1.5. CARİ İŞLEMLER HESABINA TEORİK YAKLAŞIMLAR
2.1.4. Türkiye’de Cari Açık ve Reel Döviz Kuru
resultados gerais da nossa pesquisa, as contribuições e limitações, bem como sugestões para futuras pesquisas sobre crimes corporativos no campo dos estudos organizacionais.
2 CRIMES CORPORATIVOS: QUESTÕES CONCEITUAIS E ANALÍTICAS QUE DELINEIAM O DEBATE TEÓRICO
“É preferível prevenir os delitos a ter de puni-los; e todo legislador sábio deve antes procurar
impedir o mal que repará-lo, pois uma boa legislação não é mais do que a arte de proporcionar aos homens a maior soma de bem-estar possível e livrá-los de todos os pesares que se lhes possam causar,
conforme o cálculo dos bens e dos males desta existência”.
Beccaria, in Dos Delitos e das Penas
No mesmo compasso em que as corporações assumiram certo protagonismo na sociedade contemporânea, por um lado, gerando expectativas e, de outro, questionamentos quanto à sua atuação, uma “criminalidade corporativa” passou a ser discutida e analisada por sociólogos e criminologistas12 como um fenômeno complexo sobre o qual questões conceituais e analíticas ainda permanecem sem respostas (SHOVER; HOCHSTETLER, 2002; PAYNE, 2012). A expressão crime corporativo tem sido largamente utilizada, nas últimas décadas, como referência a práticas e condutas que violam as leis criminais que envolvem as corporações. Todavia, ainda que tenha despertado o interesse dos estudiosos no campo da sociologia e da criminologia13 (BRAITHWAITE, 1985; SZWAJKOWSKI, 1985; GREEN, 2006; PAYNE, 2012), há mais de 50 anos, o crime corporativo tem sido pouco explorado na literatura (SNIDER, 2000; BRAITHWAITE, 1985; LYNCH; McGUERIN; FENWICK, 2004), sendo ainda um território desconhecido no campo teórico dos estudos organizacionais.
Esse interesse pelo tema cresceu com os estudos de Sutherland (1940, 1941, 1944), o primeiro14 criminologista a estudar, de forma sistemática, os crimes no âmbito corporativo. A importância dos seus estudos se deve, principalmente, ao fato de o autor chamar a atenção para as barreiras sociais e políticas que impedem a criminalização de práticas cometidas pelas empresas na busca de seus objetivos econômicos, trazendo prejuízos à sociedade. Os criminologistas, conforme argumenta Sutherland (1940), deveriam estudar comportamentos
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A discussão sobre o status da criminologia como disciplina e seu afastamento da sociologia é, ainda, ampla, principalmente, no que diz respeito à extinção da sociologia criminal, em virtude da colocação institucional da criminologia longe das ciências sociais. Triplett e Turner (2010) analisaram os programas curriculares nos EUA, de graduação de sociologia, criminologia e justiça criminal, identificando que existe uma variação na localização institucional da criminologia, questionando as consequências dessa variação para a criminologia enquanto campo de conhecimento.
13 A criminologia tem seu berço na Europa, com estudos centrados no indivíduo, e, no início do século XX, a
criminologia europeia perdeu influência para as correntes norte-americanas, essas orientadas pela perspectiva sociológica.
14 O mérito pela sistematização do conhecimento acerca dos crimes cometidos por pessoas de alto status
econômico é de Sutherland. Contudo, Braithwaite (1985) atribui a Willem Bonger o pioneirismo no
desenvolvimento de uma teoria de crime que incorporou tanto os “crimes in the streets” como os “crimes in the
passíveis de qualquer punição, seja ela criminal, regulatória ou civil, não focando a atenção unicamente nos casos em que práticas foram condenadas pela corte criminal.
Desde o discurso presidencial de Sutherland na American Society of Sociology , em 1939, quando esse introduziu o termo White Collar Crime, os business crimes ou crimes corporativos passaram a fazer parte da agenda de criminologistas e sociólogos, embora timidamente, os quais percorreram caminhos ora distintos ora convergentes, adotando nomenclaturas e níveis de abordagens diferentes. Como resultado, temos um corpo de conhecimento abrangente, porém difuso, com muitas lacunas e carregado de controvérsias (SUTHERLAND, 1983, 1992; GREEN, 2006; PAYNE, 2012).
