Acabamos de tratar da relação entre passado, tradição, memória e história nos museus. Como sugeriu Myrian Sepúlveda dos Santos, ao tratar dos pressupostos básicos na análise sobre a relação entre história e memória – o qual podemos estender para a nossa dimensão –, estes são três:
o primeiro é que a relação entre passado e presente é uma via de mão dupla, pois o passado tanto é construído pelo presente como o constrói; o segundo é que a história é sempre resultado de relações de poder; em terceiro lugar, é fundamental compreender que tanto história como memória são múltiplas e complexas, porque resultado do entrelaçamento de diferentes narrativas, as quais, embora produzidas em diferentes contextos históricos, coexistem no presente. (SANTOS, 2005, p. 37).
Tratamos de como os museus inicialmente se valiam de fatos históricos para criar uma verdade absoluta da realidade e resguardar a memória de um passado perpétuo, porque não se comunica, não produz relação com o presente. Nesse momento, pensaremos o museu a partir de um outro conceito, o de enunciado. Esse conceito, atribuído a Foucault, nos chamou a atenção por conter em sua definição, função e descrição muitos pontos que dialogam com a nossa compreensão sobre o museu.
Foucault diz que o enunciado não é uma estrutura, mas uma função de existência que pertence exclusivamente aos signos. E acrescenta,
Não há razão para espanto por não se ter podido encontrar para o enunciado critérios estruturais de unidade; é que ele não é em si mesmo uma unidade, mas sim uma função que cruza um domínio de estruturas e de unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço. (FOUCAULT, 2007, p. 98).
A enunciação não se repete nunca, cada vez que alguém proferir algo, haverá uma enunciação diferente, pois nela há uma “singularidade situada e datada que não se pode reduzir.” (Idem, p. 114). Ao mesmo tempo, o enunciado não é um acontecimento produzido em determinado tempo e lugar, que possa ser lembrado como um ato de memória, tampouco uma forma que possa ser constantemente atualizada em quaisquer condições.
O que seriam os enunciados do museu? Como acontecem essas enunciações? Primeiramente, as exposições são os suportes de articulação dos enunciados, é a partir daqueles signos que o visitante receberá a enunciação. Esta, como disse Foucault, não se repete nunca. É como se para cada visitante fossem proferidos diferentes enunciados, que são a maneira de cada um fazer uso ou reutilizar aquilo que está sendo enunciado.
O que trazemos para o âmbito dos museus e de seus enunciados, proferidos pela forma de composição dos seus objetos, é a materialidade do enunciado que “não é apenas a substância ou o suporte da articulação, mas um status, regras de transcrição, possibilidades de uso ou de reutilização.” (Idem, p. 130).
Essa materialidade repetível que caracteriza a função enunciativa faz aparecer o enunciado como um objeto específico e paradoxal, mas também como um objeto entre os que os homens produzem, manipulam, utilizam, transformam, trocam, combinam, decompõem e recompõem, eventualmente destroem. Ao invés de ser uma coisa dita de forma definitiva – e perdida no passado, como a decisão de uma batalha, uma catástrofe geológica ou a morte de um rei -, o enunciado, ao mesmo tempo que surge em sua materialidade, aparece como um status, entra em redes se coloca em campos de utilização, se oferece a transferências e a modificações possíveis, se integra em operações e em estratégias onde sua identidade se mantém ou se apaga. Assim, o enunciado circula, serve, se esquiva, permite ou impede a realização de um desejo, é dócil ou rebelde a interesses, entra na ordem das contestações e das lutas, torna-se tema de apropriação ou rivalidade. (Idem, p. 118-19).
Nos museus os enunciados também se transformam, pois não são definitivos. As exposições procuram contar uma história, mas essa história não deve estar petrificada no passado, deve conter em si subsídios que ofereçam questionamentos capazes de promover outras enunciações.
Foucault diz que o arquivo é o sistema que administra o aparecimento dos enunciados como acontecimentos únicos. Entretanto, o arquivo não protege e conserva o enunciado para as memórias futuras, mas é o que define, desde o início, o sistema de sua enunciabilidade. “O arquivo não é (...) o que recolhe a poeira dos enunciados que novamente se tornaram inertes e permite o milagre eventual de sua ressurreição; é o que define o modo de atualidade do enunciado-coisa; é o sistema de seu funcionamento.” (Idem, p. 147).
Ao falar do limite tênue em que situa o arquivo entre a tradição e o esquecimento, acrescenta que o arquivo “faz aparecerem as regras de uma prática que permite aos enunciados subsistirem e, ao mesmo tempo, se modificarem regularmente. É o sistema geral da formação e da transformação
dos enunciados.” (Idem, p. 147-48). Convém indagarmos: seria o museu um
arquivo, no sentido atribuído por Foucault? Levando em consideração as características do arquivo, podemos afirmar que o museu vivo está muito próximo de suas funções pois, assim como o arquivo, é
o que faz com que todas as coisas ditas não se acumulem indefinidamente em uma massa amorfa, não se inscrevam, tampouco, em uma linearidade sem ruptura e não desapareçam ao simples acaso de acidentes externos, mas que se agrupem em figuras distintas, se componham umas com as outras segundo relações múltiplas, se mantenham ou se esfumem segundo regularidades especificas... (Idem, p. 147).
Contudo, há aqui uma diferença. Foucault está tratando da palavra, dos enunciados da língua e nós nos apropriamos de suas idéias para tratarmos dos enunciados nos museus, da forma como eles são proferidos através das exposições, das atividades interativas e dos artifícios museográficos. O que vale para a nossa reflexão são as características essenciais do enunciado, seja ele verbal ou não. Os enunciados estão em constante mutação, o que lhes confere vida. E para nós esse é o ponto fundamental, pois, como disse Morin, “radicalmente da ordem mecânica, a ordem ‘viva’ é a que renasce sem parar.” (MORIN, 1991, p. 43).