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No capítulo 5, fizemos uma análise das estratégias de eliminação, acréscimo, substituição e reordenação que caracterizam a retextualização no processo e construção da webnotícia, na seção 5.1 e subseções, com base nos modelos propostos por Van Dijk (1990 [1988]) e Marcuschi (2010 [1993; 2000]), e no modelo adaptado por Gomes (1995). Vimos que, na webnotícia, o processo de retextualização está relacionado ao propósito do sujeito com a comunicação, que interage socialmente por meio da linguagem. Isso significa que tal processo está intimamente relacionado ao funcionamento do gênero em sociedade. Logo, a transformação para adaptação, que define tal processo, acontece tanto em decorrência do projeto de dizer do sujeito como por condicionamentos e especificidades da webnotícia.

Neste capítulo, realizamos uma análise da webnotícia sob a perspectiva da sociorretórica, que vê o gênero como uma “ação retórica tipificada fundada em situações recorrentes” (MILLER, 2009 [1984], p. 34). Assim, nossa análise aqui se fundamenta, basicamente, nos pressupostos teóricos básicos da Sociorretórica propostos por Miller (2009 [1984]) e desenvolvidos por Devitt (2004) e Bazerman (2005), bem como em Swales (1990), Askehave e Swales (2009) e Bhatia (1993; 2009 [1997]). Analisamos, na seção 6.1, a fusão entre forma e substância na webnotícia, a fim de explicar a transformação da informação em relação ao texto-fonte condicionada pela tipificação do gênero, na subseção 6.1.1, analisamos o processamento da informação relacionado aos condicionamentos da forma do gênero, que mostra o processo de fusão entre forma e substância, e, na subseção 6.1.2, analisamos a reprodução total ou parcial dos textos-fonte, que é uma prática recorrente de portais jornalísticos, e denunciam uma característica importante na composição formal e substantiva da webnotícia. Já, na seção 6.2, analisamos a situação retórica recorrente da webnotícia, considerando o meio de veiculação do gênero, a internet, e o suporte de fixação do mesmo, o portal jornalístico. Em 6.3, analisamos, respectivamente, a ação social tipificada realizada através da webnotícia, na subseção 6.3.1, e o propósito comunicativo decorrente dessa ação, na subseção 6.3.2. Em 6.4, analisamos o conhecimento empírico do usuário experiente da webnotícia, através da análise de dados obtidos por questionário respondido por jornalistas

195 vinculados a portais. Em 6.5, discutimos os resultados da análise sociorretórica que fazemos neste capítulo com os resultados obtidos pela análise das estratégias de retextualização, feita no capítulo 5, elencando os resultados finais deste trabalho acerca do processamento da informação na webnotícia.

6.1 A fusão forma e substância na construção da webnotícia

Discutimos, na subseção 3.2.3, do capítulo 3, sobre forma e substância dos gêneros, com base em Miller (2009 [1984]). Vimos que o gênero deve ser caracterizado, sobretudo, pela ação social que realiza, porque a sua natureza é mais pragmática e retórica do que formal. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que respondem às demandas sociais percebidas pelos sujeitos, os gêneros são acrescidos dos efeitos particulares gerados pelas situações sociais específicas das quais fazem parte. Por outro lado, embora sejam caracterizados pela ação que realizam, os gêneros também possuem características formais.

Miller propõe que a forma e a substância dos gêneros sejam entendidas como o resultado de uma fusão, de modo que não funcionam separadamente e são fundidas justamente para colaborar com a ação social a ser realizada através do gênero a partir de uma situação retórica recorrente. Enquanto analistas, separamos a forma e a substância dos gêneros apenas para fins didáticos, uma vez que lidamos com categorias que precisam ser estudadas, inclusive, separadas umas das outras, para que expliquemos o papel e o funcionamento de cada uma.

