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Schopenhauer91 ensinou que a sabedoria da vida seria um sinônimo de eudemonismo. Ele afasta a visão estóica de felicidade. O seu eudemonismo ensina como se pode viver da maneira mais feliz possível, sem grandes renúncias e esforços para superar a si mesmo. O eudemonismo se subdividiria em duas partes: 1) máximas para o nosso comportamento em relação a nós mesmos; 2) máximas para o nosso comportamento em relação aos outros. Em seguida, dá quatro passos para se alcançar a felicidade. Em primeiro lugar: serenidade de espírito, temperamento feliz, que determina a capacidade de sofrer e de sentir alegria. Em segundo: a saúde do corpo, ligada ao temperamento, condição quase imprescindível. Em terceiro lugar: a paz de espírito. Por fim, em quarto, bens exteriores em medida muito pequena. Schopenhauer lembra que Epicuro subdivide os bens em: 1) naturais e necessários; 2) naturais, mas não necessários; 3) nem naturais, nem necessários92.

Schopenhauer discorreu sobre a felicidade por meio de máximas. Elas são fundamentais para que consigamos identificar os elementos centrais do seu pensamento. A Máxima 1 é a seguinte:

Todos nós nascemos na Arcádia, todos viemos ao mundo cheios de pretensões de felicidade e prazer, e conservamos a insensata esperança de fazê-las valer, até o momento em que o destino nos aferra bruscamente e nos mostra que nada é nosso, mas tudo é dele, uma vez que ele detém um direito incontestável não apenas sobre nossas posses e nossos ganhos, mas também sobre nossos braços e nossas pernas, nossos olhos e nossos ouvidos, e até mesmo sobre nosso nariz no centro do rosto. A experiência vem em seguida e nos ensina que a felicidade e o prazer não passam de

91 Bertrand Russel diz o seguinte sobre Schopenhauer: “Ele habitualmente jantava bem, num bom

restaurante: tinha muitos casos amorosos triviais, que eram sensuais mas não apaixonados: era excessivamente irascível e geralmente avarento”. Schopenhauer admirava Kant e, como ele, “vestia-se de maneira ultrapassada, comia em horários estritamente regulares e fazia uma caminhada diária, no seu caso, em companhia de sua adorada poodle Atma”. Fazia “visitas ocasionais ao teatro e a leitura de jornais na biblioteca pública”. Era o “modelo de um erudito recluso”. Mesmo assim, teve vários relacionamentos e um filho ilegítimo “a quem ignorou e que morreu jovem por negligência”. Uma polêmica em sua vida é o chamado “caso Marquet”, episódio com traços de romance policial. Ao voltar para casa certo dia, Schopenhauer encontrou três mulheres conversando do lado de fora de sua porta. Uma delas, a costureira Caroline Luise Marquet. Ele, que não gostava de barulho, ordenou que fossem embora, mas elas se recusaram. Schopenhauer foi até o quarto e voltou com um bastão. Agarrando a costureira pela cintura, tentou forçá-la a se afastar dos seus aposentos. Ela gritou. Ele a empurrou e a mulher caiu. Ela moveu uma ação por danos, alegando que a havia chutado e espancado. Em maio de 1825, a Corte concedeu a ela uma pensão mensal. Quando a senhora morreu, 20 anos depois, Schopenhauer anotou em seu livro contábil: obit anus, abit onus (morre a velha, vai-se a carga). Cf. COHEN, Martin. Casos filosóficos. Tradução de Francisco Innocêncio. Ilustrações de Raúl Gonzáles. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012, p. 261.

92 SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de ser feliz: exposta em 50 máximas. Organização e ensaio de

Franco Volpi. Tradução de Marion Fleischer, Eduardo Bandão, Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2001, pp. 08-09.

uma quimera, mostrada à distância por uma ilusão, enquanto o sofrimento e a dor são reais e manifestam-se diretamente por si só, sem a necessidade da ilusão e da espera93.

