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Com o fim dos governos militares e a promulgação da Constituição de 1988, alteraram-se mecanismos de mediação entre os interesses de diversos grupos no interior da sociedade, metamorfoseavam-se as relações entre os Estados e a Federação, o que tem desdobramentos significativos em relação aos papéis desempenhados pelos diversos órgãos da burocracia federal. A SUDAM, por exemplo, tem a sua importância crescentemente reduzida, e os planos de desenvolvimento regionais perdem, evidentemente, o peso de importantes elementos norteadores das políticas de desenvolvimento, como tiveram durante os anos dos governos militares. Basta observar o caso da influência quase nula do I Plano de Desenvolvimento da Amazônia da Nova República, I PDA/NR (SUDAM, 1986). Se isso é um fato, por outro lado, as diversas forças, estruturas e tendências que se desenharam a partir da intervenção do Estado nacional nos anos dos governos militares não se dissolvem, e os

parâmetros gerais de ação de importantes atores sociais não sofrem alterações significativas, a sua racionalidade permanece praticamente a mesma.

Nesse cenário, consolidou-se a CVRD e seus parceiros como importantes articuladores de intervenções na Amazônia oriental brasileira. A CVRD, apoiada na magnitude e envergadura dos empreendimentos sob seu controle, suplanta, na sua área de influência, recorrentemente, a própria ação direta do Estado nacional.

É possível, então, se dizer que, durante as últimas décadas, a ação do Estado na Amazônia oriental brasileira mobilizou enormes forças sociais e econômicas responsáveis pela edificação de estruturas dissipativas que produziram na região formas específicas na relação assumida entre a dimensão social e a ambiental. Atores sociais com importante peso institucional e econômico, como a CVRD e seus diversos parceiros – dentre os quais se incluem as indústrias que produzem ferro-gusa e que são o objeto central desta investigação – passam a acessar e mercantilizar os recursos materiais e energéticos da região em ritmos frenéticos, típicos dos tempos próprios das estruturas dissipativas que envolvem a valorização do valor, tentando modelar o cenário regional em conformidade com os seus interesses e imprimindo mudanças significativas e irreversíveis tanto na dimensão ambiental quanto na social.

Edificaram-se, assim, estruturas dissipativas que são regionalmente responsáveis pela movimentação de gigantescos volumes de matéria. Somente por meio do Projeto Ferro Carajás se exportaram entre 1985 e 1996 mais de 344 milhões de toneladas de minério de ferro e 3,5 milhões de toneladas de minério de manganês. Uma aproximação bem geral do quão relevante é o volume material movimentado em função das operações de extração e transformação industrial de recursos minerais recentemente implementadas na Amazônia oriental brasileira pode ser obtida ao se observar o quadro de exportação de alguns produtos minerais nos últimos três anos (Tabela 1).

Tabela 1 - Volume de alguns produtos minerais exportados pelos estados do Pará e Maranhão nos últimos três anos (em milhares de toneladas).

Ano Produto Minério de Ferro Bauxita Minério de Manganês Alumínio Ferro- gusa Silício Metálico Caulim 1994 33.358 4.303 465 653 540 15 515 1995 41.734 4.907 730 594 793 24 560 1996 39.358 4.448 580 619 540 30 597

Os processos de extração e de transformação mineral – portanto, de conversão de matéria e energia em valores de troca – importam comumente na movimentação e dispersão de quantidade de matéria imensamente superior àquela contida na mercadoria comercializada, do que decorrem diferenciadas e significativas interferências nas dinâmicas da dimensão ambiental, provenientes das peculiaridades que envolvem a elaboração de cada um destes produtos.

A extração e a transformação de produtos minerais na Amazônia oriental brasileira implicam também a dispersão de igualmente gigantescas quantidades de energia. Somente o complexo industrial ALBRAS/ALUNORTE, que produz alumina e alumínio, consome mais energia elétrica do que a que é distribuída em conjunto pelas empresas concessionárias estaduais responsáveis pelo abastecimento de energia elétrica para as populações e demais indústrias nos Estados do Pará e do Maranhão, respectivamente a CELPA e a CEMAR (Tabela 2).

