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Departamento de Polícia e Higiene) encontra-se a Série Alvarás e Licenças. Acreditamos

que essa série teve origem a partir da legislação urbanística e da ação do poder público municipal sobre a cidade que passou a exigir que fossem feitos pedidos de alvarás e licenças para determinadas formas de uso e ocupação do espaço urbano público. Essa exigência já havia sido constatada nas Posturas Municipais publicadas a partir de 8 de fevereiro de 1830 pelo Conselho Geral da Província de São Paulo, tendo sido reforçadas pelas Posturas Provisórias do Governo da Província de 6 de setembro de 1855, reiteradas pelo Código de Posturas da Câmara Municipal da Imperial Cidade de São Paulo de 31 de maio de 1875 e novamente pela de 1886.

Esta extensa série sediada no Arquivo Histórico de São Paulo (AHSP) contabiliza centenas de documentos até então sem qualquer tipo de ordenação arquivística e tratamento, (permanecendo aleatoriamente dispostos em 605 caixas) que contemplam aspectos

30 Cabe destacar que houve uma mudança no arquivamento dos documentos. Os documentos referentes ao

período colonial e imperial encontram-se no Fundo Câmara Municipal de São Paulo, divididos em grupos, séries e subséries. Na República, esses documentos receberam outra catalogação ficando pertencentes à Câmara Municipal de São Paulo, Fundo da Secretaria Geral da Prefeitura e a partir daí foram divididos em grupos, séries e subséries.

Maria Cristina Caponero

significativos de parte da Primeira República (1906-1921), referentes a todo tipo de atividades ou serviços. Ela encontra-se manuscrita31 e não catalogada, dificultando muito a pesquisa.

Caso esses documentos fossem lidos apenas do ponto de vista da legislação e dos planos urbanísticos elaborados pelo poder público, fariam parte da História Administrativa da Cidade de São Paulo, mas, quando analisados do ponto de vista da História Urbana em sentido mais amplo, podem ser interpretados como indícios socioculturais e históricos que nos permitem interpretar e reconstruir fatos, tornando-se excelentes fontes primárias comprovatórias da realização das festas paulistanas permitindo tecer aspectos a elas inerentes.

Dentre as atividades urbanas que pudemos constatar nessa série de licenças e alvarás destacamos: construção de igreja, abertura de açougues, fábricas e negócios em geral, realização de jogos de salão, realização de espetáculos em geral (inclusive de bonecas e circo), bailes e concertos públicos, festas públicas, colocação de cinematógrafo e outras práticas de menor ocorrência. Além dessas, encontramos pedidos para realização de algumas “atividades” bastante curiosas como: vender galinha pelas ruas da cidade, tocar realejo nas ruas públicas, esmolar em frente ao cemitério, transitar com pessoa sonâmbula e outras práticas que ocorriam no espaço urbano público para as quais era exigida a respectiva licença. Cabe esclarecer que essa documentação tem recorte cronológico final no ano de 1921, dentre as centenas de documentos analisados, selecionamos 143 solicitações de alvarás e licenças referentes às festas cobrindo o período 1901-1911, pois a partir de então, os documentos referentes às festas passaram a ser raros ou até mesmo inexistentes, já demonstrando outra preocupação por parte da municipalidade. Até então as festas vinham sendo tratadas do ponto de vista urbanístico, passaram a partir da segunda década do século XX para o controle da Intendência Geral de Polícia Civil, envolvendo preocupações referentes ao uso do solo urbano, com forte viés de controle, sendo vistas como um “problema” relativo à ordem pública.

Quanto ao conteúdo desses alvarás (concedidos ou não), esclarecemos que se referem não só a pedidos para a realização das festas em si (religiosas, profanas, humanitárias, beneficentes e outras) como também a licenças para práticas direta ou indiretamente relacionadas com as mesmas como, por exemplo, solicitações para determinados estabelecimentos comerciais permanecerem abertos nos dias ou horários das festas, algumas vezes até mesmo fora dos dias ou horários permitidos pela legislação vigente.

