1.1 A HISTORIOGRAFIA
No que diz respeito ao tema das festas, não necessariamente com foco na sua inserção urbana, há diversos estudos de historiadores contaminados pelos ecos da Nova História Francesa, especialmente no que diz respeitos às práticas sociais cotidianas e seu impacto no imaginário coletivo.
Os dois volumes do livro Festa: Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa, organizados por István Jancsó e Iris Kantor (2001) reúnem um conjunto de 50 ensaios, resultantes do seminário internacional homônimo realizado em 1998. O livro, assim com o seminário, tinha como objetivo ser um balanço do “estado da arte” em que o tema se encontrava, colocando à disposição da comunidade acadêmica o que de mais relevante estava sendo feito àquela altura em termos de investigação no Brasil sobre festas. Situa-se em linha de continuidade com distintas tradições presentes na historiografia brasileira, buscando por novas possibilidades interpretativas.
Os ensaios focam, sob diferentes pontos de vista e com base em diferentes fontes documentais, a questão das festas na América Portuguesa. Cobrem um leque temporal alargado, do período colonial até à Proclamação da Independência, e cotejam diferentes experiências regionais com foco predominante nas zonas mais urbanizadas (Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais). Nenhum ensaio versa sobre São Paulo.
Em “Falando de festa”, István Jancsó e Iris Kantor fazem um balanço da historiografia existente e das metodologias aplicadas nessa linha de investigação. Os autores consideram as festas do ponto de vista da cultura popular e fazem um levantamento dos trabalhos mais importantes escritos sobre o tema, desde memorialistas, viajantes, literatos e juristas, dividindo a historiografia em três momentos.
O 1º momento refere-se ao primeiro quartel do século XX. Nele se inserem trabalhos como os de Affonso de E. Taunay, Ernani Silva Bruno e outros de natureza mais descritiva e primária, mas ainda muito presos aos ranços de uma história positivista.
O 2º momento situa-se a partir da década de 1930, sob o impacto do movimento modernista e impulsionados pelas Ciências Sociais como campo disciplinar em vias de inauguração em São Paulo. Nesse quadro, destacam-se os estudos sobre as manifestações festivas de Antonio Cândido, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Florestan Fernandes, Oneida
Alvarenga, Alceu Maynard Araújo e outros cientistas sociais que lançaram mão de novas técnicas de investigação, dando um tratamento menos folclórico e mais sociológico às festas. Esses autores têm em comum o fato de se concentrarem no impacto dos processos de urbanização acelerada sobre as culturas tradicionais, no papel da mestiçagem, no sincretismo religioso, nos processos de aculturação e integração dos imigrantes estrangeiros à cultura local, entre outros aspectos. Para István Jancsó e Iris Kantor, Mário de Andrade, Luís da Câmara Cascudo, Artur Ramos e Édson Carneiro, em paralelo à produção dos intelectuais da Universidade de São Paulo em formação na década de 1930, renovaram as pesquisas folcloristas, estabelecendo novos paradigmas. Destacam-se nesse sentido os trabalhos publicados na Revista do Arquivo Público Municipal de São Paulo sobre estudos folclóricos. Nos anos 1940, István Jancsó e Iris Kantor atentam para a contribuição de Artur Ramos, Roger Bastide e Gilberto Freire no âmbito também dos estudos sobre o folclore, que foram levados para dentro das universidades tendo ali forte impacto. István Jancsó e Iris Kantor ressaltam que nas décadas de 1930 e 1940 a produção folclórica e a produção acadêmica entrecruzavam-se. Nesse segundo momento da produção historiográfica, os autores ressaltam nova inflexão nos estudos sobre os fenômenos festivos a partir dos anos 1970, analisando que desde então eles passaram a configurar um campo de interesse da nouvelle histoire, após intelectuais franceses iniciarem uma nova abordagem antropológica da vida cotidiana. Sob esse prisma, a festa foi redescoberta como objeto de estudo. Em paralelo, também a historiografia anglo-saxã interessou-se pelos fenômenos de sociabilidade coletiva. István Jancsó e Iris Kantor destacam a importância de Mikhail Baktin sobre as formas de carnavalização próprias das culturas populares e as oposições entre as linguagens oficiais e espontâneas utilizadas nas festas públicas.
