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Nas duas entrevistas, ao questionarmos a razão da elaboração dos cadernos de LPT, os entrevistados responderam que o material foi criado para suprir uma lacuna: uma nova disciplina havia sido criada, mas não havia um material ou orientação específica. Abaixo, recortamos os trechos em que essa justificativa aparece:

E1

Ana Luiza Garcia – (...) Nós fomos chamados [para elaborar os cadernos] em 2009.

(...)

Egon Rangel – (...) Disseram “a disciplina já está acontecendo, (...) já no primeiro semestre, só que não há material ainda, nem orientação específica pra isso”. Eu me lembro que eu pedi também pra ver o que que teria, a fundamentação para a questão da disciplina, [mas] não tinha nada.

Ana Luiza Garcia – Isso, não tinha nada, não tinha nenhum documento que nos dissesse: “Essa disciplina tem como objetivo...”, nada! Na verdade o que eles nos passaram foram projetos anteriores, o Hora da Leitura, lembra disso?

Egon Rangel – Lembro. (...)

Egon Rangel – Na verdade fomos nós que formulamos os objetivos da disciplina e tudo o que não tinha.

Ana Luiza Garcia – Nós que formulamos os objetivos, o currículo, foi tudo formulado e [isso] está aí na introdução [dos cadernos] (...).

E2

Rozeli Frasca– Nós [da equipe da CENP], de alguma forma, direcionamos o conteúdo disso [do material de LPT], porque vem a demanda do gabinete: “Olha, tem uma nova disciplina, os professores estão atuando e não tem material”, e aí a própria equipe sente esses dados, os PCNPs mesmo: “Olha, existe a disciplina. Seria interessante que os professores tivessem um material de apoio, algo em que eles pudessem se basear para desenvolver os projetos de leitura na escola”. E daí a gente pensou nas pessoas que poderiam produzir esse material, mas todo o conteúdo, a ideia do que seria esse material, isso tudo saiu da equipe de Língua Portuguesa. Veja, para atender uma demanda que era da rede e do gabinete, porque se o gabinete não aprova que seja publicado material de apoio, porque isso demanda verba, tem uma série de decisões administrativas, que não passam pela gente. A gente só cuida do conteúdo pedagógico, a gente só lida com essa parte: o que vai ter no material. Decidir, por exemplo, que Leitura e Produção de Texto teria como base a formação do leitor literário foi iniciativa da equipe de Língua Portuguesa, também, que poderia ser… você fala em leitura e produção de texto, pode ser um monte de coisa.

Na entrevista 1, Ana Luiza Garcia afirma que, ao serem chamados para elaborar o material de LPT, a disciplina já estava em curso sem que houvesse uma fundamentação teórica e metodológica. A formulação dos objetivos e do currículo teria sido, então, realizada pela equipe elaboradora dos cadernos de LPT. Na entrevista 2, por sua vez, Rozeli Frasca aponta que a criação do material foi uma “demanda do gabinete” e da própria rede, sinalizada pelos PCNPs: os cadernos seriam um “material de apoio” para o desenvolvimento de projetos no âmbito da nova disciplina. Levando em consideração essa necessidade, a equipe de Língua Portuguesa da CENP “pensou nas pessoas que poderiam produzir esse material”, direcionando “todo o conteúdo” para a “formação do leitor literário”.

Esse direcionamento parece contrariar as falas de Egon Rangel e Ana Luiza Garcia: “Na verdade fomos nós que formulamos os objetivos da disciplina e tudo o que não tinha” e “Nós que formulamos os objetivos, o currículo”. Tal formulação, entretanto, levou em consideração os projetos anteriores da SEE, como a Hora da Leitura, cujos documentos foram disponibilizados, e as solicitações da equipe de Língua Portuguesa, conforme veremos na sequência. Uma das solicitações foi o uso de livros do PNLD ou do PNBE que foram enviados às escolas110.