31 Os documentos consultados, como mencionados na presente tese, foram mantidos em sua grafia original da

Essa série documental, inédita até a presente tese, foi objeto de pesquisa pormenorizada e neste quesito reside nossa principal contribuição. Ela se refere à esfera da administração civil nos seus diversos momentos de inflexão, propiciando um importante panorama sobre parte da Primeira República. Quando vista em sua totalidade, permite constatar que nem todas as festas realizadas na época passavam pelo crivo da Prefeitura, levando-nos a tentar entender a razão pela qual isso acontecia, além de nos ter permitido constatar as permanências em meio às tantas rupturas mais exploradas pela historiografia supracitada. A consulta e análise de tais documentos nos possibilitam um intenso e extenso mergulho nos vestígios das amplas transformações sociais e materiais ocorridas no espaço da cidade de São Paulo, assim como possibilitam leituras inéditas desse processo, fruto de um olhar mais atento aos meandros das formas de gerenciamento da cidade, dando visibilidade à complexidade dos processos sociais que constituem a produção e apropriação do espaço urbano e a constituição de “territorialidades” de grupos sociais heterogêneos num tecido aparentemente homogêneo.

O levantamento exaustivo de tal documentação foi imprescindível para dar suporte à hipótese central que ancora a presente tese e para compreender a mentalidade “dominante”, diga-se de passagem. Infelizmente ela não nos permitiu entrever rastros deixados sobre os usos e costumes cotidianos dos diversos segmentos sociais, tornando-se muito difícil reconstituir completamente o universo das festas. Ao ultrapassarmos a aridez da documentação, pudemos reconhecer a riqueza de informações submersas, entrevendo nas recorrências das práticas cotidianas, o ritmo de vida dos moradores e aspectos de uma sociedade que rompia a rotina para reverenciar os símbolos da Igreja Católica no espaço urbano da cidade. Também foi possível compreendermos as relações socioeconômicas, político-administrativas e a legislação urbanística, através da postura assumida pela municipalidade em relação a determinadas festas.

A forma como o poder público interagia com a população e como essa se posicionava diante do sistema normativo oficial e de seu poder de coação também puderam ser lidas nas entrelinhas dessa documentação, comprovando o vínculo direto da administração da cidade com as festas, de um ponto de vista urbanístico, no que tange ao uso e ocupação do espaço público urbano. Essa documentação também demonstra que as festas eram controladas pela municipalidade em seus mínimos detalhes, algumas vezes chegando até a proibi-las visando, mesmo que veladamente, à sua total extinção em nome de uma pretensa “organização do uso do espaço urbano público” e de uma suposta “ordem e civilidade”, uma vez que as festas passaram a ser vistas como um transtorno, uma ameaça à ordem pública.

Maria Cristina Caponero

Por outro lado, para entender quais festas permaneceram no Centro e porque não constavam na legislação e série documental municipal supracitadas, utilizamos a documentação eclesiástica sediada no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo

(ACMSP). Para além das questões administrativas salientadas pela documentação oficial

civil, determinados aspectos relacionados às festas só puderam ser conhecidos através da documentação eclesiástica dada à importância da religião católica no período colonial e ao papel socioeconômico que detinham as irmandades e confrarias, levando todos os moradores da cidade a pertencer a uma ou, em alguns casos, a várias irmandades, dependendo de sua posição socioeconômica. Nesse sentido, rastreamos no Arquivo da Cúria Metropolitana de

São Paulo documentos referentes à Chancelaria, aos Estatutos das Associações Religiosas

(1920-1930), aos Estatutos e Compromissos das Irmandades (1889-1891) e aos Registros das Irmandades, Confrarias e Associações (1911-1925), informações que nos ajudaram a reconstruir o universo da época. Também foram encontrados os documentos referentes à Irmandade de São Jorge (Receitas e despesas), à Confraria do Santo Rosário (Atas 1933- 1941), à Irmandade do Divino Espírito Santo (Registros dos Irmãos 1890), e à Irmandade de São Miguel e Almas (Atas e Eleições 1699-1866 e Compromisso de 1730), que nos foram de grande valia. Os estatutos dessas irmandades comprovam que cabia a elas a obrigatoriedade de realização das festas litúrgicas ou santorais e outras obrigações intrínsecas à sua realização, sendo obrigatória a participação de todos os seus membros (“irmãos” como eram chamados).

No Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo (ACMSP), dentre os documentos referentes ao “Colendo Cabido Metropolitano de São Paulo”, encontramos Cartas e Ordens Régias referentes ao período 1746-1877 e Ordens Imperiais de 1824 a 1870, documentos que a historiografia pouco destacou. Também no ACMSP encontramos as Provisões e Alvarás Régios de 1746-1842 que, no início do século XIX, deveriam se encaminhados à Arquidiocese de São Paulo para a realização das festas religiosas, revelando práticas até então obscuras sobre o seu funcionamento e gestão. São eles:

 Alvará de Comissão de D. Bernardo Rodrigues Nogueira ao missionário Revdo. Angelo da Siqueira relativamente a exposições do Santíssimo Sacramento, Procissões, Te Deum Laudamus e Benção do Santíssimo nas Igrejas em que fizer Missão (p. 17v);

 Decreto de D. José I ordenando ao Revdo. Cabido da Sé de S. Paulo que se façam as três festas Reaes [sic] na forma da Lei (p. 35);

 Carta do Secretario do Estado Sebastião José de Carvalho (Marquez de Pombal) transmittindo ordem d’El-Rey para ser feita, annualmente, uma Procissão do Patrocinio da Virgem Nossa Senhora, em acção de graças [sic] (p. 45);

 Carta do Secretario de Estado Sebastião José de Carvalho transmittindo ordem d’El- Rey para ser feita a festa de S. Francisco de Borja, da Cia. de Jesus [sic] (p. 45v);  Breve de SS. Benedictus XIV ordenando que S. Francisco de Borja, da Cia. De

Jesus, seja tido invocado e venerado como protector do Reino de Portugal e seus domínios contra os terremotos [sic] (p. 46);

 Carta do Ministro da Justiça sobre a celebração de festas religiosas à noite, e solicitando providencias relativamente sobre a nomeação de sacerdotes dotados de bons principios, para os diversos Beneficios Eclesiásticos [sic] (p. 150); e

 Officio ao Ministro da Justiça agradecendo as demonstrações publicas de regozijo pelo anniversario natalício de S. M. o Imperador [sic] (p. 170).

Ainda dentre os documentos do ACMSP, destacamos também os Livros de Tombo da Arquidiocese, referentes aos anos 1919-1930 e 1931-1941, que nos revelam dados não vistos pela historiografia sobre o assunto. Esses documentos permitiram constatar a diferença de posicionamento da Igreja Católica e do Poder Civil perante as festas.

Quanto à legislação eclesiástica, fundamental para a presente tese foram as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia de 1707 (publicadas em São Paulo em 1853). Essas Constituições são um compêndio que versa sobre as normas eclesiásticas, adequando o que preceituara o Concílio de Trento (1545-1563) ao Brasil. Elas foram propostas e aceitas pelo Sínodo Diocesano (celebrado em 12 de junho de 1707), sendo a partir de então impostas e fielmente seguidas pela Arquidiocese da Bahia32 e demais Dioceses brasileiras. Elas eram a “legislação eclesiástica” vigente na época e foram úteis “para o bom governo do Arcebispado, direção dos costumes, extirpação dos vícios e abusos, moderação dos crimes, e recta administração da justiça" [sic] (1853, p. XVI), como consta na sua Introdução.

32 Em 16 de novembro de 1676, o Papa Inocêncio XI elevou a Diocese de São Salvador da Bahia à Arquidiocese.

Nesse mesmo ano, também foi criada a Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro à qual era subordinada a vila de São Paulo, fato que perdurou até o ano de 1745 quando São Paulo, já elevada à categoria de cidade, tornou-se cabeça de Bispado, com a criação da Diocese de São Paulo pela bula do Papa Bento XIV, mas continuou seguindo estritamente as normas do Arcebispado da Bahia.

Maria Cristina Caponero

As Constituições do Arcebispado da Bahia de 1707 foram válidas desde o início do século XVIII até o final do Império. Apresentadas em cinco volumes, abordam grande diversidade de temas, estabelecendo os cânones da religião católica no Brasil, ditando as normas e regras sobre questões dogmáticas e de fé e determinando detalhadamente como deveria ser o comportamento do clero, das ordens eclesiásticas, das irmandades e dos fiéis. Elas determinam inclusive as proibições de forma esmiuçada, levando a um comportamento regrado da vida cotidiana em sociedade e orientando as condutas numa época em que a religião católica era a religião oficial do Estado e a que regia a mentalidade e a moral das pessoas segundo os ditames da Igreja. Todos os colonos deveriam se submeter às regras que eram por elas impostas, sendo a desobediência passível de punição. Até mesmo ao próprio clero eram destinados enormes parágrafos sobre regras e sanções. Assim, os colonos procuravam participardos ofícios religiosos e do exercício da fé cristã, assistindo à missa, participando das festas e procissões, pagando seus dízimos, confessando, rezando pelos seus mortos e prevenindo a salvação das suas almas, com legados para a celebração de missas post mortem. Buscavam, com tais atitudes, encontrar apoio e conforto espiritual diante da instabilidade de suas vidas e ansiando pela salvação após as suas mortes.

