locação de serviços, que transformou a escravidão em um contrato para pagamento de uma dívida, pois as opções para esse novo “trabalhador”, ao ser lançado no “mercado de trabalho”, eram pouquíssimas, caminhando, assim, para uma nova e perturbadora continuidade entre a escravidão e a liberdade.
Em dezembro de 1878 foi aprovada, pela Câmara dos Deputados, uma nova lei de locação de serviços, Decreto nº. 2820, promulgada em 22 de março de 1879, que em seus oitenta artigos regulamentaram os contratos com trabalhadores libertos nacionais e estrangeiros na agricultura, pecuária e locação de serviços. Cuidava, principalmente, das garantias necessárias para o cumprimento dos contratos, previa com agudeza faltas e negligências das partes contratantes, dispunha sobre penalidades, previa, ainda, disposições antigreve e contra qualquer tipo de resistência ao trabalho, além de instituir novos moldes nas relações entre os contratantes e contratados134.
O Decreto, conhecido como “Lei Sinimbu”, permitia aos fazendeiros, por meio de rígidas disposições contratuais, garantir a manutenção do controle da mão de obra dos trabalhadores livres.135 Segundo denúncias públicas de D. Pedro Casaldáliga, bispo católico, em 1971, a servidão por dívida foi a forma mais comum de trabalho forçado no Brasil utilizada para promover a ocupação da região amazônica na década de 1970.
Essa modalidade de trabalho análogo a escravo, conhecida na região amazônica como aviamento, iniciou com o primeiro ciclo de exploração da borracha, no final do século XIX, quando vitimou milhares de seringueiros endividados, permanentemente, nas cantinas dos donos dos seringais onde adquiriam alimentos e produtos em geral136.
A exploração da borracha na Amazônia foi, desta forma, o primeiro grande empreendimento conduzido sem o emprego de mão de obra escrava e parecia uma solução para os problemas sociais decorrentes da seca no nordeste
134LAMOUNIER, Maria Lúcia. O trabalho sob contrato: a Lei de 1879. Revista Brasileira de
História, São Paulo, v. 6, n. 12, p. 101-124, mar./ago.1986.
135Id. Ibid.
brasileiro137. Na realidade, as seringueiras, espalhadas pela mata, morriam em razão dos métodos rudimentares de extração do látex, assim, os seringueiros viam-se obrigados a penetrar cada vez mais fundo na mata, expondo-se ao risco de doenças e outros perigos que causaram a morte de grande parte desses trabalhadores.
Deste modo, isolados na mata e longe de casa, presas fáceis da exploração pelos donos dos seringais, esses trabalhadores, em sua maioria proveniente do Nordeste, tornaram-se, em decorrência das condições subumanas de trabalho, vítimas fáceis da servidão por dívidas138.
2.9. Síntese conclusiva sobre os primórdios do trabalho escravo rural