• Sonuç bulunamadı

Em inúmeros municípios e localidades maranhenses como Codó, Cururupu, Lençóis, São Luís, dentre outros, os pajés ou curadores são figuras conhecidas do grande público. Nos finais de semana à noite ou em determinadas datas ao longo do ano, é comum ouvir-se o som dos tambores dando passagem aos rituais de pajelança. Os curadores, espalhados por todo o estado, geralmente participam da vida ativa das comunidades enquanto líderes comunitários e participantes da vida política das cidades. As pessoas que foram tratadas por eles, mantêm relações de amizade, formando grupos de fidelidade e redes sociais.

Os Pajés, em suas práticas de cura, além de se dedicarem à realização de rituais públicos e semi-públicos denominados de serviço de tambor ou trabalho de tambor, também se envolve em atividades variadas. Dentre essas, destacam-se o atendimento a parturientes; confecção e comercialização de remédios caseiros; aplicação de injeções; benzimentos e ritos de proteção para pessoas, animais, barcos, casas, estabelecimentos comerciais, dentre outros.

Os pajés, para realizarem o serviço de tambor, necessitam de um espaço que pode ser um terreiro ou barracão, podendo este pertencer ao mesmo, construído ao lado de sua casa ou cedido por outrem para a realização da pajelança. Neste barracão é comum que haja locais

46 Miguel Arcanjo Paiva, conhecido por vários apelidos, Miguel de Tempo, Miguel Grosso e por seu Orunkó

Deuandá, foi um babalorixá de Candomblé iniciado por Olegário de Oxum no terreiro da Goméia na Bahia, casa cedida pelo conhecido babalorixá Joãozinho da Goméia. Muitos o chamavam de Miguel Deuandá de Yemanjá.

destinados para o quarto de segredos, local onde este se prepara física e espiritualmente antes de começar o ritual; e outro destinado para o trato dos doentes por ele cuidados. É importante que o local seja preparado anteriormente para receber uma mesa com velas, imagens de santos, o material usado pelo pajé e os tambores.

Estes curadores possuem indumentária ritual própria. As mulheres costumam usar grandes saias rodadas, e os homens calças compridas e camisas de mangas curtas ou cumpridas, geralmente de tecidos brilhantes e cores claras ou berrantes. Muitos curadores comumente também utilizam chapéu tipo quepe sem pala ou chapéu de marinheiro. Além das roupas, são imprescindíveis certos adereços como: as glanchamas, as painas ou espadas e o

maracá. Podem ocorrer variações, no que se referem aos trajes e aos rituais desenvolvidos, respeitando as especificidades de cada curador e das cidades em que atuam.

Após a preparação de todos os elementos de ordem física e espiritual para a sessão, esta normalmente inicia com defumações, orações católicas e procedimentos rituais destinados a abrir os trabalhos e proteger o barracão, salão ou terreiro, e os presentes de energias inconvenientes e malefícios. Na sequência, o curador entra sacudindo o maracá entoando uma doutrina, acompanhado pelos tocadores que utilizam diversos instrumentos como tambores, pandeiros e cabaças; além dos participantes que cantam e batem palmas.

Em determinado momento da sessão, os encantados vão “baixando” no curador, que auxiliado por um servente, passa a atender em consulta cada um dos que necessitam de cura, ouvindo-os atentamente e tratando suas enfermidades. O Pajé utiliza diferentes tipos de procedimentos no trato dos enfermos, pois conforme o problema ou doença, pode defumá-lo com cigarro tauari ou de tabaco; aplicar banhos, com mistura de ervas maceradas; dar conselhos; preparar e fazê-los ingerir purgantes, laxantes, vomitatórios; receitar para ingestão posterior remédios industrializados; chás; lambedores; garrafadas e perfumes com plantas e ervas.

Pode também, durante o ritual, indicar que o enfermo lave peças de suas roupas com diferentes produtos; e principalmente retirar porcarias, feitiços e maloficios do corpo do doente através da sucção feita com a boca diretamente no corpo; ou ainda utilizando copos ou xícaras. Técnica tida como oriunda do xamanismo indígena, mas que análise mais cuidadosa mostra que a mesma era, e ainda é comum entre africanos, praticada desde Portugal, por curandeiros africanos, o que denota intercâmbios de saberes e práticas mágico-religiosos.

