B. ĠSTĠSNAĠ OLARAK VATANDAġLIĞIN KAZANILMASI
1. Türk VatandaĢlığını Ġstisnai Olarak Kazanabilecek Yabancılardan
A presente seção aborda o tema “essencialismo em ontologia”, com intuito de respaldar uma das etapas da metodologia, seção 4. As ideias apresentadas a seguir consistem em uma interpretação e adaptação apresentada em Almeida (2014c).
A história da Ciência e da Filosofia é repleta de essencialistas bem conhecidos. Platão e Aristóteles eram essencialistas, assim como Linnaeus12, Locke13, para citar apenas alguns dos mais importantes. Nos últimos 25 anos, cientistas importantes como Putnam14 e
12 Carl Linnaeus (1707- 1778): botânico, zoólogo e médico sueco, criador da classificação
científica.
13 John Locke (1632 – 1704): filósofo e físico britânico, um dos principais pensadores do
Iluminismo.
14 Hilary W. Putnam (1926 - ?): filósofo e matemático americano, figura central da filosofia
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Kripke15 têm defendido uma abordagem que corrobora com a existência de “tipos naturais”, bem como com uma semântica de termos representativos de tipos naturais.O essencialismo antecede à teoria da evolução e foi o modo padrão de classificação utilizado pela taxonomia biológica. Biólogos acreditavam que a maneira mais correta de classificar os organismos por espécie e por tipos específicos era por meio da identificação da essência. A principal motivação do essencialismo consiste em explicar o comportamento dos indivíduos dentro de uma espécie (MAYR 1982).
O termo “essencialismo”, entretanto, não diz respeito a uma posição única e consensual, mas sim a uma série de diferentes dogmas. Talvez os dois tipos mais célebres de essencialismo são as versões de Aristóteles e de Locke. A visão desses dois filósofos difere nas noções do que seja a “essência real” e, consequentemente, nas visões de identidade e mudança das mesmas.
O assunto é complexo, técnico, amplo e multifacetado. Está além dos objetivos desse trabalho descrever cada forma de essencialismo em detalhe. Entretanto, alguns princípios básicos do essencialismo aristotélico são relevantes, à medida que a noção de essência das entidades será necessária na parte metodológica e empírica dessa tese. Apresenta-se então um breve estudo sobre o essencialismo, devido principalmente a Ereshefsky (2004) e alguns outros autores complementares.
Como o próprio nome indica, o essencialismo considera que cada entidade tem uma característica essencial, a qual é a característica que, justamente, a torna o tipo de entidade que ela é. Essa característica é chamada a “essência real” da entidade. A essência real de uma entidade ocorre em todas (mas apenas) em entidades daquele tipo específico. Isso ajuda a entender porque entidades de um tipo específico são capazes de fazer o tipo de coisa que usualmente fazem. Para um essencialista, a essência real captura a estrutura fundamental do mundo.
Além disso, conhecer a essência real é de grande valor prático, pois tal conhecimento ajuda a identificar que tipo de coisa uma entidade é, além de fornecer meios para explicar e prever o seu comportamento. Um dos exemplos mais citados para explicar o essencialismo é a tabela periódica dos elementos químicos. Todos e apenas os membros de certo elemento da tabela periódica em particular compartilham uma essência real, a qual é sua estrutura atômica única e comum. O conhecimento dessa estrutura permite que se preveja ou explique o comportamento de instâncias daquele elemento.