Do ponto de vista formal, o gênero notícia possui uma relativa estabilidade, apresentando, em sua composição, elementos estruturais que são facilmente reconhecidos pelos usuários. Mesmo sendo produzida para circular especialmente na internet, a webnotícia mantém as principais características formais que normalmente identificam, no sentido geral, o gênero notícia. Quando Van Dijk (1990 [1988]) discute a superestrutura da notícia, como vimos, na seção 1.2, do capítulo 1, o teórico afirma que a estrutura do discurso noticioso é composta por várias categorias, como o resumo, que pode ser composto por título/manchete e

196 cabeçalho e, ainda, sobretítulo e subtítulo, o episódio, com os acontecimentos principais e os antecedentes, as consequências, as reações verbais e os comentários. Segundo o autor, tanto os jornalistas como os leitores utilizam esquemas como esses na produção e na compreensão da notícia, de modo que uma mesma categoria pode desempenhar mais de uma função. Porém, todas essas características não estão presentes em todas as notícias, mas todas as notícias apresentam, pelo menos implicitamente, algumas delas, que são determinantes para que reconheçamos o gênero.

Pensemos a categoria título ou manchete, por exemplo. Sabemos que a manchete compreende uma característica fundamental da notícia, ao ponto de não pensarmos esse gênero sem ela. Ou seja, todas as notícias jornalísticas apresentam manchetes, mas nem todas apresentam reações verbais e comentários, por exemplo. No Quadro 27, destacamos duas notícias publicadas em portais jornalísticos, que, do ponto de vista estrutural, são bastante diferentes entre si:

Quadro 27: Notícias diferentes sobre o mesmo evento social e fundamentadas no mesmo texto-fonte

NOTÍCIA NOTÍCIA

Portal da Clube tem acesso à carta encontrada na Irmão Guido; Confira!

Para justificar a ação, a "rapaziada do PV. C" cita a Penitenciaria Fontes Ibiapina, em Parnaíba, como "modelo" de unidade prisional do ponto de vista dos presidiários

O Portal da Clube teve acesso à carta interceptada durante vistoria de rotina na Penitenciária Regional Irmão Guido, na zona rural de Teresina. Na carta assinada pela “Rapaziada do PV. C” – uma provável referência a Pavilhão C -, o remetente fala em “quebrar o Pavilhão B” para conseguir regalias, como televisão, som e ventilador.

Para justificar a ação, a “rapaziada do PV. C” cita a Penitenciaria Mista Juiz Fontes Ibiapina, localizada em Parnaíba, como “modelo” de unidade prisional do ponto de vista dos presidiários.

Ao contrário do divulgado mais cedo, a carta interceptada na Irmão Guido não determina o assassinato de agentes penitenciários. Em um determinado momento, o remetente diz que o objetivo não é matar, mas se proteger.

Carta encontrada em presídio ordena rebelião geral; Leia aqui

IRMÃO GUIDO: Sinpoljuspi alerta que os agentes seriam usados como reféns na ação e pede medidas urgentes.

Atualizada às 18h44

O Cidadeverde.com teve acesso a uma cópia da carta, reproduzida abaixo. As observações em parênteses são da redação do portal, para melhor compreensão do leitor.

"Salve rapaziada do anex 2 (anexo 2 - triagem). Aqui e a rapazeada PVC (pavilhão C) e o seguinte nós já conversamo com a rapaziada do B e do PVD (Pavilhão D). Pois a rapaziada apoiou a gente vai começar aqui no PV.C então nos vamos quebrar o PVB (pavilhão B). E o nosso objetivo e pedir nossa regalia que nos tem direito e modar a direção do sistema pois a rapaziada lá da custodia entrou em contato com nos e disse que eles conseguiram tirar o Wilsin (vice-diretor da Casa de Custódia e chefe do grupo de vistoria) e assim so nos se unir que nos vamos conseguir nosso objetivo e só nossa melhoria pois a maioria dos irmão aqui centenciados porque so

197 No fim da carta, o remetente faz a sua única referência

a um preso específico. Trata-se de Júnior, mas a carta não permite identificar com certeza quem ele é. Confira a carta na íntegra clicando AQUI!

nos não tem direito pois em Parnaíba os caras tem direito a TV e ventiladores e som pois nos so vamos conseguir se nos quebrar esta porra não e para gerrar morte mas para nossa segurança nós vamos quebrar o PV.A (pavilhão A). E o especial é aí vocês sabe que aí no anex 1 (triagem) também tem us caras que não serve que trabalham para a polícia agora vocês ficam na ativa nos só vamos esperar resposta do SP (seria uma resposta de São Paulo). Dependendo do que os irmão decidirem, nós começamos o bagulho e vamos sustenta para chamar a atençao da emprensa e das autoridades nós vamos mandar as responsas para vocês e depois da visita tem tudo para dar certo. Virmeza ladrões. Fiquem na paz de um alo no Júnior e no resto da rapaziada. Ass: A rapaziada do PV.C"

Fonte (notícia à esquerda): http://portaldaclube.profissional.ws/portal-da-clube-tem-acesso-a-carta- encontrada-na-irmao-guido-confira.html (Acesso em: 22 out. 2012).