Neste capítulo, com o objetivo de explorar conceitos e perspectivas sobre crimes, os quais deram origem aos estudos sobre crimes corporativos, discutimos os conceitos relevantes nesse debate, bem como os diversos aspectos que dele fazem parte e que o delimitam, de modo a estruturar uma base de conhecimento para a análise dos casos estudados nesta tese, ressaltando que privilegiamos aqui uma abordagem sociológica. Antes, porém, discutimos o conceito de crime e as principais correntes sociológicas que buscaram respostas para as questões em torno da criminalidade, as quais focalizaram o crime nas ruas. A atenção aqui dirigida ao conceito e abordagens do crime é justificada pelo fato de esse conhecimento ser necessário para as discussões e análise do crime corporativo, haja vista que a criminalidade corporativa é praticada por indivíduos, ainda que em um contexto específico das organizações. Assim, conhecer as abordagens existentes sobre crimes contribui para o entendimento das discussões em torno do assunto desta tese. Ainda, trata-se de um conhecimento não abordado no âmbito dos estudos organizacionais, campo no qual esta tese se insere. Desse modo, percorrer a origem dos estudos sobre crimes é uma tarefa não só necessária, mas enriquecedora para a compreensão dos aspectos que definem crime corporativo, bem como a dinâmica que o envolve.
2.1CONCEITOS E AS ABORDAGENS SOCIOLÓGICAS DO CRIME
O conceito de crime gerou muitas discussões (CRESSEY, 1951; JEFFERY, 1956), e ainda gera (BRAITHWAITE, 1982; PAYNE, 2012), pois esse carrega aspectos que despertam outras discussões, como, por exemplo, o modo pelo qual a lei é definida. No campo jurídico, o termo crime é uma categoria legal, referindo-se a um tipo de conduta particular que as instituições reconhecem como criminosa (GREEN, 2006). Contudo, para os
cientistas sociais (sociólogos e criminologistas), essa definição não comporta a complexidade do termo, visto que esses se orientam para a descrição de padrões desse comportamento, suas causas e as atitudes da sociedade diante do crime.
Sutherland, Cressey e Luckenbill (1992, p. 3), ao definirem crime como “o comportamento que viola uma lei criminal”, colocam esse conceito sob o título de “definições convencionais para o crime e a lei criminal” (grifo nosso). Segundo os autores, “Não importa o quanto um ato seja imoral, repreensível ou indecente; esse não será um ato criminal, a não ser que o Estado assim o considere” (SUTHERLAND; CRESSEY; LUCKENBILL, 1992, p. 3). Contudo, essa é uma concepção imprecisa para a pesquisa nos campos da sociologia e criminologia, em virtude da heterogeneidade dos comportamentos generalizados pela lei criminal (CRESSEY, 1951).
Em seguida, ao caracterizar a lei criminal, Sutherland, Cressey e Luckenbill (1992, p. 3) afirmam que:
As características que distinguem a lei criminal de outros conjuntos de regras relacionadas à conduta humana são a sua natureza política, a especificidade, a uniformidade e a sanção penal. Entretanto, essas são características de um sistema racional completo e ideal de lei criminal. Na realidade, as diferenças entre a lei criminal e outros conjuntos de regras da conduta humana não são distintas.
Isso posto, os autores sinalizam que a lei criminal é aquela que guarda as seguintes características: é arbitrada pelo Estado e não definida de qualquer modo; refere-se a um fato ou objeto específico; é extensiva a todas as pessoas, independentemente do status social; e carrega a noção de punição ou ameaça de punição pelo Estado.
O crime é definido por Shover e Hochstetler (2002, p. 2) como o “comportamento que potencialmente é sancionável pelas agências de justiça criminal”, e por Schaefer (2006, p. 190) como “uma transgressão do direito penal à qual algumas autoridades governamentais aplicam penalidades formais”, representando ainda o desvio das normas sociais formais administradas pelo Estado. De acordo com Giddens (2007, p. 173), crime “é uma conduta não-conformista que infringe uma lei”, diferindo, assim, do desvio, cuja definição, para o mesmo autor, é “uma não-conformidade com determinado conjunto de normas que são aceitas por um número significativo de pessoas em uma comunidade ou sociedade”. A diferença fundamental entre desvio e crime é, então, a sanção da lei, um aspecto relevante, pois coloca a definição de crime a cargo das instituições sociais de uma sociedade e torna o conceito do primeiro mais amplo.
O estudo do crime e do desvio é de interesse de duas disciplinas distintas, embora próximas: a criminologia, cujo interesse é dirigido para as formas de comportamento
sancionadas pela lei criminal, e a sociologia do desvio, a qual investiga a conduta além do domínio da lei criminal (GIDDENS, 2007). Esses dois campos deram origem a vários estudos que se desenvolveram por linhas teóricas diferentes para explicar suas origens e fatores antecedentes.
