Nosso objetivo agora é fazer uma analogia entre a dialética senhor e escravo e a relação entre harmonia e melodia. Buscaremos compreender em que medida o harmônico é
relação intrínseca parte-todo – [...] pois ela se dá precisamente pela relação ‘totalizante’ que Beethoven estabelece com o sistema tonal.” (WAIZBORT, 1992, p. 37)
122 Dado o escopo teórico deste trabalho, não teremos a oportunidade de realizar esse salto.
123 “Hegel tem, por assim dizer, razão contra si mesmo: a opressão histórica vai muito mais além do que diz sua estética e no estado atual o artista tem uma liberdade bem menor do que Hegel podia pensar no início da era liberal. A dissolução de todo elemento preestabelecido não deu como resultado a possibilidade de usar à vontade tudo aquilo que a matéria e técnica põem à disposição dos artistas [...] Esse gênero de liberdade que Hegel atribui ao compositor e que encontrou sua realização máxima em Beethoven, que o filósofo ignorava completamente, está necessariamente relacionado com elementos preestabelecidos, em cujo âmbito existem múltiplas possibilidades. Ao contrário, o que existe em si e por si não pode ser outra coisa senão o que é e exclui todas as tentativas de conciliação das quais Hegel esperava a salvação da música instrumental. A eliminação de todo elemento preestabelecido, a redução da música quase a uma monodia absoluta, fê-la rígida e destruiu seu conteúdo mais íntimo.” (ADORNO, 2002, p. 24)
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escravo e o melódico é senhor. Só a partir da natureza já trabalhada pela harmonia, entendida como notas musicais, a melodia pode utilizar-se delas e ser livre em seu cantábile. Tal ideia tiramos da lógica hegeliana, que abrange todo o sistema; ela é ontológica.
A fim de fazermos um paralelo entre a relação melodia–harmonia e a relação senhor– escravo, temos a consciência de si como figura do espírito que se desenvolve, e, nesse momento do desenvolvimento da consciência, o seu objeto muda em relação às figuras anteriores. Agora é o aspecto melódico que assume um papel senhoril em relação ao harmônico que, por sua vez, faz-se servo. A consciência em si, que se expressa como movimento, é dinâmica na busca de seu objeto, encontrado ao debruçar sobre si mesma. “Como movimento, a consciência busca outra que enquanto outro é o diferente a ser suprassumido.” (SILVA, 2008, p. 81) Esse é o movimento do desejo de busca da consciência. Aqui, a melodia é esse “encontro com o outro de si” (Ibidem, p. 82),124 que é a harmonia. Nessa busca pela independência que se realiza em relação ao seu objeto, “é na singularidade das partes que haverá a unidade do todo” (Ibidem, p. 83).125 Mas nesse confronto, é preciso “suprassumir a outra parte” (Ibidem, p. 83).126 Uma consciência reconhecerá a outra em um duplo movimento das duas consciências. É a efetiva relação, é a experiência que a consciência de si faz do reconhecimento.127
Na harmonia, falta-lhe o lado mais espiritual da música que é a melodia. A harmonia teme que, nesse movimento do espírito ao mais espiritual, ou seja, ao melódico, ela seja aniquilada. Ela teme morrer em importância diante da superioridade melódica, pois na harmonia ainda não há aquilo que toca o humano no mais espiritual, a saber, o melódico. É no risco de vida “que se conserva a liberdade” (SANTOS, 2007, p. 128). Para Hegel, a vida é esse arriscar indo em direção à outra consciência, a saber,
devem travar essa luta, porque precisam elevar à verdade, no Outro e nelas mesmas, sua certeza de ser-para-si. Só mediante o pôr a vida em risco, a liberdade [se conquista]: e se prova que a essência da consciência-de-si não é o ser, nem o imediato como ela surge, nem o seu
