• Sonuç bulunamadı

Em um universo permeado de negociações e trocas culturais em torno de saberes e fazeres para curar a si, seus iguais e animais, nos deparamos com circuitos inusitados, na contramão de isolamentos, no sentido de constantes interações, como o caso da Pajé Zeneida Lima, nascida em Belém, no bairro do Jurunas, mas que foi criada e viveu muito tempo na ilha do Marajó, na fazenda de seus pais. Sentiu desde a infância, no próprio corpo, doenças que nada mais eram que manifestações, sinais que indicavam seu pertencimento à “linha do fundo”. A menina teria que seguir a lei da natureza, ser sentada para atuar como pajé. No Marajó, aprendeu a arte da pajelança e foi “assentada” pajé por Mestre Mundico de Maruacá, filho do pajé Mestre Modesto. Os dois moravam além de Salvaterra, do outro lado do rio Paracauari.

Zeneida casou, separou e teve dois filhos, uma menina e um menino, morarando um bom tempo no Marajó e em Belém, como no Rio de Janeiro; sem perder ligações com a Casa das Minas de São Luís, no Maranhão, e contatos com pessoas das mais variadas culturas e nacionalidades. Desde a infância, interagiu e aprendeu com vários pajés como Rouxinho do Bacabal, Mestre Lili, Mestre Elpídio, dente outros. Atualmente, continua atuando como pajé, vivendo em interação direta com a natureza e atendendo incontável clientela de todo Brasil e de outras partes do mundo.

Outro exemplo desses percursos trilhados em circuitos nacionais é o relato feito por José de Carvalho acerca da curandeira Maria Brasilina, que era cearense, e teria vindo para a Amazônia quando criança, tornando-se pajé. Segundo ele, era uma mulher casada, tinha filhas moças, era modesta, discreta e caridosa. Era analfabeta, mas que impressionava pelo seu porte e suas atitudes ponderadas, discretas e inteligentes. Tinha o porte de uma verdadeira matrona, não se gabando de sua ciência, nem se envaidecendo com sua popularidade52.

Carvalho53 se refere a Maria Brasilina como a “mais celebre pajé do baixo Amazonas”. Em sessão assistida em Belém, falou que essa mulher, além de curar, trazia o

52 Cf. CARVALHO, José. O Matuto Cearense e o Caboclo do Pará: contribuição ao folclore nacional. 2. ed.

Fortaleza: Imprensa Universitária da Universidade Federal do ceará, 1973, pp. 33-34.

dom da adivinhação, demonstrando ser um pajé de nascença. Um dos mestres recebidos por ela, que chamou a atenção, foi Pai João, que pela descrição do seu andar e falar lhe parecia um africano. Incorporado na curandeira, Pai João falava em uma linguagem incompreensível.

A observação feita por José de Carvalho, de mestre Pai João, recebido pela cearense Brasilina ser supostamente de origem africana, expande interações entre pajelança indígena e os cultos de matrizes africanas na Amazônia.

Em decorrência de sua identidade rizomática, a característica geral da pajelança está em sua flexibilidade cultural, viabilizando importante heterogeneidade de conjunto ritual e mítico, de concepções ontológicas sobre a encantaria, e uma larga distribuição em todo o espaço social, espalhando-se localmente, e constituindo, posteriormente, um elemento cultural comum em locais distantes de onde tiveram origem.

Um exemplo desse fenômeno foi a conjugação de taboca e tambor ocorrida nos salões de curadores em Cururupu. Essa junção foi encontrada na pajelança afroindígena do Pará, segundo Vicente Salles54, pelo bispo Dom João de São José Queiroz, em 1762-1763. Importa reter que muitos dos procedimentos utilizados nos rituais de pajelança afroindígena em diferentes cidades do Nordeste, são comumente encontrados em terras paraenses e vice-versa. Injunções que nos fazem perceber que corpo, memória, ritmos e ritualidades, articulam-se em dimensões imateriais, entre culturas africanas e indígenas.

