Em setembro de 2016, a Comunidade Inkiri concluía os últimos detalhes dos componentes de uma nova economia, na qual entraria em vigor em outubro do mesmo ano. As mudanças fazem parte de um ―alinhamento energético‖, como caracterizou Maíra: um movimento de mudanças na estrutura, o que engloba a economia, o nome de tudo o que envolve a Comunidade Inkiri (Inkiri Piracanga) e a compra do terreno.
Uma maior autonomia e estimulação de circulação de dinheiro dentro e no entorno da Ecovila é o que busca a Comunidade, através da nova economia, de acordo com Diego83. Considerando a necessidade do ser humano de realizar atividades econômicas e estando ele integrado à natureza (considerando que somos natureza), a humanidade, independentemente de seu poder econômico, precisa arraigar seu sentimento de pertencimento e ser mais participativa (SALES & CÂNDIDO, 2015), como disse Diego:
O legal de descobrir que a economia tá próxima da gente é que a gente também pode transformar o nosso sistema econômico, né? Que são os acordos que regem todas essas trocas. A gente não precisa ficar recebendo alguma coisa como dado, como pronto. A gente também tem esse poder de criar novos acordos. A gente pode trazer mais clareza, a gente pode adaptar melhor o sistema econômico que a gente vive hoje pra nossa realidade. A gente pode se empoderar disso.
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Em uma reunião aberta, Diego explicou as novas diretrizes da economia que, no momento, ainda iria entrar em vigor. Compareceu à reunião integrantes da comunidade-núcleo e, em sua maioria, moradores da Ecovila que trabalhavam nos projetos da Inkiri Piracanga. A reunião foi gravada com autorização de Diego.
Nesse sentido, uma economia baseada na natureza foi criada. No novo acordo econômico, os projetos são vistos como árvores. As pessoas que trabalham em um determinado projeto são distribuídas conforme as partes da árvore: raiz, tronco, caule, folhas e flores. Cada um assume diferentes responsabilidades, de acordo com sua função na ―árvore‖. Ou seja, o ―retorno energético‖, ou salário, não é baseado em horas de trabalho, mas na responsabilidade assumida dentro do projeto.
Na perspectiva da ―nova economia‖ da Inkiri Piracanga, o guardião ou líder corresponde a ―raiz‖ – o que sustenta uma árvore (o projeto). O ―tronco‖ corresponde às pessoas que assumem muitas responsabilidades e que, segundo Diego, ―são responsáveis por sustentar grande parte daquele projeto, as pessoas chave‖. ―Os galhos‖ fazem parte da sustentação, embora sejam encarregados de trabalharem em uma parcela mais específica do projeto. ―Se um galho caí, o projeto continua. Talvez ele tenha uma responsabilidade um pouco mais limitada‖, diz Diego. As ―folhas‖ correspondem às pessoas que assumem menos responsabilidades dentro de um determinado projeto. O ―fruto‖ é visto como o objetivo final de um determinado projeto. Os ecovilenses que trabalham nos projetos recebem seus pagamentos de acordo com as faixas de ―retorno energético‖ estabelecidas. A ―raiz‖ tem um maior faixa salarial, enquanto a ―folha‖ recebe menos.
A ideia é que, assim como uma árvore, um projeto também pode ser orgânico, também pode sofrer essas movimentações conforme os ciclos da natureza. É natural que até um galho, um tronco de vez em quando caia. Cada árvore, cada planta funciona de um jeito e cada projeto também [...] A natureza tá constantemente se renovando. Vem o outono e cai todas as folhas, cai o galho, muda a raiz... e tá tudo certo! A ideia é que as árvores, os projetos, também possam se renovar. Então, é incentivado que todas as partes estejam em constante renovação (Diego).
Outra mudança significativa é a implementação da moeda Inkiri, que tem o objetivo de fortalecer ainda mais e economia, aumentando o número de trocas que acontecem localmente. A Inkiri Piracanga passa a ter uma moeda local, assim como já ocorre nas Ecovilas Damanhur e Findhorn. A moeda Inkiri deve possuir a mesma paridade do real. Os ecovilenses que trabalham nos projetos receberão parte do seu ―retorno energético‖ em Inkiri e a outra parte em real. Dessa forma, em outubro de 2016 a moeda começa a circular na região.