No que se refere ao uso de “magia curativa”, percebe-se entrelaçamentos de práticas e cultos, como os presentes tanto no Terecô quanto na Mina-Jeje, que utilizam banhos de ervas para proteger seus devotos e afastar males espirituais. No entanto, geralmente na Mina-Jeje

este é preparado e distribuído, na casa mãe (terreiro) nos dias de obrigação de Vodum. No Terecô, estes podem ser preparados e distribuídos com maior freqüência em gongás domésticos a um número maior de clientes e pessoas que não possuem ligações diretas com o culto.

Envolto em universo de saberes mágico-religiosos, grande parte da população maranhense, do interior quanto da capital, de terreiro ou não, acredita num infortúnio causado por pessoas invejosas e inimigos. Em Santo Antônio dos Pretos, como em todo município de Codó e demais regiões do Maranhão, comenta-se que feiticeiros utilizam-se de roupas ou outros objetos pessoais de determinadas pessoas para provocar doenças e até levá-las a morte, sendo capazes de botar um inseto no corpo ou um sapo na barriga de uma pessoa para arruinar sua saúde.

Acreditam ainda em um malefício muito forte, que no interior do estado recebe vários nomes, dentre os quais “coioio”, capaz de provocar problemas de saúde, econômicos e amorosos. Segundo afirmam, para produzir o “coioio” o feiticeiro serve-se de roupa, cabelo, resto de comida da vítima e pronuncia palavras contidas em fórmulas especiais. Para cortar seus efeitos é preciso a intervenção de pajés, curadores ou doutores do mato, “praticantes da magia curativa”, que invocam seus encantados, utilizam remédios, banhos, defumadores, preparados com raízes e folhas para tratar de males físicos ou espirituais.

Ainda nos dias atuais, muitos curadores, pajés e “cientistas” são procurados por pessoas atingidas por feitiços ou infortúnios. Durante as sessões de cura estes são capazes de fazer alguém atingido por malefícios expelir pela boca, pelo nariz ou por outras partes do corpo, insetos, contas e inúmeros objetos maus introduzidos no seu organismo por um feiticeiro; assim como para os protegerem contra novos ataques. No entanto, neste universo de saberes, muitos pajés eram e são alvos de desconfianças, pois muitas pessoas afirmam que “quem tira também bota”, gerando tensões e conflitos entre as diferentes denominações religiosas presentes nos municípios.

Apesar do clima muita das vezes não favorável, muitos são os curadores que colocaram seus dons a serviço das pessoas, procurando seguir as determinações das entidades que os guiavam. Em diferentes épocas, em solo maranhense, apesar do controle policial e da desconfiança por parte das autoridades governamentais, pajés ou curadores ousaram não se curvar diante das dificuldades e desafios impostos. Esses agentes de cura, em decorrência de seus saberes e práticas mágico-religiosas desenvolvidas, ficaram na memória da população e são reverenciados pelo povo-de-santo até hoje.

Um nome nunca esquecido, que merece destaque, é o do curador e umbandista José Cupertino de Araújo. Esse maranhense, natural de São Bento, iniciou suas atividades de cura na cidade natal, sendo muito conhecido como vidente. Figura carismática, transferiu-se posteriormente para São Luís, onde abriu a Tenda Espírita Deusa Iara, no Caratatiua, bairro do João Paulo. Nela deu continuidade a suas atividades, dentre as quais, receitando aos que a ele recorriam em busca de cura, defumadores, chás, remédios caseiros e de farmácia. Costumava distribuir gratuitamente, em suas sessões de gira, banhos e passes.

Cupertino, considerado um curador nato, em pleno ritual, durante as consultas, recebia em transe, diversos caboclos. Dentre os principais, Itapuitinga, Cigana Diamantina, Aimoré, Rei Sebastião, Dalera, Beira-Mar e Princesa Ningapara. Nesses, como fazem os pajés, costumava tirar contas de seu corpo e introduzi-las nas pessoas enfermas em tratamento. Prática denominada, popularmente, de “botar conta”47. Em sua tenda costumava realizar

sessões espíritas, que atraiam muitas pessoas, inclusive de poder aquisitivo e social mais elevado. Dentre suas inúmeras obras de caridade, mantinha em seu Centro Espírita uma escola, conhecida por “Colégio Cupertino”, destinada a educação das pessoas carentes da comunidade.