Por serem de vital importância para a época, as procissões e as festas religiosas católicas (litúrgicas ou santorais) também foram abordadas pela legislação eclesiástica. Uma série de procedimentos com relação à sua realização, como por exemplo, as que deveriam ser realizadas, quando (dia e horário) e qual a sua duração, foram estabelecidos por essas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, sequenciadas por diversas Pastorais coletivas, dentre elas a Pastoral Collectiva do Episcopado Brazileiro ao Clero e aos Fieis da Egreja do Brazil [sic], de 1890, a Pastoral Collectiva dos Senhores Bispos da Província Ecclesiastica Meridional do Brasil comunicando ao Clero Secular e Regular o resultado das Conferências realisadas em São Paulo de 3 a 12 de Novembro de 1901 [sic], a Pastoral Collectiva dos Bispos da Província Ecclesiastica Meridional do Brasil comunicando ao Clero e Fieis o resultado das Conferencias dos mesmos no Sanctuario da Aparecida de 1 a 7 de Setembro de 1904 [sic], a Pastoral Collectiva dos Senhores Arcebispos e Bispos das Provincias Ecclesiasticas de S. Sebastião do Rio de Janeiro e Marianna comunicando ao Clero e Fieis o resultado das Conferencias dos mesmos no Seminário Archiepiscopal de Marianna de 2 a 12 de agosto de 1907 [sic], a Pastoral Collectiva dos Senhores Arcebispos e Bispos das Provincias Ecclesiasticas de S. Sebastião do Rio de Janeiro, Marianna, S. Paulo, Cuyabá e Porto Alegre, comunicando ao Clero e aos Fieis o resultado das Conferencias Episcopaes realizadas na Cidade de Nova Friburgo de 12 a 17 de Janeiro de 1915 [sic], e as

Constituições Eclesiásticas do Brasil – Nova edição da Pastoral Coletiva de 1915 (adaptada ao Código do Direito Canônico, ao Concílio Plenário Brasileiro e às recentes decisões das Sagradas Congregações Romanas), todas elas analisadas na presente tese.

Além da documentação do AHSP e do ACMSP, direcionamos nossas pesquisas para o acervo do jornal A Província de São Paulo, que posteriormente se transformou no jornal O Estado de São Paulo33, em busca de algumas pistas que nos ajudassem a elucidar o que envolvia e como ocorriam sobretudo as Festas de Corpus Christi e as Festas da Independência, eleitas como nossos estudos de caso. Cabe lembrar que o jornal O Estado de São Paulo foi criado em 1875 e obedecia a critérios políticos, sendo portador de projetos de certos grupos sociais e veículo de informações que expressavam certos interesses civis. Talvez por isso as menções às Festas de Corpus Christi foram raras, a não ser quando a preocupação era alterar a circulação dos ônibus. Por outro lado, desde sua criação, o respectivo jornal deu ampla cobertura às Festas da Independência, festas cívicas que representavam (e ainda representam) simbolicamente o poder do Estado, que rememoram valores caros e importantes ao governo que se encaixavam na concepção de Estado e de Nação que a República almejou preservar e reforçar no final no século XIX e sobretudo no início do século XX.

Também nos valemos de artigos publicados em outros jornais da época, por apresentarem conteúdos diretamente relacionados com a nossa temática, como o Diário de São Paulo, o Correio Paulistano, O Combate, o Cabrião34, entre outros.