Um 3º momento data dos anos 1980, marcando o quadro historiográfico no Brasil. Nele as festas passaram a ser analisadas no âmbito da Sociologia, da Antropologia, da Literatura e da Crítica de arte. Esses estudos tiveram um forte impacto na historiografia sobre o período colonial, inspirando uma Nova História Cultural brasileira. As festas foram tratadas como fatos sociais totais, sobretudo por Affonso Ávila, crítico de arte e historiador da cultura, que se focou no estudo das festas barrocas mineiras. Estabeleceram-se novas possibilidades para a compreensão das conexões entre a identidade nacional e a festa a partir de novos instrumentos de pesquisa e com a confrontação crítica de diferentes tipos de documentação, envolvendo literatura de viagens, memórias, fontes judiciárias e criminais, fontes camarárias e eclesiásticas, documentos cartoriais, documentação iconográfica e outras. Esses estudos versaram sobre diferentes escalas e aspectos, buscando avaliar o lugar das festas e ritos da
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vida coletiva na formação da sociedade colonial e pós-colonial brasileira. Nesse universo, destaca-se a coletânea História da Vida Privada no Brasil que, sequenciando a homônima francesa, em alguns ensaios do volume 1 aborda a questão das festas coloniais. Igualmente importante nesse cenário foi o trabalho de Mary del Priore. Esta última, pela importância que representa terá sua contribuição pormenorizada mais adiante.
Na coletânea organizada por István Jancsó e Iris Kantor, o texto de Norberto Luiz Guarinello (Festa, trabalho e cotidiano) procurou conceituar o termo “festa” e seus diversos sentidos no estudo da vida cotidiana das sociedades humanas. Tal conceituação mostrou-se bastante operacional para nós na presente tese. Segundo o autor, “não existe, na verdade, uma conceituação minimamente adequada do que seja uma festa. Festa é um termo vago, derivado do senso comum, que pode ser aplicado a uma ampla gama de situações sociais concretas” (GUARINELLO, 2001, p. 969). Guarinello apresenta uma série de conceituações de senso comum, tais como “atos ritualizados, de caráter essencialmente sagrado”, “interrupção programada da vida cotidiana, ou mesmo sua inversão completa, como forma de descarregar energias e tensões reprimidas”, entre outras. No entanto, segundo ele, todas elas são incompletas, imperfeitas, por serem características de determinadas festas, o que impede as teorias correntes de escapar das aporias impostas pelo senso comum e dificultam o diálogo entre os próprios cientistas, já que não há um acordo sobre o que está se falando. Guarinello entende a festa como parte da estrutura do cotidiano de todas as sociedades humanas, como um produto necessário desse cotidiano que implica numa determinada estrutura social de produção, envolvendo a participação concreta de um determinado coletivo, aparecendo como uma interrupção do tempo social, articulando-se em torno de um objeto real ou imaginário, bem como uma produção social que pode gerar vários produtos significativos. A festa é, para o autor, “produção de memória e, portanto de identidade no tempo e nos espaços sociais” (GUARINELLO, 20001, p. 972), ou seja, “é uma ação coletiva que se dá num tempo e lugar definidos e especiais” (GUARINELLO, 2001, p. 972), ou ainda, a “festa é um lapso aberto no espaço e no tempo sociais, pelo qual circulam bens materiais, influência, poder” (GUARINELLO, 2001, p. 973). Para ele, o que chamamos de festa é “um espaço significativo por excelência, um tempo de exaltação dos sentidos sociais, regido por regras que regulam as disputas simbólicas em seu interior” (...) (GUARINELLO, 2001, p. 973, grifo nosso), que só pode ser compreendido quando historicizadas. Segundo o autor, “nenhuma festa pode ser entendida plenamente dentro de si mesma, mas deve ser inscrita na cadeia de significados que as festas produzem em sua sucessão” (GUARINELLO, 2001, p. 974). Nesse sentido, o autor
ensina a trabalhar com a inevitável polissemia do termo “festa”, o que demanda analisá-lo e circunscrevê-lo a determinado recorte histórico, em determinado contexto espacial e social.