Além do gigantismo no que se refere à quantidade de energia consumida pelos empreendimentos envolvidos na transformação de produtos minerais, que ensejou a construção da Usina de Tucuruí, há enormes desigualdades e assimetrias sociais na utilização de serviços ambientais, como se percebe ao se inferir a diferenciação dos valores cobrados pela energia produzida por aquela usina. A ALBRAS, em 1996, pagou uma tarifa média global de US$ 12.38 por MWh, enquanto a CELPA, responsável pelo atendimento das necessidades da população do Pará, teve que arcar com uma tarifa de US$ 26.94 por MWh

(ELETRONORTE, 1996, p. 15). Trata-se, assim, de um exemplo de problemas em torno do

que Alier (1995b, p. 80) chama de “distribuição ecológica”, que importa em assimetrias

sociais que se estabelecem no acesso e no uso de serviços e recursos naturais, com rebatimentos diretos sobre esgotamento dos recursos naturais e sobre quem os utiliza

Tabela 2 - Energia elétrica consumida por empreendimentos mínero-metalúrgicos instalados na Amazônia oriental brasileira e concessionárias estaduais (em MWh).

Ano Empresa

ALBRAS ALUNORTE CVRD CCM ALUMAR CELPA CEMAR

1992 5.228.988 - 169.721 126.891 5.663.165 2.461.916 1.630.804 1993 5.338.284 165.489 200.881 5.628.374 2.639.377 1.741.099 1994 5.346.260 - 188.338 246.395 5.663.803 2.898.481 1.872.953 1995 5.309.224 313.412 214.615 366.390 5.672.851 3.247.985 2.102.375 1996 5.329.746 699.279 200.935 484.325 5.705.292 3.547.152 2.281.340 Fonte: ELETRONORTE (1996, p. 15).

Efetivamente, existem frente a tais estruturas diversos atores sociais, como camponeses, sem-terra e coletores que, vinculados a outras formas na relação assumida entre a dimensão social e a ambiental, representam outros interesses e também mobilizam suas forças noutras direções. Contudo, na síntese histórica atualmente constituída – dotada de diversas contradições que perpassam complexas estruturas sociais e econômicas –, foram e ainda são decisivos para a sua conformação os interesses e o poder de intervenção de atores sociais como a CVRD.

Esses poderosos atores sociais, lançados no cenário regional por meio da intervenção federal, têm suas ações pautadas por uma lógica e racionalidade que não foi descolada de sua gênese; permanecem marcados por padrões estruturadores profundamente vinculados às dinâmicas do mercado mundial.

Há também, dentre as diversas plantas industriais instaladas, significativas diferenças de nível tecnológico, por exemplo, entre as indústrias produtoras de alumínio e as que produzem ferro-gusa. Parece também ser neste caso aplicável a conclusão de Leal (1990) quando indica que a diferença central reside na estratégia de produção de valor. Para ele:

“... a alta tecnologia surge quando é necessária como instrumento da eficiente obtenção de valor; e que a alta tecnologia – e produtividade – não significam um alto grau de aproveitamento técnico dos recursos naturais da região.” (LEAL, 1990, p. 236).

As lógicas dos empreendimentos mínero-metalúrgicos em seu conjunto orbitam, portanto, em torno da valorização do espaço a partir do desmonte de ilhas de sintropia sem atribuir significado maior às especificidades regionais, tanto econômicos e sociais quanto ambientais e sua edificação gestou-se como parte de dinâmicas vinculadas à atuação do aparato estatal.

Conformaram uma estrutura dissipativa, para a qual se forjaram facilidades de acessar recursos naturais com baixíssimos custos econômicos, o que implica, em termos energéticos e materiais, uma ampliação colossal na taxa de produção de entropia e de grandes impactos ecológicos. Também se permite que seja por ela apropriada riqueza social oriunda de fundos públicos e de um vastíssimo patrimônio constituído de recursos naturais, o que, em termos de sua dinâmica estritamente econômica, reflete que sua taxa de lucro vincula-se aos mecanismos de valorização do capital, centralmente assentados na possibilidade de possuírem facilidades para valorizarem ilhas de elevada sintropia com reduzidos custos econômicos.

Benzer Belgeler