Diferentemente do que propõe outras ecovilas quanto à autossuficiência no que diz respeito à produção de alimentos, a Inkiri Piracanga depende de feiras semanais para o seu abastecimento alimentar. Capello (2013) diz que dificilmente uma ecovila será consolidada se não puder se dedicar à agricultura orgânica, mirando na autossuficiência alimentar. Mollison (1994) diz que os assentamentos deveriam sempre incluir a ideia da provisão total de alimentos.
Em decorrência da salinidade e pobreza de nutrientes do solo, a manutenção de hortas é uma difícil realidade na Ecovila. Bruno contou alguns motivos da ausência de hortas:
É uma série de fatores que faz com que a gente não tenha horta. O primeiro fator é que, até esse momento presente, não chegou ninguém que realmente quisesse colocar energia pra fazer isso. Então, o fato da gente não ter horta se dá muito
porque nunca chegou uma pessoa que realmente fosse dedicar a vida dele a fazer horta nesse tipo de clima. Ter horta aqui é possível, mas, dentro de uma perspectiva, é você ir contra o ecossistema natural daqui. Porque a gente tá num ambiente de Mata Atlântica, de floresta. Então, o solo funciona predominantemente pra criar árvores, pra criar florestas e, ao contrário de muitos lugares, a gente tá rodeado por essa floresta, então, é um solo rico em fungos. Então, a gente ter horta aqui é, de certa forma, ir um pouco contra o que a natureza tá trabalhando pra fazer.
Portanto, apesar de muitos ecovilenses aspirarem à implantação de hortas nos seus quintais, na perspectiva permacultural, essa ideia vai contra o que o ecossistema local está oferecendo. A Comunidade, dessa forma, prioriza o design do espaço. O princípio de não ir contra o que a natureza local está oferecendo e priorizar o design do espaço é dito por
Mollison (1994), sendo um dos principais princípios da permacultura. De acordo com os autores, a forma mais sustentável ecologicamente de iniciar um design permacultural em qualquer espaço é perguntar: ―O que esta terra tem para me oferecer?‖ ao invés de ―o que posso fazer para produzir?‖ A segunda opção pode levar a uma exploração da terra e não leva em conta as consequências do seu uso em longo prazo.
Pode-se desenvolver uma permacultura complexa em qualquer tipo de região; planícies aluviais de rios, colinas rochosas, brejos, desertos, regiões alpinas. Não é necessário alterar a paisagem estável para atingir condições particulares, como é feito em sistemas agrícolas simples. Toda paisagem e ecossistema natural ditarão a natureza geral da permacultura que for possível; isto é desejável se o sistema deve ter viabilidade ao longo prazo (MOLLISON & HOLMGREN, 1981, p. 40).
O cultivo de grandes hortas exigiria um esforço e cuidado constantes, como disse Bruno, uma dedicação total. O cultivo poderia demorar anos, até décadas para atingir sua produção máxima. Mollison & Holmgren (1983) lembram que planejar um sistema permacultural de acordo com a imagem de um ―produto acabado‖ é contra-producente e não faz sentido.
Essa situação, na qual poderia ser vista como uma desvantagem, foi encarada como uma oportunidade. Encarando como desvantagem, como diz Mollison (1994), o caminho para tornar aquele sistema vantajoso pode ser mais dispendioso energeticamente. Encarando como vantagem e usando a criatividade é possível descobrir uma ―saída‖, ou melhor, uma solução que beneficie todas as partes. Nessa perspectiva, os moradores da Comunidade escolheram incentivar a agricultura familiar das populações do entorno quando optaram por convocar os produtores locais para a realização das feiras semanais que acontecem em Piracanga. Dessa forma, os ecovilenses encontraram a solução para a ausência de hortas, valorizando a economia local. Segundo Bruno:
Então, hoje, nesse momento, o que a gente tem como solução, é trabalhar a sustentabilidade não só como um local, mas... por exemplo, todas as nossas folhas verdes chegam de um lugar próximo, como exemplo, no Caubi, que é onde a maioria dos trabalhadores que não moram em Piracanga vem trabalhar. Então, a população local produz o que a gente precisa pra trazer pra cá. Então, aí a gente começa a fortalecer e expandir uma economia que não é só interna.