Na coletânea, na mesma direção teórico-conceitual, Marco Antonio Silveira (Ideologia, colonização, sociabilidade: algumas considerações metodológicas) analisou os modos como se pode avaliar o conceito de colonização e os padrões de sociabilidade na América Portuguesa. Segundo o autor, se pretendemos estudar as festas na América Portuguesa é preciso entender de que modo elas constituem seus referentes, o que nos leva a investigar através de que instrumentos ela nomeia o mundo do qual participa: “É parte do estudo das festividades o entendimento das convenções que as estruturam e lhes permitem falar com efeito sobre o mundo” (SILVEIRA, 2001, p. 988). Para Silveira, “o estudo das festas coloniais exige do historiador aquele trabalho de formiga que custa a encontrar indispensáveis fragmentos em termos, cartas particulares, ou entre inesgotáveis procedimentos jurídicos, mas que tornam possível traçar correspondências entre as festividades, de um lado, e as relações familiares, as irmandades ou a política estatal de outro” (SILVEIRA, 2001, p. 988). Nesse sentido, a festa colonial é um exemplo de como entender rituais que são ao mesmo tempo tradição que se forjam na confluência de instituições diferentes, envolvendo formas de apropriações variadas e diferentes políticas de Estado.
Esses ensaios resumem e norteiam conceitual, teórica e metodologicamente todos os demais. Embora nenhum tenha abordado a questão das festas em São Paulo, aproximaram-se do nosso universo sob diferentes aspectos, ajudando-nos com seus questionamentos na forma de tratamento e contextualização dos dados empíricos por nós levantados. Nessa direção, igualmente importante são alguns outros ensaios presentes na coletânea.
Ao tratar da cultura política do antigo regime e de como certas festas eram “manipuladas”, o historiador português Pedro Cardim (Entradas solenes: rituais comunitários e festas políticas, Portugal e Brasil, séculos XVI e XVII) analisa as entradas solenes nos séculos XVI e XVII e os valores simbólicos e políticos que contribuíram para a reprodução dos laços comunitários, preparando-nos para analisar sob a mesma ótica o caso de São Paulo no século XVIII. Através de sua descrição sobre os preparativos da festa, pudemos compreender não só a complexa tarefa cerimonialista envolvendo a organização das entradas solenes, como também a preocupação da Coroa Portuguesa em controlar as significações que essas festas suscitavam.
As entradas também foram abordadas por Iris Kantor no ensaio Entradas Episcopais na Capitania de Minas Gerais (1743 e 1748): a transgressão formalizada, com foco no caso das vilas de Minas Gerais, buscando contrapor e aproximar diferentes formas de manipulação
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do cerimonial episcopal em meados do século XVIII. Através da análise de dois episódios que contavam com a participação do clero local e dos colonos (o “roubo do badalo”, 1743, e as “festas de inauguração do bispado de Mariana”, 1748), a autora analisa os diferentes usos e sentidos que os rituais de deferência às autoridades adquiriram na sociedade colonial. Embora sejam dois fatos pontuais e isolados, distantes da realidade paulistana, partilhamos da forma como a autora compreendeu a importância dos rituais públicos frente ao processo de enraizamento da ordem política metropolitana na América Portuguesa. Iris Kantor comprova como diferentes cerimônias e rituais da vida pública ajudavam a formalizar os poderes instituídos, tornando-se um “meio de legitimação simbólica da ordem pública” (KANTOR, 2001, p. 179).
Mary del Priore, em A Serração da Velha: Charivari, morte e festa no mundo luso- brasileiro, trata de uma festa específica, mas, assim como as demais, permite reconstituir aspectos da vida cotidiana da comunidade e perceber uma organização social estratificada e hierarquizada, marcada por extrema codificação e ritualização dos discursos e dos gestos. Nesse texto, a autora ressalta importantes questões conceituais, destacando a “complexa teia de ideias que tornam a interpretação objetiva das festas mais difícil” (DEL PRIORE, 2001, p. 280). A autora analisa duas correntes historiográficas e suas ideologias: a primeira, apoiada na crítica dos impactos das “sociedades industriais avançadas” sobre as festas, e a segunda, que vê a festa como momento no qual se poderia ultrapassar ou abolir a ordem burguesa triunfante, a repressão ao desejo individual e a aspiração popular à subversão social. Nesse universo, Mary del Priore contribuiu ao tratar da função social da festa (DEL PRIORE, 2001, p. 286, grifo nosso).