Conforme a definição de Sutherland (1974, p. 3), a criminologia é “o corpo de conhecimento sobre a delinquência e crime enquanto fenômenos sociais”. O objetivo da criminologia é desenvolver um corpo de princípios e outros tipos de conhecimento geral e verificável no que diz respeito aos processos de lei, crime e reações ao crime (SUTHERLAND, 1974, p. 3), diferentemente do direito criminal, cujo interesse recai sobre a definição do tipo de crime e suas consequências em termos de sanções.
Sutherland, Cressey e Luckenbill (1992) dividem a criminologia em três categorias interrelacionadas, cujo foco é o processo de elaboração de leis, quebra de leis e as reações à quebra de leis: 1) Sociologia da lei criminal – análise sistemática das condições sob as quais as leis penais se desenvolvem e explicam a variação nas políticas e procedimentos utilizados nos departamentos de polícia e tribunais; 2) A sociologia do crime e a psicologia social do comportamento criminal – análise sistemática das condições econômicas, políticas e sociais em que o crime e a criminalidade são gerados ou impedidos; e 3) Sociologia da punição e correção – análise sistemática das políticas e procedimentos para controlar a incidência do crime.
Essa disciplina desenvolveu-se: na Escola Clássica, centrada no método lógico- dedutivo (Século XVIII); na Escola Positiva, que compreende as abordagens biológicas e psicológicas (Século XIX); e na Escola Sociológica (final do Século XIX), que enfatiza o contexto social e cultural no qual ocorrem o crime e o desvio.
As explicações biológicas e psicológicas foram as primeiras tentativas para entender esses fenômenos (SUTHERLAND; CRESSEY; LUCKENBILL, 1992; SCHAEFER, 2006; GIDDENS, 2007). As primeiras concentram-se nas características inatas dos indivíduos como fontes do crime e do desvio, sendo o criminologista e médico italiano Cesare Lombroso15 considerado o pioneiro na investigação da aparência e das características físicas de criminosos (GIDDENS, 2007). Embora Lombroso (2007) concordasse com a ideia de que fatores sociais
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Cesare Lombroso publicou, em 1876, L'Uomo Delinquente, obra em que defendia a ideia da delinquência inata. Sua tese foi construída sobre bases empíricas, resultantes de 386 autópsias de delinquentes e de estudos realizados em 3.939 criminosos vivos (LOMBROSO, 2007). Apesar de os resultados de seus estudos terem sido desacreditados, a Lombroso é atribuído o mérito da criação da Antropologia Criminal e do pioneirismo em relação ao estudo do homem delinquente, o que inseriu a Criminologia no âmbito acadêmico, e tornou-o
possam influenciar o comportamento criminoso, esse criminologista considerava que a maioria dos criminosos fosse biologicamente degenerada ou imperfeita, o que foi desacreditado posteriormente (GIDDENS, 2007).
Na mesma direção, as teorias psicológicas do crime oferecem explicações para as causas do crime a partir do interior do indivíduo, e não da sociedade (GIDDENS, 2007), diferenciando-se das explicações biológicas por focalizarem nos tipos de personalidade e na existência de “estados mentais anormais” (GIDDENS, 2007, p. 174), e não nas características físicas e biológicas do criminoso. Entretanto, essas teorias também não são capazes de explicar, de forma ampla, todos os aspectos do crime, pois não é possível supor que os indivíduos que cometem crimes tenham características psicológicas semelhantes, considerando-se a variedade de tipos de crimes (GIDDENS, 2007).
O desenvolvimento teórico a respeito de crime e desvio, no âmbito da criminologia sociológica, estuda o crime como um fenômeno social, compreendendo quatro abordagens, as quais têm exercido bastante influência: funcionalista, interacionista, do conflito e de controle (SCHAEFER, 2006; GIDDENS, 2007). Essas abordagens, que defendem ser a natureza do crime de ordem sociológica, haja vista que a definição de crime é estabelecida pelas instituições sociais, receberam contribuições fundamentais da Escola de Chicago16, tanto no que diz respeito às escolas de consenso como às escolas do conflito17.
As teorias funcionalistas defendem que o crime e o desvio decorrem das tensões estruturais e da falta de regulação social, pressupondo que os indivíduos e grupos têm aspirações em relação à sociedade, as quais nem sempre coincidem com as recompensas disponíveis (GIDDENS, 2007). A lacuna entre essas aspirações e suas realizações pode se constituir em um motivador para a conduta desviante ou criminosa, portanto, as normas e regras de uma sociedade devem ser compartilhadas por todos que nela convivem.