O Arquivo da Fundação Energia e Saneamento (Arquivo da Light) também foi consultado por ter sido “criado no contexto de busca de uma identidade para a cidade de São Paulo”, como é justificada a sua missão e por guardar registros iconográficos sobre a história da cidade de São Paulo. Infelizmente não há muitas referências quanto à nossa temática. Dentre as diversas fotos lá arquivadas, encontramos sete referentes a uma mesma festividade ocorrida em 7 de setembro de 1932, cuja legenda não esclarece qual era, mas nos levou a acreditar tratar-se da Festa da Independência em função de sua data, quando para nossa surpresa, constatamos referir-se à Festa de Nossa Senhora Aparecida. Embora poucos, esses registros iconográficos são riquíssimos, dando-nos detalhes referentes à missa campal e à procissão com a presença de inúmeras autoridades. As fotos nos permitem comprovar aspectos da mentalidade da época. Foi através do cotejamento dessas imagens com

33 O acervo do jornal O Estado de São Paulo encontra-se disponível on-line para os assinantes.

34 O Cabrião foi um periódico publicado na cidade de São Paulo que usou a caricatura como forma de sátira

Maria Cristina Caponero

documentos do ACMSP que fizemos grandes avanços na nossa pesquisa, inclusive referente a essa festa em questão, como se verá no capítulo 3.

Toda essa diversidade documental deveu-se ao fato de que se tratava de fontes produzidas em lugares sociais e momentos temporais bem diferentes e com intencionalidades também distintas, permitindo-nos, em alguns casos, vislumbrar diferentes ângulos de análise e, em outros, cruzar de informações, respeitando a diversidade.

Para espacializar as informações obtidas referentes aos diversos tempos foram fundamentais as pesquisas em periódicos e publicações governamentais, sendo imprescindível a consulta às Revistas do Arquivo Municipal, a alguns volumes da Revista do IHGSP e da Coleção História dos Bairros de São Paulo. A espacialização das festas foi feita em mapas antigos que nos permitiram acompanhar o crescimento da cidade e suas transformações urbanísticas, vislumbrando as permanências e mudanças ocorridas nos lugares destinados à realização das festas. A seriação das plantas históricas da cidade de São Paulo nos possibilitou acompanhar o crescimento da cidade de São Paulo e espacializar suas festas. Assim, plantas apresentam-se na presente tese como documentos e não com mera ilustração, dando suporte às nossas demonstrações.

Com relação à produção iconográfica da cidade de São Paulo, foram fundamentais os registros dos pintores viajantes já citados anteriormente (Jean-Baptiste Debret e Edmund Pink), bem como, a partir da segunda metade do século XIX, as fotografias de Militão Augusto de Azevedo (a partir de 1862) e de Guilherme Gaensly. Várias dessas aquarelas e fotografias foram reunidas na obra organizada por Pedro Corrêa Lago (Iconografia paulistana do século XIX, [1958] 2003). Algumas fotografias, tiradas sobretudo no final do século XIX e no século XX, como as de Vincenzo Pastore (Procissão na Rua Direita, 1910), ou mesmo de diversos outros fotógrafos desconhecidos, fazem parte do Acervo do Instituto Moreira Salles, do Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, do Arquivo Público do Estado de São Paulo, do Arquivo da Fundação Energia e Saneamento (Arquivo da Light) e do Arquivo da Biblioteca Mário de Andrade. Elas foram úteis para analisarmos permanências e rupturas na longa duração envolvida nesta pesquisa. Algumas destas fotos foram reunidas na Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil, 2012, especialmente nos volumes “Crenças e Templos: devoção e fé” (volume 5) e “Festas Populares: uma celebração de sons e movimentos” (volume 6). Todas essas imagens, quando contextualizadas e seriadas, são excelentes fontes de informação sobre as transformações ocorridas no espaço urbano nos diversos períodos em questão e nos ajudam a compreender melhor aspectos da cidade em relação às festas.

Dada à amplitude do tema e a interdisciplinaridade, foi necessário um cuidado metodológico rigoroso em função dos objetivos propostos e para isso criamos uma ficha modelo a fim de registrarmos as festas paulistanas e para posterior pudéssemos processar as informações recolhidas. Através dessas fontes primárias pudemos inventariar as festas que ocorreram desde o período colonial até a Primeira República. O material coletado foi organizado de forma a permitir a reconstrução de alguns aspectos materiais e sociais das festas paulistanas, mas também de forma a entender o porquê de nem todas as festas terem recebido o mesmo tipo de tratamento.

Foi no entrelaçamento dos documentos primários, especialmente dos documentos do

Arquivo Histórico de São Paulo (AHSP), dos artigos do jornal O Estado de São Paulo (JOESP), das raras fotos do Arquivo da Fundação Energia e Saneamento, da

documentação do Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, da legislação vigente e