Contrapondo a filosofia do prazer, ainda que controlado nos moldes epicuristas, os estóicos exaltavam a felicidade moral ou uma felicidade encontrada na moral: “não seremos jamais felizes, a não ser que façamos o bem e vivamos de modo virtuoso”54. Para os estóicos, as pessoas buscam coisas (prazeres) que não podem ser caracterizadas como “boas”, da mesma forma que o fracasso (dores) em tentar obter tais coisas também não seria algo a ser reputado ruim. Basta adotar a postura correta para ser feliz. “O único bem para uma pessoa é a virtude, incluindo a justiça”, sendo, o fim do ser humano, “a coerência com a natureza e a virtude e adesão a padrões morais e sociais, ainda que a identificação entre bem e virtude seja um “paradoxo”55.
53 CÍCERO, Marco Túlio. A virtude e a felicidade. Tradução Carlos Ancêde Nougué. São Paulo: Martins
Fontes, 2005, p. 29.
54 COMTE-Sponville, André. A mais bela história da felicidade: a recuperação da existência humana
diante da desordem do mundo. André Comte-Sponville, Jean Delumeau, Arlette Farge. Tradução de Edgard de Assis Carvalho, Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Difel, 2010. Tradução de: La plus belle histoire du bonheur. p. 08.
55 WHITE, Nicholas. Breve história da felicidade (A brief history of happiness). Tradução de Luis Carlos
Immanuel Kant tem opinião quanto aos estóicos. Ele entende que eles escolheram de modo totalmente correto seu principio prático supremo, a saber, a virtude como condição do sumo bem. Todavia, adverte que:
enquanto representavam o grau dela, requerido para a lei pura da mesma, como plenamente alcançável nesta vida, não somente elevaram demasiadamente a capacidade moral do homem sob o nome de sábio para além de todos os limites de sua natureza e admitiram algo que contradiz todo o conhecimento dos homens, mas principalmente não quiseram de modo algum considerar também a validade do segundo elemento pertencente ao sumo bem, ou seja, a felicidade, como um objeto particular da faculdade de apetição humana, mas tornaram o seu sábio, na consciência da excelência de sua pessoa totalmente independente da natureza (com vistas a seus contentamento), igual a uma divindade, enquanto em verdade o expunham mas não o submetiam a males da vida (ao mesmo tempo o apresentavam também livre do mal); e assim efetivamente eliminaram o segundo elemento do
sumo bem, a felicidade própria, enquanto o puseram simplesmente na ação e no contentamento com seus valores pessoais e, portanto, o incluíram na consciência da maneira de pensar moral, no que, porém, teriam podido ser suficientemente refutados pela voz de sua própria natureza56.
Kant lembra que as inclinações, que de fato sempre têm a primeira palavra, iriam pretender primeiro a sua satisfação e, vinculadas à reflexão racional, a sua máxima e mais duradoura satisfação possível, sob o nome de felicidade57.
Sêneca é estóico58. Desde 62 que o filósofo se afastara do Senado, vivendo numa fazenda nos arredores de Roma. Um ano antes do incêndio da cidade, por Nero, de em foi tutor, começara a escrever a sua principal obra filosófica, as Cartas a Lucilius. Posteriormente, no capítulo inicial do livro VII do Tratado dos Benefícios, sintetizara a sua particular visão do estoicismo:
Se o nosso espírito apenas sentir desprezo por tudo o que nos vem da boa ou da má sorte. Se é educado de modo a manter-se acima das apreensões; se, na sua avidez, não procura as perspectivas sem limites, mas sabe buscar as riquezas apenas em si próprio; se nada mais receia dos deuses nem dos homens, não ignorando que pouco tem a temer dos homens e nada dos deuses; se desdenhar tudo o que faz o esplendor da existência e é também o seu tormento; se tiver conseguido ver claramente que a
56 KANT, Immanuel. Crítica da razão prática Tradução baseada na edição original de 1788, com
introdução e notas Valerio Rohden. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011, pp. 204-205.