Émile Durkheim, representante dessas abordagens, introduziu o conceito de anomia sugerindo que, nas sociedades modernas, as normas e padrões sociais enfraquecem sem serem substituídos, e, não havendo padrões claros para guiar o comportamento, as pessoas ficam desorientadas. Durkheim (2005), para quem o crime e desvio são necessários para a sociedade, reconheceu que o consenso sobre as normas e valores que regem uma sociedade é
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Essas contribuições são, principalmente, referentes aos estudos sobre imigração, relações étnicas e delinquência adulta e juvenil.
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Para as escolas do consenso, o crime é visto como uma falha das instituições e compartilhamento das regras sociais pelos indivíduos; e as escolas do conflito partem do pressuposto que a natureza coercitiva da ordem social é um princípio heurístico e não um juízo factual (SHECARIA, 2004).
impossível de ser alcançado. Assim, Durkheim (2005) descreve o estado de anomia como a perda de direção sentida em uma sociedade diante da ineficiência do controle social do comportamento das pessoas, ficando essas mais agressivas ou deprimidas, o que, consequentemente, resulta no aumento de crimes e suicídios.
O crime e o desvio são vistos por Durkheim (2007) como fatos sociais, os quais desempenham duas funções importantes na sociedade: gerar mudanças e promover a manutenção da fronteira entre o bom e o mau comportamento na sociedade. Essas ideias influenciaram, sobremaneira, a atenção dirigida às forças sociais nas explicações para o crime e o desvio.
A noção de anomia de Durkheim foi adaptada por Merton (1957) para referir-se à pressão imposta ao comportamento do indivíduo quando as normas aceitas conflitam com a realidade social. Segundo Merton (1957), nas sociedades industriais, principalmente, na norte- americana, o sucesso material é uma aspiração dos indivíduos, visto que esse é enfatizado no conjunto de valores dessas sociedades. O sucesso, geralmente medido em termos de posses financeiras, é visto como uma meta para as pessoas, e é a sociedade que oferece os meios para alcançá-lo. Desse modo, aqueles que não obtêm sucesso, seja pela falta de oportunidades ou por outras limitações, sentem-se pressionados e passam a agir de qualquer maneira para o conseguirem, pois “a doutrina ‘os fins justificam os meios’ torna-se um princípio orientador para a ação” (MERTON, 1957, p.681). Assim, para Merton (1957), o desvio é resultado das desigualdades econômicas e da falta de oportunidades iguais, configurando-se no que ele chamou de privação relativa, um elemento central no comportamento desviante.
Ainda na abordagem funcionalista, enquanto Merton enfatizou as reações individuais às tensões entre as aspirações e os meios, Albert Cohen defendeu a ideia de que as reações às frustrações dos indivíduos quanto às suas aspirações são coletivas, através de subculturas delinquentes (GIDDENS, 2007). A perspectiva de Cohen (1955) situa o desvio em termos de grupos subculturais que adotam normas que encorajam ou recompensam o comportamento criminoso, concordando com a ideia de que as contradições e tensões existentes na sociedade industrial norte-americana possam ser a principal causa do crime naquele país.
As abordagens interacionistas, fortemente influenciadas pela Escola de Chicago, concentram-se na ideia de que o crime e o desvio são socialmente construídos, questionando o modo pelo qual os comportamentos são definidos como desviantes e porque certos grupos, e não outros, assim são rotulados. Rompendo com as correntes centradas nas causas do fenômeno criminalidade e não no processo social por meio do qual esse ocorre na sociedade, os interacionistas entendem que o crime não é um fenômeno isolado, pois resulta de uma
reação social a determinado comportamento, e, portanto, o seu estudo requer a análise de todos os atores sociais, ou seja, os criminosos e aqueles que reagem ao crime.
Nessa abordagem, situa-se o sociólogo e criminologista Edward H. Sutherland, um dos primeiros estudiosos a sugerir que o desvio é aprendido nas interações sociais18. Sutherland19 formulou a Teoria da Associação Diferencial, uma concepção sociológica do comportamento criminal segundo a qual um indivíduo se torna criminoso pela associação com pessoas que são portadoras de normas criminais. Segundo essa concepção, em uma sociedade composta por uma variedade de subculturas, alguns ambientes sociais estimulam as atividades ilegais, pois o comportamento criminoso é aprendido, segundo Sutherland, dentro de grupos sociais primários (SCHAEFER, 2005; GIDDENS, 2007).