Com a realização das feiras de produtores locais, os ecovilenses têm o conhecimento da procedência do alimento, diferentemente do que acontece se as compras fossem realizadas em supermercados, onde, segundo Goldstein (2010), quase tudo é embalado ou contém conservantes, pesticidas ou são de culturas transgênicas. A autora também faz referência ao
exorbitante gasto de combustível fóssil, pois quase todos os produtos vendidos em supermercados vêm de muito longe. Na Inkiri Piracanga, há gasto de combustível para a realização das feiras, pois os alimentos chegam em carros e caminhões. Porém, o consumo de combustível não é tão intenso, pois os alimentos vêm de uma localidade bem próxima à Ecovila.
As feiras acontecem duas vezes por semana e movimentam todo o espaço da Ecovila. É um momento de encontro entre os moradores, participantes de cursos e agricultores locais, assemelhando-se a uma celebração. As crianças moradoras de Piracanga brincam com os filhos dos agricultores, os participantes dos diferentes projetos da Comunidade trocam experiências, os produtores trocam saberes com os permacultores, as pessoas compram os produtos, se alimentam, interagem.
Além de frutas e vegetais são vendidos sucos, bolos, tapiocas, doces, artesanatos, todos feitos por moradores do entorno. As embalagens do suco vendido na feira são retornáveis, ou seja, o indivíduo consome e devolve para o comerciante para serem reaproveitadas ou os próprios ecovilenses as reutilizam.
Os moradores possuem pequenas produções de ervas e temperos que incrementam a alimentação de quem está no assentamento. Dentre esses cultivos estão: alecrim, cebolinha, hortelã, louro, manjericão, menta, orégano, pimentas, salsa, sálvia, malva, entre outros.
Os integrantes do projeto Escola da Natureza e, também, voluntários, cultivam plantas nativas e frutíferas, visando o surgimento do que eles chamam de ―floresta de alimentos‖, que corresponde a um sistema agroflorestal. Além de produzir alimentos, esse sistema fertiliza o solo, que no caso de Piracanga, é originalmente pobre de nutrientes.
O projeto conta com um ―berçário florestal‖ de mudas dessas plantas e, depois de seus crescimentos, elas são plantadas na mata. Em minha última ida à Ecovila, em setembro
de 2016, os primeiros frutos da floresta já estavam sendo colhidos. Entre a diversidade de plantas, estão: cacau, cupuaçu, maracujá, abóbora, pitanga, graviola, laranja, limão e jenipapo.
FIGURA 22 – Berçário Florestal
Autoria própria - Registro fotográfico de setembro de 2016.
Outra fonte de alimentos são as Plantas Alimentícias Não Convencionais, chamadas de PANC‘s, que possuem uma grande importância na Ecovila. Esse termo, segundo Erice (2001), foi utilizado pela primeira vez por Kinupp (2007), referindo-se a plantas comestíveis que não são conhecidas pelo público consumidor. As PANC‘s, muitas vezes consideradas daninhas ou invasoras, são um rico complemento alimentar e podem ser consideradas fonte de renda adicional (KINUPP, 2007). O autor destaca a falta de aceitabilidade da população e de conhecimento diante desses vegetais que tem grandes potenciais de enriquecer nutricionalmente nossas dietas.
Numa caminhada com alguns participantes da vivência de permacultura na qual participei em 2015 e, também, em 2016, Juli – entendedora de PANC‘S - fez um breve mapeamento botânico de plantas alimentícias não convencionais em alguns espaços da Comunidade. Enquanto ela explicava as propriedades das plantas, colhemos algumas delas. São dezenas de espécies dessas plantas em Piracanga. Ao final da vivência, fizemos uma variedade de saladas com os vegetais colhidos e constatamos, numa reunião com o grupo, como desperdiçamos a oportunidade de experimentar diferentes sabores por falta de conhecimento e de iniciativa em pesquisar mais sobre os benefícios e potencialidades das plantas. Esse desconhecimento se dá porque, segundo Kinupp (2007), a história da
alimentação humana sofreu, e sofre, influência da mídia, dos interesses econômicos e de leis de mercados. ―Sendo assim, o homem acabou optando pela especialização ao invés da diversificação alimentar‖ (KINUPP, 2007, p. 7).
Há grande interesse por parte das pessoas da Inkiri Piracanga em descobrir as potencialidades que a terra oferece e as inúmeras possibilidades de uso do solo e consumo do
que lhes são oferecidos, sempre respeitando os ciclos naturais. Dessa maneira, os ecovilenses procuram ultrapassar as barreiras fincadas pelo sistema agropecuário hegemônico.