A antropóloga e historiadora Rita de Cássia Barbosa de Araújo (A Redenção dos pardos: a festa de São Gonçalo Garcia no Recife, em 1745) procurou inserir esta festa no quadro histórico e social da cidade do Recife, buscando identificar os sujeitos políticos e sociais que dela tomavam parte e as relações que teciam entre si, tornando compreensível o que a festa expressava no plano da representação simbólica. A autora salienta que conhecemos as festas da América Portuguesa pelo que ficou registrado na memória escrita, na narrativa dos homens letrados (leigos ou eclesiásticos), estando portanto submetidas à censura de autoridades várias. Nesse sentido, as relações referentes às festas públicas não continham nada que fosse contrário à fé católica, aos bons costumes e às leis reais e decretos (ARAÚJO, 2001, p. 421). Assim, os conflitos envolvendo as diversas instâncias do poder político e do religioso muito raramente foram publicados nesses documentos, demonstrando como os registros oficiais visavam à exaltação do reino e à perpetuação da memória grandiosa e
efêmera dos acontecimentos repletos de intenções políticas. “A imponente festa pública, fosse ela religiosa ou cívica, tinha por função tornar visível a existência do império português” (ARAÚJO, 2001, p. 423). Aos olhos oficiais, as festas eram a “senha para que todos se sentissem mais próximos”, (...) como membros de uma mesma comunidade, partilhando de um mesmo espaço urbano, de sua cultura e história. Em contrapartida, a rua, segundo a autora, ao contrário, deixava entrever aspectos obscurecidos nos discursos oficiais, mostrando-se como o lugar onde os festejos aconteciam mais frouxa e plenamente. “A procissão solene, ao contar com participação de grande número de irmandades religiosas, era ocasião para reforçar as alianças e estreitar os laços de solidariedade, que deveriam existir entre os membros da comunidade católica” (ARAÚJO, 2001, p. 436). “A própria disposição dos indivíduos e grupos no cortejo processional facilitava o reconhecimento e expressava, no plano da representação simbólica, o lugar social destinado a cada um na ordem hierárquica vigente na sociedade colonial”, destacando o significado da festa para seus partícipes mais comuns em oposição ao significado da festa para as autoridades régias ou locais.
A historiadora Camila Fernanda Guimarães Santiago (Gastos do Senado da Câmara de Vila Rica com festas), ao analisar os Livros de Receitas e Despesas do Senado da Câmara de Vila Rica intencionou aclarar como foram esplêndidas e surpreendentes as celebrações de Corpus Christi. Ela elucida os gastos feitos pela administração local e pelo povo para tanto, uma vez que esses gastos são extremamente difíceis de serem compreendidos via documentação levantada, pois o escrivão geralmente os listava sem maiores especificações. Sobre o mesmo estudo de caso, a historiadora Beatriz Catão Cruz Santos (Unidade e diversidade através da festa de Corpus Christi) faz outra abordagem. Ela compara as Festas de Corpus Christi na América Portuguesa com as do Reino e as do Império espanhol, afirmando serem semelhantes. Ela relata as obrigações da Câmara para com a sua realização, sobretudo exercendo um papel no “enquadramento” desse ritual, além de sua presença no cortejo, embora ressalte que os membros do senado recebiam propinas para delas participar (SANTOS, 2001, p. 524).
Por fim, o especialista em literatura e retórica no período colonial, João Adolfo Hansen (A categoria ‘representação’ nas festas coloniais dos séculos XVII e XVIII), trata não só da categoria “representação” nos relatos luso-brasileiros, como define “festa” com base no conceito proposto por Louis Marin (1994) para as procissões, desfiles e cortejos: “um processo coletivo que simultaneamente manipula o espaço por meio de certos movimentos em um certo tempo e produz seu espaço específico segundo regras e normas determinadas que ordenam esses movimentos e esse tempo valorizando-os” (MARIN apud HANSEN, 2001, p.