Fonte (notícia à direita): http://www.cidadeverde.com/carta-encontrada-em-presidio-ordena-rebeliao- geral-leia-aqui-116092 (Acesso em: 22 out. 2012).

No caso mostrado a esquerda do Quadro 27, temos uma webnotícia composta por manchete, subtítulo, lide e episódio, apresentando ainda, ao final, a opção de o internauta acessar a “carta” sobre a qual trata a notícia a partir de um link, “Confira a carta na íntegra clicando AQUI!”. Já no caso à direita do Quadro, temos uma webnotícia composta por uma manchete, um subtítulo e um lide que informa sobre a condição do portal de ter tido acesso a carta e instrui o internauta para a leitura da mesma na sequência, que, na prática, funciona como corpo da notícia, ou seja, a porção textual que desenvolve a informação divulgada na manchete. Nos dois casos, são notícias de portais jornalísticos diferentes, mas que tratam do mesmo evento, a interceptação de uma carta em um presídio de Teresina, no estado do Piauí.

O primeiro caso atende mais à estrutura canônica da notícia, mas o segundo não. Todavia, ambos os textos participam desse gênero e apresentam características que o identificam, como uma manchete, destacando a informação principal, subtítulo e lide. Importante perceber que, em ambos os casos, o texto-fonte é disponibilizado para leitura, através de link em um caso e como parte da notícia no outro. Dessa forma, a função desempenhada pelo texto-fonte nos dois casos não é mais a da “carta” interceptada no presídio, gênero que o texto-fonte da webnotícia participa.

No caso mostrado à direita do Quadro, por exemplo, a carta aparece como corpo da webnotícia, sendo que as informações contidas ali, bem como os acréscimos feitos ao longo do conteúdo, transformam o texto-fonte para que o leitor tenha acesso às informações já

198 tratadas. Além de acrescentar informações que explicam o conteúdo da carta, o retor ainda digita todo o conteúdo, facilitando assim a leitura para a audiência. No caso mostrado à esquerda do Quadro, a fonte é disponibilizada através de link, que dá acesso a uma imagem do texto, que é originalmente manuscrito, e o corpo da webnotícia retextualiza o conteúdo da carta, compondo a base das informações noticiadas.

Pelos dois casos mostrados no Quadro 27, vemos que a webnotícia, ao mesmo tempo em que inova, mantém as estruturas formais tipificadas para o gênero notícia. Interessante notar que as inovações estão relacionadas ao meio em que o gênero circula, que dá a possibilidade tecnológica de inserir o link para uma imagem, num caso, e a liberdade de o jornalista apresentar a própria a carta, com poucos acréscimos informativos, compondo o corpo da notícia, no outro. Em ambas as situações, temos estruturas bastante diversas, mas também formas recorrentes, que permitem que reconheçamos e classifiquemos os dois textos como exemplares do gênero notícia.

Conforme vimos, quando tratamos de forma e substância, na subseção 3.2.3, do capítulo 3, os gêneros ou os conjuntos de gêneros constituem uma classe aberta, onde membros novos evoluem e velhos membros decaem, a depender do uso que é feito deles, segundo Miller (2009 [1984]). Não podemos afirmar que a webnotícia evoluiu em relação à notícia impressa, sendo esta um membro decadente e aquela um membro novo do conjunto de gêneros jornalísticos. A webnotícia não é, ainda, um novo gênero, muito embora apresente particularidades acerca do seu funcionamento social (como veremos nesta e nas próximas seções e subseções deste capítulo 6), mas um tipo de notícia produzida especialmente para circular num meio específico, a internet, que lhe dá possibilidades que o papel não dá ou que dá de outra forma, para as notícias do jornal impresso, por exemplo.

As Figuras 10 e 11 mostram uma página de portal jornalístico com uma das webnotícias que constituem o corpus deste trabalho:

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