124 “Assim, um momento chave da consciência de si é o desejo, que, por natureza, impulsiona o movimento de retorno, nesse contexto um movimento de retorno da consciência sobre si, no qual se opera o confronto do Eu com o Eu, na tentativa de afirmar identidade pela diferença negada.” (Ibidem, p. 82)
125 “Tudo ocorre de modo que negada a negação da diversidade, efetiva-se a volta à unidade.” (Ibidem, p. 83) 126 “Podemos concluir que ao realizar esse movimento de negação e desejo do outro, a consciência-de-si se apresenta para a outra consciência-de-si, e, só assim, é possível uma plena realização, pois nesse contexto, encontra uma efetividade do seu si com o seu outro.” (Ibidem, p. 83)
127 “Para a consciência-de-si há uma outra consciência-de-si [ou seja]: ela veio para fora de si. Isso tem dupla significação: primeiro, ela se perdeu de si mesma, pois se acha numa outra essência. Segundo, com isso ela suprimiu o Outro, pois não vê o outro como essência, mas é a si mesmo que vê no outro. A consciência-de-si tem de suprassumir esse seu ser-outro.” (HEGEL, 1999, p. 126)
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submergir-se na expansão da vida; mas que nada há na consciência-de-si que não seja para ela momento evanescente; que ela é somente puro ser-para-si. O indivíduo que não arriscou a vida pode bem ser reconhecido como pessoa; mas não alcançou a verdade desse reconhecimento como uma consciência-de-si independente. (HEGEL, 1999, p. 128-129)
Assim, nessa relação, a melodia surge como senhor, enquanto consciência que é para si e é mediatizada consigo mesma por meio de outra consciência, que é o harmônico. Desta forma, a melodia senhoril
é relação imediata do ser-para-si, mas, ao mesmo tempo, como mediação ou com um ser-para- si que é só para si mediante um outro, [...] O senhor relaciona-se de modo mediato com o escravo por meio do ser independente, pois é precisamente a isto que se acha sujeito o escravo, esta é a sua cadeia. (Ibidem, p.129)
Desse modo, a melodia irá se relacionar com a coisa mediante o harmônico,128 “mas o senhor, que interpôs o escravo entre si e a coisa, une-se, deste modo, apenas com a dependência da coisa e a desfruta puramente; mas o lado da independência da coisa, ele o deixa ao escravo, que a transforma” (Ibidem, p. 131). Aqui, a melodia é reconhecida pela harmonia.129 A harmonia, por seu turno, relaciona-se com a música de forma inessencial, seja na sua relação de transformação da música, pois lhe falta a consciência de si do melódico, seja na sua relação com o ser aí determinado, ou o melódico.
A consciência inessencial é assim para o senhor o objeto que constitui a verdade da certeza de si mesmo. [...] o que é para ele não é uma consciência independente; portanto, ele não possui a certeza do ser-para-si como verdade, mas sua verdade é, ao contrário, a consciência inessencial e o fazer inessencial da mesma. (Ibidem, p. 132)
Assim, a consciência servil torna-se a verdade da consciência independente.
O escravo nega a natureza dada para criar a espiritual. Lembremos que, antes da harmonia, não existiam as notas musicais como sons singulares, havendo somente o ritmo, que é a medida temporal dos sons, mas não a medida da altura. É na harmonia que surgem as alturas das notas bem-definidas em tom e semitom. Portanto, o harmônico, no lugar do escravo, elabora a natureza (sons) dada pelo ritmo em notas musicais com alturas bem- definidas; só assim, o melódico pode usufruí-la. Deste modo, a verdade para o senhor é a
128 “Mas o senhor é o poder sobre esse ser, pois ele demonstrou na luta que este ser valia para ele apenas como uma coisa negativa; e na medida em que é o poder sobre esse ser, e este ser é o poder sobre o outro, nesse silogismo o senhor tem sob si o outro.” (Ibidem, p. 131)
129 Uma melodia que caminha na escala de DóM em um harpejo Dó, Mi, Sol, será harmonizada por um acorde de DóM que, por sua vez, possui também as mesmas notas do acorde.