A relação entre a nova disciplina e o projeto anterior, a HL, também foi sinalizada por Rozeli Frasca em outro trecho da entrevista. Após eu apontar que o

110 Após informar o envio dos projetos anteriores, Ana Luiza Garcia complementa que “a outra demanda era a história de trabalhar com livros dos acervos. (...) Foi uma demanda da Secretaria: ‘a gente quer que os livros sejam usados’”.

objetivo da formação do leitor literário não estava no nome da disciplina, mas apenas nos cadernos de LPT, a entrevistada esclarece o seguinte: “A gente direcionou esse caminho, porque a gente já tinha uma experiência de trabalho com o ‘Hora da Leitura’, que a gente também direcionou para a formação do leitor literário”.

Mas por que razão a equipe da CENP decidiu, mais uma vez, enfocar o trabalho de formação do leitor literário? Rozeli Frasca responde assim à questão:

(...) Foi uma decisão da equipe de Língua Portuguesa, mas sempre para atender à necessidade da rede, porque, para a leitura e produção dos outros textos, já tem o livro didático, tem os cadernos do professor e tal. E nos Cadernos de professor de Língua Portuguesa não tinham situações de aprendizagem que trabalhassem de forma tão específica e com mais profundidade o estudo de literatura, de uma forma diferenciada também, porque você tem Leitura e Produção de Texto no ensino fundamental e, para o ensino médio, foi produzido um material que se chamava Cadernos de Literatura. Isso veio para complementar o que já havia no caderno do professor e no caderno do aluno de Língua portuguesa. (...) É mais um material para que o professor pudesse planejar a sua aula, elaborar o seu plano de aula, o seu plano de ensino (...).

De acordo com a entrevistada, a equipe de Língua Portuguesa, atendendo a uma “necessidade da rede”, decidiu que LPT se voltaria ao estudo de literatura porque a leitura e produção dos outros textos”, os não literários, já estaria contemplada nos livros didáticos e nos Cadernos de Língua Portuguesa do currículo estadual, não havendo, para os textos literários, um trabalho “específico”, “em profundidade” e “de uma forma diferenciada”. Isso também valeria para o ensino médio, daí a criação dos Cadernos de

Literatura, distribuídos juntos com os cadernos de LPT. Os novos materiais, desse

modo, seriam um complemento para o professor planejar suas aulas.

Na primeira entrevista, também perguntamos aos dois entrevistados o motivo da escolha da formação do leitor literário como objetivo da nova disciplina:

Renata Asbahr – (...) Como que foi definido o objetivo de Leitura e Produção de Texto, que seria a formação do leitor literário, porque é só aqui [nos cadernos de LPT] que isso aparece como objetivo (...). Não tinha uma linha definida anteriormente, não é? (...)

Ana Luiza Garcia – Havia uma demanda para se trabalhar a leitura e produção de texto, ponto, era isso aí, sinalizada pelo nome da disciplina, Leitura e Produção de Texto. (...) Nós é que falamos em letramento literário e tinha [também] a questão do acervo. Eram essas as duas demandas.

Egon Rangel – Foi por conta do acervo que a gente definiu pela literatura também, porque, logo de início, não era a literatura. (...) Na

primeira discussão isso não estava marcado, não estava decidido que ia ser a leitura literária, mas a partir do acervo sim, porque eram todos livros de [literatura].

De acordo com Egon Rangel e Ana Luiza Garcia, a definição da leitura literária como elemento central da disciplina em LPT relaciona-se ao acervo escolhido – o módulo Tecendo/HL do PNLD 2006 –, pois os livros que o compunham eram obras literárias. A partir disso, os autores decidiram trabalhar com o “letramento literário”. Antes de a equipe começar a preparar o material de LPT, foi elaborado um projeto propondo esse trabalho, o qual foi submetido à Fundação Vanzolini e aprovado.

Chama-nos a atenção que a fundamentação teórica-metodológica foi definida a

posteriori, com a disciplina já em curso. O novo componente curricular foi inserido na

grade curricular no início de 2009 com a nomeação genérica “Leitura e produção de texto”, sem a definição de seus objetivos. Tal definição ocorreu no momento em que se decidiu elaborar um material de orientação pedagógica aos professores de LPT. A seleção da “formação do leitor literário” como foco teria sido uma decisão da equipe curricular da CENP e também da equipe elaboradora dos cadernos de LPT, tomando-se por base os projetos anteriores e o acervo de obras selecionadas.

Benzer Belgeler