José de Cupertino viajou para o Rio de Janeiro, onde morou alguns anos. Lá conheceu e ingressou na Umbanda, tornando-se umbandista. Ao retornar ao Maranhão, nas eleições municipais se candidatou a vereador por São Luís, conseguindo se eleger por dois mandatos com votos de pessoas filiadas a sua tenda e clientes, tornando-se o primeiro vereador umbandista. No inicio do Governo de Newton Belo, por sugestão do então chefe de polícia Adelson Lago, fundou a Federação de Umbanda do Maranhão, disseminando esse culto por todo o Estado.

47 “Botar conta” é um procedimento muito comum entre pajés de diversas regiões do Maranhão e de diferentes

partes do Brasil e do mundo, e é um dos sinais patognomônicos da pajelança. Esse procedimento trata da retirada do corpo do curador de pequenas contas, semelhantes a miçangas. A finalidade dessas contas é dar segurança ou dar firmeza aos doentes, especialmente nos casos de perturbação por bicho d‟água. Batendo nas próprias costas e retirando as contas de sua boca ou de diferentes partes do seu corpo, os pajés costumam colocá-las nos enfermos. Essas podem ser engolidas ou absorvidas pela pele, pois durante a sessão o curador as esfrega no corpo do doente. Cf. ASSUNÇÃO, Luiz Carvalho de. Reino dos mestres: a tradição da jurema na umbanda nordestina. Rio de Janeiro: Pallas, 2006. Procedimento semelhante é comum no culto da Jurema, encontrado em todo território brasileiro, em que na iniciação, também chamada de ser “juremado”, ocorre a introdução de sementes de jurema no corpo da pessoa que sofre o processo iniciático.

À frente dessa federação, que presidiu durante vinte anos, procurou oferecer aos curadores respaldo legal. Como o curandeirismo é considerado crime no Brasil desde 1890, ao “transformá-los” em umbandistas, possibilitou aos mesmos, através dessa estratégia, o não enquadramento enquanto contraventores. Nesse sentido, provavelmente muitos curadores se tornaram “mineiros” para se esquivar de problemas com a polícia, o que não impediu que continuassem a ser procurados enquanto pajés, pois grande parcela da população acredita que muitos problemas de saúde, só os caruanas da corrente dos curadores podem curar48.

Em decorrência de sua fama de vidente e curador, costumava receber para tratamento de saúde, pessoas de todo o Maranhão e de outros estados, muita das vezes encaminhadas por outros pais e mães-de-santo. Assentou vários terreiros, preparou e iniciou muitos filhos-de- santo, como Maria Augusta Lopes dos Santos, da Tenda de Umbanda Cosme e Damião, no bairro do Lira. Em 1984, aos 80 anos de idade, acometido por problemas renais e cardíacos, veio a falecer. Após seu tambor de choro, sua casa foi fechada e um ano depois seus “funda- mentos” foram despachados pelo babalorixá Jorge Itaci.

Na memória de curadores, do povo de terreiro maranhense e pesquisadores, não faltam referências a Maximiana Silva. Segundo Rosário Carvalho49, essa mãe-de-santo e curadora,

nascida na região do Mearim, no estado do Maranhão, desde criança sentiu manifestações mediúnicas, mas estas foram suspensas em um terreiro do Mearim. Casou-se com um português pobre não tendo filhos. No entanto, adotou uma sobrinha de nome Bárbara, hoje já falecida, um menino de nome João, que mora em Macapá e criou muitas outras crianças como filhos. Aceitou sua mediunidade, entregando-se à religião afroindígenas já adulta, tendo sida iniciada no terreiro de Vó Severa, mãe-de-santo que saíra da Casa Nagô.

Mãe Maximiana abriu o terreiro Fé em Deus, provavelmente após 1925, no bairro do João Paulo, transferindo-o posteriormente para um sitio no bairro Angelim, onde foi muito freqüentado.Tornou-se bastante conhecida em São Luís e em todo o Estado, realizando em seu terreiro sessões de tambor de Mina, de cura/pajelança, além de festas, como a em homenagem a Dom Pedro Angassu, no período junino, em torno do dia 29 de junho – dia de São Pedro, com procissão em um rio que passava naquela área. Nessas, costumava receber

48 Para aprofundar questões referentes à vida de José de Cupertino e as concepções de cura, ver: SANTOS,

Rosário; FERRETTI, Mundicarmo. José Cupertino na religião afro do Maranhão. In: Comissão Maranhense de Folclore, Boletim on-line nº 20, Agosto de 2001; FERRETI, Mundicarmo. Encantaria de “Barba Soeira”. Op. cit.; LIMA, Zeneida. O Mundo místico dos caruanas e a revolta de sua ave. Op. cit.