Percorrendo muitos circuitos, a Mina chegou a Belém em meados do século XIX. De origem histórica mais antiga em terras paraenses, a Mina é uma religião trazida por africanos escravizados vindos do Daomé, República Popular do Benin, para os estados do Maranhão e Pará. A migração destes religiosos afro-brasileiros entre os estados do Maranhão e Pará ocorreu em duas etapas: a primeira composta por religiosos maranhenses migrantes da economia gomífera e a segunda constituída por paraenses que foram para o Maranhão em busca de iniciação durante as décadas de 70 e 80 do século XX. Diferentemente da história maranhense, não se tem conhecimento “nas águas do Pará” de terreiros de raiz fundados por africanos em solo paraense.

O Terreiro mais antigo de Mina que se tem conhecimento, em Belém do Pará, é o “Terreiro de Mina Dois Irmãos”, antigo “Tambor de Santa Bárbara”, fundado em 23 de agosto de 1890, pela maranhense Mãe Josina de Verequete, que migrou para o Pará no século XIX. Essa mãe-de-santo, ainda muito jovem, construiu seu terreiro na antiga Rua da Pedreira, atual Passagem Pedreirinha nº 282, no Guamá, em Belém, com material extraído das matas

existentes no bairro. Este terreiro Mina, considerado o mais antigo de Belém, funciona até os dias atuais, atendendo inúmeras pessoas que a ele recorrem em busca de cura e conforto espiritual.

Mãe Josina, em seu terreiro, além das sessões de cura, realizava festas ou “toques” em homenagens aos seus patronos, dentre os quais, no dia 23 de agosto, dia de São Sebastião das Flores, em reverência ao seu guia espiritual Toya Verequete. No dia 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara, toque dedicado a guia Maria Bárbara Babassueira, e no dia 19 de março, dia de São José, toque dedicado ao guia Dom José Rei Floriano. Entidades que vieram para Belém juntamente com a mãe-de-santo. Outras cerimônias eram realizadas ao longo do ano, como toques para vários Voduns, Orixás, Caboclos, Sábado de Aleluia, Domingo de Páscoa, etc.

Mãe Josina de Verequete desempenhou suas funções até o ano de 1929, quando aos 59 anos veio a falecer. Após a morte da fundadora, cumpridos os preceitos e passados os rituais funerários, assumiu a direção da casa uma de suas filhas-de-santo, chamada Mãe Amelinha de Dom José Rei Floriano, que com dedicação deu continuidade aos trabalhos. Amelinha retomou a realização das três festas aos padroeiros da casa e posteriormente reabriu a outras atividades, como as “Chamadas” e as “Linhas de Cura”. As Chamadas na quarta-feira para Dom José e na quinta-feira para Toya Averequete, e a Linha de Cura na segunda-feira, uma vez por mês.

Amelinha, mãe de duas filhas biológicas, profissionalmente trabalhava como zeladora no Cemitério de Santa Isabel, passando também a dividir seu tempo entre o trabalho, a criação das filhas e a direção do terreiro. Em sua gestão enquanto “Mãe do Terreiro”, Amelinha mudou o nome do mesmo de Tambor de Santa Bárbara para Terreiro de Mina “Dois Irmãos”, de Mãe Amelinha de Dom José Rei Floriano.

A denominação “Dois Irmãos” faz referência a Dom José Rei Floriano, seu pai de crôa e Toya Verequete, como pai de terreiro, pois era o pai de crôa de Mãe Josina. Essa valente Mãe veio a falecer no dia 14 de Junho de 1991, aos oitenta anos de idade e setenta e três dedicados à Mina. Seus ritos fúnebres foram acompanhados por uma verdadeira multidão que prestou suas ultimas homenagens a essa grande mãe-de-santo e curadeira.

Mãe Amelinha foi sucedida, na direção do terreiro, por sua filha biológica Luisa Ninfa da Costa Oliveira, mais conhecida como Mãe Lulu de Verequete. Essa paraense, nascida em Belém, além de navegar nas águas da Mina, foi iniciada em julho de 1985 no Candomblé Ketu, recebendo o orixá Oxum. Cumpridos os preceitos de culto, os toques no terreiro foram suspensos até 19 de março de 1992, dia de São José, reverenciando Dom José Rei Floriano.

Data em que oficialmente retornou às suas atividades normais e Mãe Lulú assumiu sua direção, permanecendo no cargo de mãe-de-santo até os dias atuais.

