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Com o decorrer dos primeiros anos da década de 70, os fundamentos sobre os quais se assentava o milagre brasileiro apresentavam sinais de fadiga, sendo perceptíveis indicações de possíveis desdobramentos recessivos – como já indicou de forma exaustiva a literatura especializada51

Nesse contexto, o Governo Federal criou, em 1974, o “Programa de Pólos de Desenvolvimento Agropecuário e da Mineração” – Polamazônia. Os planos federais previam a implantação de diversos “pólos de desenvolvimento na Amazônia brasileira” (

. Como tentativa de reverter esta tendência, o governo federal dirige

suas ações no sentido de dinamizar a produção – ou implantar novos setores industriais produtores – de bens de capital, através do que se pretendia aquecer toda a economia nacional e manter elevadas as “taxas de crescimento econômico”, o que, evidentemente, requeria financiamento. Na construção de alternativas para geração de recursos para consecução desta empreitada, projetaram-se sobre a Amazônia ações estatais direcionadas ao fomento e à criação de projetos com possibilidade de funcionamento com relativa rapidez que produzissem em larga escala, e cuja produção estivesse voltada para o mercado externo.

BRASIL,

1974, p. 67), vinculados à agropecuária, à extração madeireira, e à produção mineral.

Pretendia o Governo Federal, com a política de pólos de desenvolvimento, direcionar os impactos da política de incentivos fiscais para áreas geográficas selecionadas, concentrando nelas também suas ações de construção de infraestrutura, com a finalidade de propiciar investimentos massivos e espacialmente concentrados52

51

Sobre a crise do milagre e seus desdobramentos consulte, dentre outros,

. Algumas das áreas que integravam o Polamazônia foram a área do complexo ALBRAS/ALUNORTE, o Pólo de

desenvolvimento do Araguia-Tocantins, o Pólo da pré-amazônia maranhense, que tinha áreas de interseção com o Programa Polonordeste, em seu Pólo do Médio Mearim, além, evidentemente, do Pólo de Carajás, o mais importante deles. Estes três últimos polos, em

Singer (1977); Belluzo e Coutinho (1982); Castro

e Souza (1985); e Langoni (1985).

52

Uma análise da concentração de recursos dos fundos públicos nas áreas eleitas no Polamazônia pode ser obtido em

conjunto, abarcaram uma extensão territorial semelhante à da posteriormente abrangida pela denominada área de influência do Corredor da Estrada de Ferro Carajás.

Na metade da década de 70, é apresentado o II Plano Nacional de Desenvolvimento - II PND (BRASIL, 1974) e o II Plano de Desenvolvimento da Amazônia, II PDA (SUDAM, 1975a). Neles, o planejamento estatal apontava a necessidade da criação, na região, de pontos de apoio dinâmico “capazes de irradiar o crescimento em todos os lados”. Esta perspectiva encontrava-se acoplada a estratégias para a economia nacional, na qual as políticas públicas para a região teriam como papel “a consecução do objetivo maior do II PND, isto é, manutenção de altas taxas de crescimento do PIB, por meio de ampla contribuição em relação ao setor de mercado externo” (SUDAM, 1975a, p. 28), direcionando “as atividades de exportação [...] no sentido de vantagens comparativas nítidas e de setores dinâmicos do mercado internacional (carne, minérios, madeiras, celulose)” (BRASIL, 1974, p. 66).

O II PDA aponta que a ação estatal seria voltada para a implementação de um

Modelo Amazônico de Desenvolvimento caracterizado pelo crescimento desequilibrado e

corrigido, indicando que a exploração econômica dar-se-ia de forma diferenciada, mediante o investimento em setores-chave capazes de incorporar maior valor agregado, mas que, em contrapartida, seriam também criados mecanismos para compensar tais desequilíbrios, que estariam vinculados centralmente aos efeitos em cadeia decorrentes de impactos dos investimentos de massivos e concentrados de capitais (SUDAM,1975a, p. 33).

A lógica que orientou a política de modernização regional, materializada pela intervenção autoritária “interessada na ocupação da Amazônia por interesses”, voltou-se, então, decisivamente para a implantação regional de atividades que gerassem divisas. Estas, por sua vez, estavam profundamente atreladas a dinâmicas do mercado mundial que tendem a ser homogeneizadoras (ALTVATER, 1989; COSTA, 1992c), de tal maneira que as especificidades da região só são captadas apenas em termos do que o mercado mundial valorizava, naquele período.

Neste especial, ganhavam peso, nas estratégias de valorização da Amazônia, as reservas minerais da região de Carajás, estimadas em mais de 18 bilhões de toneladas de ferro de alto teor (66%) (SANTOS, 1981, p. 74); de manganês, cujo potencial supera 60 milhões de toneladas (SANTOS, 1981, p. 94); de cobre da mina do Salobo, com volume estimado em mais de 500 milhões de toneladas (SANTOS, 1981, p. 125); e de ouro, estimadas em 66 toneladas; como também as 1.100 milhões de toneladas de bauxita no rio Trombetas

(SANTOS, 1981, p. 109) e as imensas reservas florestais cujas estimativas decorrentes do RADAM apontaram um potencial bastante superior aos 45,5 bilhões de metros cúbicos indicados pelos pioneiros estudos da FAO (PANDOLFO,1978, p. 12).

O eixo da ação estatal estava, portanto, vinculado à implementação de uma infraestrutura e atração de grandes capitais aptos a valorizar e a ocupar o espaço regional a partir da edificação de estruturas dissipativas capazes de implementar o desmonte destas ilhas de elevada sintropia.

A lógica de valorização do espaço, a partir do desmonte de ilhas de sintropia, em vinculação a dinâmicas do mercado mundial, reforça ainda mais o desprezo pela diversidade social, econômica e ecológica da região, conduzindo também a que as dificuldades enfrentadas e as peculiaridades das estruturas dissipativas regional e precedentemente existentes só raras vezes fossem entendidas. Contribuiu para reforçar históricas referências às dificuldades de arregimentar força de trabalho na região, à “preguiça” do caboclo amazônico, à forma “irracional” com que este lida com a terra, ao caráter indócil da natureza na Amazônia a processos civilizatórios. Dificuldades que à lógica homogeneizadora e autocentrada contrapõem com o apego à fé no grande capital como única força social e econômica capaz de enfrentar as adversidades ambientais da região e de superar o atraso das estruturas sociais e econômicas na Amazônia (COSTA, 1992, p. 298).

3.3 GIGANTESCAS ESTRUTURAS DISSIPATIVAS GESTADAS A PARTIR DA

Benzer Belgeler