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735). João Adolfo Hansen destaca assim a importância de uma abordagem dialética de ambos, o espaços e o tempos (o da festa em meio ao da vida urbana cotidiana), orientação seguida na presente tese. Segundo Hansen, parafraseando Louis Marin, a procissão e o desfile ocorrem no ordenamento do tempo cronológico, estruturando-se segundo a temporalidade que lhes é própria e por isso mesmo produzem um tempo específico que simultaneamente interrompe o tempo cronológico e em certa medida o completa ou o funda. O percurso da procissão era mediado por processos simbólicos de delimitação do espaço e do tempo da vida colonial. No âmbito das regras e normas que presidiam a configuração desse outro espaço no espaço da cidade, João Adolfo Hansen descreve a posição que cada grupo social e atores individuais deveriam ocupar nas procissões. Segundo ele, “as procissões coloniais costumavam ser encabeçadas pelo bispo e pelo governador, acompanhados dos oficiais da câmara e dos melhores do lugar. Vinham em seguida as profissões liberais, os grupos letrados da burocracia e da justiça. Da metade para o fim, os vários grupos de oficiais mecânicos, e, à frente de todas as corporações mecânicas, a dos ourives, tido como mais “nobres” por trabalharem com materiais preciosos. Atrás dos mecânicos ficava a plebe branca. Por último, os índios, os mamelucos, os mulatos, os negros forros e os escravos” (HANSEN, 2001, p. 739).
Além da coletânea de István Jancsó e Iris Kantor, no que diz respeito ao tema das “festas”, incontornável é o livro da historiadora Mary del Priore (Festas e utopias no Brasil colonial, 1994). Assim como na coletânea anteriormente analisada, Mary del Priore analisa a festa como matéria da cultura popular e a inscreve na história das práticas, dos comportamentos e das representações coletivas (DEL PRIORE, [1994] 2000, p. 127, grifo nosso), o que permite que o tema seja analisado no âmbito das relações complexas entre a vida cotidiana das populações do passado, presentes na documentação oficial, e nas demais “representações” que os homens faziam de suas próprias existências (DEL PRIORE, [1994] 2000, p. 127, grifo nosso). Mary del Priore considera as festas como uma notável força de integração social e com esse objetivo mostra quem participava e como participava das festas, inquerindo sobre o significado que elas possuíam para os vários segmentos sociais (brancos, negros, pardos e índios) no período colonial. Ela mostra, dentre outros, as clivagens sociais e o controle exercido sobre as festas pela Igreja e pelo Estado, que se empenhavam num processo de violenta normatização da Colônia, sobretudo a partir da ascensão de D. José I e de seu Primeiro Ministro D. Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.
A obra Festas e utopias no Brasil colonial (1994) nos ajudou a refletir sobre os significados das festas no período colonial, como forma de perenizar as “instituições de poder” (DEL PRIORE, [1994] 2000, p. 9), como um “fato político, religioso ou simbólico (...)
que reafirma laços de solidariedade” (DEL PRIORE, [1994] 2000, p. 10), como um “meio de fixação política e manifestação do poder crescente do Estado português” (DEL PRIORE, [1994] 2000, p. 15), como um “tempo de fantasia e de liberdade” (DEL PRIORE, [1994] 2000, p. 10). Assim como Mary del Priore, também compartilhamos do conceito de época definido no dicionário etimológico de Raphael Bluteau (1712) e consideramos as procissões como parte das atividades festivas. Valemo-nos também de sua classificação das festas coloniais em dois grupos: Festas do Senhor (Paixão de Cristo e demais episódios de sua vida) e Dias Comemorativos dos Santos (apóstolos, pontífices, virgens, mártires e padroeiros). A elas acrescenta as Entradas (cerimônias públicas que serviam à cristalização de ideias absolutistas, por meio da aclamação dos oficiais mais próximos do poder) e as Festas Comemorativas (envolvendo datas importantes da vida dos governantes). Essa classificação foi utilizada também por outros historiadores, embora nem sempre com a mesma terminologia. Por questões metodológicas, mantivemos algumas de suas terminologias, outras foram apropriadas de outros autores, como veremos. Mary del Priore não separa as festas em sagradas e profanas, pois as considera um “misto” (DEL PRIORE, [1994] 2000, p. 15). Para tanto, pauta-se mais uma vez no dicionário de Raphael Bluteau (1712) que no verbete “festas” afirma que as festas religiosas e profanas caminhavam juntas, como se dentro de cada festa religiosa existisse uma profana e vice-versa. O dicionário de Mello Moraes no verbete “festa” também reforça essa ideia e mostra que os territórios entre o sacro e o profano não estavam estabelecidos. Compartilhamos dessa afirmação. Mary del Priore usa como base teórica para seu trabalho o conceito de “representação” definido pelo historiador francês Roger Chartier que afirma que os signos de poder do jovem Estado nascido na Idade Moderna exprimia-se por meio de cerimônias e rituais públicos e que o Estado metropolitano português nas cerimônias públicas não apenas marcava a sua presença na Colônia, mas construía as relações