O Terreiro de Mina Dois Irmãos, sempre foi procurado por pessoas em busca de cura para os males do corpo e do espírito. Suas mães-de-santo sempre atenderam a todos, inclusive todas as quartas-feiras há sessão “de cura” e de auxílio para todos. Muitos são os casos de cura relatados, como este operado por Mestres Curandeiros da casa, conforme nos conta Heloisa:

Tinha uma senhora que morava pra cá, descendo a rua. Ela sempre passava por aqui e olhava. Quando foi um dia ela começou a se sentir mal. Ela desmaiava, passava mal e tal, levaram para o médico, (...) o médico não achava diagnóstico para ela. Aí quando foi um dia o filho dela junto com esse meu cumpadre trouxeram ela aqui. Ela desceu do taxi carregada e tava tendo um trabalho aqui em casa. Aí o mestre que tava na mamãe, não me lembro agora quem era. Ele foi ali pra dentro pegar um remédio; porque a mamãe tem uns remédios, desde o tempo da minha avó isso funciona. Uns remédios numas garrafas grandes, e colocou numa cuia e deu pra ela beber; depois pegou uma cuia grande e deixou uma das meninas segurando que era para ela vomitar dentro dela. Ela tomou o remédio que ele deu dentro da cuia pequena e depois ele bateu três vezes na costa dela e ela vomitou dentro da cuia grande um bolo de cabelo, perna de barata (...) sabe o que é cabeça de prego que dá na água? (...) até isso a mulher vomitou; perna cumprida de aranha (...) a mulher vomitou tudinho. Saiu daqui boazinha. Ela entrou carregada e saiu andando daqui.55

O relato de Heloisa retoma o cotidiano de doenças e sofrimentos de pessoas e o receio, por parte de muitas, de interagir com o “povo de tambor”. Também recupera a oscilação entre tratamento junto à medicina convencional, que não soluciona suas moléstias e a procura de cura no terreiro de mina com as entidades ou mestres de cura, que incorporados conseguem identificar causas da doença, retirando do corpo do enfermo o mal que aflige, restabelecendo equilíbrio.

A presença de pais e mães-de-santo curadores nos terreiros é uma constante, pois com a perseguição policial, cerceamento das práticas curativas nas residências de curadores ou pajés, estes se refugiaram nos terreiros. Muitas de suas práticas foram incorporadas aos rituais já existentes nos mesmos, tornando comum vermos muitos curadores à frente de terreiros de Umbanda, Mina, Candomblé, dentre outros. E a amizade destes com muitas benzedeiras, erveiras, curandeiras, que atendem ou “aviam” muitas das receitas passadas, revelando grande rede de interações entre o “povo de cura”.

55 Entrevista realizada com Heloisa Oliveira, filha biológica de Mãe Lulu, no Terreiro de Mina “Dois Irmãos”,

POVO DE CURA EM “TROCA DE ÁGUAS”: terapêutica medicinal e

religiosa

Ó garrafada macerada do breu das brenhas, Se adonai de mim e do meu peito lacerado. Ó Senhora dos remédios, ó doce dona, Ó chá, ó unguento, ó destilado, ó camomila, Ó belladonna, ó phármakon.

Feitio de oração– Wally Salomão

Entre as comunidades rurais e periféricas, presentes nas regiões Norte e Nordeste, os conhecimentos sobre terapêuticas medicinais e plantas incorporam, às tradições herdadas de contatos entre índios, negros e brancos, conhecimentos e técnicas que chegaram a essas áreas culturais por diferentes fluxos migratórios. As populações locais, nessas diferentes áreas, encontram formas peculiares de resolverem seus problemas de saúde e trato do corpo, recorrendo a acervos de saberes e conhecimentos tradicionais, transmitidos oralmente e organizados, muita das vezes, em forma de narrativas de caráter mítico, mágico e religioso.

Torna-se significativo que a temática das plantas medicinais esteja presente em várias narrativas míticas, relacionadas aos orixás, dentre as quais, a que Ossaim, senhor das ervas terapêuticas, recusa-se a cortar as ervas miraculosas. Neste itan:

Ossaim era o nome de um escravo que foi vendido a Orunmilá. Um dia ele foi à floresta e lá conheceu Aroni, que sabia tudo sobre as plantas. Aroni, o gnomo de uma perna só, ficou amigo de Ossaim e ensinou-lhe todo o segredo das ervas. Um dia, Orunmilá, desejoso de fazer uma grande plantação, ordenou a Ossaim que roçasse o mato de suas terras.