57 KANT, Immanuel. Crítica da razão prática Tradução baseada na edição original de 1788, com
introdução e notas Valerio Rohden. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011, pp. 234-235.
58 Rico cidadão de uma província do império, a Andaluzia, Sêneca conseguiu chegar ao Senado e obter o
título de cônsul. Tinha uma das mais prósperas “fortunas imperiais obtidas pelas especulações financeiras e as dádivas imobiliárias de Nero, de quem foi tutor, um enorme prestígio como dramaturgo e filósofo e uma morte corajosa” . Era vegetariano. Com a morte de Calígula e ascenção de Cláudio, Sêneca foi condenado por influência da imperatriz Messalina, sob a acusação de cometer adultério com uma princesa, irmã de Agripina . A pena de morte foi comutada em degredo para Córsega. Este tinha 40 anos e imaginou que a sua carreira política terminara: “Mas Agripina, ao tornar-se a segunda mulher de Cláudio, arrancou-o do seu isolamento, em 48, chamando-o a Roma para tratar do seu filho, Nero, então com onze anos”. Cf. Sêneca, Da Vida Feliz. Tradução João Forte. Lisboa, 2008: Biblioteca editores Independentes, p. 18.
morte não é em si um mal, antes põe fim às nossas inúmeras infelicidades; se se tiver dedicado apenas à excelência e achar fácil todo o caminho que a ela conduz; se na sua condição de animal social e nascido para o bem de todos considerar o mundo inteiro como uma só e mesmo família; (...) – então libertou-se das tempestades e alcançou a terra firme sob um céu azul. Sabe tudo o que é útil e indispensável saber; (...) retirou-se para a [sua] fortaleza59.
Sêneca associa a filosofia à felicidade da seguinte forma: “Aquele que diz que a hora de filosofar não chegou ou já passou, assemelha-se ao que afirma que a hora não chegou, ou já passou, para a felicidade”. Realçando a eterna busca, diz que “devemo- nos, pois, preocupar com aquilo que cria a felicidade, já que com ela possuímos tudo e sem ela tudo fazemos para a obter”. Ao discorrer sobre os desejos, fala que alguns deles são naturais, enquanto outros são em vão: “se alguns dos nossos desejos naturais são necessários, outros são... apenas naturais. Entre os desejos necessários alguns são-no à felicidade, outros à ausência de sofrimento do corpo, outros à própria vida”. Na sequência, discorre sobre o prazer e a dor e dá mostras ainda mais evidentes de sua doutrina estóica:
Eis a razão que nos leva a dizer que o prazer é o princípio e o fim da vida bem- aventurada. É ele que reconhecemos como bem primordial nascido com a vida. É nele que encontramos o princípio de toda a escolha e rejeição. É para ele que tendemos, julgando todo e qualquer bem de acordo com o efeito que tem na nossa sensibilidade. E é precisamente por ser o bem primordial, nascido com a vida, que não escolhemos todo e qualquer prazer: existem inúmeros prazeres em que não nos detemos, por implicarem um desprazer maior. Consideramos muitas dores preferíveis aos prazeres desde que um prazer para nós maior deva chegar após longos sofrimentos. Todo o prazer é um bem, pelo fato de ter uma natureza apropriada à nossa sem por isso dever ser necessariamente colhido. Simetricamente, toda a espécie de dor é um mal, sem que por isso se deva obrigatoriamente fugir de todas as dores. É através do confronto e análise das vantagens e desvantagens que convém tomar uma decisão em tal matéria60.