49 SANTOS, Maria do Rosário C. e SANTOS NETO, Manoel dos. Boboromina. Op. cit. Cf. ALVARENGA,

Oneyda. Tambor-de-Mina e Tambor de Crioulo: registros sonoros de folclore nacional brasileiro II. São Paulo: Biblioteca Pública Municipal, 1948. Maximiana nunca teria saído de São Luís e fora iniciada na Mina, por volta de 1925, no Terreiro Santa Bárbara, por Paula Manuela. Ela teria informado aos pesquisadores que aprendeu mina em 1925. Informações estas que diferem da pesquisa de Rosário Carvalho.

visitas de pais e mães-de-santo, de Campo Maior, no Piauí e de diversas cidades, com os quais possuía ligações. Dentre eles, Eusébio Jânsem, de um dos terreiros mais antigos de Codó, sendo considerada uma das introdutoras da “linha da mata de Codó”, o Terecô no Tambor de Mina.

Muito procurada por diversos setores da população maranhense, em busca de cura, essa rezadeira, “médica” e conselheira não se dizia curadeira e sim “experiente”. Em seu terreiro “cruzava” crianças com erva, copo d‟água, vela, embira, reza, nó. Utilizando para diversas finalidades banhos e cheiros, como jardineira, arruda, guiné, pau d‟Angola, alfazema, patchouli ou oriza, etc. No Angelim, Maximiana costumava realizar diversos “trabalhos”, sendo sua casa freqüentada por pessoas de diversos setores da sociedade, chegando a possuir muitos bens.

Com uma vida dedicada à causa dos Voduns, encantados, orixás, caboclos e santos, na velhice sofreu de mau de Parkinson e um acidente cardiovascular. No final da vida distribuiu seus pertences, dentre as quais, suas imagens de santos, suspendendo as diversas atividades que realizava, praticamente desativando seu terreiro. Essa curandeira, rezadeira, faleceu em meados de 1975, permanecendo seus ensinamentos, suas práticas terapêuticas na memória da comunidade de santo maranhense50.

No que diz respeito ao uso de “magia curativa”, o nome de destaque, no município de Codó, é o de Maria Silva Lima, a “Maria Piauí”, que teria nascido em Teresina, no dia 1º de abril de 1916 (ou 1915). Nessa cidade, essa famosa curandeira iniciou suas atividades religiosas, mudando-se em seguida para a Parnaíba, realizando seus trabalhos nas duas cidades concomitantemente. Era também chamada por muitos de Maria Carinhosa, pelo fato de ter se casado com Bernardo Carinhoso, com quem tivera um filho biológico e criado vinte e dois outros adotivos.

Maria Piauí, fundou em 1936, em Codó, a Tenda Santo Antônio, de Tambor de Mina e de Mata. Nessa realizava diversos tipos de “trabalhos”, principalmente de cura, amor, casamento, justiça e perseguição. Seus clientes eram de diferentes estados da federação, das mais variadas classes sociais e ramos profissionais, dentre os quais muitos políticos maranhenses.

50 Para aprofundar o conhecimento da vida e trajetória de Maximiana Silva, ver: FERRETI, Mundicarmo.

Tambor-de-Mina em São Luís: dos registros da Missão de Pesquisas Folclóricas aos nossos dias. In: Revista Pós de Ciências Sociais – UFMA. São Luís, v. 3, nº6, Jul/Dez. 2006; SANTOS, Maria do Rosário C. e SANTOS NETO, Manoel dos. Boboromina. Op. cit.; ALVARENGA, Oneyda. Tambor-de-Mina e Tambor de Crioulo. Op. cit.

Maria Carinhosa viajou por todo o Brasil, atendendo a todos que a procuravam, tornando-se a mais conhecida curandeira do Estado do Maranhão. Preparou e iniciou, nos mistérios da religião afroindígena, inúmeros pais e mães-de-santo e curadores de Fortaleza, Teresina e Macapá. Faleceu em 1985, e teve como herdeiro de seus trabalhos José Crispim Silva, seu filho adotivo.