15 Saul A. Kripke (1940 - ?): filósofo e matemático americano especializado em lógica e
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Os membros de um tipo compartilham propriedades necessárias comuns. Essas propriedades são causadas pela essência real da entidade e são propriedades que a entidade deve obrigatoriamente ter, caso ela também possua aquela mesma essência real. As propriedades necessárias são, assim, requisitos para que algo seja membro de um tipo natural. A essência real do ouro, por exemplo, é a estrutura atômica única daquele elemento. Pela essência real desse elemento, qualquer pedaço de ouro tem propriedade necessária para refletir a luz, para ter certa maleabilidade, dentre outras.A utilidade preditiva e explanatória do essencialismo reside em revelar que a essência real de algo e propriedades necessárias são causadas por essa tal essência real. Caso se conheça a essência real de uma entidade, é possível explicar porque a entidade tem uma propriedade necessária específica. Justamente porque aquela propriedade é causada pela essência. Conhecendo a essência real e as circunstâncias particulares de uma entidade, é possível prever suas propriedades necessárias. Por exemplo, sabe-se que o ouro vai derreter a certa temperatura; sabe-se que a água vai ferver a 100 graus Celsius.
Entidades também têm “propriedades acidentais”, ou seja, características que uma entidade pode perder sem perder sua essência real. Por exemplo, uma árvore vai continuar árvore mesmo que perca suas folhas no inverno. Um exemplo clássico, que tem sido popular desde a idade média, diz que todos e apenas os seres humanos têm a propriedade de “ser bípede" e “não ter penas”. Ainda assim, uma pessoa pode perder essas propriedades e ainda permanecer com a essência real do ser humano, a qual corresponde a ser um animal racional.
Quando um conjunto de propriedades acidentais é selecionado de todos e apenas os membros de um tipo particular, aquele conjunto consiste na chamada “essência nominal” daquele tipo. A essência nominal não satisfaz as condições essencialistas necessárias para classificações baseadas nas características que os tipos de entidades possuem. Assim, fornecem uma classificação científica provisória que pode ou não ser consubstanciada com a descoberta da essência real.
Talvez o nome da história da ciência mais associado ao essencialismo seja o de Aristóteles. O essencialismo aristotélico, ainda que proveniente da antiguidade, revela alta sofisticação. Para Aristóteles, cada substância particular16 contém uma natureza ou, conforme já explicado, uma essência real. De fato, cada particular é uma instanciação dessa essência. Outros particulares podem compartilhar tal essência comum, por exemplo, existe
16 Particulares são entidades concretas que existem no tempo e espaço, ao contrário das
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mais de uma instância de animal no mundo. O que distingue as instâncias particulares de certa essência são dois aspectos principais: i) a matéria subjacente numericamente diferente; ii) como a essência é instanciada.A teoria de Aristóteles não tem orientação materialista, o que corresponderia dizer que a essência real seria constituída por propriedades físicas (por exemplo, a essência real do ouro é sua estrutura atômica, a essência real da água é sua estrutura molecular etc.). Aristóteles acreditava que a essência real de um particular está em seu poder de alcançar certos fins. No caso das substâncias animadas, esses fins são a obtenção de certo tipo de vida. Para todos os organismos, isto é simplesmente a vida em si; para os animais, a vida envolve sensação e movimento; para os seres humanos, a vida abrange as características dos animais acrescida da racionalidade.
Ao conceber as essências reais como funções, a teoria aristotélica permite uma ampla gama de variação nas possíveis instanciações da essência real. Se a essência real de um animal é a posse de capacidades de sensação e de movimento, então, essa essência pode assumir diferentes instanciações dependendo do tipo de animal em questão: alguns animais se movem com barbatanas, alguns usam asas para voar, alguns usam asas e pés para pular etc. A instanciação que um animal específico manifesta depende do seu ambiente, seja o ontogênico, seja o externo.
Todas as variações nos limites da instanciação física de certa essência real correspondem a uma habilidade da instância para atender sua função essencial em seu ambiente. Uma vez que os ambientes podem variar, a instanciação física de uma essência real também poderá assim variar indefinidamente. À teoria aristotélica muitas vezes atribui- se também a “noção de superveniência”, ou seja, a ideia de que uma propriedade funcional pode ter muitas instanciações físicas, mesmo considerando-se que não apenas um único tipo de instanciação física é o essencial.