Afastando-se dos prazeres vulgares, Sêneca afirma que “nem a bebida, nem os festins contínuos, nem os rapazes ou as mulheres, nem o deleite dos peixes e de tudo aquilo que pode haver numa mesa faustosa estão na origem de uma vida feliz”, pois essa vida só seria alcançada por meio do “raciocínio sóbrio, que procura as causas de todas a escolhas e afasta as opiniões através das quais a maior perturbação se apodera da alma”. Sêneca chega a associar prazer à felicidade, mas desde que, nele, haja virtude. Ele diz: “não é possível viver com prazer sem prudência, sem honestidade e sem justiça, nem
59 Sêneca, Da Vida Feliz. Tradução João Forte. Lisboa, 2008: Biblioteca editores Independentes, p. 20. 60 Sêneca, Da Vida Feliz. Tradução João Forte. Lisboa, 2008: Biblioteca editores Independentes, p. 30.
com essas três virtudes viver sem prazer. As virtudes são, com efeito, conaturais com o fato de viver com prazer e viver com prazer é indissociável delas”61.
O Filósofo afirma ser difícil encontrar a felicidade, pois “no caso de nos termos enganado no caminho, nos afastamos tanto mais dela quando para ela nos precipitamos com maior ardor”. Ele, então, fala demoradamente sobre a sua visão de felicidade:
A vida feliz é pois uma vida conforme à sua própria natureza; não podendo ser alcançada, a menos que a lama esteja sã, em posse contínua da saúde, e que seja depois corajosa e enérgica, bela e paciente, adaptada às circunstâncias, cuidadosa do seu corpo e daquilo que lhe diz respeito, sem no entanto ficar inquieta, diligente em relação aos outros meios de embelezar a vida sem admirar nenhum deles, pronta a fazer uso dos presentes da sorte, mas não a sujeitar-se a eles. Compreenderás, mesmo que nada acrescente, que daí resultam a tranquilidade para sempre e a liberdade, pois ficamos livres daquilo que nos agita e nos assusta. Em vez de prazeres, em vez de alegrias tênues, frágeis e sujeitas a desonra, nasce uma imensa alegria, inabalável e constante; existe então na alma apaziguamento, acordo e grandeza aliada à doçura; pois a crueldade vem sempre da fraqueza62.
O homem feliz de Sêneca pratica aquilo que é honesto e contenta-se com a virtude; “os acidentes da sorte não podem nem exaltá-lo nem quebrá-lo, não conhece bem maior do que aquele que pode dar a si próprio; o seu verdadeiro prazer está no desprezo dos prazeres” – diz o Filósofo. A felicidade estaria numa “alma livre, elevada, sem medo, constante, inacessível ao receio e ao desejo; para quem só existe um bem, a beleza moral, e um único mal, a indignidade”. Para Sêneca, todo “o resto é uma algazarra confusa que não retira nem acrescenta nada à vida feliz, que vem e que vai sem aumentar nem diminuir o soberano bem”63.
A virtude, para Sêneca, existe muitas vezes sem o prazer e nunca tem necessidade dele. Ela seria “elevada, sublime, real, invencível, inesgotável; o prazer é coisa baixa, servil, fraca, frágil, que se estabelece e permanece nos lupanares e nas tabernas”. Ele alerta para o fato de que “os homens mais estúpidos usufruem de mais prazeres, que a maldade é rica em satisfações e que a própria alma obtém, em grande número, prazeres viciosos?”. Ele fala da “arrogância, a estima exagerada por si próprio, a presunção que coloca quem a tem acima de todos, o amor cego e imprevidente por aquilo que se possui, os prazeres loucos e alegrias imoderadas, por motivos fúteis e infantis”. Lembra ainda da “mordacidade e o orgulho que têm prazer em insultar os outros, a preguiça e a decomposição de uma alma indolente que se descuida de si
61 Sêneca, Da Vida Feliz. Tradução João Forte. Lisboa, 2008: Biblioteca editores Independentes, p. 31. 62 Sêneca, Da Vida Feliz. Tradução João Forte. Lisboa, 2008: Biblioteca editores Independentes, p. 47. 63 Sêneca, Da Vida Feliz. Tradução João Forte. Lisboa, 2008: Biblioteca editores Independentes, p. 47.
mesma”. Aliando esses comportamentos a ideia de prazer, Sêneca afirma que “não é o seu uso que a satisfaz, mas a moderação nesse uso”64. Mais um filósofo que diferencia as qualidades dos prazeres. Esse foi Sêneca.