Outro nome de destaque na arte curativa do Maranhão, é o de Antônia Oliveira de Almeida, conhecida como Mãe Antoninha. Nascida em 14 de janeiro de 1915, em Codó, numa família de terecozeiros e de curadores, sendo que seu avô era curador e conhecia a doença pelo cheiro da roupa usada do cliente. Viveu seis anos em Santo Antônio dos pretos, onde foi preparada, ainda na infância, por sua tia Melânia e um tio que lá moravam, mas somente desenvolvendo seus dons e dedicando-se a serviço dos encantados muitos anos depois.

Mãe Antoninha trabalhou mais de 30 anos na fábrica de tecelagem de Codó como fiandeira, aposentando-se posteriormente na mesma. Teve quatro filhos biológicos, um morreu, dois moram em São Paulo e a mais velha, que é cega, morava com ela. Dançou muito terecô na mata de coco, longe dos olhos da polícia e dos ouvidos da alta sociedade local51. Afamada rezadeira e curandeira, em sua casa rezou em muita criança para tirar “mau-olhado”. Dava passes, preparava muito banhos, garrafadas, defumador e confeccionava amuletos (fita trançada), e muitas outras ações terapêuticas e protetoras para quantos a procurassem.

Morou em São Luís, esteve na Bahia e em São Paulo, onde realizou muitos “trabalhos”, possuindo clientes em inúmeras cidades maranhenses, Belo Horizonte e outros estados brasileiros. Fundou a Tenda Espírita de Umbanda Santa Bárbara, localizada na Rua Senador Montoril nº 1110, após a morte de sua mãe, quando recebeu desta em seu leito de morte seus “segredos”, as pedras de assentamento de seus guias. Seu salão é considerado um dos grandes da cidade e que possuía atividade intensa, sendo por ela dirigido até 4 de janeiro de 1997, data do seu falecimento. Atualmente esta sob o comando de sua sobrinha Maria dos Santos.

No que se refere a pajés e rituais de pajelança afroindigena, falar de curadores no município de Cururupu, no litoral norte do Maranhão, é falar de um universo de saberes permeados de entrelaçamentos. Nesta cidade, a maioria dos pajés começaram a utilizar, para a realização de seus toques, instrumentos tais como os abatás, tambores da Mina-Nagô, como o

51Para aprofundar questões ligadas à vida e “trabalhos” realizados por Mãe Antoninha, ver entrevistas realizadas

por Mundicarmo e Sérgio Ferreti In: FERRETI, Mundicarmo. Encantaria de “Barba Soeira”. Op. Cit. p. 108- 117; FERRETI, Mundicarmo. Maranhão Encantado. Op. cit. p. 103-105.

tambor da mata, do terecô; cabaças e ferros. Isso há uns cinqüenta anos atrás, sob a influência da mãe-de-santo Isabel Mineira, hoje já falecida, que havia sido iniciada no Tambor de Mina em São Luís.

A introdução de tais instrumentos por Isabel Mineira propiciou um aspecto festivo e aberto ao público que chamou a atenção de outros pajés que trabalhavam somente com o maracá e toques de palmas. Atualmente, muitos pajés em Cururupu, utilizam de uma série de elementos oriundos do Tambor de Mina para chamar a encantaria e realizar seus trabalhos de cura. Em muitos casos, os abatas e o tambor da mata é acompanhado por duas tabocas, formado por dois pedaços de bambu e percutido diretamente no chão ou sobre uma laje, tocado geralmente por mulheres.

Nesses contatos rizomáticos, não podemos esquecer inúmeros pajés existentes em Cururupu, que em seus barracões realizam serviço de “tambor”, curando as pessoas que a elas recorrem, como José Reis, também conhecido como Zé Reis ou Zezinho Reis, um dos mais célebres pajés de Cururupu; Antônio Justino de Jesus, conhecido como Justino, que trabalha como curador no bairro de Areia Branca, na estrada de acesso a Cururupu; o pajé Aristeu Pires, conhecido como Teuzinho, que possui terreiro no povoado de Soledade; Benedita Cadete, famosa curadora, com terreiro no município, e Humberto de França Ribeiro, conhecido como Betinho, filho e irmão de curadores, que nasceu em Pé de Galinha, povoação do interior de Cururupu.

Na Ilha dos Lençóis, arquipélago pertencente ao município de Cururupu, existem terreiros de Tambor de Mina e curadores, como seu Zé Mario, conhecido como Zé Limão, de 70 anos de idade, nascido na Ilha, foi iniciado por Pai Euclides, da Casa Fanti-Ashanti, de São

Benzer Belgeler