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consciência inessencial e o fazer inessencial da mesma, “a verdade da consciência independente é, por conseguinte, a consciência servil” (HEGEL, 1999, p. 132).130
A verdade da harmonia servil é a consciência de si. A melodia é a sua essência, “sua verdade é a consciência independente e existente para-si” (Ibidem, p. 132). Mas ainda não é ela mesma. O que ela tem em si é o fato já experimentado de ser pura negatividade e do ser para si. A essência simples de sua consciência de si é o movimento universal puro, “a fluidificação absoluta de toda subsistência” (Ibidem, p. 133). É a negatividade absoluta, o puro ser para si que assim é nessa consciência. Esse momento é também para o senhor seu objeto. É no estado de servidão que a harmonia
consuma realmente a dissolução; ao servir, ela suprime todos os momentos singulares de sua pertinência ao ser-aí natural e o elimina pelo trabalho [...] O senhor também se relaciona mediante por meio do escravo com a coisa; o escravo, enquanto consciência-de-si em geral, se relaciona também negativamente com a coisa, e a suprassume. Porém, ao mesmo tempo, a coisa é independente para ele, que não pode portanto, através de seu negar, acabar com ela até a aniquilação; ou seja, o escravo somente a trabalha. Ao contrário, para o senhor, através dessa mediação, a relação imediata vem como pura negação da coisa, ou como gozo. (Ibidem, p. 133)
Assim, o escravo é quem domina a natureza, e o ser do senhor se vê dependente do ser do servo. Este vence e domina a natureza, que lhe dá de certa forma a liberdade. No desejo do senhor, há apenas a pura negação do objeto, o que lhe dá um caráter evanescente, pois lhe falta o lado objetivo, a subsistência.
O trabalho, ao contrário, é desejo reprimido, desaparecimento retardado; o trabalho educa. A relação negativa com o objeto torna-se a forma do mesmo, torna-se algo permanente, pois é justamente pra quem trabalha que o objeto tem independência. Este meio negativo ou a ação formadora é, ao mesmo tempo, a singularidade, ou o puro ser-para-si da consciência. (HENRIQUE, 2007, p. 133)131
O reconhecimento mútuo se dá quando, na visão positivista de Hegel, o escravo supera sua inicial alienação via trabalho, pois assim ele recupera sua liberdade. Ao trabalhar a coisa que lhe era estranha, a consciência escrava suprime a forma existente que lhe é oposta. Assim, “ela destrói o negativo estranho e se põe a si mesma como negativo no elemento da
130 “É certo que esta aparece primeiro fora de si, e não a verdade da consciência-de-si. Mas assim como a dominação mostrava que sua essência é o inverso daquilo que ela quer ser, assim também a servidão tornar-se-á, em sua completa realização, o contrário daquilo que ela é imediatamente; ela retornará a si como consciência repelida sobre si mesma e se transformará em verdadeira independência.” (Ibidem, p. 132)
131 “Este ser-para-si agora, no trabalho, se apresenta fora de si no elemento da permanência; este modo, a consciência que trabalha chega à intuição do ser independente, como intuição de si mesma.” (Ibidem, p. 133)
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permanência; e desse modo torna-se para si mesma um ser-que-é-para-si” (HEGEL, 1999, p. 134).132
Reside na natureza da música mesma, em seu interior, um conteúdo espiritual, e a música faz dele sua expressão. Esse conteúdo ecoa como sentimento subjetivo, indeterminado e vago. Assim, os movimentos musicais são essencialmente musicais, estão em seus movimentos próprios e estão sendo regidos por leis e métodos. Eles não são como pensamentos, e nem sempre uma mudança musical evoca uma mudança de um sentimento ou de uma representação.
A melodia incorporou nela mesma o harmônico como sua base não apenas universal, mas igualmente em si mesma determinada e particularizada, em vez de perder desse modo a liberdade de seu movimento, ganhou primeiramente para si mesma a força e determinidade. (Est, III, p. 318)133