Diante de uma planta que curava dores, Ossaim exclamava: “Esta não pode ser cortada, é a erva que cura as dores”. Diante de uma planta que curava hemorragias, dizia: “Esta estanca o sangue, não deve ser cortada”. Em frente de uma planta que curava febre, dizia: “Esta também não, porque refresca o corpo”. E assim por diante.

Orunmilá, que era um babalaô muito procurado por doentes, interessou-se então pelo poder curativo das plantas e ordenou que Ossaim ficasse junto dele nos momentos de consulta, que o ajudasse a curar os enfermos com o

acabou sendo conhecido como o grande médico que é.1

O itan revela como Ossaim, através do conhecimento do segredo das ervas, foi galgando um lugar de destaque junto a Orunmilá, o orixá do oráculo. Mostra como as matas, florestas e o mato em geral, possuem uma riqueza inestimável, e que para reconhecê-la é preciso ter a sabedoria ancestral que é repassada através da tradição oral. Na natureza podemos encontrar a cura para as mais diferentes doenças, mas poucos são os que possuem o dom de conhecer o poder curativo das plantas. A prescrição destas é orientada pela consulta de Ifá, através do jogo de búzios.

É Ossaim, orixá das folhas, das plantas, do verde, das ervas e da clorofila, o conhecedor do sistema classificatório e organizador dos vegetais, presidindo os processos rituais e litúrgicos que lidam com o poder curativo, medicinal, existente no reino vegetal. Este orixá, ligado a Orunmilá, através do babalossaim, orienta a obtenção e utilização do poder catalizador e restaurador das ervas, no preparo de remédios, banhos, defumações, etc, na busca da cura e do bem estar. Alguns são agraciados por Ossaim com esta sabedoria, tornando-se, como ele, grandes médicos, “sacacas”, “doutores folhas”, “doutor raiz” das comunidades, a quem acorrem os enfermos em busca de cura para as diversas doenças do corpo e do espírito.

O questionamento acerca de como o homem teria conhecido as diferentes ervas e aprendido como utilizá-las em benefício próprio é uma das perguntas mais comuns feitas por crianças, jovens e adultos. Os povos amazônicos, em suas crenças nos encantados, costumam contar uma bela história que, de geração em geração, é narrada a toda a curuminzada e molecada. Contam-nos os mais velhos que:

Um dia, um índio, na floresta, viu um macaco ser picado por uma cobra venenosa. A cobra fugiu e o pobre animal, mesmo gemendo e mancando, conseguiu aproximar-se de um tufo de plantas que vicejava perto.

O macaco cavou a terra ao redor, arrancou algumas raízes, mastigou-as bem e colocou a pasta salivada sobre o ferimento. E ali ficou encolhido, olhos fechados, suou e tremeu não se sabe se de frio ou de febre mas, no dia seguinte, devagarzinho, abriu os olhos, retirou a pasta já arroxeada, mastigou mais raízes, renovou o curativo e tornou a ficar quieto.

Lá pelo fim do dia o macaco ergueu-se, sentindo-se forte, deu um guincho de alegria e desapareceu selva adentro, procurando o seu povo.

O índio foi até o pé da planta, arrancou folhas e raízes, olhou-as bem e guardou na memória tudo quanto observara. E, também, seguiu ao encontro de sua tribo. À noite, ao conselho dos velhos reunidos, contou o que vira,

adentro e foi assim que começou a aprender as lições da mãe natureza. Dizem que nessa empreitada levou muitas luas e quando voltou, voltou velho, mas cheio de sabedoria. Aprendendo e apreendendo os ensinamentos, tornou-se um grande sacaca, isto é, um pajé curador. Não guardou, para si aquela glória. Em vez disso, ensinou a sua gente como e onde buscar a cura para todos os males que, porventura, viessem a afligi-la.