O trecho acima deixa claro o pessimismo do Filósofo. A quarta Máxima se volta para a intensidade dos desejos e a necessidade de satisfazê-los. Ela diz:

Um homem não se sente totalmente privado dos bens aos quais nunca sonhou aspirar, mas fica muito satisfeito mesmo sem eles, enquanto outro que possua cem vezes mais do que o primeiro sente-se infeliz quando lhe falta uma única coisa que tenha desejado94.

A Máxima nº 17 diz que quem quer medir a felicidade de uma vida inteira com base nas alegrias e nos prazeres assume um critério completamente errado, pois as alegrias são negativas; imaginar que elas possam fazer alguém feliz é uma ilusão criada e cultivada pela inveja, “uma vez que as alegrias não são sentidas em termos positivos, como ocorre com as dores; são estas, portanto, com sua ausência, que constituem o critério de medida da felicidade”.

Nada obstante Schopenhauer tenha se dedicado a estudar as bases universais da felicidade, ele é conhecido como um grande pessimista: “uma das maiores quimeras que observamos na infância e das quais nos libertamos apenas mais tarde é aquela segundo a qual o valor empírico da vida reside nos seus prazeres, ou que existam alegrias e propriedades que façam alguém positivamente feliz” - disse.

O Filósofo destaca que se chega “a buscar sua realização, até a chegada tardia do desengano, até encontrarmos nessa caça à felicidade e ao prazer, que não existem de fato, o que realmente existe: a dor, o sofrimento, a doença, a preocupação e milhares de outras adversidades”. Se, em vez disso, “reconhecêsse-mos precocemente que os bens positivos são uma quimera, enquanto as dores positivas são muito reais, pensaríamos apenas em evitá-los, segundo Aristóteles”95.

É interessante a abordagem que o Filósofo faz quanto a elaboração de mitos em torno da ideia de felicidade, muitas vezes associando-os a figuras distantes da realidade de cada um de nós, tornando a sua busca algo sofrível e irreal. Schopenhauer valoriza a

93 SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de ser feliz: exposta em 50 máximas. Organização e ensaio de

Franco Volpi. Tradução de Marion Fleischer, Eduardo Bandão, Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 10.

94 SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de ser feliz: exposta em 50 máximas. Organização e ensaio de

Franco Volpi. Tradução de Marion Fleischer, Eduardo Bandão, Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 26.

95 SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de ser feliz: exposta em 50 máximas. Organização e ensaio de

Franco Volpi. Tradução de Marion Fleischer, Eduardo Bandão, Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2001, pp. 48-50.

fuga da dor, entendendo que caso se consiga isso, é suficiente. O Filosófo fala da infelicidade em dois momentos da vida. Na primeira metade dela, a infelicidade vem da busca da felicidade em vida: “o resultado são esperanças e insatisfações continuamente frustradas. Visualizamos imagens enganosas de uma felicidade sonhada e indeterminada, entre figuras escolhidas por capricho, e procuramos em vão seu arquétipo”. Na segunda metade da vida, a preocupação “com a infelicidade toma o lugar da aspiração sempre insatisfeita à felicidade; no entanto, encontrar um remédio para tal problema é objetivamente possível”. A essa altura buscamos apenas tranquilidade e a maior ausência de dor possível, “o que pode ocasionar um estado consideravelmente mais satisfatório do que o primeiro, visto que ele deseja algo atingível, e que prevalece sobre as privações que caracterizam a segunda metade da vida”96.

A Máxima nº 36 trata da necessidade de não buscar a felicidade incessantemente, sob pena de se deixar guiar por uma profunda ansiedade que levaria, inevitavelmente, à tristeza. O Filósofo afirma que os grandes inimigos da felicidade humana são dois: a dor e o tédio. Sábia, a natureza dotou a personalidade de um meio de defesa contra cada um deles: contra a dor que muitas vezes mais psíquica do que física, deu-lhe a serenidade; contra o tédio, o engenho.