Dawson (2004) ressalta os benefícios que a criação de uma moeda gerou em Findhorn e Damanhur ao manter o dinheiro circulando localmente, fortalecendo as relações internas e
incentiva os moradores de uma Ecovila a criarem e expandirem seus próprios negócios locais, já que a demanda por serviços internos aumenta, o que gera mais empregos e aumenta o poder de compra (DAWSON, 2004).
Outro elemento significativo da nova economia da Inkiri Piracanga é a criação da ―Casa Inkiri‖, que corresponde a um ―banco‖, que pode trazer diversos benefícios para uma Ecovila. Entre eles, a diminuição de financiamentos em bancos convencionais (que geralmente possuem altas taxas de juros) e os investidores tornam-se co-proprietários de seus negócios, criando um virtuoso ciclo onde todos são beneficiados (DAWSON, 2006).
A ―Casa Inkiri‖ pode inverter o real pela moeda Inkiri, mas o contrário não pode ser feito. Os projetos podem possuir contas na Casa Inkiri, o que impulsiona as trocas financeiras dentro da Ecovila, entre os projetos. Um projeto pode solicitar o serviço de outro e realizar o pagamento através de uma simples transferência via Casa Inkiri. Além disso, novos projetos podem solicitar empréstimos para o ―banco‖, o que possibilita seu desenvolvimento.
Sendo baseada nos padrões da natureza, a economia da Inkiri Piracanga, assim como a permacultura, têm um caráter mutável, multifacetado, que vai de acordo com as demandas locais e com o que a comunidade vive naquele período. Sobre as semelhanças entre a permacultura e a economia, Diego disse;
Tanto a permacultura quanto a economia daqui, elas são totalmente baseadas na natureza. Essa é a grande conexão. No sentido de que um dos principais pilares da economia, do sistema econômico, é ser equilibrado, ser simples e ser claro, como a natureza e a permacultura. Então, eu vejo que a principal conexão é essa. A natureza como um grande modelo, uma grande orientação pra onde as coisas tem que ir, entendeu? Tipo, tudo que é criado, tanto na permacultura como na economia, é inspirado no funcionamento da natureza.
Os ecovilenses consideram que as soluções para uma economia próspera podem ser encontradas dentro da própria comunidade. Os princípios da permacultura são aplicados em todos os aspectos da vida dos ecovilenses, considerando que, de acordo com Holmgren (2013), esses princípios são aplicados em domínios que lidam com recursos físicos, energéticos e, também, organizações humanas (geralmente chamadas de estruturas invisíveis no ensino de permacultura).
Nesse sentido mais limitado, porém importante, a permacultura não é em si a paisagem, nem mesmo as habilidades de cultivo orgânico, a agricultura sustentável, as edificações energeticamente eficientes ou o desenvolvimento de ecovilas. Mas pode ser usada para planejar, estabelecer, manejar e aperfeiçoar esses e todos os demais esforços empreendidos por indivíduos, famílias e comunidades rumo a um futuro sustentável (HOLMGREN, 2013, p. 33).
permacultura. Para ele, quanto maior a valorização das ―trocas‖, ou seja quanto mais o dinheiro circular dentro do assentamento, melhor será o desenvolvimento do lugar.
Dinheiro existe em relação às estruturas sociais como água existe em relação à paisagem. É o agente de transporte que move e molda as trocas. Como a água não é quantidade total de dinheiro que entra em uma comunidade, o que conta é o número de usos ou tarefas para as quais o dinheiro pode ser transferido; assim como o número de ciclos dessa utilização é que traz a independência financeira a uma comunidade (MOLLISON, 1994, p. 197).
Quando questionada sobre como lida com o dinheiro, em determinado momento, Juliana Faber disse: ―a natureza é próspera, é abundante. Não no sentido de que ela é infinita. Mas ela tem os recursos pra gente viver bem. Mas como você utiliza esses recursos é uma questão‖. Tendo a natureza como uma ―mestra‖, o uso da permacultura na vida cotidiana, como diz Holmgren (2013, p.31), nos dá ―o poder de passarmos de consumidores dependentes para cidadãos responsáveis e produtivos‖.