Depois que ao seu povo nada mais tinha a transmitir, andou, certa manhã, bem cedinho, no rumo do sol mal-nascido e desapareceu, sorrindo, no meio da névoa dourada. Morrer não morreu, encantou-se; num grande espírito transformou-se, um nume tutelar de toda a sua nação.

Os filhos dos seus filhos e os filhos destes foram passando os ensinamentos de geração em geração: a cura vinda do sumo das folhas, da pasta de raízes maceradas, das infusões das cascas e das entrecascas, das resinas e do leite das árvores, tudo isso aliado a mel silvestre, à banha de certos animais, ao fel de outros, ao pó dos ossos e até mesmo dos dejetos, não esquecendo cascas secas ou não de determinados frutos utilizadas na forma de chás e/ ou defumações, estas muito boas para espantar os espíritos que trazem enfermidades e vivificar, fortalecer a Mãe do Corpo.

E assim foi. Assim é. Assim será.2

Esta história apresenta os conhecimentos acerca das plantas medicinais enquanto herança indígena. O homem aprendeu as propriedades curativas dos vegetais através da observação dos hábitos e atividades desenvolvidas pelos animais, demonstrando que o homem tem muito a aprender com eles, enquanto seres vivos integrados à natureza. Aprendizado que se dá numa interação direta com a floresta, os rios e todo o ecossistema; numa empreitada que não se desenvolve de uma hora pra outra, mas ao longo de toda uma vida, de forma tal que a sabedoria adquirida se identifica com a maturidade. Nas comunidades indígenas e africanas os idosos são valorizados e considerados sábios, tornando-se os grandes educadores.

Nesta concepção, se faz presente a integração existente entre os mundos humano, animal, vegetal e mineral, que são concebidos de forma integrada e não fragmentada. O conhecimento tradicional das ervas para a cura e equilíbrios físico-mentais é repassado, pelo grande sacaca, através das gerações, demonstrando a ética do saber popular que não guarda para si os conhecimentos adquiridos, mas os socializa em beneficio de todos. Este pajé curador, após repassar conhecimentos adquiridos aos povos amazônicos, transforma-se num Encantado, reafirmando as ligações dos inúmeros curadores existentes com entidades do mundo não-corpóreo no trato, cuidado e proteção do corpo. Os curadores ou sacacas nascem com um “dom”, são escolhidos pelos Encantados que lhes ensinam e, em muito dos casos, os levam para o fundo do rio onde aprendem sua arte. Eles os acompanham do nascimento até a

religiões afroindígenas.

Marcado pela diversidade cultural e ambiental, aliada à sua dimensão continental, em nosso país existem diferentes tradições e áreas de influencia cultural, que resultam em diversificados saberes medicinais. Esses, em diferentes regiões do país, independentemente da presença do Estado, com suas instituições e políticas públicas, desenvolvem diferentes formas de percepção, intervenção e cuidado das pessoas. Esses singulares processos de saúde, doença e bem estar persistem profundamente enraizados na vida de comunidades, constituindo um rico acervo cultural de conhecimentos e práticas.

Na base do inestimável patrimônio sensível e imaterial do povo brasileiro, os diferentes saberes e fazeres no trato da saúde, inerentes a movimentos diaspóricos, muitas vezes desconhecidos e estigmatizados em inúmeras ocasiões, pelo modelo dominante de ciência, muito contribui de forma concreta para a melhoria da qualidade de vida das populações brasileiras. Em múltiplas experiências no trato do corpo e da saúde, agentes tradicionais de cura, no cotidiano de seu oficio, no contato com aqueles que os procuram, consideram como fatores importantes para alcance de um bom viver, as dimensões familiares, comunitárias, mágico-religiosas e social das pessoas.

Em muitos circuitos, pajés, benzedeiras, rezadeiras, erveiros, compreendem o corpo a partir de ampla rede de interações, que vão além dos aspectos biofísicos, englobando dimensões culturais, afetivas, sócio-econômicas e religiosas. O contexto, das práticas tradicionais de cura, não há uma relação única entre uma doença e sua causa, pois estas abrangem diversos fatores. Certas doenças podem ser associadas a questões naturais, como frio, umidade, calor, poeira, vento, tempo; outras podem ter sua origem no comportamento humano, como fumo, excesso de bebidas alcoólicas, uso de drogas, excesso de peso;

Benzer Belgeler