A Teoria da Associação Diferencial orienta-se pelas teorias de aprendizagem social, pois repousa suas explicações no comportamento, no processo de aprendizagem, na cultura e subcultura, visto que, para Sutherland (1947), a conduta criminal se desenvolve pela aprendizagem do indivíduo em suas experiências de vida. A aprendizagem, como Sutherland (1947) se refere, decorre do contato com atitudes, condutas, definições, entre outros fatores, e não do processo pedagógico. Desse modo, uma pessoa torna-se delinquente quando as definições favoráveis à conduta criminosa prevalecem sobre as definições favoráveis ao cumprimento da lei, o que consiste na associação diferencial.
Portanto, para Sutherland (1947), a criminalidade não resulta de um processo de socialização falho, e sim, de uma socialização diferencial que, por sua vez, deriva da organização social diferencial, uma expressão que descreve o fato de que, em uma sociedade, os grupos se associam em torno de interesses diferentes. A divergência de interesses resulta em associações diferentes que resultam em três grupos: aqueles que respaldam os padrões de condutas criminosas, grupos que permanecem neutros e aqueles que rejeitam esses padrões de conduta.
A Teoria da Rotulação ou Labeling Approach, também de cunho interacionista, interpreta o desvio como um processo de interação entre desviantes e não desviantes, na pressuposição de que, para que possa entender a natureza do desvio, é necessário descobrir
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Mannheim (1985) faz uma alusão a uma possível influência do sociólogo e criminologista francês Gabriel Tarde sobre Sutherland. A Teoria da Imitação de Gabriel Tarde antecipa-se às ideias de Sutherland quanto a estudar a criminalidade a partir das interações sociais, rejeitando as teorias biológicas. Contudo, para Tarde, a criminalidade decorre de um processo de imitação na sociedade, e não de aprendizagem, como defende Sutherland (ver TARDE, 1976).
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Edwin H. Sutherland elaborou a Teoria da Associação Diferencial, publicando-a, em 1939, na terceira edição do livro Principles of Criminology. Na edição de 1947, Sutherland modificou a teoria suprimindo a palavra
“sistemática” que adjetivava o comportamento criminal e tirava desse o caráter de categoria geral, visto que a teoria gerou críticas e dúvidas quanto ao significado de “criminoso sistemático”.
porque alguns indivíduos recebem o rótulo de desviantes. Nessa concepção, o crime não existe, sendo resultado de uma reação social, e não uma qualidade ontológica da ação. Ressaltando a importância do controle social exercido sobre a sociedade, essa teoria evidencia que o indivíduo recebe o rótulo de criminoso, mas é a sociedade, com seus mecanismos de controle, quais sejam, a Polícia, a Magistratura e o Ministério Público, que rotula as condutas criminosas.
Howard Becker, Erving Goffman e Edwin Lemert, pertencentes à Escola de Chicago, são considerados os sistematizadores mais relevantes da Teoria da Rotulação, com maior relevância para a Escola de Chicago, na vertente da Sociologia do Desvio. Becker (1973) critica as abordagens criminológicas que separam o comportamento normal do desviante, defendendo a ideia de que esse, em si, não é determinante para o indivíduo tornar-se desviante, mas são, sim, os processos não relacionados a esse comportamento (roupas, modo de falar, entre outros) que exercem influência para o indivíduo ser rotulado como tal.
Lemert (2000) defende a ideia de que o desvio é algo bastante comum, sendo um ato praticado pela maioria dos membros da sociedade, e que as pessoas que o praticam, em geral, não são punidas. Para Lemert (2000), o desvio primário (criminalização primária) ou a transgressão inicial, na maioria das vezes, permanece marginal para a autoidentidade da pessoa, ocorrendo um processo de normalização. Porém, se esse processo não ocorre, o indivíduo é rotulado de criminoso, tendo como reflexos o distanciamento social e a diminuição de oportunidades. Para esses casos, Lemert (2000) emprega o termo desvio secundário (criminalização secundária), um processo em que o indivíduo internaliza os estigmas ao aceitar esse rótulo, assumindo, definitivamente, a identidade criminosa e desenvolvendo, então, uma carreira criminal.
Goffman (1986), por sua vez, vai explicar o processo de estigmatização, o qual consiste na imposição de rótulo e de etiquetamento social que leva à criação de uma nova identidade social, a qual fará o indivíduo assumir um novo papel na sociedade. O estigma, segundo Goffman (1986), é o rótulo negativo utilizado pela sociedade para descrever os membros de um grupo social de forma a desvalorizá-los, o que acaba por criar, nas palavras do autor, uma “identidade deteriorada”. O indivíduo não precisa ser culpado de um crime para