A teoria aristotélica não apenas permite variações na instanciação visível de certa essência, mas, também, permite que algumas instâncias de uma essência não sejam percebidas ou visíveis. Alguns animais, por exemplo, têm o poder de se movimentar, mas outras forças impedem a manifestação visível desse movimento. Por exemplo, um burro nascido sem pernas ainda tem o poder do movimento; ele, simplesmente, não pode demonstrar aquele poder por meio de movimentos de pernas.
A sugestão de um poder que não mostra manifestação externa pode parecer pouco científico para os padrões modernos, mas, frequentemente, é possível observar forças que atuam, ainda que seus efeitos estejam mascarados por outras forças, de
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natureza contrária. Pode-se, por exemplo, empurrar uma pedra com todas as forças e ela não se mover pelo efeito do atrito e da gravidade.A questão relevante é o papel que as essências desempenham na classificação e na metodologia aristotélica. Duas diferentes perspectivas são descritas pelo próprio Aristóteles em diferentes trabalhos. A primeira perspectiva introduz um sistema de classificação a partir de um ponto de vista estritamente lógico; a segunda perspectiva, que aparece em seus trabalhos sobre biologia, adiciona-se o ponto de vista de alguém construindo classificações por meios empíricos.
Aristóteles descreve a distinção “gênero-espécie” e o “método da divisão dicotômica”. Nesse contexto, a essência real de uma espécie é uma combinação de seu gênero mais uma differentia17, a qual distingue aquela espécie de outras espécies, daquele mesmo gênero. Por exemplo, a espécie “ser humano” pertence ao gênero “animal” e sua differentia é a “racionalidade”.
Assim, a essência real do ser humano é ser um animal racional. De acordo com o método de divisão dicotômica, uma classificação adequada consiste de uma hierarquia de classes, cada classe definida pelo gênero a que pertence mais sua differentia em relação àquele gênero. Um gênero deve ser dicotomicamente dividido de acordo com quais entidades possuem certa differentia particular e aquelas que não têm. O gênero dos objetos animados é dividido em: “animais” e “vegetais”, de acordo com a differentia “auto movimento”. Descendo um nível na hierarquia, o gênero “animal” é dividido em “seres humanos” e “animais inferiores” de acordo com a differentia da “racionalidade”.
A despeito de apresentar o método da divisão dicotômica, Aristóteles argumenta contra esse mesmo método em alguns de seus trabalhos biológicos. Sugere que dividir animais em tais pares de opostos, como, por exemplo, “animais com pés” e “animais sem pés”, dividiria de maneira equivocada certos grupos naturais.
Por exemplo, “ter sangue” ou “não ter sangue” é uma divisão de mais baixo nível do que “ter pés” ou “não ter pés”. Isso quer dizer que todos os animais que têm sangue deveriam ter pés ou não, mas isso poderia não ocorrer nos dois lados de uma divisão de mais alto nível. Ainda, em outro exemplo, pode-se observar que todos os “animais com pés” e alguns “animais sem pés” (por exemplo, as cobras) têm a característica “ter sangue”. Assim, o método da divisão dicotômica dividiria indevidamente o grupo natural dos animas com a característica “ter sangue”.
17 Em lógica, a differentia é um dos predicáveis, ou seja, é a parte da definição que é predicável
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De modo a preservar os grupos naturais, Aristóteles sugere, então, um novo método para se chegar às classificações: ao invés de dividir, inicialmente, um grupo de alto nível de acordo com uma differentia simples, o grupo deveria ser dividido a partir de várias differentiae simultâneas. Uma vez que a divisão estivesse estabelecida via um número de características, uma análise adicional poderia revelar a existência de uma diferença unificadora para aquele grupo.Por exemplo, Aristóteles observou que muitos animais são “animais com pulmões, traqueias e esôfagos” (mesmo que esses órgãos ocorram de diversas formas). Ao analisar as relações entre esses differentiae, descobriu qual é a diferença que as organiza: todas as três contribuem para o poder do animal em ser um “animal que respira no ar”. Concluiu, então, que os animais são divididos em “animais que respiram no ar” e “animais que respiram na água” (peixes).